FIC – Clube de Anfitriões de Hogwarts

CAP 08.1 – O sol, a praia e o Clube Anfitrião

– Então, o sul? – perguntaram os gêmeos em coro olhando para a paisagem de mar calmo esverdeado que se perdia no horizonte em um perfeito dia magicamente preparado para ser próprio ao banho de praia.

– Por que a praia da Família Payton estava disponível. – informou Lloyd feliz olhando para a paisagem sem saber escolher por onde começar.

– É lindo, neh? – perguntou Honey feliz, colocando sua já famosa bóia de plástico.

– Mas – insistiram os gêmeos – já que íamos para algum lugar, tipo, porque não-.

– Caribe? – Earl.

– Brasil? – Eain.

– Claro. – Payton concordou, terminando suas anotações em sua prancheta e a fazendo desaparecer com um gesto – Só teríamos que deixar a Michael, já que ela não tem permissão do Ministério para sair do país.

– Obrigada pela consideração. – Michael ¬¬.

***

 Em um conjunto de pedras – lugar propício para uma bela vista do mar e de toda a extensão da praia –, duas figuras abraçadas suspiram enquanto observam o céu azul:

– É lindo, sir Lloyd. – comentou a menina, encantada com o momento – Ficar a sós com você e olhar o mar… é como um sonho.

– Não é um sonho, princesa. – ele respondeu em tom doce – Se fosse como eu queria, desejaria aparecer nos seus sonhos hoje a noite.

(LAP vomitando arco-íris)

– Aaaaah, sir Lloyd! – a menina se derrete.

Enquanto isso na praia ali próximo:

– Ok, seu tempo acabou princesa! – informou Payton para a menina sentada com o Rei Anfitrião nas pedras, enquanto coordenava a fila das meninas que aguardavam a sua vez para estar com Lloyd – Próxima, se aproxime para a sua vez.

Um pouco mais afastado:

Os gêmeos jogavam vôlei com duas meninas, mas a grande bola coloria foi rebatida para longe por um deles:

– Vá com calma, Earl! – Eain brigou com o irmão, enquanto saia para buscar a bola.

– Desculpa! – pedia Earl, correndo também – Vou pegar!

E assim iniciaram um pega-pega entre irmãos para o delírio das princesas fãs dos gêmeos, enquanto a bola ia para longe sem ninguém para buscá-la.

Perto de onde os gêmeos corriam, embaixo de um guarda-sol:

– Por quê? – Michael se lamentava, abraçando os joelhos, vestindo um agasalho e um shorts, com a desculpa de que não podia sair para o sol, enquanto observava Honey e Aldrich fazendo alongamento na areai. para poderem entrar no mar, junto com um grupo de princesas  – Por que o Clube de Anfitriões está funcionando na praia?

– Não vai entrar no mar, sir Milligan? – perguntou uma menina, porta-voz de um trio que estavam curiosas sobre o anfitrião novato não participar de nenhuma atividade.

– Ah, eu gosto mais de ficar olhando para o mar. – Michael usou a desculpa ensaiada.

– Então, – uma delas foi rápida – estaria tudo bem em nos sentarmos com você?

– Por quê? Vocês estão vestindo roupas de banho tão bonitas, vão em frente e nadem.

– Aaaaaah! – elas felizes com o elogio da forma natural.

Logo atrás de Michael, os gêmeos sentam na areia, cansados, e olham para a movimentação em roda:

– Fomos completamente enganados. – Earl.

– Quem  pensaria que teríamos clientes conosco? – Eain.

– É um bônus para as nossas melhores clientes. – comentou Payton aparatando atrás deles e ajeitando os seus óculos, usando o seu típico tom formal de ameaça do secretário do Clube Anfitrião – Portanto, cumpram sua função.

– Mas, não é justo! – reclamaram os dois – Com convidados a Michael não pode vestir roupas de banho!

– Foi tudo planejado! – anunciou Lloyd, terminando seu trabalho e vindo dar uma pausa em uma cadeira de praia perto deles – Ou pensaram mesmo que eu deixaria minha queridinha exposta aos olhos de inescrupulosos como vocês?!

(LAP: As verdadeiras cenas que se passaram na cabeça de Lloyd sobre Michael na praia, narradas por ele mesmo:

E ao por do sol, Michael e eu daremos um passeio, só nós dois ao longo da costa. E ela para na minha frente, com a brisa do mar agitando seus cabelos curtos e fazendo esvoaçar seu vestido branco, dizendo: quem dera pudermos ficar aqui para sempre, mestre! E então ela sorri daquela maneira adorável.

– Por que ele está vermelho se contorcendo dessa maneira? – perguntou Michael, se aproximando do grupo de anfitriões que davam uma pausa das suas atividades.

– É a mente inescrupulosa dele se manifestando. – responderam os gêmeos.

***

Como já não tinha mais desculpas para se esquivar das princesas que queriam saber o motivo para não participar com os outros das atividades do Clube, Michael resolveu passear pela praia. Foi quando viu Honey sentado na areia acenando feliz enquanto Aldrich verificava a base de uma parede de rochas ao lado dele:

– MIIIIICKY! – o veterano fazia sinal para que ela viesse até eles – Vamos recolher mariscos?!

Michael olhou para o balde rosa ao lado dele, com alguns mariscos, e então o corrigiu:

– Não se diz recolher, Honey. Se diz caçar mariscos. Afinal, eles não ficam simplesmente andando pela praia esperando que sejam recolhidos. – um caranguejo enorme passou ao lado de Michael, e parou aos seus pés esperando para ser recolhido – O quê?! – ela olhou em volta e se viu cercada por outros mariscos fazendo a mesma coisa – Eeeeeh?!… Um balde! Eu preciso de um balde! Um bem grande! – ela pediu desesperada para Honey, começando imediatamente a recolher mariscos junto com ele.

Enquanto isso, Aldrich havia escalado a muralha de pedras, e se deparara com um batalhão de aurores fazendo trabalho em equipe para tirar baldes e mais baldes de mariscos de um contêiner e os enfeitiçando para que fossem gentilmente em direção a praia onde poderia facilmente ser recolhidos.

– Eles queriam se redimir com o Honey. – contou Payton, aparatando ao lado de Aldrich, e marcando como feita uma tarefa da sua prancheta – Pelo incidente da outra vez…

– Hum… – fez Aldrich em resposta.

– YAY! – Honey comemorou lá embaixo – Somos recolhedores de mariscos incríveis!

– Vamos ter uma linda noite com tanta comida, hein?! – Michael cantarolou feliz, colocando mais um balde repleto de mariscos junto com os outros doze que ela já havia enchido – Vai ser delicioso!

– O que está acontecendo aqui? – Lloyd aparada ao lado de Aldrich e Payton, vindo conferir o que seus súditos estavam fazendo.

– Mestre! – Michael o chamou acenando, exibindo orgulhosa o resultado da sua quase-pescaria – Conseguimos o jantar para hoje!

– Conseguiu, minha garotinha linda?! – Lloyd saltou das pedras não se importando em derrubar Payton e Aldrich no processo.

– Hum-hum! – ela concordou com um aceno, arrastando mais um balde completo – Temos um monte de mariscos!

As exclamações de Lloyd e Michael foram altas o bastante para ecoar pela parede de pedras e chamar a atenção dos outros na praia, que se aproximaram para conferir o grande feito.

– Teremos um grande banquete, mestre! – disse Michael, entregando um caranguejo enorme para Lloyd como prova do seu feito.

Se aproveitando da oportunidade para fazer Michael sorrir daquela forma natural que só ela conseguia, perguntou:

– E você gosta de comer caranguejo, Michael?

– Adoro! 😀

– AAAAAAH!!! – Lloyd foi segurado a tempo pelos gêmeos e por Aldrich – Deixa eu apertar as bochechas dela! Só uma vez! Deixa!

Mas então algo assustador aconteceu.

Uma centopéia gigante que estava escondida entre as patas do caranguejo saiu do seu esconderijo tentando fugir daquela multidão de pessoas e causou a maior confusão entre as meninas que assistiam a cena:

– GAAAAH!

– UM MONSTRO!

– SOCORRO!

Sem nenhum momento duvidar da sua capacidade e coragem, Michael largou o balde que segurava, pegou a centopéia com a própria mão e a arremessou para o outro lado das pedras.

– Pronto. – ela disse, batendo a areia das mãos para concluir o trabalho bem feito.

E as meninas rompem em aplausos

– Ei, Michael. – os gêmeos foram para perto dela cochichar, enquanto sorriam para as princesas que comentavam entre elas como sir Milligan era corajoso e másculo.

– Por mais que nos doa pensar que você é uma moleca suja de terra familiarizada com insetos de todos os tipos – Earl.

– Não poderia ter se livrado do bicho de uma forma mais gentil? – Eain.

– Não se preocupem. Seria preciso muito mais do que isso para matá-lo.

– Esse não é exatamente o ponto… – gêmeos em um muxoxo, enquanto Michael era levada para longe pelas meninas que ainda comentavam a forma como ela salvou a todos do terrível inseto.

– Garotas normalmente deveriam agir diferente… – eles concluíram o pensamento, mesmo que a garota em questão já não estivesse ouvindo.

– É como se ela não tivesse medo de nada… – comentou Lloyd, que prudentemente se aproximara para verificar o que os gêmeos inescrupulosos estavam confabulando com a sua filha.

Com a teoria de Lloyd, os gêmeos imediatamente tiveram uma idéia, e trocaram olhares de quem iria aprontar.

– Mestre! Mestre! Pensamos em uma brincadeira divertida! – anunciaram – Chamamos de O grande vencedor será quem descobrir a fraqueza da Michael!

– Isso me soa muito mal O.õ – Lloyd.

– É, não seria um bom jogo. – Earl, com tom falso de quem desiste.

– Afinal, Michael só mostraria a sua verdadeira fraqueza para uma pessoa que ela considerasse digna de saber. – ajudou Eain.

– GAH! – Lloyd.

(LAP: Completamente fisgado! o/)

– Quais são as regras?! – o loiro exigiu saber.

– O prazo é até o por do sol de amanhã! – explicaram os gêmeos com sorrisos de vitoriosos.

– Para tornar as coisas mais interessantes, – Payton apareceu entre eles segurando o que pareciam ser fotos na mão – vou propor um prêmio para o vencedor.

– GAH! – gêmeos e Lloyd vendo que as fotos eram todas de Michael antes de elafreqüentar Hogwarts, com cabelos longos e com roupas de menina.

(LAP: Completamente fisgados! \o/)

– Yay! Podemos brincar também?! – perguntou um sorridente Honey, apontando para ele e para o primo.

– Podem. – declarou Payton, tentando manter as fotos fora do alcance do rei que tentava pegá-las a qualquer custo.

– Como você tem essas fotos, Naoki?

– Tenho minhas fontes. – ele revelou, fazendo as fotos desaparecem com um gesto rápido de varinha, e ajeitando os óculos que escorregavam.

– Miiiichael! – chorou Lloyd, como se a verdadeira tivesse sumido junto com as fotos.

– Começamos… agora?. – perguntou Payton com um sorriso satisfeito.

FIC – Clube de Anfitriões de Hogwarts

CAP 08.1 – O sol, a praia e o Clube Anfitrião

– Então, o sul? – perguntaram os gêmeos em coro olhando para a paisagem de mar calmo esverdeado que se perdia no horizonte em um perfeito dia magicamente preparado para ser próprio ao banho de praia.

– Por que a praia da Família Payton estava disponível. – informou Lloyd feliz olhando para a paisagem sem saber escolher por onde começar.

– É lindo, neh? – perguntou Honey feliz, colocando sua já famosa bóia de plástico.

– Mas – insistiram os gêmeos – já que vamos para algum lugar, tipo…

– Caribe? – Earl.

– Brasil? – Eain.

– Claro. – Payton concordou, terminando suas anotações em sua prancheta e a fazendo desaparecer com um gesto – Só teríamos que deixar a Michael, já que ela não tem permissão do Ministério para sair do país.

– Obrigada pela consideração. – Michael ¬¬.

***

 Em um conjunto de pedras, em um lugar propício para uma bela vista do mar e de toda a extensão da praia, duas figuras abraçadas suspiram enquanto observam o céu azul:

– É lindo, sir Lloyd. – comenta a menina, encantada com o momento – Ficar a sós com você e olhar o mar, é como um sonho.

– Não é um sonho, princesa. – ele responde em tom doce – Se fosse como eu queria, desejaria aparecer nos seus sonhos hoje a noite.

(LAP vomitando arco-íris)

– Aaaaah, sir Lloyd! – a menina se derrete.

Enquanto isso na praia ali próximo:

– Ok, seu tempo acabou princesa! – informou Payton para a menina sentada com o Rei Anfitrião nas pedras, enquanto coordenava a fila das meninas que aguardavam a sua vez para estar com Lloyd – Próxima, se aproxime para a sua vez.

Um pouco mais afastado:

Os gêmeos jogam vôlei com duas meninas, mas a grande bola coloria é rebatida para longe por Hikaru:

– Vá com calma, Earl! – Eain brigou com o irmão, enquanto saia para buscar a bola.

– Desculpa! – pedia Earl, correndo também – Vou pegar!

E assim iniciavam um pega-pega entre irmãos para o delírio das princesas fãs dos gêmeos, enquanto a bola ia para longe sem ninguém para buscá-la.

Perto de onde os gêmeos corriam, embaixo de um guarda-sol:

– Por quê? – Michael se lamentava, abraçando os joelhos, vestindo um agasalho e um shorts, com a desculpa de que não podia sair para o sol, enquanto observava Honey e Aldrich fazendo alongamento na areai junto com um grupo de princesas para poderem entrar no mar  – Por que o Clube de Anfitriões está funcionando na praia?

– Não vai entrar no mar, sir Milligan? – perguntou uma menina, porta-voz de um trio que estavam curiosas sobre o anfitrião que não estava participando de nenhuma atividade.

