FIC – As filhas

Capítulo 6 – A partida de Valfenda

            – Ei! EI! – ele grunhiu ao vê-la se afastando a passos decididos.

Nin não esperou. Continuou caminhando sem sentido, simplesmente querendo sair de perto daquele mago idiota. Qual era a dele, afinal? Mudava completamente de atitude com ela na frente dos outros, como se tivesse vergonha ou… o quê? Deferência? Aquilo sempre a irritara.

– Tittë! – ele falou, segurando o braço dela com firmeza e fazendo-a parar – Para onde está indo?

Ela soltou o braço e encarou-o. Ele pareceu perceber que algo estava errado e ergueu os braços em rendição.

– Você ouviu o que a Rainha disse, eu devo-

– Deve ser um idiota. É, eu ouvi.

Nacil aproximou-se dela, ficando a centímetros de distância. Apesar de sua cabeça alcançar na altura do peito dele, ela levantou os olhos e encarou-o com ódio.

– Não fale isso da Rainha, Tittë. – ele sussurrou, parecendo preocupado – Ela simplesmente me pediu para acompanhá-la!

– E isso impede que você me olhe nos olhos ou dirija a palavra a mim? Era como se vocês dois estivessem falando de uma pessoa que não estava presente!

Ele abriu a boca, sem parecer perceber por alguns instantes o ponto que ela queria chegar.

– Eu sei que a Rainha é toda poderosa, mas eu continuo sendo a Nin! Não preciso que me trate com deferência.

Nacil a encarou um pouco chocado e então pareceu compreender o que ela estava dizendo e deu um sorriso.

– Está dizendo que ficou chateada comigo?

– Não! – ela grunhiu, nervosa – Estou dizendo que você é um idiota!

Nin colocou os braços na cintura, ainda irritada, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, Nacil abaixou-se até a altura dela e ficou a milímetros de sua boca.

– Vamos passear, o que acha? – ele deu um sorriso contente ao ver o embaraço dela – Assim está menos problemático para você?

Com raiva, ela empurrou-o, virando as costas para que ele não visse a vermelhidão que seu rosto deveria estar. Ele deu uma risada e estendeu o braço.

– Me acompanha?

Ainda irritada, ela passou direto por ele, ignorando completamente o braço oferecido e continuou andando para onde achava que deveria ir.

– Depois eu que sou o rude! – ele murmurou, acompanhando-a – Tittë, espere! Não é por aí!

***

            Valfenda era um lugar muito lindo e ao mesmo tempo carregado. Não sabia dizer o porque dessa segunda parte, mas ao comentar com o mago, ele concordou, dizendo que ali houvera muitas guerras, mas a última deixara sequelas terríveis nas terras de Valfenda. Enquanto pensava no que Nacil dissera, o acompanhava pelos corredores entre as árvores,  e ele continuava mostrando vários lugares diferentes e contando sua história.

– Então, depois da guerra do tal Um Anel, todos os elfos partiram da Terra Média? – perguntou, assim que passaram pelo caminho que os elfos percorreram para sair.

– Sim. Todos foram para os Portos Cinzentos, que é uma passagem dimensional, como eles acabaram descobrindo. Os meus antepassados acabaram indo para o mundo onde você foi mandada. Lá criaram raízes por alguns anos, mas acabaram voltando para Valfenda.

– E porque voltaram?

– Nós somos imortais. Naquele mundo, nos tornávamos semi-mortais, ou seja, éramos suscetíveis a morte. Não como os humanos, mas havia essa possibilidade. Portanto, eles voltaram.

Eles voltaram a andar e Nin pensou alguns minutos sobre o que o homem dissera.

– Você… conheceu meus pais? – perguntou abruptamente.

Nacil encarou-a no mesmo instante e acenou em afirmação.

– Sim. Eu fui selecionado por eles para ser seu guardião desde pequena, mas quando a guerra chegou aqui e você foi mandada para outro mundo, Valfenda foi dominada por elfos drool e eu tive que ficar para ajudá-los a lutar. Sabíamos que a Rainha Naiandil cuidara pessoalmente de quem a encontraria naquele mundo.

– Então Omar conhecia tudo isso?

– Não sei se ele conhecia ou simplesmente sonhou com tudo, mas quando você apareceu ele deve ter compreendido o pedido da Rainha, pois hoje você está a salvo.

– Aqueles seres que encontramos, são esses tais elfos drool, certo?