– Ah, eu gosto mais de ficar olhando para o mar. – Michael usou a desculpa ensaiada.

– Então, – uma delas foi rápida – estaria tudo bem em nos sentarmos com você?

– Por quê? Vocês estão vestindo roupas de banho tão bonitas, vão em frente e nadem.

– Aaaaaah! – elas felizes com o elogio da forma natural do anfitrião novato.

Logo atrás de Michael, os gêmeos sentam na areia cansados e olham para a movimentação em roda:

– Fomos completamente enganados. – Earl.

– Quem teria pensado que teríamos clientes conosco? – Eain.

– É um bônus para as nossas melhores clientes. – comentou Payton aparatando atrás deles e ajeitando os seus óculos, usando o seu típico tom formal de ameaça do secretário do Clube Anfitrião – Portanto, cumpram sua função.

– Mas, não é justo! – reclamaram os dois – Com convidados a Michael não pode vestir roupas de banho!

– Foi tudo planejado! – anunciou Lloyd, terminando seu trabalho e vindo dar uma pausa em uma cadeira de praia perto deles – Ou pensaram mesmo que eu deixaria minha queridinha exposta aos olhos de inescrupulosos como vocês?!

(LAP: As verdadeiras cenas que se passaram na cabeça de Lloyd sobre Michael na praia, narradas por ele mesmo:

E ao por do sol, Michael e eu daremos um passeio, só nós dois ao longo da costa. E ela para na minha frente, com a brisa do mar agitando seus cabelos curtos e fazendo esvoaçar seu vestido brando, dizendo: quem dera pudermos ficar aqui para sempre, mestre! E então ela sorri daquela maneira adorável.

– Por quê ele está vermelho se contorcendo dessa maneira? – perguntou Michael, se aproximando do grupo de anfitriões que davam uma pausa das suas atividades.

– É a mente inescrupulosa dele se manifestando. – responderam os gêmeos.

***

Como já não tinha mais desculpas para se esquivar das princesas que queriam saber porque não participava com os outros das atividades do Clube, Michael resolveu passear pela praia. Foi quando ela viu Honey sentado na areia acenando feliz enquanto Aldrich verificava a base de uma parede de rochas ao lado dele:

– MIIIIICKY! – o veterano fazia sinal para que ela viesse até eles – Vamos recolher mariscos?!

Michael olhou para o balde rosa ao lado dele, com alguns mariscos, e então o corrigiu:

– Não se diz recolher, Honey. Se diz caçar mariscos. Afinal, eles não ficam simplesmente andando pela praia esperando que sejam recolhidos. – um caranguejo enorme passou ao lado de Michael, e parou aos seus pés esperando para ser recolhido – O quê?! – ela olhou em volta e se viu cercada por outros mariscos fazendo a mesma coisa – Eeeeeh?!… Me empresta um balde! – ela pediu desesperada para Honey, começando imediatamente a recolher mariscos junto com ele.

Enquanto isso, Aldrich havia escalado a muralha de pedras, e se deparara com um batalhão de aurores fazendo trabalho em equipe para tirar baldes e mais baldes de mariscos de um contêiner e os enfeitiçando para que fossem gentilmente em direção a praia onde poderia facilmente ser recolhidos.

– Eles queriam se redimir com o Honey. – contou Payton, aparatando ao lado de Aldrich, e marcando como feita uma tarefa da sua prancheta – Pelo incidente da outra vez…

– Hum… – fez Aldrich em resposta.

– YAY! – Honey comemorou lá embaixo – Somos recolhedores de mariscos incríveis!

– Vamos ter uma linda noite com tanta comida, hein?! – Michael cantarolou feliz, colocando mais um balde repleto de mariscos junto com os outros doze que ela já havia enchido – Vai ser delicioso!

– O que está acontecendo aqui? – Lloyd aparada ao lado de Aldrich e Payton, vindo conferir o que seus súditos estavam fazendo.

– Mestre! – Michael o chamou acenando, exibindo orgulhosa o resultado da sua quase-pescaria – Conseguimos o jantar para hoje!

– Conseguiu, minha garotinha linda?! – Lloyd saltou das pedras não se importando em derrubar Payton e Aldrich no processo.

– Hum! – ela concordou com um aceno, arrastando mais um balde completo – Temos um monte de mariscos!

As exclamações de Lloyd e Michael foram altas o bastante para ecoar pela parede de pedras e chamar a atenção dos outros na praia, que se aproximaram para conferir o grande feito.

– Teremos um grande banquete, mestre! – disse Michael, entregando um caranguejo enorme para Lloyd como prova do seu feito.

Lloyd, se aproveitando da oportunidade para fazer Michael sorrir daquela forma natural que só ela conseguia, perguntou:

– E você gosta de comer caranguejo, Michael?

– Adoro! xD

– AAAAAAH!!! – Lloyd foi segurado a tempo pelos gêmeos e por Aldrich – Deixa eu apertar as bochechas dela! Só uma vez! Deixa!

Mas então algo assustador aconteceu.

Uma centopéia gigante que estava escondida entre as patas do caranguejo saiu do seu esconderijo tentando fugir daquela multidão de pessoas e causou a maior confusão entre as meninas que assistiam a cena:

– GAAAAH!

– UM MONSTRO!

– SOCORRO!

Sem nenhum momento duvidar da sua capacidade e coragem, Michael largou o balde que segurava, pegou a centopéia com a própria Mao e a arremessou para o outro lado das pedras.

– Pronto. – ela disse, batendo a areia das mãos para concluir o trabalho bem feito.

E as meninas rompem em aplausos

– Ei, Michael. – os gêmeos foram para perto dela cochichar, enquanto sorriam para as princesas que comentavam entre elas como sir Milligan era corajoso e másculo.

– Por mais que me doa pensar que você é uma moleca suja de terra familiarizada com insetos de todos os tipos – Earl.

– Não poderia ter se livrado do bicho de uma forma mais gentil? – Eain.

– Não se preocupem. Seria preciso muito mais do que isso para matá-lo.

– Esse não é exatamente o ponto… – gêmeos em um muxoxo, enquanto Michael era levada para longe pelas meninas que ainda comentavam a forma como ela salvo a todos do terrível inseto.

– Garotas normalmente deveriam agir diferente… – eles concluíram o pensamento, mesmo que a garota em questão já não estivesse ouvindo.

– É como se ela não tivesse medo de nada… – comentou Lloyd, que prudentemente se aproximara para verificar o que os gêmeos inescrupulosos estavam confabulando com a sua filha.

Com a teoria de Lloyd, os gêmeos imediatamente tiveram uma idéia, e trocaram olhares de quem iria aprontar.

– Mestre! Mestre! Pensamos em uma brincadeira divertida! – anunciaram – Chamamos de O grande vencedor será quem descobrir a fraqueza da Michael!

– Isso me soa muito mal O.õ – Lloyd.

– É, não seria um bom jogo. – Earl, com tom falso de quem desiste.

– Afinal, ela só mostraria a sua verdadeira fraqueza para uma pessoa que ela considerasse digna de saber. – ajudou Eain.

– GAH! – Lloyd.

(LAP: Completamente fisgado! o/)

– Quais são as regras?! – o loiro exigiu saber.

– O prazo é até o por do sol de amanhã! – explicaram os gêmeos com sorrisos de vitoriosos.

– Para tornar as coisas mais interessantes, – Payton apareceu entre eles segurando o que pareciam ser fotos na mão – vou propor um prêmio para o vencedor.

– GAH! – gêmeos e Lloyd vendo que as fotos eram todas de Michael antes de freqüentar Hogwarts, com cabelos longos e com roupas de menina.

(LAP: Completamente fisgados! \o/)

– Yay! Podemos brincar também?! – perguntou um sorridente Honey, apontando para ele e para o primo.

– Podem. – declarou Payton, tentando manter as fotos fora do alcance do rei que tentava pegá-las a qualquer custo.

– Como você tem essas fotos, Naoki?

– Tenho minhas fontes. – ele revelou, fazendo as fotos desaparecem com um gesto rápido de varinha, e ajeitando os óculos que escorregavam.

– Miiiichael! – chorou Lloyd, como se a verdadeira tivesse sumido junto com as fotos.

– Começamos… agora? – perguntou Payton com um sorriso satisfeito.

FIC – Clube de Anfitriões de Hogwarts

CAP 08.0 – Como o dia de estudo de Michael simplesmente desapareceu

 

– Praia. – foi a única coisa que Michael conseguiu pronunciar diante de tudo o que aconteceu e que a colocara naquele exato lugar.

O sol nunca esteve tão bonito, ela nunca vira uma areia tão branca e um mar tão calmo e perfeito para receber banhistas. Ela respirou fundo diante daquele cenário inacreditável e tentou lembrar exatamente como tinha parado naquele lugar.

***

Tudo começara naquela manhã de sábado, quando ela achava que teria um dia inteiro para poder estudar, longe das atividades do Clube Anfitrião, aproveitando a sala silenciosa do clube. Mas todos os seus planos foram aniquilados quando os gêmeos a cercaram com uma proposta descabida:

– Como assim praia?

– Sim, praia! – eles responderão com sorrisos enormes, como se fosse a coisa mais mágica do – Você tinha dito! – lembrou Earl.

– Que não se importava de ir em uma praia de verdade. – Eain completou.

– Eu disse? – ela tentou se fazer de desentendida, voltando a olhar para o seu livro.

– Sim, disse!  E até separamos até opções de biquínis da nova linha de verão da nossa mãe para você.

Com estalos de dedos, eles conjuraram dezenas de manequins com biquínis.

– Não são bunitinhas? – eles perguntaram mostrando as variedades.

– Eu acho esse aqui bonitinho! – Honey deu sua opinião apontando para um maiô cor de rosa que mais parecia um vestido repleto de babados – Ficaria bem na Michael!

– Não, não, não. Você não entende nada, Honey. – os gêmeos o cortaram – Sendo uma encarnação de uma tábua, ela até pode usar esse dom para se passar por um menino no nosso Clube Anfitrião. Mas fazêla usar algo mais usado nessa região certamente a faria chorar.

– Ei ‘¬¬ – Michael.

(LAP: RENCARNAÇÃO DE TÁBUA!!! AHAHAHAAHAHAHAHAHAAAAA)

Sem se importarem com o olhar mortal da colega, os gêmeos continuaram defendendo seu ponto de vista:

– Levando em consideração a auto-estima da Michael, separamos essa roupa, escolhida especialmente para encobrir esse problema!

Eles apresentam um manequim em que a parte de cima do biquíni era repleto de camadas que disfarçaram qualquer volume com estilo.

– COMO OUSAM CONTINUAR USANDO APELOS COM A MINHA PRECIOSA FILHA?! – Finalmente Lloyd saiu de suas divagações sobre ver Michael com roupa de banho e tomou uma posição, com um gesto de varinha fazendo todos os manequins voarem pela janela.

– Então não vamos para a praia? – gêmeos.

– Quem disse que não?! – Lloyd.

– Ah! Então você quer ir! – gêmeos.

– Claro que quero! – Lloyd.

– Aposto que ele está morrendo de vontade de ver a Michael de biquíni. – Earl murmurando para o irmão.

– Sim, e não quer nós deixar ver. – Eain murmurando para o irmão.

– ESTOU OUVINDO VOCÊS! – Lloyd.

– Posso levar meu coelhinho? – Honey perguntou para Aldrich, mostrando seu coelhinho escondendo as orelhas em uma touca de banho.

– Hum. – Aldrich concordou.

– YAY! – Honey.

– Vamos mesmo para a praia? – Michael perguntou suspirando, já desistindo de estudar no meio daquela bagunça.

– Chega de discutir! Payton, chame a carruagem! – o Rei Anfitrião oficializou a decisão – O Clube Anfitrião vai para a praia!

FIC – As Filhas

Capítulo 9 – Os pontos sorridentes

 

            Parecia que havia dormido alguns minutos quando sentiu algo roçar delicadamente em seu rosto. Quando abriu os olhos, porém, percebeu que ainda era noite e havia muitos pontos de luz a sua volta, como estrelas. Um pouco sonolenta, olhou-os mais de perto e se assustou ao ver um sorriso sair deles.

            – Os pontos sorridentes! – ela murmurou, encantada.

            Eles pareceram ficar felizes com o comentário dela, aproximando-se. Balançando a cabeça, pode perceber que não eram somente pontos. Eram…

            – Está tudo bem, Tittë?

            A voz de Nacil fez com que ela desse um pulo de susto, o que não foi nada agradável para seu ferimento nas costas. Com um grunhido de dor, ela colocou a mão nas costas, como se aquilo fosse o suficiente para passar a dor.

            – Você está com dor! – ele encarou-a, preocupado.

            Mas, no momento em que ele se aproximou dela, os pontos colocaram-se em sua frente, fazendo uma barreira entre Nacil e ela.

            – O quê?

            – *, elfo! – uma voz ondulante saiu de um dos pontos, que se aproximou de Nin e sorriu – Estás bem, filha de Naiandil?

            – Com dor, eu diria. – resmungou, ainda tentando compreender o que eram os pontos sorridentes.

            – São fadas? – falou Nacil, completamente chocado.

            Com esse comentário, o ponto que falou com Nin se aproximou e ela pode finalmente perceber: era uma pessoa. Uma pessoa minúscula, com cabelos azuis e pequenas asas em suas costas, como se fosse um elfo guardião em miniatura. Vestia-se com uma roupa de guerreira muito parecida com a de Arien, e usava uma alvaja com mini flechas. E então ela percebeu que todos os pontos sorridentes estavam com seus arcos apontados para Nacil.

            – Fadas? O que mais falta aparecer por aqui? – perguntou Nin, tão chocada quanto o elfo.

            – Somos fadas guerreiras, elfo. – a pequena mulher grunhiu, não parecendo gostar de Nacil – Abaixem suas armas, guerreiras. Viemos em paz.

            As outras pequenas mulheres abaixaram suas armas, ainda olhando a contra gosto para Nacil. A pequena fada mais próxima a ela aproximou-se até ficar na altura dos seus olhos.

            – Tittë, filha de Naiandil. – ela murmurou, fazendo uma pequena reverência – Nossa rainha pede vossa presença em nosso humilde palácio.

            – Sua rainha?

            – Sim. Podemos curar teus ferimentos e sanar sua dor. Para isto, pedimos somente para que encontre nossa rainha.

            Nin encarou Nacil, que não pareceu muito satisfeito.

            – Não deixarei que a levem, fadas.

            No mesmo instante, as pequenas mulheres levantaram seus arcos e colocaram-se em volta do homem. Um pouco desnorteado ele tentou afastá-las como mosquitos, o que as irritou ainda mais.

            – Parem! – pediu Nin, sentindo suas costas molharem com seu sangue – Eu vou com vocês.

            – Tittë! – grunhiu Nacil, completamente aturdido – Não pode ir assim! E se forem inimigas?

            – Isso seria possível se fossemos elfos fracos como tu! – grunhiu a pequena fada de cabelos azuis, pronta para atacar.

            – Parem vocês! – ela gritou, fazendo com que as fadas a encarassem – Eu disse que irei ao encontro da Rainha das fadas, Nacil, e eu vou!

            A pequena fada de cabelos azuis lançou um olhar vencedor para Nacil, que parecia não acreditar na audácia das pequenas criaturinhas.

            – A senhorita é realmente filha da tua mãe, Tittë. Corajosa e destemida.

            – Ahn… obrigada.

            – Tittë… – Nacil ainda tentou, encarando-a com receio.

            – Eu sei o que estou fazendo. Elas não vão me fazer mal.

            – Segure minha mão. – murmurou a pequena fada, estendendo sua mãozinha para ela.

            Com o maior cuidado possível, encostou na mão da pequena fada e, instantaneamente, sentiu seu corpo formigar. Uma luz dourada a envolveu completamente e, em questão de segundos, seu corpo e sua roupa diminuíram e ela foi encolhida ao tamanho das fadas.

            Agora que estava do tamanho delas, pôde ver quão parecidas com os elfos guardiões elas eram: tinham orelhas pontudas e seus olhos eram claros e expressivos. A diferença estava nas asas, que pareciam ser feitas de algo fino e delicado e batiam rapidamente. A fada dos cabelos azuis segurou-a no colo, dando um sorriso contente.

            – Não se preocupe, elfo. – murmurou a fada de cabelos azuis – Traremos Tittë em segurança, assim que ela se curar.

            O rosto de Nacil, grande e nada satisfeito apenas bufou e a pequena fada segurou-a firme em seu colo e sorriu.

            – Meu nome é Frieda. – ela disse, sorrindo – Segure firme, Tittë. Vamos partir!

            ***

            Com passos firmes e rápidos, sentindo sua ira percorrer seu corpo como chamas em brasa, Gloriel correu até a entrada de Valfenda. Esperava que seu informante estivesse certo e que pelo menos… bom, veria com seus próprios olhos.

            Depois da péssima atuação de Kanor em um pedido completamente simples, ela não deixaria ninguém mais fazer o que deveria ser feito. Se queria algo bem feito devia fazer ela mesma.

            Ao chegar na entrada de Valfenda, porém, e ver o que estava vendo, sentiu que nem tudo estava perdido. Ali, paradas, estavam as três Filhas Elfas e Varniel, sujas, mas completamente inteiras.

            – Senhora Rainha! – murmurou Varniel assim que a viu.

            – Minhas crianças! – disse, aproximando-se delas e beijando suas testas – Venham comigo!

            Enquanto as Filhas tomavam um banho e comiam alguma coisa, Gloriel sentou-se com Varniel, que lhe contou tudo o que aconteceu. Após alguns minutos de silêncio, em que ela processou tudo o que ouvira, voltou os olhos para a elfa.

            – Então vocês foram avisados do ataque?

            – Sim, senhora. Eu não acreditei no momento, pois aquelas Filhas Humanas eram muito atrevidas, mas quando acordei as Filhas Elfas haviam me resgatado.

            – Quando acordou? – ela encarou a elfa, sem compreender – Achei que havia tentado impedi-las de sair.

            – Sim… mas Emel pulou na minha frente e tocou minha testa. Acredito que tenha usado algum tipo de poder, pois eu desmaiei no mesmo instante.

            – Emel? A Filha Meia-Elfa?

            – Sim.

            Aquela pequena inútil havia aprendido a usar os poderes das Filhas? Precisava averiguar aquilo o quanto antes.

            – E quem avisou do ataque?

            – Bom… não tenho certeza, mas assim que Tittë chegou, as coisas mudaram. Elas começaram a ficar horas dentro da sala de documentos e, aos poucos, as meia-elfas começaram a se interessar por aquilo também.

            – E elas descobriram algo?

            – Não tenho ideia, mas eu trouxe os textos. Fiquei com medo que caíssem em mãos erradas.

            – Você é fantástica, Varniel.

            – Obrigada, senhora.

            Pegando os textos na mão, Gloriel encarou-os longamente, como se a resposta para todas suas perguntas pudesse saltar das páginas.

            – Agora vá descansar. Conversarei com as Filhas para tentar encontrar o paradeiro das outras, mas fique tranquila. Logo todas estarão a salvo.

            – Sim, Rainha.

            A elfa levantou-se e saiu em direção aos seus aposentos. Gloriel ficou alguns minutos olhando os documentos que ela trouxera. Todos estavam ali, mas havia um a mais: o texto em élfico traduzido. Porém, quando se concentrava em descobrir o que as outras Filhas haviam descoberto, as três Filhas elfas entraram na sala.

            – Sentem-se, meninas. Contem-me o ocorrido.

            Enquanto elas falavam, Gloriel foi sentindo sua ira aumentar. Aquela Tittë! Tinha que ser aquela maldita princesa! Ela que movimentara as Filhas, e, em algum momento, ela ficara sabendo de sua conversa com Kanor… o que significava que Nacil havia alcançado o refúgio das Filhas antes que os magos pudessem capturá-lo. Deixou que as elfas falassem sobre a luta e mostrou-se sentida com tudo o que elas tiveram que passar.

            – Fico feliz que tenham vindo a mim, meninas. Sabem o quão importante são para mim. Agora vão descansar. Amanhã conversaremos sobre o que faremos a seguir.

            Dando um sorriso cansado, as três Filhas Elfas retiraram-se, deixando Gloriel sozinha e completamente enfurecida. Maldito Nacil e sua protegida! Se Kanor houvesse tido sucesso em sua captura no mundo inútil para onde ela fora mandada, nada daquilo teria acontecido.

            Mas, apesar de tudo, uma ideia se formou em sua mente e ela deu um sorriso para o espelho. Iria conseguir vencer. Era somente uma questão de tempo.

            ***

            Mesmo sentindo uma fraqueza invadi-la, Nin prestou atenção no que acontecia a sua volta. Frieda a levava com leveza e tranquilidade, mas as fadas voavam muito mais rápidas do que os elfos. Em poucos minutos elas subiram muito alto e alcançaram o topo de uma árvore enorme no meio da floresta. De longe não pode ver nada de diferente, mas com a aproximação percebeu que a árvore emitia uma luz dourada muito bonita e parecia brilhar entre as outras.

            – Aqui é nossa casa. – murmurou Frieda, parecendo triste – Espero que possa nos ajudar, Tittë.

            Sem compreender, Nin olhou para a fada, que desviou o olhar dela e encarou a grande árvore. Pousaram em dos galhos, mas Frieda não soltou-a no chão. Encarou-a, sem compreender, mas ela balançou a cabeça.

            – Venha, Tittë. A levarei até nossa Rainha e vamos curar seus ferimentos. Depois poderá andar com suas próprias pernas.

            Ela voou entre os galhos até chegar no tronco da árvore. Ali, havia um buraco grande e era de onde toda a luz dourada vinha. Havia várias fadas guardando o local, mas ao vê-las, nada fizeram. Provavelmente sabiam que a Rainha as aguardava. Dentro daquele buraco, porém, deixou sua boca cair, em choque. Havia uma pequena cidade ali dentro, com casas, ruas e pequenas fadas, trabalhando sem parar.

            – Uau. – murmurou, encantada.

            – Raros são os humanos que veem isso em sua pequena vida. Sinta-se lisonjeada.

            – É muito bonito.

            – Obrigada.

            No centro daquilo tudo, havia um castelo branco, muito bonito e brilhante. E foi ali dentro que Frieda a levou. Lembrava muito o local onde a Rainha Gloriel morava, tudo muito leve e branco. A Rainha das Fadas estava sentada em seu trono, mas, ao contrário do que Nin imaginava, ela vestia a mesma roupa de suas fadas e uma coroa dourada em seus cabelos verdes. Seus olhos, também verdes, davam contraste em sua pele muito branca, como se ela brilhasse por conta própria. A Rainha era um pouco mais alta do que as outras fadas, e, consequentemente, mais alta do que ela própria diminuída.

            – Tittë Oronar! – falou a voz suave e firme da Rainha das Fadas – Bem vinda à minha casa!

            Havia uma poltrona na frente do trono dela e foi onde Frieda a sentou, colocando-se atrás de Nin. Suas mãos pousaram delicadamente em seus ombros e, no mesmo instante, sentiu seu corpo se aquecer.

            – Frieda é nossa melhor curandeira. – falou a Rainha, sorrindo – Vai curá-la rapidamente.

            – Obrigada. – murmurou, sem saber o que fazer.

            – Deve estar curiosa para saber porque solicitei sua visita.

            – Sim, eu estou, Rainha.

            – Me chame de Ember, por favor.

            Seu rosto se avermelhou. Andava falando com tantas Rainhas ultimamente e todas a tratavam com deferência e igualdade, deixando-a sem jeito.

            – Certo, Ember.

            A Rainha sorriu e sentou-se em seu trono. Seus olhos verdes ficaram alguns minutos fixos nela e então ela respirou fundo.

            – Não sabe quão aliviada vejo que finalmente voltou.

            – Eu não posso dizer o mesmo.

            – Veja pelo lado bom, Tittë, o fim se aproxima. E você está aqui hoje por conta disso.

            – Do fim?

            – Sim. Eu sei da profecia que anuncia as chegada das Filhas a esse mundo e o que elas farão com o Senhor das Sombras.

            – Profecia?

            – Sim… a profecia. – ela fechou os olhos e então os abriu novamente, falando em uma voz suave – Eu não sei ao certo o que ela diz, mas fala sobre a chegada das Nove Filhas e que são elas quem vão subjugar o Senhor das Sombras.

            – Não parece ser algo muito animador.

            – Não. – ela sorriu e suspirou – O que nos leva a perguntar: já sabe qual caminho a seguir?

            – Diz sobre como destruir o Senhor das Sombras? – Nin perguntou e a mulher acenou em afirmação – Não, não faço ideia. Tenho alguns palpites, mas nada concreto.

            – Compreendo. – ela falou, pensativa. – Estamos do lado das Filhas. Queremos a destruição desse mal que está alcançando nossa casa. Há muitos anos, vivíamos livres. Não precisavamos nos esconder, ou brilhar o suficiente para que os outros não nos vejam como fadas. Estamos presas, escondidas e, se encontradas, somos torturadas em função do Senhor das Sombras.

            – Eu sinto muito. – disse, abaixando a cabeça.

            – Não sinta, Tittë.  – ela murmurou, fazendo com que Nin levantasse os olhos – Eu a chamei aqui para fazer com que me devesse um favor ao lhe curar.

            Nin percebeu que Frieda saíra dali, e que suas costas não doíam mais. Estava curada. Um pouco preocupada, encarou Ember.

            – Um favor?

            – Sim. Quero sua palavra que fará tudo ao seu alcance para nos salvar. Sei que é um pedido egoísta, mas eu não tenho mais a quem recorrer.

            Olhou nos olhos da Rainha e sentiu seu coração se apertar. Não era somente as Filhas que sofriam ou os elfos que buscavam a salvação do seu mundo. Mesmo as mais pequenas criaturas contavam com elas para que o Senhor das Sombras pudesse ser subjugado. Levantou-se com firmeza, pois suas feridas estavam curadas, e ajoelhou-se em frente a Rainha Ember.

            – Rainha Ember. Tem minha palavra que farei tudo ao meu alcance para salvar a Terra Média. E isso inclui todo seu povo.

            A Rainha sorriu e levantou-se, abaixando-se na altura dela e lhe dando um abraço apertado.

            – Eu fico feliz de você ser a princesa de Valfenda. – Ember levantou-se, ajudando-a a ficar em pé – Teremos uma Rainha de verdade no final dessa guerra.

            – Eu… eu não sei. – falou, incomodada.

            – A Rainha Gloriel deixou-se envenenar pelo lado sombrio, mas irá se arrepender tarde demais. – ela encarou-a por um longo tempo.

            Nin sentiu que ela adentrava em algo profundo e desconhecido, alguma coisa tão poderosa que fazia o chão parecer tremer. Sentindo sua respiração falhar, ouviu a voz dela como algo longe e profundo:

            – Já você, minha querida, terá em suas mãos milhares de vidas, mas apenas uma irá realmente destruí-la. Quando isso acontecer, iremos nos reencontrar e prometo ajudá-la como me ajudou.

            – Ahn… tudo bem. – resmungou, meio atordoada.

            – Nossa conversa terminou, Tittë. – ela mostrou Frieda, que a aguardava um pouco afastada – Seu guardião deve estar furioso.

            – Ah, ele está sempre furioso comigo. – ela grunhiu, dando um sorriso irônico.

            – Espero que Frieda e as outras não tenham sido muito más com ele. Elas são um pouco ariscas com qualquer criatura do sexo masculino.