– Sim…aqueles. – Nacil grunhiu, parecendo irritar-se – Eles odeiam os elfos, e fazem o possível para destruí-los. E quando conseguiram tomar Valfenda e matar seus pais a mando do Senhor das Sombras, ficaram um bom tempo por aqui. Até que a Rainha Gloriel conseguiu expulsá-los, tornando-se nossa rainha. E foi então que fui mandado na missão de trazê-la de volta para casa.

Nin acenou com a cabeça, pensando nos seres que encontraram por poucos minutos e lembrou-se de algo que o mago dissera.

– Você tinha dito que eles eram capazes de despertar nossos maiores medos… não disse?

Nacil ficou em silêncio abruptamente. Seus olhos viraram para o outro lado, incomodados. Não parecia saber ao certo o que falar, mas por fim a olhou nos olhos.

– Eles entram na mente dos outros e mostram seus maiores medos. É sua melhor chance para uma batalha, pois são mais fracos e mais inúteis do que um rato.

– Eles não entraram na minha mente. – comentou.

– Não, na sua eles não entraram. – falou Nacil, e ela percebeu que os olhos dele escureceram por alguns instantes – Venha, Tittë, quero lhe mostrar algo.

Após descerem até o que parecia ser um lago, percebeu que havia um caminho de pedras que atravessava o lago até o meio. Nin se surpreendeu ao ver que havia uma gruta feita com pedras brancas e brilhosas. Uma fonte jorrava ali dentro e o que parecia ser pequenos pontos luminosos rondavam ali. No momento em que ela viu os pequenos pontos, poderia jurar que viu um deles sorrir para ela.

– O que são esses pontos?

– Não tenho muita certeza. São seres iluminados que aparecem ao lado da fonte, para guiá-la em sua cura, como a fonte que tenho no meu refúgio.

– Mas lá não tinha esses pontos sorridentes.

– Pontos sorridentes? – ele pareceu confuso.

– Sim. Eles sorriem para mim.

Nacil olhou dela para os pontos, ainda não compreendendo, mas balançou a cabeça.

– De qualquer forma, eu disse que traria você para conhecer a fonte no nosso mundo, não disse?

– Aquela fonte que deixa as pessoas semi-nuas? – rosnou Nin, fingindo estar braba.

– Eu não tive nada a ver com aquilo! – ele respondeu, exasperado.

Nin não conseguiu segurar o riso por muito tempo e começou a rir, fazendo com que Nacil a encarasse menos preocupado.

– Você estava fingindo?

– Sim. Estou melhorando meu controle e enganando você, mago!

– Eu não sou mago! – ele grunhiu, revirando os olhos – Eu sou um elfo.

– E eu não sou Tittë, sou Nin.

Ele abriu a boca para falar algo mais, mas se calou. Seus olhos desviaram dos dela e ele sentou-se na entrada da gruta, parecendo incrivelmente longe. No mesmo momento Nin sentiu algo que deveria ser peso na consciência, mas afastou o pensamento.

– Olha… – ela aproximou-se dele, sentando ao seu lado – Eu não falei por mal. É só que… quando eu sou a Tittë, todo esse mundo espera que eu seja uma das Filhas, que eu salve o mundo, essas coisas românticas e sonhadoras. Todos esperam que eu seja o herói. E eu não sei se quero ser uma heroína. Por isso que me chamo de Nin.

– Não consigo chamá-la por esse nome. Parece errado e desrespeitoso. Se alguém me ouvir chamando você assim, eu sou expulso daqui!

– Então aguente eu te chamando de mago, porque, para mim, você é um mago e ponto final! – ela deu um sorriso irônico.

Ao ver que Nacil não se mexera, ela aproximou-se da água e pegou um pouco dela com as mãos, jogando diretamente na cabeça do homem. Fingindo enfurecer-se, Nacil abriu suas asas e se jogou em cima de Nin, atirando-a na água com ele. Encharcados, os dois se encararam brevemente e começaram a rir.

Nin ainda ria quando percebeu a proximidade do elfo. Ele estava por cima dela, na parte rasa da fonte, segurando seus braços. Seus lábios estavam quase encostados e, por um instante, ela quis beijá-lo e inclinou a cabeça. Nacil imitou-a e, no instante seguinte, ela ouviu um barulho muito alto do lado de fora da gruta, como se preenchesse cada canto de Valfenda e deu um pulo de susto, mas Nacil nem se mexeu.