            – Foi bem merecido. – comentou Nin, fazendo com que Ember risse.

            – Sua presença nesse mundo me enche de alegria, Tittë. Agradeço sua ajuda quanto ao meu pedido.

            – Sinceramente, não era algo que precisasse um pedido, Ember. Eu faria de qualquer forma.

            – Falou como uma verdadeira Rainha. – ela aproximou-se e encostou sua mão no ombro de Nin – Posso lhe dar um presente?

            Encabulada, Nin apenas encarou o teto, mas Ember puxou seu rosto.

            – É claro. – falou, sentindo seu rosto avermelhar-se.

            – Muito bem.

            Uma luz dourada a envolveu e seu vestido sujo de sangue deu lugar a uma roupa quase idêntica a da Rainha Ember, mas o tecido era vermelho. Uma blusa de couro vermelho, saia até o joelho, botas e uma capa finalizava o conjunto. Um pouco chocada, encarou Ember sem compreender, mas ela lhe entregou mais um pacote.

            – Uma roupa digna de uma Rainha. E as outras são para as outras Filhas. Melhor do que aqueles vestidos enormes.

            – Obrigada.

            Frieda segurou sua mão.

            – Vamos, Tittë?

            Com um último olhar para Ember, sentiu Frieda levantar voo e deixou-se levar, sentindo-se um pouco triste por deixar aquele lugar tão tranquilo.

            Quando alcançou o local onde estavam acampadas as outras Filhas e seus guardiões, já era dia. No momento em que a viu, já em tamanho normal, Nacil correu até ela, completamente furioso.

            – Eu estou bem, curada e elas estão do nosso lado. – grunhiu, olhando para as outras Filhas e não o encarando – Arien, Emel e Dirwen, precisamos continuar.

            – Vamos para Lórien? – perguntou Arien, arrumando sua espada na bainha.

            – Sim.

            – Isso é muito longe? – perguntou Emel, sentada no colo do seu guardião enquanto ele lhe penteava os cabelos, tentando fazer uma trança, mas o que Nin via era muitos nós.

            – Não faço ideia. – ela voltou os olhos para Nacil, que parecia mais furioso ainda por ter sido ignorado – Nacil?

            – Fica um pouco longe daqui, sim. – ele resmungou, mas aproximou-se do grupo – Alguns dias de viagem.

            – Precisamos chegar lá o quanto antes. – falou Arien, preocupada – Não sabemos se os anéis ainda estão por lá, mas precisamos encontrar seu paradeiro antes que aquela Rainha perceba o que queremos.

            – Muito bem. Partiremos nesse instante. – falou Nin para todos, que começaram a se arrumar.

            Ao virar para pegar suas coisas, porém, Nacil estava na frente dela, não parecendo feliz. Fez um sinal para que ele a acompanhasse, enquanto buscava sua espada e sua meia lua. Não sabia porque a carregava ainda, não havia visto junkis naquele mundo, mas se aquele tal de Kanor estava por ali, poderia invocá-los… e não seria bom ser pega de surpresa. Voltou os olhos para Nacil, que ainda estava parado a encarando.

            – O que foi? – grunhiu, o mais baixo que pode – Está me deixando louca com esse olhar.

            – Você é que me deixa louco com essa teimosia! Não pode confiar em todos, Tittë.

            – O que quer dizer é que só devo confiar em você? – ela levantou-se, irada – Isso é bem maior do que uma simples teimosia, ok? Eu e essas meninas temos que destruir um cara malvado e nem sabemos como! – os olhos dele faiscaram, ficando negros – Acha que eu estou brincando, mas eu finalmente percebi que sou mais do que uma caçadora e que, se esse mundo precisa de mim, eu vou até o final para ajudá-lo!

            – Eu não estou dizendo que está errada em tomar a liderança, mas ir com fadas? Não sabemos se elas realmente estão do nosso lado! E se estiverem do lado de Gloriel?

            – Eu acredito nelas! São boas. Só estão desesperadas para que alguém faça alguma coisa.

            – Você prometeu algo a elas, não foi? – ele aproximou-se, ficando a centímetros do seu rosto – O que?

            Sua raiva transformou-se em choque e ela abriu a boca.

            – Como sabe disso?

            – Isso não é nada bom. – ele resmungou e ficou seus olhos  nela – As fadas tem uma magia de alto nível, Tittë. Se prometeu algo a elas ou elas a você, terá que ser cumprido. É uma promessa mágica, compreende?

            – Bom… então está tudo bem. – ela suspirou, revirando os olhos – Olha, eu sei o que eu fiz. Não me arrependo do que prometi. E você não deveria estar preocupado. É só mais uma coisa mágica em mim. Além de poderes, ter de destruir o senhor do mal, eu ainda tenho uma promessa mágica. Normal.

            Ela virou-se, mas ele segurou seu braço, voltando-a para os olhos dele. Só que, dessa vez, eles não estavam furiosos, mas sim desesperados.

            – É óbvio que eu me preocupo com você, Tittë.

            A frase foi tão carregada de algo maior que o coração dela instantaneamente pulou no peito, batendo ferozmente. Sentindo seu rosto se avermelhar e a boca secar, ela soltou o braço das mãos de Nacil e olhou para seus próprios pés.

            – Então me ajude. Só isso que te peço.

            E, sem dizer mais nada, ela saiu de perto dele, indo ao encontro de Arien.

            – Onde você estava?

            – Conversando com a Rainha das Fadas.

            – Nossa. Então tá bom. – ela revirou os olhos e então viu o que ela estava vestindo – Adorei sua roupa! Muito melhor que aquele vestido estranho que você usava.

            – Então tome. – ela disse, pegando uma muda de roupas maior do pacote que recebera de Ember – Presente da Rainha das Fadas.

            – Nossa! Uma roupa de fada guerreira! Legal!

            – Dirwen, Emel… – as meninas a encararam – Precisam trocar de roupas também. Esses vestidos brancos são chamativos demais.

            – Ahhhhh… – Emel pareceu desapontada – Eu gosto de vestido.

            Dando um sorriso ao ver tudo arrumado, percebeu que Nacil conversava com os guardiões, dando instruções de como chegar ao novo destino deles.

            – Lorién, aí vamos nós. – murmurou para o céu azul.

FANFIC – As Filhas

Capítulo 8 – O ataque 

            Dois dias depois.

Meio sonolenta, sentiu que alguém se aproximava da sua cama sorrateiramente. Com cuidado, a pessoa ficou em cima dela e Nin, com seus reflexos, segurou-a com os braços e imediatamente a imobilizou.

– Tittë! – sussurrou uma voz esganiçada, completamente o oposto do que ela esperava.

– Emel! – grunhiu baixinho, soltando a menina – O que você está fazendo?

– Eu terminei! – ela deu um sorriso de orelha a orelha.

– Terminou? – peguntou, sem compreender.

– Sim, Tittë! Eu disse que levava dois dias, daí passei a noite em claro e consegui! – ela mostrou um pergaminho e Nin subitamente entendeu.

– O texto em élfico? Você já traduziu? – perguntou Nin, olhando para fora e percebendo que o céu ainda estava escuro.

– Sim! Foi o que eu disse, acorda!

– Muito bem, Emel! – sentou-se na cama, contente – Você é ótima! Eu vou chamar a Arien e nos encontramos na fonte. Mas em silêncio, não queremos que Varniel nos pegue lá!

– Sim, senhora! – a menina pulou, correndo para fora do quarto.

Nin foi até a cama de Arien, que levantou-se no momento que a viu se aproximar.

– Senti a aproximação. – ela murmurou – Aonde?

– Na fonte. Vamos!

Sorrateiramente as duas foram para a fonte, onde Emel já as aguardava com expectativa.

– Muito bem, vamos ler.

Nin aproximou-se das tochas e começou a ler. Apesar de pequena, a letra de Emel era lisa e sem erros e não foi difícil entender. Basicamente o texto falava sobre como as Filhas destruiriam o Senhor das Sombras, mas nada tão explícito como elas desejavam.

– Aqui diz que devemos recuperar os nove anéis que o Reis Homens receberam de Sauron. – falou Nin, finalmente terminando de ler – Mas não diz nada sobre onde encontrá-los.

– Você tem alguma ideia?

– Não, Arien. Emel?

– Eu não sei muito sobre a história daqui, o que sei é o mesmo que vocês. – a menina disse, molhando os pés na fonte – Nove anéis… no outro texto dizia algo sobre os anéis, não? Aquele que vocês me deram para ler antes desse?

– Sim, mas não lembro se colocava alguma localização.

– E como faremos para achá-los? – grunhiu Arien, parecendo irritar-se.

– É só pedir: por favor. – murmurou uma voz na porta da fonte.

Imediatamente as três se levantaram para ver que as espionava. Na porta estavam as outras duas meio-elfas, como Emel. A de cabelos violeta aproximou-se dando um sorriso, enquanto a outra ficou na porta, parecendo um pouco emburrada.

– Estavam nos escutando? – perguntou Arien, com a mão na espada.

– Sim. Sentimos quando Emel as acordou e ficamos curiosas. – ela entrou, parando do lado de Nin – Percebemos o quão próximas vocês ficaram nesses dias e como não saíam da sala de documentos. Apesar de não parecermos nos importar, essa história de dar o nosso sangue para que o Senhor das Sombras reviva não é nada agradável.

– Você sabe onde estão os nove anéis dados aos Reis Homens? – perguntou Nin.

– Eu nasci em Lórien. Lembro de, antes de ser mandada para um outro mundo, ver os anéis expostos. Como os anéis não tinham mais poder depois que o Um Anel foi destruído, os elfos cuidaram para que eles não fossem pegos por mais ninguém.

– Mas eles ainda estão lá? – perguntou Arien, cética – Depois de todo esse tempo?

– É nossa única chance. Temos que achar os anéis. – falou Nin, encarando-as.

– E isso significa sairmos daqui, certo? – perguntou Arien, contente – Isso! Vamos agora!

– E onde vocês vão, meninas? – a voz de Varniel preencheu a fonte e todas olharam para a porta, onde a elfa estava parada.

Estavam tão ocupadas com as novas descobertas que não perceberem a aproximação da elfa. Sentiu a tensão na voz da mulher, como se não esperasse que aquilo fosse acontecer.

– Nós estamos descobrindo como nos salvar, Varniel. – falou Nin, indo à frente das outras.

– Isso é muito bom. – ela comentou, dando um sorriso – Mas ainda nem amanheceu. Porque não deixam isso para amanhã?

– Estamos falando de nossas vidas! – grunhiu Arien, postando-se ao lado de Nin.

– E eu acho isso muito bom. Mas agora vão descansar ou comer alguma coisa. – ao ver que nenhuma delas se mexeu, ela fechou a cara – É uma ordem.

E, sem dizer mais nada, a mulher ficou na porta, aguardando a saída delas. As duas meia-elfas saíram imediatamente, lançando olhares preocupados para Nin. Emel saiu cabisbaixa, mas não pode ter certeza se era porque ela estava triste ou braba. Finalmente, Nin se mexeu, sinalizando para Arien sair também.

Ao ver que todas saíram da sua “reunião” e se dispersaram, Varniel pareceu satisfeita e Arien aproximou-se de Nin, sussurrando:

– Vamos deixar isso dessa forma?

– Me encontre lá fora assim que o sol se pôr e conversaremos.

Arien fez um aceno silencioso e foi para o lado contrário. Nin suspirou, desanimada, e resolveu comer alguma coisa. Havia algo muito errado naquela história de refúgio e ela precisava descobrir o que estava acontecendo.

***

Voando sem parar e sendo ajudado por Azulth, no amanhecer do segundo dia de viagem Nacil finalmente avistou o local onde as Filhas estavam escondidas. Apesar de sua fuga, não encontrara muitos inimigos no caminho, pois a Rainha Gloriel provavelmente não conseguira avisar sua segurança a tempo.

Assim que ficou há alguns metros da entrada do refúgio, porém, sentiu as proteções a sua volta e instantaneamente três elfos guardiões apareceram, cercando-o.

– Quem é você? – murmurou um deles, do tamanho de um guarda-roupa.

Le suilannon*! Meu nome é Nacil Isilrá. – ele mostrou uma pequena tatuagem em seu pulso, uma escrita élfica com o nome de sua protegida – Sou Guardião de Tittë Oronar.

– A Filha Humana? – perguntou o outro elfo, mais magro e alto que ele próprio, verificando o pulso.

– Sim.

– E porque não veio com ela? Ela chegou há seis dias. – novamente o homem armário falou, parecendo menos agressivo.

– Eu estava cumprindo uma missão para a Rainha Gloriel e fui liberado há dois dias. Vim o mais rápido que pude. Perdoem meu atraso.

– Muito bem. Venha conosco.

Com a autorização do elfo, as proteções se amenizaram e o deixaram passar. Nacil acompanhou os três elfos, visualizando o local. Havia a torre de Isengard, destruída desde a última guerra. Com seus destroços eles provavelmente construíram a casa onde as Filhas agora estavam, pois era tão branca quanto a torre. Em volta da casa havia algumas árvores e uma grama verde, coisa possível pela magia élfica. Apesar de olhar com cautela, não conseguiu enxergar Tittë entre as mulheres que passeavam nos jardins.

– Ficamos felizes com sua chegada. – murmurou um elfo ruivo, vestido com armadura de couro de dragão – Meu nome é Thargon. Estamos em poucos por aqui. A vigília é tranquila, pois com todas as proteções dificilmente alguém se aproximaria daqui.

– Mas e se houver um ataque? – perguntou, sério.

– Estaremos preparados. Sou o responsável pela segurança dessas meninas e não vou deixá-las na mão.

E, sem dizer mais nada, o elfo saiu, sendo seguido pelos outros guardiões. Olhou para baixo e não viu Tittë do lado de fora. Teria que esperar até o anoitecer e encontrar uma maneira de falar com ela.