– Eu devo levá-la de volta. – ele murmurou, ainda tão próximo dela.

– Eu… devo ir? – ela perguntou, confusa, não sabendo ao certo se queria ir.

– Venha. – ele engoliu em seco e levantou-a – Tenho que levá-la até a Rainha.

Os dois permaceram em silêncio todo o trajeto até a casa da Rainha. Nin ainda estava confusa e levemente envergonhada com o que acontecera, mas esqueceu completamente o que pensava ao ver Gloriel os aguardando na entrada da casa. Ela parecia mais majestosa do que da primeira vez que a vira e mais enfurecida também, provavelmente pelo atraso dos dois.

– Obrigada, Nacil. – disse a mulher ao vê-la chegando – Mas o que aconteceu com vocês dois que estão molhados?

– Eu caí na fonte da gruta. – falou Nin, dando um sorriso – Sou desastrada. Nacil foi me socorrer.

– Mas não se machucou?

– Não. Está tudo bem.

– Muito bem. Está dispensado, Nacil.

O elfo apenas fez uma pequena reverência e saiu, sem nem olhar para ela. Novamente aquela pontada de fúria a dominou, mas a Rainha rapidamente a retirou dali.

– Precisamos dar um banho em você, minha querida. Pedirei às elfas que providenciem isso imediatamente. Assim que terminar, eu venho ajudá-la a se vestir.

– A me vestir? – perguntou, ainda sendo arrastada pelos corredores.

– Sim. Nessa noite será apresentada a Valfenda como a última Filha encontrada e como princesa. Precisará estar nos conformes do nosso mundo.

Esquecendo completamente o que se passara, sentiu o pânico invadi-la. Vestir-se adequadamente deveria significar mais vestidos brancos.

            ***

            Assim que saiu do banho, a Rainha dispensou as outras elfas e levou-a para o seu quarto, cuidando pessoalmente de arrumá-la. Um lindo e longo vestido branco com detalhes em violeta repousava sobre a cama de Gloriel e uma sandália da mesma cor estava no chão.

Depois que Nin se secou e a Rainha a perfumou, ela ajudou-a a colocar o vestido, que, incrivelmente, ficou do tamanho exato, não tão longo como o que usara no refúgio de Nacil. As sandálias calçaram perfeitamente e a Rainha sentou-a em frente a um enorme espelho, e, pela primeira vez em muito tempo, ela realmente olhou para si mesma.

Estava com os cabelos desarrumados, mas parecia outra pessoa. Seus olhos pareciam mais azulados, como se ela estivesse usando lentes castanhas. O vestido dava um ar de realeza para ela e quando Gloriel colocou-se atrás dela e começou a pentear seus cabelos, não conseguiu mais parar de olhar para o espelho.

– Está tudo bem, Tittë?

– Ah… sim. Eu só… nunca me olhei no espelho dessa forma.

– Você é linda. Muito parecida com sua mãe.

– Obrigada.

Enqunto prendia seu cabelo, a Gloriel pareceu preocupada e ansiosa. Nin não compreendia o que era ser uma rainha, mas ficou curiosa.

– Está tudo bem, Gloriel? Parece… nervosa.

– Eu estou adiando para falar algo com você que vai magoá-la.

– Me magoar? – perguntou Nin, extremamente curiosa – E o que seria isso?

– Bem… – ela respirou fundo e encarou-a pelo espelho – Enquanto você estava no banho, Nacil veio conversar comigo.

– E o que ele queria?

– Ele veio me pedir para não ser mais seu Guardião.

– Como assim? – ela encarou a Rainha com fervor – Porque?

– Ele não me explicou todas as razões, só disse que não queria mais por um motivo. Eu, como boa observadora, posso lhe dizer a minha opinião.

– Por favor, o que ele disse?

– Ele me disse apenas que não conseguia mais ser seu Guardião, pois você não estava mais o olhando como simples Guardião. E eu concordo com ele, minha querida. Assim que vocês chegaram eu percebi que você nutria sentimentos por ele.

– Sentimentos? – ela grunhiu, raivosa – Só se for ódio.

– De qualquer forma, colocaremos outro elfo para guardá-la. Tenho certeza de que ele não a magoaria como Nacil fez.

Sentindo um ódio tremendo, ela teve vontade de sair daquela sala tranquila e ir atrás daquele mago idiota e espancá-lo até a morte. Como ele pôde fazer aquilo? Qual era o motivo real? Ele realmente não a protegera por livre e espontânea vontade?