*Le suilannon! – Eu os saúdo!

***

A noite demorou a chegar. Nin jantou calmamente e, sem olhar para mais ninguém, fingiu passear do lado de fora da casa. A noite estava muito bonita. O céu escuro cheio de estrelas, com uma lua brilhante. Foi quando sentiu que alguma coisa a encarava das árvores e abaixou o olhar, encarando dois olhos verdes.

O sentimento de fúria retornou antes que ela pudesse controlá-lo e ela soube no mesmo momento a quem pertenciam aqueles olhos. Instantaneamente virou de costas, mas ele rapidamente segurou seu braço.

– Me solta. – grunhiu, sentindo sua raiva saltar-lhe aos olhos.

– Não até que me escute.

– Eu já escutei o suficiente de você, mago.

– Não escutou mesmo! – ele virou-a, segurando seus ombros – Tittë, a Rainha Gloriel está do lado de Kanor. Eu os vi conversando.

– O quê? – sua raiva abaixou e ela encarou-o com curiosidade – Do que está falando?

– Eu os ouvi conversando antes de sair e eles vão atacar aqui.

– Está mentindo! – grunhiu ela, soltando o braço dele e puxando a espada – Como ousa vir aqui dessa forma? Depois de tudo o que fez?

– Não seja teimosa! – ele falou, exasperado – Tem que sair daqui!

– Ela não sai daqui sozinha. – murmurou uma voz e Nin reconheceu como de Arien – Quem é esse Nin?

Ao olhar para a outra Filha Humana, percebeu que ela também estava armada.

– Eu estou falando sério, Tittë. – Nacil ignorou a interrupção, focando-se em Nin – A Rainha Gloriel mandou Kanor atacar o refúgio. Eles são magos, tem seus meios de conseguir chegar aqui no máximo ao amanhecer. Precisa sair daqui!

– Espera um pouco! – falou Arien, abaixando a espada e aproximando-se de Nacil – Está me dizendo que estamos para ser atacados?

– Sim. – murmurou Nacil, encarando Arien – Vocês devem fugir.

– Como ousa! – uma luz dourada surgiu na frente de Arien, com uma espada em mãos – Essa dama é minha protegida! Ninguém deve se dirigir a ela sem-AI!

Arien chutou a canela de seu guardião, que perdeu sua luminosidade no mesmo instante, pulando com uma só perna enquanto segurava a outra dolorida com as mãos.

– Isso doeu, senhorita! – resmungou ele, chorando.

– Era para doer. – ela grunhiu, irritada – Agora, quem é esse, Nin?

– Eu sou o guardião dela. – ele respondeu e virou-se para Nin – Por favor, acredite em mim.

Nin virou os olhos para o céu, não sabendo mais no que acreditar. Mas, se aquilo realmente fosse verdade, estaria colocando em risco a vida de todas as Filhas por um problema dela.

– Nin?

– Sim, Arien… ele é meu guardião e deve estar falando a verdade. Vamos avisar as outras e sair o quanto antes.

– Como assim, sair? – perguntou o guardião de Arien, aproximando-se deles e esquecendo da dor no joelho – Do que está falando, princesa?

– Não me chame de princesa! – gritou Arien para seu guardião.

– Um grupo de magos está vindo para cá, Panthael. – falou Nacil – Elas estão em perigo. Agora vá, Tittë! Eu a encontro!

E, puxando Panthael para dentro das árvores, ele as deixou. Nin encarou Arien e as duas saíram correndo para dentro da casa. A primeira coisa que elas fizeram foi ir para o quarto pegar suas coisas. Para uma fuga rápida não poderiam usar aqueles vestidos e, assim que se trocaram, Arien e Nin trocaram olhares aliviados. Arien vestia uma calça e um colete que deveria ser de couro de dragão, pois ela nunca havia visto tal coisa em seu mundo.

– Ah, nem acredito que posso usar minha bainha! – falou Arien, sorrindo para o espelho – Agora sim pareço uma guerreira! Nada de frufrus! – ela voltou os olhos para Nin e ergueu as sobrancelhas.

– O que foi? – perguntou Nin, sem compreender.

– Você está de vestido.

– Sim. Gosto deles quando são pretos e sem frufrus. – resmungou, colocando sua bainha e segurando sua meia lua. – Vamos chamar as outras!

– Já vamos? – pulou Emel detrás de sua cama, com uma mochila pequena nas costas e um vestido mais curto, assustando as outras.

– Emel, não faça mais isso! – grunhiu Arien, pegando a menina pelo braço – Vamos!

Ao chegar na parte onde o restante das Filhas estavam, algumas conversavam e outras liam livros, mas ao vê-las vestidas daquela forma o silêncio preencheu a sala e Nin se adiantou.

– Fui informada de que esse refúgio está para ser atacado. Precisamos sair daqui!

– Isso é sério? – perguntou a Filha de cabelo violeta, que Nin não lembrava o nome.

– Sim. Os magos de Kanor, um feiticeiro que quase me capturou no meu mundo enquanto eu estava por lá, estão atrás de nós… infelizmente, sob ordens da Rainha Gloriel.

– Está dizendo que nossa Rainha é uma traidora? – uma das filhas elfas, de cabelos ruivos cacheados levantou-se, aumentando de tamanho – Como ousa, sua Humana?

– Estou falando a verdade, Elfa. – falou Nin, encarando a mulher com raiva – Se quer ser capturada, pode ficar, mas quem quiser nos acompanhar, por favor nos siga.

No mesmo instante, a Meia-Elfa de cabelos violetas se pôs do lado dela, seguida de sua colega de cara amarrada. As três elfas permaneceram inalteradas e sobrara apenas Dirwen, que encarava as meninas com certo pavor.

– Vocês de novo? – grunhiu Varniel, entrando na sala com fúria – O que pensam que estão fazendo?

– Vamos embora. – falou Arien, dando um sorriso para a mulher.

– E que roupas são essas, Arien? – ela parecia chocada.

– São minhas roupas de verdade, oras.

– Vocês enlouqueceram? A Rainha Gloriel as colocou aqui com segurança e agora vocês a traem!

– Quer falar sobre traição, Varniel? – falou Nin, colocando-se frente a mulher – Pois saiba que sua maravilhosa Rainha mandou um bando de magos para nos capturar e matar o restante que estiver atrapalhando! E isso inclui você!

– Sempre achei que humanos e meio-elfos não fossem confiáveis! – ela levantou o queixo – Pois bem. Chamarei os elfos guardiões agora mesmo e acabaremos com essa balbúrdia toda!

Tudo aconteceu muito rápido. Mesmo sendo pequena, Emel correu até a frente de Varniel e pulou, ficando alguns segundos parada no ar e tocou a testa dela com sua pequena mão. No mesmo instante a elfa ficou paralisada e desmaiou, fazendo com que todos olhassem para a menina, estupefatos.

– Não era para ela parar? – ela murmurou com cara de choro.

– Era sim… – resmungou Nin, se aproximando de Varniel, que estava desacordada – Mas como você fez isso?

– Eu já disse que vocês não estão usando os poderes que receberam. Prometo ensiná-las assim que sairmos daqui.

– Muito bem. Isso é ridículo! – murmurou a elfa ruiva, irritada.

No mesmo instante, porém, a casa tremeu como se algo muito forte a atingisse. O teto desmoronou em alguma parte e, com o barulho, as elfas olharam para cima em choque.

– FUJAM! – gritou Nin, correndo para a saída com a espada em mãos.

Do lado de fora, uma luta era travada no céu. Os elfos guardiões lutavam ferozmente para manter a casa segura enquanto os magos de Kanor tentavam destruí-la, mas aquilo não duraria muito tempo. As forças de Kanor eram grandes e poderosas e Nin podia sentir todo o poder que ele usara contra ela no seu mundo pulsar. Elas precisavam aproveitar enquanto os magos eram distraídos e fugir, se esconder até poderem seguir seu caminho. Nin fez sinal para Arien e Emel, que a seguiram correndo, mas quando as duas outras Meio-Elfas resolveram seguir Nin, algo como uma bola de fogo caiu no meio dos dois grupos, separando-os por uma cratera em chamas.

– NOS ENCONTRAMOS EM LÓRIEN! – gritou a de cabelos violeta, correndo para o lado contrário.

Sem responder, Nin virou-se para correr com Arien quando ouviu um choro. Olhou para a casa e sentiu seu corpo se arrepiar com o pensamento. Havia alguém lá dentro ainda? Pediu que Arien e Emel se escondessem, mas as duas não deixaram que ela voltasse sozinha. Sem escolha, Nin correu para dentro da casa, e, escondida no canto e um pouco suja de fuligem, estava Dirwen, chorando.

– Dirwen! – gritou Nin, correndo até ela.

Quando se aproximou, porém, viu que um pedaço do mármore branco estava pendurado em cima da menina, pendendo.

– Nin, não! – gritou Arien, mas era tarde.

Ela jogou-se em cima de Dirwen e o teto despencou em cima delas.

– NÃO! – Emel gritou, desesperada – TAURON!

No mesmo instante, um elfo guardião apareceu, com sua feição inalterada.

– Emel?

– A Tittë e a Dirwen estão ali!

O elfo assentiu, parecendo compreender, e se aproximou dos destroços. Rapidamente, tirou os pedaços maiores de mármore, para revelar o que estava embaixo dele. Havia uma Dirwen completamente assustada, mas com as mãos para cima. Delas, uma luz branca saía e protegia Nin e ela mesma, enquanto alguns pedaços de mármore pendiam em cima delas. O guardião de Emel retirou os pedaços e Dirwen abaixou as mãos, parecendo preocupada. Nin estava abaixada ao lado dela, sentindo suas costas doerem terrivelmente e não conseguindo se mover tão bem. Quando pulou em cima de Dirwen, antes que ela pudesse segurar o teto, um grande pedaço de mármore havia a atingido, com certeza fazendo um corte profundo em suas costas.

– Você está sangrando. – murmurou Dirwen, abaixando-se ao lado dela.

– Precisamos sair daqui, Dirwen. – falou Nin, levantando-se com dificuldade e encarando as outras Filhas restantes com firmeza – Agora.

– Venha, eu a ajudo. – falou Arien, segurando-a pela cintura.

Quando Arien a segurou, porém, a sala encheu-se de elfos guardiões. Nin revirou os olhos. Podia sentir a aproximação dos magos. Provavelmente o restante dos elfos estavam lá em cima, dando a última chance para que eles escapassem. Abriu a boca para mandar todo mundo correr quando Panthael instantaneamente aproximou-se de sua protegida, desesperado.

– Você está bem, princesa! – e então ele pareceu perceber que Nin estava sangrando – Oh não! Que ferida mais terrível! Deixe-me ajudá-la, dama indefesa!

O elfo loiro fez menção de pegar Nin no colo, mas Nacil colocou-se na frente dele, dando um sorriso irônico.

– Eu a levo.

Mesmo a contragosto, Nin deixou que Nacil a carregasse, pois não sabia mais quanto tempo aguentaria em pé.

– Precisamos sair! – esforçou-se para falar, com firmeza.

– Sigam-me. – murmurou Nacil.

Os outros elfos pareceram compreender perfeitamente o que ele dissera. Emel subiu no colo de Tauron, Dirwen foi seguramente colocada no colo por um elfo alto e magro e Arien subiu nas costas do seu elfo, dando uma risada ao ver a feição de horror do mesmo.

– Eu não vou no seu colo, então fique satisfeito.

No mesmo instante em que os elfos guardiões voavam para fora da casa, as proteções foram destruídas e os magos puderam ver o que estava acontecendo. Ao ver os quatro fugindo com as Filhas, começaram a jogar um feitiço atrás do outro, fazendo com que, além de segurá-las, os elfos tivessem que se defender.

– Tittë! – gritou Emel do seu lado – Me dê sua mão!

Sem compreender, segurou a pequena mão de Emel, que fizera um pequeno círculo com as Filhas. Falando em élfico, ela fez com que uma luz azulada subisse de cada uma das Filhas. E então, cada ataque que os feiticeiros mandavam, as luzes das Filhas os desviavam ou os destruíam, e, antes que eles as alcançassem, Emel lançou algo neles que Nin não pode ver, mas que os fez cair no chão desnorteados.

– Agora vamos fugir! – gritou Arien.

Eles continuaram voando por horas. Nin sentia suas costas ensopadas com o sangue e uma fraqueza a incomodar. Percebeu que Nacil a olhava com preocupação e bufou.

– Eu jurava que nunca mais ia precisar ser salva por você. Fica chato depois da primeira vez.

– Fico feliz que tenha acreditado em mim.

– Só porque você é um mago idiota não quer dizer que seja um mentiroso.

Ele a encarou por alguns segundos e desviou o olhar, pensativo.

– O que a Rainha lhe disse? – ele perguntou de repente, ainda sem olhá-la.

– Sobre o quê?

– Sobre mim.

Nin olhou para o céu, incomodada. Aquilo era um assunto que não queria conversar naquele momento.

– Que você não queria mais ser meu guardião. – ela respirou fundo, ajeitando-se no colo dele por causa da dor em suas costas.

– Só isso? – ele encarou-a de repente.

– Sim. – ela disse, firme – Só isso.

Nacil assentiu, parecendo longe. Não iria dizer para ele que a Rainha sugerira que ela estava gostando dele. Não que aquilo fosse verdade, mas se ele não gostava dela, de que adiantaria contar aquilo, certo?

– Há um lugar mais a frente onde podemos descansar. – Nacil falou para os outros, que pareciam muito cansados e virou-se para ela – Você está bem?

– Sim… só preciso dormir. E fazer um curativo nas minhas costas.

Ele assentiu e Nin percebeu que estavam descendo para o que parecia ser uma pedra acima de um grande morro. Nacil não deixou que ela caminhasse e colocou-a sentada em uma pedra. Com um assovio, Azulth desceu, assustando Dirwen, que se refugiou no peito do seu guardião.