– Minha querida, não o compreenda mal. Eu acredito que a decisão dele foi sábia. Ele sabe que você é uma princesa e uma das Filhas, alguém que está acima dele. Mesmo que ele fosse recíproco aos seus sentimentos, não acredito que vocês um dia teriam a chance de ficar juntos.

– Não sei do que está falando Rainha. – ela grunhiu, encarando a si mesma no espelho com ódio – Se é isso que Nacil deseja, eu aceito. Não quero forçar ninguém a me proteger.

Gloriel deu um sorriso e beijou a cabeça dela, mostrando que havia terminado de arrumá-la. Nin se olhou no espelho e viu que estava com porte de rainha e uma pequena coroa repousava em seus cabelos loiros.

– Aí está nossa princesa.

– Sim. – ela resmungou, virando os olhos para a parede – A princesa.

            ***

            A festa estava linda e decorada com flores das mais variadas cores. Quando ela entrou, foi aplaudida de pé por todos os presentes e sorriu, acenando como uma miss faria em seu antigo mundo. Ela era ótima mentirosa e naquele momento sorria como uma falsa.

Ela não queria estar sorrindo. Queria estar batendo em qualquer coisa que aparecesse em sua frente. Não vira o rosto de Nacil entre os elfos dali, mas era melhor assim. Se o visse era capaz de perder sua consciência e ser dominada pela raiva.

A grande festa de recepção de Tittë Oronar durou horas. Mesmo depois de comer e passar horas sendo passada de pessoa a pessoa para cumprimentar, sentia-se horrível. Queria ir para seu quarto, sumir. Quando a Rainha a liberou, pois sabia o quão cansada ela estava, Nin saiu o mais sutilmente que podia e foi para seu quarto.

Sentiu que alguém a acompanhava e parou, sabendo exatamente quem era. Sua fúria voltou e passou a mão no corpo, procurando sua espada. Infelizmente, havia ficado no quarto da Rainha.

– O que quer comigo, mago? – ela grunhiu, voltando seus olhos furiosos para ele.

– Você está linda. – murmurou ele, não parecendo ouvi-la.

– E você é um idiota mesmo. – sentindo seu ódio dominá-la, ela se aproximou dele com fúria.

– O que houve?

– Suma da minha frente! – ela gritou, sentindo as lágrimas caírem – Eu te odeio!

E, sem dizer mais nada, virou as costas para ele, correndo para seu quarto.

            ***

            Nacil fez menção de ir atrás dela, sem compreender, quando uma mão firme segurou seu braço.

– Nacil, acho melhor deixá-la sozinha.

Ao olhar de quem era a mão, quase se engasgou. Era a Rainha Gloriel. Curvando-se em uma reverência, ele sentiu que ela levantou o rosto dele para encará-lo.

– Oh, Nacil. Eu sinto muito. – ela encarou-o com olhos tristes – Você sabe, Nacil, quem a Tittë é, não sabe?

Ele encarou-a, ainda confuso, mas conseguiu responder:

– É uma das Filhas, minha protegida.

– Além disso, Nacil, ela é a princesa de Valfenda, filha da Rainha Naiandil e do Rei Aglargon. Quando eu sair daqui, ela vai ser a Rainha. Compreende?

– Eu compreendo, senhora… mas porque ela está desse jeito?

– Ela percebeu que essa era a única forma de fazê-lo compreender. – a Rainha deu um sorriso triste – Seu trabalho acabou, Nacil e Tittë não o quer mais por perto.

– Mas… porque? Ela não me disse nada…

– Nacil… ela pode não ter notado, mas eu percebi que nutre sentimentos por ela.

Nacil encarou a Rainha e sentiu seu coração apertar. Não admitira aquilo para si mesmo até aquela tarde, e vendo a Rainha dizendo aquilo daquela forma parecia uma exposição maior do que ele esperava.

– Infelizmente, Nacil, como lhe expliquei, Tittë é uma princesa. Os sentimentos dela nunca serão recíprocos aos seus. Ela me pediu para lhe afastar do seu cargo de Guardião e encontrar outro para ela.

Sentindo-se mal pela primeira vez, ele olhou para o chão, não demonstrando nada daquilo para a Rainha.

– Eu compreendo. – ele murmurou, calmamente – Se é isso que a princesa deseja, é uma ordem.