– Azulth está carregado com mantimentos e colchonetes. – explicou Nacil, antes que os outros guardiões atacassem a águia – Devemos descansar.

Nacil ajudou os outros a se ajeitarem e Nin percebeu que Arien se aproximara dela, preocupada.

– Você está bem?

– Eu sou uma bela inútil mesmo, isso sim. – apontou para suas costas que ardiam – Estou sim, Arien. Vá descansar. Vou limpar meus ferimentos e dormir também.

– Agradeça ao seu guardião por todas nós. Se não fosse ele, estaríamos presas em algum lugar.

Nin assentiu e viu Arien se afastar. Enquanto ela tentava ver a extensão do corte em suas costas, os outros se arrumaram em sua volta, colocando colchonetes. Não querendo ser inútil, levantou-se e aproximou-se de Azulth, que deu um pio alegre ao vê-la.

– Senti saudades também.

Dando um sorriso, pegou um dos colchonetes para ela e quando virou-se, percebeu que somente ela e Nacil ainda estavam de pé.

– Me ofereci para o primeiro turno da guarda. – ele disse baixinho, aproximando-se dela e pegando o colchonete de suas mãos – Venha, vou limpar seus ferimentos.

– Da próxima vez vou me ferir na perna. Assim posso limpar meus próprios ferimentos. – ela grunhiu, baixinho, sentando-se e afastando os cabelos loiros.

– Eu espero que não haja uma próxima vez. – murmurou Nacil, contrariado, e começou a passar um tecido molhado em suas costas – Não tenho nenhum cicatrizante por aqui, mas vou usar um pouco de magia élfica para aliviar sua dor.

– Eu disse que você é um mago. – ela disse, sentindo-se bem pela primeira vez desde que deixara seu mundo.

Ele apenas deu um sorriso forte e não disse mais nada. Quando terminou, colocou curativos e fechou o zíper do vestido dela delicamente. Ao perceber que ela não se movera, abaixou-se na frente dela, até ficar na altura do seu rosto.

– O que houve?

– Estou com um pouco de peso na consciência. – deu um sorriso irônico, balançando a cabeça ao perceber que falara demais – Esqueça. Boa noite, Nacil.

Porém, antes que pudesse se levantar, o homem abraçou-a delicamente.

– Só não se machuque da próxima vez.

Parecendo embaraçado, ele soltou-a e levantou-se sem olhá-la novamente. Nin levantou-se também, sem entender muito bem o que havia ocorrido, mas antes que pudesse sequer pensar, caiu num sono profundo em cima de seu colchonete.

FANFIC – As Filhas

            Capítulo 7 –   O refúgio das Filhas


A despedida de Valfenda foi rápida e dolorida. Nin subiu em um dos cavalos, sob o aplauso de todos os presentes e despediu-se. Um pouco antes, porém, seu olhar se cruzou com o de Nacil, antes de ele virar as costas e sair de onde ela estava sem nem olhar para trás.
Acompanhada de vários elfos para protegê-la, eles partiram para o refúgio onde as outras Filhas estavam. Sentindo que seria uma viagem longa, ela pôs-se a pensar em sua situação.
Após descobrir que era princesa de Valfenda, seu mundo virou de cabeça para baixo. Descobrira mais algumas coisas a respeito de toda a história de Filhas, mas nada concreto o suficiente para resolver esse problema. Ela era uma dessas Filhas, que, juntamente com as outras oito iriam fazer o Senhor das Sombras ser subjugado… isso se não fossem mortas para revivê-lo. Quando pensou nisso, porém, seus pensamentos voltaram-se inteiramente para o mago idiota e ela simplesmente parou de pensar e ficou admirando a paisagem.
Valfenda era linda e verde, mas as terras que eles percorriam eram áridas. Pareciam  um dia terem sido verdes e férteis, porém, agora eram um deserto. Quando a noite chegou, ela sentiu-se tensa pela primeira vez. Não queria dormir. A sensação era que se dormisse, iria sonhar com o Senhor das Sombras novamente.
Algumas horas depois, porém, não resistiu e caiu em um sono profundo e cheio de pesadelos.

            ***

A floresta estava escura e ele estava ali, sentado em cima de uma árvore completamente em silêncio. Seus pensamentos estavam parados, a meditação alcançando seu auge. Não queria pensar, portanto fixou-se em retirar seus pensamentos de dentro de si. Foi quando ouviu uma voz doce e gentil falando com ele.

Nacil Isilrá… Mae govannen!*

Abriu os olhos, mas não viu ninguém ali. Sentindo que era a presença de alguém não físico, fechou novamente seus olhos e se concentrou.

Nacil, elfo guardião… o que está fazendo?

            Em sua mente ele finalmente viu quem o chamava e sentiu-se tremer.
– Rainha Naiandil? – murmurou.
A mulher, com cabelos longos e loiros trançados e um vestido suave que balançava como se um vento passasse por baixo dela a encarou com um sorriso, acenando com a cabeça em afirmação.

            O que está fazendo, Nacil?

– Meditando.

E porquê não está cumprindo sua missão?
            Nacil encarou-a em sua mente, sem compreender.
– Minha missão, senhora?

Você prometeu, Nacil Isilrá.

            E a compreensão do que a mulher dissera lhe atingiu como um flecha em seu peito.
– Eu a trouxe sã e salva para cá, minha senhora.

Essa era a sua missão?

            – Minha missão era ser o Guardião de Tittë. E foi o que fiz.

Ela deixou de ser Tittë Oronar? Porque não está a protegendo?

            – Ela não… – ele engoliu em seco – Ela não quer mais que eu fique perto dela.

Você é inteligente, Nacil. Nem tudo é o que parece…E nem todo mundo é o que parece ser.

            – Não compreendo, senhora.

Então feche seus ouvidos e ouça seu coração. Ele lhe dará a resposta.

            E então, a mulher desapareceu em uma névoa branca. No mesmo instante, Nacil acordou em sua cama, coberto de suor. Sentindo seu coração se apertar e lembrando-se das palavras da mãe de Tittë, levantou-se e foi procurar a Rainha Gloriel. Já sabia o que fazer.

*Mae govannen! – Bom te ver!

            ***

            Quatro dias de viagem depois, Nin finalmente chegou ao refúgio das Filhas. A princípio não viu quando seus protetores avisaram da chegada, mas quando olhou mais de perto, pode perceber do que se tratava.
Parecia ser uma ruína de uma torre muito alta e branca. Atrás dela, porém, uma casa foi construída, algo tão lindo como qualquer casa que havia visto em Valfenda. Também era daquele mármore branco, provavelmente retirado dos destroços da torre. Eles entraram no perímetro da torre, e, depois de proferir alguns encantamentos, foram autorizados a prosseguir.
A primeira coisa que notou assim que entrou na casa era que parecia ser o lugar mais tranquilo do mundo. Havia muitos apanhadores de sonhos pelas janelas, várias cortinas suaves e muitos sofás. Adentrando mais na casa pode ver que havia uma fonte jorrando em outro comodo, e teve certeza de que se tratava de mais uma daquelas fontes termais. No mesmo momento prometeu a si mesma que nunca iria entrar lá.
As outras Filhas apareceram no mesmo instante, acompanhadas de uma elfa com longos cabelos negros e olhos castanhos.
Le suilannon*, Tittë! – ela disse, se aproximando e beijando-a em ambas as faces – Aguardávamos sua chegada com ansiedade.
– Obrigada. – conseguiu falar.
Passou os olhos pelas outras Filhas e sentiu-se intimidada. Todas elas estavam ali agora e vendo-as, cada uma muito diferente da outra, pareceu que havia aceitado seu destino e aquilo era um pouco sombrio.
– Meu nome é Varniel. Serei sua protetora aqui, até a chegada hora. – ela disse segurando as mãos dela – Venha, Tittë. Vou apresentá-la às suas irmãs.
À um sinal de Varniel, três das Filhas colocaram-se à frente. Elas eram brancas como neve, os olhos eram claros e a única diferença entre elas eram a cor dos seus cabelos, pois pareciam ser trigêmeas elfas.
– Essas são Erunámë, – ela apontou para a elfa de cabelos ruivos cacheados e compridos – Eruvë – ela apontou para a elfa de cabelos azuis curtos – e Verdelë. – apontou para a última elfa, que tinha cabelos negros. – Essas são as três Filhas Elfas.
Nin acenou com a cabeça para cada uma delas e as três se afastaram, como se a visão dela não fosse agradável. Atrás delas surgiram mais três mulheres, também brancas, mas com algo diferente nelas que não conseguiu identificar.
– Essas são Laimiel – apontou para a mulher de cabelos castanhos fartos, que limitou-se a encará-la – Aeriel – a mulher de cabelos e olhos violeta acenou alegre – e Emel. – a menor de todas, que parecia jovem, mas ao mesmo tempo não, com cabelos loiros e olhos verdes deu um sorriso de orelha a orelha. – Essas são as três Filhas Meio-Elfas.
As três colocaram-se para trás e mais duas apareceram tomando seu lugar. Completamente diferente das que havia visto, Nin teve certeza que as outras duas eram humanas como ela, mas eram muito diferentes uma da outra.
– Essas duas são Dirwen – ela apontou para uma garota de cabelos longos e brancos, com os olhos em um tom azul muito claro e que parecia muito frágil – e Arien. – a outra fez um aceno com a cabeça, com seus olhos castanhos e seus curtos cabelos da mesma cor. – São as outras duas Filhas Humanas. Agora, com você, as Filhas estão completas.
Sem saber o que fazer, Nin apenas sorriu, o que fez Varniel sorrir também.
– Deve estar cansada. Venha comer alguma coisa e descansar. Depois poderemos conversar sobre o que quiser.
Nin acompanhou a elfa sem muita vontade. Depois de comer e descansar um pouco, estava entediada. Conheceu os arredores da casa, foi informada de que deveria permanecer no máximo nos jardins e que nunca deveria ir sozinha para fora. Viu que a casa era guardada por muitos e muitos elfos, que cuidavam para que elas não saíssem.
Incomodada, percebeu que não havia um único lugar naquela casa que as Filhas não estivessem, a não ser a fonte, o único lugar que ela não queria ir. Chateada, viu-se obrigada a se esconder no local onde a fonte ficava, pois ali não havia ninguém.
Estava sentada havia alguns minutos quando percebeu que outra Filha a olhava da porta. Era uma das humanas, a de cabelo curto. Sem vontade de ser simpática, apenas voltou os olhos para a fonte, mas ela não se intimidou, aproximando-se desajeitada.
– Não quero incomodá-la. – ela falou, jogando-se com vontade do lado de Nin – Mas aquelas garotas me irritam e você parece ser menos falante.
Naquele momento Nin percebeu que ela era a única que estava armada. Todas as outras vestiam-se impecavelmente com seus vestidos élficos, sem parecer se importar com nada além disso.
– Seu nome é Tittë, certo? – ela perguntou, curiosa.
A garota não estava procurando alguém menos falante, concluiu. Ela estava procurando alguém que falasse de coisas mais interessantes. Nin observou-a antes de responder: ela não era muito alta e com os cabelos curtos parecia mais um menino. A espada dela estava dentro da bainha em sua cintura e ela parecia odiar vestidos, somente pela forma como era desleixada com eles. Sentindo um sorriso escapar-lhe, encarou-a.
– Eu sou Nin. – falou, estendendo a mão para ela.
– Eu sou Arien. – ela apertou sua mão, contente. – Estou há uma semana aqui.
– Conte-me Arien… o que fazem por aqui? O que descobriram a respeito de nós?
Arien encarou-a sombriamente.
– Olha, nem tente perguntar isso para aquelas Filhas Elfas, elas me ignoraram desde o momento em que cheguei. As Meio-Elfas são legais, mas um pouco fúteis. Não compreendem exatamente porque estão aqui e não fazem muita questão de saber. Já a outra humana, a tal Dirwen, é completamente sedada. Ela parece nem ser de qualquer mundo que eu já tenha ouvido falar.
Nin encarou-a profundamente e se aproximou.
– Você quer dizer que… – abaixou o tom de voz, que saiu em um sussurro – Ninguém está fazendo nada para descobrir o que temos que fazer para o Senhor das Sombras sucumbir?
– Sim, é isso que estou lhe dizendo. – ela respondeu no mesmo tom – Nenhuma delas parece interessada e estão contentes em estar a salvo.
– Isso é ridículo! – grunhiu – Se não descobrirmos logo, agora que estamos todas juntas, podem nos matar!
– Eu tentei dizer isso à elas, mas a tal Varniel disse que eu estava fazendo muita confusão por pouca coisa. Então resolvi olhar as coisas por minha conta.
– Descobriu algo?
– Há muitos documentos e eu não compreendo muitos deles, pois falam muito sobre a última guerra e eu não sei nada disso.
– Ninguém contou para você sobre a última guerra?
– Ahn… não. – ela encarou Nin – Quem te contou?
Nin virou o rosto no mesmo instante, culpando-se por comentar aquilo. Pensar naquele mago idiota doía.
– O meu guardião.
– Nossa. – ela encarou o nada, parecendo entediada – O meu guardião era um ser muito estranho!
– O meu não era tão diferente de estranho também.
– Mas é sério! – Arien a encarou com um olhar enojado – Ele era muito esquisito. Ficava o tempo todo falando de si mesmo e em como as mulheres se apaixonam por ele. Cheio de cavalherismo… imagine, pra cima de mim!
Nin deu um sorriso irônico.
– O seu pelo menos não dava uma de sabe tudo.
– Ele tentava. Sabe porque chegamos só semana passada? Porque ele se apaixonou por uma humana e não queria me trazer. Maluco de pedra. Pelo menos aqui dentro não tenho que vê-lo todo dia.
– Não tem que vê-lo? – Nin encarou-a estranhamente – Como assim?
– Sim. Ele está lá fora, junto com os outros guardiões ajudando nas proteções daqui. O seu não está lá?
Nin abriu a boca, mas deu um sorriso amarelo.
– Claro. – falou, aproximando-se novamente dela e recebendo um olhar estranho da humana – Arien, eu preciso ver esses documentos.
– Somente amanhã. A noite Varniel fecha a sala dos documentos.
– Muito bem. Amanhã pela manhã faremos isso, certo?
Dando um sorriso enorme, Arien espreguiçou-se.
– Ah! Eu sabia que você era parecida comigo! Não vejo a hora de usar minha espada de novo… sem esse vestido.
– Eu também.
E as se encararam seriamente por alguns segundos e começaram a rir baixinho. Nin não se sentia bem assim há algum tempo e não achou mal ter alguém para contar. Só esperava que Arien fosse melhor com armas do que com vestidos.