– Ela não quer magoá-lo Nacil. Não a julgue mal.

– Sim, senhora. Posso me retirar?

– É claro, Nacil.

E, sem dizer mais nada, Nacil virou as costas para a Rainha, sentindo seu corpo despedaçar-se em dor.

            ***

            No dia seguinte, Nin acordou com a cabeça doendo de tanto chorar. Acordou ao ver o sol, mas não queria sair da cama. Antes de dormir, naquela mesma noite, Nin recebeu a visita da Rainha, que dissera que partiriam aquela tarde para onde as outras Filhas estavam, pois era muito perigoso ela ficar ali.

No momento que se levantou da cama, a Rainha apareceu no quarto com uma bandeja de comida e um sorriso no rosto.

– Está com um ar péssimo, princesa.

– Estou um pouco cansada ainda. Até a tarde estarei melhor.

– É claro. Coma um pouco.

Olhou para a comida e seu estomago revirou.

– Estou sem fome.

– Sua viagem será longa… – Gloriel sorriu e passou a mão na cabeça dela – Quer conversar?

– Eu não… – ela falou, tentando segurar as lágrimas que insistiam em cair.

Nunca tivera uma mãe do seu lado e Gloriel era o mais próximo de um familiar que poderia ter. Encarou-a e, ao ver seus olhos, começou a chorar.

– Oh, minha querida. – ela falou, passando a mão em seus cabelos e a acariciando – Coloque sua dor para fora.

            ***

            Nin estava pronta. Vestia-se como na noite anterior, com um vestido branco, mas dessa vez os detalhes eram vermelhos. Seus olhos estavam cada vez mais azuis e algo lhe dizia que, assim que seus poderes de Filha se libertassem, eles voltariam a cor azul. Não que ela soubesse que seus olhos houvessem sido azuis, mas fora aquilo que a Rainha lhe dissera.

Gloriel passara o dia com ela, ajudando-a a arrumar suas malas. Mesmo a contra gosto, deixou que Nin levasse sua mala com as roupas do outro mundo, e colocou sua espada e meia-lua na cintura. Não poderia deixar-se abater. Precisava seguir em frente e se proteger.

Depois que a Rainha a deixara para terminar de organizar sua partida, saiu para o lado de fora da casa dela. Não se sentia bem ali. Queria sair o quanto antes, conhecer as outras Filhas e descobrir o que precisava ser feito. Quando aproximou-se da floresta, percebeu que dois olhos verdes a encaravam dali e sua fúria novamente a invadiu.

Virou-se de costas, caminhando decidida para dentro de casa, mas ele pousou na sua frente, fechando as asas com raiva.

– Então é isso que você quer?

– Há algo mais que eu iria querer? – ela grunhiu, tentando se desviar dele.

– O poder não é tudo, Tittë.

– Então me diga o que é importante, mago? Pois eu imagino que você deva estar bem feliz agora que não precisa mais proteger alguém como eu!

– Do que está falando? – ele pareceu confuso, o que fez ela sentir mais raiva.

– Oras, não se faça de tolo. Eu posso parecer idiota, mas não sou! Agora me deixe em paz e vá. Não me incomode mais!

Os olhos dele subitamente escureceram e Nin sentiu como se uma faca atravessasse seu coração.

– Muito bem. Se é assim que a princesa deseja.

Com ódio, ela o empurrou, correndo para dentro da casa da Rainha.

            ***

            Nacil ainda ficou alguns minutos ali, encarando o local por onde Tittë desaparecera. Não estava entendendo mais nada.

O que a Rainha lhe dissera pareceu fazer sentido, mas ao ver Tittë proferir aquelas palavras duras, parecia que não era a mesma que ele conversara antes da festa. O que acontecera? Será que ela realmente acreditava que ser princesa era tão importante assim?

Quando saiu dali foi diretamente para o local onde Tittë partiria e ficou ali, esperando. Depois de quase meia hora, a Rainha Gloriel se aproximou trazendo Tittë, que estava muito bonita, por sinal. Seus longos cabelos loiros estavam adornados por uma coroa, que ele vira na noite anterior, mas seus olhos eram frios e furiosos. Seus olhares se cruzaram, e, por um momento, ele pode ver todo o ódio que ela sentia dele.

Sentindo que aquilo bastava, Nacil saiu dali, virando as costas, enquanto a Rainha anunciava a partida de Tittë para o refúgio das Filhas.