            ***

            No dia seguinte, logo pela manhã, Nin e Arien tomaram café calmamente e, assim que as Filhas se dispersaram, as elfas sempre juntas, as duas humanas foram para a sala dos documentos.
Arien parecia muito preocupada. Remexia os documentos com atenção, separando alguns e movendo outros, e, depois de alguns minutos e parecendo satisfeita, ela chamou Nin mais para perto.
– Veja, eu separei os mais interessantes.
Nin pegou o primeiro e começou a ler. Era algo como um resumo da guerra do Um Anel, explicando o que os elfos fizeram na guerra e toda sua desenvoltura.
– Me explique sobre a guerra.
– Eu não sei muito também. O que eu sei é que o Senhor das Sombras, que chamavam de Sauron, forjou vários anéis, mas o Um Anel era o que governava todos os outros… mas eles conseguiram destruir esse Um Anel. E Sauron foi destruído.
– Mas se esse Sauron foi destruído, como ele está tentando matar a gente?
– A Rainha Gloriel me disse que o mal nunca morre de verdade. Somente adormece.
– Isso não é muito legal, né? Veja só, vamos conseguir agora, mas daqui alguns duzentos anos vai voltar.
– Não faço ideia se realmente é isso, Arien. Mas foi o que ela me disse.
– Muito bem. E esse outro aqui?
Nin leu o documento com cuidado, mas não compreendeu muito também. Falava novamente sobre os anéis, mas dessa vez sobre os anéis dados aos nove reis humanos e no que eles se transformaram na última guerra. Quando estava concentrada percebeu que havia dois olhos verdes a encarando com curiosidade do outro lado da mesa. Ao ser percebida, uma das filhas meio-elfas deu um pulo para trás, dando um sorriso enorme.
– Oi! O que estão fazendo?
– Ahn… oi. – falou Arien, sem saber o que fazer.
– Seu nome é Tittë, né? Eu gostei dele. É forte. É bem melhor que Emel.
A menina continuou falando várias coisas ao mesmo tempo, visivelmente querendo atenção.
– Estamos descobrindo o que precisamos fazer para deter o Senhor das Sombras.
– Ah, é mesmo. Ele quer nos matar né? Por isso estamos aqui. Seguras. Não é? – ela sorriu e encarou-as, esperando uma resposta feliz.
– Sim… e se não descobrirmos o que fazer, vamos morrer. Então nos deixe trabalhar. – resmungou Arien, visivelmente incomodada com a menina.
– Posso ajudar? Posso? Prometo ajudar!
– Pode. – falou Nin rapidamente, puxando uma cadeira – Sente-se aqui e escute, certo?
– Sim! Que bom que querem minha ajuda. As outras nem querem falar comigo. Dizem que eu falo demais, é verdade?
– Sim. – grunhiu Arien, voltando os olhos para Nin – O que pensa estar fazendo com essa pentelha aqui?
– Espera. Emel, certo? – perguntou Nin, fazendo com que a menina acenasse feliz – Muito bem. Sabe ler?
– Claro!
– Então leia isso e me explique o que entendeu.
O documento sobre os nove anéis começou a ser lido pela menina e Nin respirou. Achando que estava ajudando, a menina ficaria quieta por um momento e deixaria Arien e ela pensarem.
Ao pegar o próximo documento, no entanto, não conseguiu lê-lo. Estava inteiramente escrito em élfico.
– Ah, que ótimo! – grunhiu e mostrou para Arien.
– Ah sim, eu pensei a mesma coisa. Ei, baixinha. – falou Arien para Emel – Troca de papel comigo?
– Claro. Esse tá muito chato mesmo. Nove anéis para nove humanos e coisa assim. Não entendi muita coisa! – ela pegou o outro pergaminho e deu um sorriso enorme – AH! Agora sim, élfico! Pelo menos isso eu entendo.
Arien e Nin instantaneamente se encararam, estupefatas.
– Você entende élfico? – perguntou Nin, chocada.
– Claro. Vocês não entendem? – ao ver a feição delas, Emel sorriu – Não sabem usar seus poderes, né? Estão perdendo tempo. Mas eu ajudo vocês.
– Quanto tempo você leva pra traduzir isso? – perguntou Nin rapidamente, aproximando-se da menina.
– Ah… é bastante coisa. Acho que um ou dois dias.
– Muito bem. – falou Arien, visivelmente mais feliz com Emel – Então você faz parte de nossa busca, Emel. Não nos decepcione.
Completamente feliz, Emel deu pulos de alegria.
– Sim! Sim! Sim! – ela voltou a se sentar, feliz – Vou traduzir nesse pergaminho em branco. Hora do trabalho!

            ***

            Após sonhar com a Rainha Naiandil, Nacil tinha um plano em mente. Estava sendo estúpido e pensando demais como humano. Ao sentir seus poderes fluirem e ouvir seu coração, sabia exatamente o que fazer.

A Rainha Gloriel estava o aguardando. Havia solicitado uma reunião com ela pela manhã e, incrivelmente, conseguira. Ela estava no pátio central, onde fazia reuniões com seu conselho e recebia seus convidados.

– Nacil! Seja bem vindo. – ela sorriu e pediu que ele se aproximasse. – Em que posso ajudá-lo?

– Eu gostaria de me alistar no grupo da caça aos inimigos no leste, senhora.

– Mas o grupo partiu há dois dias, Nacil.

– Sim, senhora. Mas eu posso alcançá-los.

Ela balançou a cabeça em afirmação, parecendo querer ler seus pensamentos e, então, falou em um sussurro:

– O que te incomoda, Nacil?

– Não consigo mais ficar aqui, Rainha. Preciso distrair meus pensamentos.

– Oh… – ela murmurou, solidária, compreendendo do que ele estava falando – Muito bem. Está livre para partir e encontrar o grupo.

            – Obrigado, senhora.
E, com uma reverência, ele saiu, deixando a Rainha para arrumar suas coisas. Precisava organizar-se o melhor que podia. Em seu quarto, arrumou todas as armas que conseguiria levar enquanto voava. Chamar Azulth tão próximo de Valfenda não era sensato e deixaria para encontrá-lo mais para frente. Quando estava na porta do quarto, sua visão foi inundada por luz. Tentando se concentrar, percebeu que não conseguia enxergar.

Nacil…

            A voz da Rainha Naiandil preencheu seus pensamentos e, mesmo sem enxergar, voltou para o quarto, tentando se segurar na parede para não cair.

Nacil, antes de partir, vá até a fonte e escute. Não seja visto. Precisa saber o que está acontecendo.

            E, assim como apareceu, a luz sumiu, deixando-o sozinho. Olhando em volta, esperando se algo mais apareceria, pegou suas coisas e dirigiu-se até a fonte, o mais silencioso que seu caminhar de elfo lhe permitia.
Ao se aproximar, percebeu que duas pessoas conversavam ali dentro.
– Senhora, está tudo pronto.
– Que bom… – a voz da Rainha Gloriel ecoou na gruta, mas só era ouvida porque Nacil estava bem próximo – Sabe onde elas estão, não sabe?
– Sim. Será fácil atacá-las, senhora? Quantos Guardiões estão lá?
– Oito e mais alguns elfos. Mate todos.
– Oito?
– Consegui me livrar de um deles. O mais esperto, felizmente.
– Certo. Atacaremos em uma semana então.
– Muito bem, Kanor. – ela falou.
E então Nacil sentiu. Por alguns segundos, conseguiu se desviar da magia que a Rainha lhe lançara, mas não fora suficientemente rápido para que ela não o visse.
– Pegue-o! – ela grunhiu para Kanor, mas tarde demais.
Nacil levantou vôo e, o mais rápido que pôde, fugiu de Valfenda. Precisava encontrar as Filhas antes que fosse tarde demais.

FIC – As Filhas

Capítulo 5 – A Rainha de Valfenda

            Logo depois de Nin e Nacil voltarem para o refúgio, o elfo começou a preparar suas coisas para poderem ir para o outro mundo. Ela ficou apenas ali olhando, sem saber o que fazer. Estava sentindo-se ansiosa para conhecer a Terra Média, como o homem lhe dissera, mas não tinha certeza de que aquilo seria algo bom.

            Depois de quase duas horas, quando o céu estava claro e com um sol lindo, Nacil apareceu com uma bolsa de um couro igual ao de sua armadura. Ele estava com as asas abertas e não tinha nada de humano naquilo. Seus longos cabelos negros estavam presos em um rabo de cavalo e seus olhos estavam mais verdes do que o normal. Nin ficou olhando enquanto ele arrumava sua bolsa e algumas armas em volta de Azulth, que parecia uma ave muito feliz.

            – Podemos ir agora, Tittë.

            Ela assustou-se com o corte em seus pensamentos. Assentiu levemente, levantando-se.

            – Nós vamos a uma cachoeira de um rio aqui próximo. Ali é a entrada para o nosso mundo. Venha, lhe ajudo a subir. Como estarei na minha forma original, terá que ficar na minha frente.

            Assim que estavam firmes em cima de Azulth, a águia levantou vôo. Nin estava sentindo um nervosismo muito grande. Desde aquela madrugada, onde vira que a marca começara a se formar em seu ombro e decidira ir para esse mundo onde nascera, sentiu que tudo estava correndo muito rápido. Não contara a Nacil sobre a marca, mas achava que não seria necessário, já que eles já sabiam quem ela era.

            Quase dez minutos depois, eles chegaram em uma pequena nascente, que logo se transformava em um rio de tamanho médio. Como era na montanha, o rio caia, transformando-se em uma linda cachoeira. Azulth parou na frente dessa cachoeira, esperando.

            – E agora? – perguntou, curiosa.

            Nacil ergueu os braços para o céu, falando em élfico de uma forma que ela nunca vira antes. Em volta dela, todas as pedras visíveis começaram a brilhar e, então, a cachoeira se abriu, mostrando um túnel grande. Azulth piou alegremente e voou para dentro do túnel escuro com habilidade.

            Para Nin, eles estavam voando normalmente, mas na medida que a luz ao fim do túnel se aproximava, ela pode ver que a velocidade que passavam por ali era fora do normal. Surpresa, a luz estourou nos seus olhos e demorou alguns minutos para se acostumar com ela. Quando conseguiu, abriu a boca em espanto.

            Havia um mar imenso. Algo que ela nunca havia visto com os próprios olhos. Encantada, ela ficou em silêncio, enquanto Azulth continuava seu vôo. Nacil olhou para ela, preocupado, mas sorriu ao ver seu choque.

            – Bem vinda à Terra Média, Tittë. Seu lar.

            ***

            Após algumas horas de viagem, a visão de um mar longínquo a deixou com sono. Pegou-se várias vezes pescando, mas não queria mostrar fraqueza ou tédio. Após alguns minutos de tentativas frustradas, porém, sentiu sua cabeça pesar e encostar no peito de Nacil e seu sono a venceu.

            E então ela viu um lugar tão lindo que seus olhos doíam pela força que fazia para não chorar.

            – Mamãe… o que está acontecendo?

            A vozinha de uma menina chamou sua atenção e ela olhou para o lado. Ali estava uma garotinha loirinha dos olhos azuis ao lado do que parecia ser a mulher mais linda que Nin já vira.

            – Tittë, o mundo vai procurá-la e preciso protegê-la.

            – Porque, mamãe?

            – Porque você é especial… – a mulher sorriu, passando a mão no rosto da menina e então olhando para Nin – Você é especial, Tittë. Tenn’ enomentielva!*

            Sentindo seu coração bater tão forte que parecia que ia sair do peito, Nin levantou a mão para alcançar sua mãe quando um grande e forte baque pareceu arrancá-la daquele mundo perfeito. Ao olhar em volta, só havia destruição. E uma sombra gigantesca comandava tudo, parecendo ter um olho sem pálpebras a observando. Dando um grito de horror, ela remexeu-se e então sentiu dois braços fortes a segurando.

            – Tittë!

            Abriu os olhos, assustada, e encontrou os olhos verdes de Nacil.

            – Está tudo bem?

            Ainda ofegante, Nin olhou em volta. Estavam no solo e ela estava deitada ao lado dele em um colchonete improvisado. Ainda tentando raciocinar, encarou-o.

            – Não estávamos voando?

            – Sim. Mas Azulth estava cansado e tivemos que parar. Amanhã continuaremos.

            Ela assentiu devagar, imersa em seus próprios pensamentos. Mesmo dormindo o bastante (já estava noite), sentia-se completamente exausta.

            – Está com fome? – perguntou Nacil, oferencendo comida e hidromel para ela.

            Sem responder, pegou a garrafa de hidromel sem vontade e tomou um gole.

            – Você deve comer Tittë.

            – Não sinto fome.

            – A viagem entre mundos é cansativa para quem não é acostumado. Coma. – ele colocou um pedaço de pão na mão dela.

            Olhou para aquele pão e seu corpo pareceu responder. Comeu-o inteiro e, no final, já se sentia melhor.

            – Onde estamos, exatamente?

            – Próximos de Valfenda. Seriam mais alguns dias de viagem a pé, mas não quero me dar ao luxo de encontrar algum inimigo.

            – Inimigo?

            – Sim, Tittë. Se no mundo onde estávamos a guerra já estava começando, nessas terras a guerra dura dezoito anos.

            – Dezoito anos? Isso quer dizer…

            – Sim, Tittë. Desde que as Filhas nasceram.

            Sentindo-se culpada, encarou o chão, tomando mais um gole de hidromel.

            – E como faço isso parar?

            – Teremos que conversar com a Rainha de Valfenda. Ela te explicará o melhor caminho. Eu sou um simples guardião.

            As palavras foram simples e ditas de forma sutil, mas Nin compreendera que havia algo mais atrás daquela frase. Enquanto tentava buscar o motivo dessa sensação, Nacil bocejou e se ajeitou em seu colchonete.

            – Vamos descansar, Tittë. Terá um longo dia pela frente amanhã.

            Nin assentiu, mas seus olhos não se fecharam mais, e seus pensamentos correram soltos durante a madrugada. Quando quase estava adormecendo novamente, Nacil levantou-se em um pulo. Abraçou Nin e em segundos, suas asas se abriram.

            – Mas o quê?

            – Shiii! – ele pôs a mão na boca dela em sinal de silêncio.

            E então ela ouviu. Barulhos leves, mas distintos, como se vários pés estivessem a sua volta e em instantes, seus atacantes apareceram.

            Eram menores que eles dois, mas sua pele era esverdeada. Suas orelhas eram pontudas como a de Nacil, mas seus rostos eram deformados, como se passassem muito tempo fazendo caretas horríveis. Usavam roupas puídas e velhas, não parecendo nem um pouco preocupados com isso.

            Nacil não se mexera. Continuava a abraçando com força, mas ela percebeu que sutilmente ele segurava o cabo de sua espada. Antes que pudesse atacar, porém, ele abriu suas asas. Os seres pularam para trás com o susto, mas assim que se recuperaram, eles se lançaram todos para cima dos dois.

            Nin segurou o cabo de sua espada também, mas Nacil segurou-a no colo em segundos e levantou vôo, deixando seus oponentes abaixo deles. Sem compreender, ela encarou-o, mas ele não parecia disposto a conversar.

            Azulth logo os alcançou, percebendo que o dono voava por conta. Ele não parecia se importar com o peso extra que ela era, mas ao ver sua águia, pediu que Nin subisse nela.

            – Vamos voar com Azulth, ele é mais rápido. – ele disse, colocando-a na ave e sentando atrás dela.

            – O que eram aqueles seres?

            – Eram elfos drool, como são chamados. São elfos que desistiram de sua beleza para ter mais vida e força. – ele suspirou irritado – E são muito… espertos para desvendar os medos dos seus adversários.

– Como assim?

– Nada demais… – ele resmungou, continuando sua explicação – Entre os elfos existem muitas raças diferentes, Tittë. O mundo não é o mesmo do que milênios atrás, quando o Um Anel foi destruído. Muito mudou.

            – Milênios? – ela encarou-o, perplexa – Você tem milênios de vida?

            Ele a encarou também, irônico.

            – Eu sou bem mais velho do que você.

            – Mas… milênios? – a voz dela saiu esganiçada e ele riu.

            – Não tenho todo esse tempo de vida. A guerra do Um Anel foi há muito tempo e meus avós participaram dela. – ao ver que ela ainda estava o encarando com horror, ele fechou a cara e voltou os olhos para o céu – Eu nasci bem depois disso, se isso te incomoda.

            – Mas não tem dezoito anos, como eu?

            – Você tem dezessete anos. – ele lembrou-a.

            – Dá na mesma, mago, é só um ano. – balançou os ombros, olhando para frente.

            – Um ano pode não ser muito tempo. – ele concluiu sombriamente.

            Nin voltou os olhos para cima, vendo Nacil encarar o céu com um vigor e força que ela nunca havia visto. Ele parecia muito maior vendo-o naquela posição e muito mais… bonito. Sentindo-se enrubescer por algum motivo idiota, ela voltou os olhos para frente, enrijecendo os músculos.

            – Está tudo bem? – ele murmurou ao perceber quão tensa ela estava.

            – Está sim. Estou só cansada.

            Os dois ficaram em silêncio pelo resto da viagem, com Nin torcendo para chegarem logo. E, quando o sol despontou no horizonte, ela pode ver que passavam por uma linda floresta embaixo deles. Azulth desceu em uma pequena clareira no meio das árvores e Nacil saltou, ajudando-a a descer.

            – Por aqui, Tittë.

            Ela foi pegar sua mala, mas Nacil pegou antes dela. Sentindo sua onda de raiva invadi-la terrivelmente, respirou fundo e a arrancou das mãos do elfo.

            – Eu carrego minhas coisas.

            Os olhos do elfo pareceram escurecer por alguns segundos e então voltaram a cor verde. Ele simplesmente foi na frente, indicando o caminho para ela. Após alguns minutos de caminhada, a floresta foi ficando mais aberta e, podia jurar, mais brilhante. Quando chegaram ao que parecia ser uma escadaria de mármore, seu corpo congelou.

            No último degrau estava a mulher mais linda que ela já vira. Com longos, mas muito longos cabelos loiros, olhos de um azul claro como o céu e uma aura pulsante e forte, ela estava majestosamente em pé, como se fosse uma estátua. Seu corpo se retesou na hora que a viu e não sabia o que fazer.

            “Bem vinda Tittë Onorar. Aguardávamos sua chegada”.

            A voz da mulher penetrou em sua mente de forma perfeita, sem lhe incomodar. Nacil aproveitou seu momento de distração e pegou a mala da mão dela, colocando a mão gentilmente em suas costas e mostrando-a que deveria subir as escadas.

            Ao ficar frente a frente com aquela mulher, sentiu seu coração se apertar. Ela lembrava a mulher que vira nos seus sonhos, mas não era a mesma. Algo lhe dizia que as duas eram parentes. Sem saber o que fazer fez uma reverência, pois percebeu que aquela deveria ser a Rainha de Valfenda.

            “Venha, criança. Precisamos conversar… o tempo passa muito rápido”.

            Olhou para Nacil, mas ele continuava com a cabeça baixa, sem encará-la. Engoliu em seco e segurou a mão que a mulher lhe estendia, acompanhando-a. Caminharam por um corredor de mármore branco, e, no fim dele, havia o palácio mais inexplicavelmente lindo que ela já vira. Tudo era branco e marfim, brilhando contra o sol da tarde. Cachoeiras caiam em volta de todo o lugar, deixando aquele barulho de água corrente inundar seus pensamentos.

            – Tittë, bem vinda a sua casa. – a voz da mulher preencheu seus ouvidos como música.

            – Ahn… obrigada. – conseguiu responder.

            – Meu nome é Gloriel.

Nin encarou-a profundamente, sem coragem para dizer que seu nome não era Tittë. Não sabia porque, mas não se incomodava mais tanto em ser chamada por aquele nome estranho. Devia ter se acostumado com Nacil a chamando daquele jeito. Olhou em volta, procurando pelo elfo. Por mais que a mulher parecesse alguém importante e especial, não sabia o que fazer ali. Ficar sem o mago por perto parecia algo errado.

            – Ele cumpriu sua missão. – ela disse, sorrindo, ao ver quem ela procurava – Está com seus afazeres por hora, mas poderá vê-lo depois. Agora venha até minha casa, Tittë. Vamos conversar.

Caminhou ao lado da Rainha por corredores floridos. Tudo aquilo que se admirara em ver no refúgio de Nacil não eram nada comparados à beleza daquele lugar. Podia ficar dias olhando, que sempre encontraria algo mais belo ainda para ser visto. Sentindo que estava perdendo a Rainha de vista, parou de olhar em volta e a seguiu mais de perto.

Elas entraram em um salão decorado com tons azuis e violeta, algo muito sutil e ao mesmo tempo profundo. A Rainha mostrou um pufe azul claro e pediu que ela se sentasse. Ofereceu frutas e sucos para ela, e, depois que Nin comeu, ela deu um sorriso profundo.

– Tittë, o que você lembra sobre sua vida aqui?

– Nada.

– Não lembra dos seus pais?

Nin não sabia o que podia contar para a mulher, mas como ela era muito parecida com a mulher dos seus sonhos, resolveu perguntar.

– Quando cheguei na Terra Média eu tive um sonho… eu vi uma mulher que lembra muito a senhora, mas não era a senhora… Ela era… era minha mãe?

– Todos sempre disseram que Naiandil e eu éramos muito parecidas.

– Naiandil?

– Sim… ela era sua mãe. Eu sou a irmã gêmea dela, sua tia.

Um pouco chocada com a informação, Nin olhou em volta, como se esperasse ver sua mãe saindo de alguma porta.

– E… onde ela está?

– Ela, quem, menina?

– Minha mãe.

A Rainha fechou os olhos com dor e os abriu novamente, segurando as duas mãos dela e Nin respirou fundo. Deveria ter imaginado que sua mãe a recepcionaria se estivesse… bem, viva.

– Sua mãe faleceu há doze anos, quando a mandou para o outro mundo para ser protegida.

– Oh. – balançou os ombros.

Estava triste por saber que sua mãe havia morrido por ela, mas como não lembrava de tê-la conhecido, parecia que seus sentidos a enganavam. Era como se já soubesse de tudo aquilo.

– E meu pai?

– Sir. Aglargon era o rei de Valfenda na época e pereceu tentando conter os monstros que a procuravam. Graças aos céus sua mãe conseguiu enviá-la em segurança. Hoje temos nossa princesa novamente.

– Pri-princesa? – ela engasgou-se, surpresa.

– Obviamente… além de ser uma das Filhas, você é filha do Rei Aglargon. O povo daqui aguarda sua chegada.

– Rainha, eu-

– Me chame de Gloriel, Tittë. Somos uma família agora.

Engolindo em seco e sentindo a garganta se comprimir, ela encarou a mulher firmemente.

– Hum… Gloriel, eu gostaria de saber… Sou uma das Filhas. Onde estão as outras? Se elas servem para impedir o Senhor das Sombras de se reerguer, como isso é feito?

– Você é peculiar, Tittë. – Gloriel sorriu e Nin sentiu um pingo de sarcasmo em sua voz, apesar de não compreendê-lo. – Veja bem… as Filhas nasceram em um tempo que a guerra já estava nascendo nos corações escuros. Foi motivo de festa descobrir que as Nove Filhas haviam nascido… algumas antes de você, outras um ou dois anos depois. Nesse período o mal perseguia todas as meninas desse mundo, tentando descobrir onde se escondiam essas meninas capazes de reerguer o Senhor das Sombras ou subjugá-lo para sempre. Cinco anos após seu nascimento, Valfenda foi atacada… Antes de eles entrarem em nossas terras, a Rainha Naiandil mandou-a para este outro mundo, aos cuidados de alguém conhecido dela.

– Omar?

– Não sei seu nome, mas se foi esse quem a acolheu, com certeza era o conhecido da rainha. E aqui, aos poucos, as Filhas foram mandadas para outros mundos, na esperança de que pudessem estar seguras. E elas estavam, até agora. Tivemos que trazê-las de volta, pois a guerra só está aumentando e alcançando os outros mundos.

– E como paramos essa guerra? O que precisamos fazer?

– Eu não sei totalmente… – ela suspirou e encarou-a profundamente – Veja, Tittë, temos antigos documentos sobre as Filhas, mas nada específico. Tudo está confuso nesses dias. – ela parou um pouco e respirou, parecendo triste com a história – O que sabemos é que todas vocês, juntas, deverão subjugá-lo, mas ainda estamos estudando essa forma, pois deve ser feito o quanto antes. O Senhor das Sombras não pára de crescer.

– E quem é esse Senhor das Sombras?

– É o mal, Tittë. Pura e simplesmente o mal.

A Rainha deu um sorriso e segurou as duas mãos dela.

– Iremos mandá-la para o local onde as outras Filhas estão, portanto não se afobe. Lá poderão conversar e ler os documentos à procura de algo, enquanto são protegidas.

Nin ainda estava meio atordoada com a quantidade de informações que recebera. Encarando o chão, deixou sua mente fluir os pensamentos. Não havia certeza sobre o que deveria ser feito, mas seu destino estava selado de qualquer forma: ou morreria para que o mal prevalecesse, ou o subjugaria para que ele não existisse mais.

            Gloriel segurou sua mão e a levantou, dando um sorriso.

            – Vou chamar Nacil para acompanhá-la aos seus aposentos e mostrar o restante de Valfenda a você. Tenho que resolver algumas pendências, mas a noite teremos uma festa para comemorar sua chegada.

            – Ahn… tudo bem.

            – Seja bem-vinda, Tittë. Não tema mais, está em sua casa.

*Tenn’ enomentielva! – Até nosso reencontro!

            ***

            Assim que Nacil apareceu na entrada da casa de Gloriel, Nin sentiu-se melhor. Por mais que o elfo fosse muito chato em algumas ocasiões, ali ele era a única pessoa que conhecia. Apesar de sua felicidade, porém, ele manteve a cabeça baixa ao ser chamado pela Rainha e escutou atentamente ao pedido dela.

            – Nacil, mostre a ela os aposentos no primeiro andar. Você ficará nessa casa por essa noite, Tittë, tudo bem?

            Nin apenas acenou, sem conseguir dizer uma palavra.

            – E mostre Valfenda para a menina. Deixe que ela relaxe um pouco. Ao anoitecer traga-a aqui.

            – Ná*, Rainha.

            E, sem encará-la, ele apontou a saída, fazendo com que ela compreendesse que deveria sair. Um pouco irritada, passou por ele sem nem olhá-lo, caminhando decidida para fora.

*Ná – Sim.