FIC – Descendentes da Estrela

Cap 11 – Chuva de luz

Haviam dois bruxos sentados na porta do observatório, na função de vigias. Pela aparência e pelas atitudes despreocupadas em relação as suas funções, podia se perceber que se tratavam de mercenários do vilarejo nenhum um pouco interessados no que estava acontecendo e tudo o que queriam era conseguir algum lucro. Não foi nada difícil para Harry fazer com que eles ficassem inconscientes de forma silenciosa, e ele e o professor puderam entrar sem problemas. Dentro da construção antiga, o professor Sharewood os guiou pelos corredores escuros com a destreza de quem sabia exatamente para onde estava indo. Porém, parou abruptamente em um lugar, onde havia a continuação do corredor e uma entrada lateral que iniciava uma subida de degraus.

– Aqui. – orientou o professor, com uma certeza que não deixou espaço para Harry contestar.

Logo o final das escadas e uma saída pode ser vista devido a uma iluminação azulada e inconstante, como se fosse uma fogueira acesa em intensidades que variavam repetidamente. O professor parou e impediu o auror de continuar erguendo o braço na sua frente. E no mesmo instante a luz aumentou e Harry ouviu a voz de Julie gritando:

– O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM ELA, ANNE?!

Rapidamente eles avançaram até o fim das escadas e se viram em um acesso a abóboda do teto, onde havia um estreito corredor circundando todo o inicio da estrutura de cúpula do observatório, por onde era possível a passagem de somente uma pessoa. E foi quando eles se depararam com a cena que acontecia no andar logo abaixo deles.

As irmãs Rostagnis estavam presas e uma plataforma e a luz azul as envolvia, rodopiando em volta delas como se fossem grãos de areias apanhados em um vento forte. A pequena Sarah imóvel, aparentemente suportava aquilo, mas o treinamento de Harry lhe apontava que na verdade ela estava sendo mantida imóvel por algum encantamento e não era preciso estar perto para perceber que a menina estava apavorada com o que acontecia. Pela primeira vez ele via Anne, que também se mantinha imóvel da mesma forma, mas sem um feitiço que a prendesse, e mantinha uma expressão de quem não sabia o que estava acontecendo. Julie se debatia em suas correntes gritando e seu pulsos sangravam com os machucados que estava ganhando com o esforço de se soltar. Abaixo da plataforma estava alguém muito parecido com o professor Lee, rodeado por outros bruxos vestidos de negro. Antes que o cérebro de Harry começasse a processar aquele grupo de bruxos às suas informações de auror, ele viu Matthew sendo segurado por dois dos bruxos, tentando mordê-los para que o soltassem. Então, em um gesto impaciente, um dos bruxos o atingiu com um feitiço, e o menino desabou no chão como se fosse um boneco sem vida. De súbito, Harry foi atingido por um impulso que aprendera a controlar, mas que naquela momento falava mais alto do que todo o seu treinamento auror: não podia ficar ali parado esperando uma melhor oportunidade para entrar em ação, devia agir e salvá-los.

– São as estrelas. – contou o professor deduzindo o que estava acontecendo – Acho que sei o que eles vão fazer. Precisamos… Potter?

O auror não estava mais ao seu lado, estava andando sorrateiramente pelo corredor circular, e antes que pudesse impedi-lo, ele atacou.

***

Os pulsos de Julie doíam e ela tinha plena consciência de que aquela sensação escorregadia era causada pelo seu sangue, mas no momento ela não percebia ou se importava com qualquer outra coisa que não fosse Sarah na sua frente. Mesmo que a menina não pudesse abrir a boca, ela estava gritando e seus olhos mostravam todo o pavor que estava sentindo. A luz azul já a cobria quase por inteira. Era como uma chuva leve que caia e cada gota de luz se fixava nela, e agora começara a fazer o mesmo com Anne.

– Julie!

Ela olhou para a irmã, que a encarava com o mesmo olhar de Sarah, e falou com um tom de voz tremida:

– Está tirando! Está sugando a energia de mim!

Uma movimentação começou abaixo da plataforma e pelo canto do olho Julie registrava feixes de luzes passando. Mas algo muito maior que aquilo estava em seus pensamentos naquele instante. Anne não dissera magia. Não estava funcionando, aquilo estava errado e ela podia sentir nela mesma.

– SE SOLTE, ANNE!

– Não po-posso… eu… – a voz dela falhou e não saiu, e Sarah caiu desmaiada na frente delas.

Desesperada, a visão de Julie começou a embaçar. Pensando com todas as suas forças que perder as mãos para se livrar daquelas correntes não seria nada se pudesse chegar até nas irmãs, ela se concentrou em se lançar para frente, sem ouvir seus músculos que pareciam gritar de dor. Então, o que a mantinha naquele lugar se soltou e ela avançou para frente tropeçando. Ainda tinha as algemas em volta dos pulsos machucados, mas as correntes haviam sumido. Sem parar para pensar como aquilo acontecera, ela correu até Sarah e assim que tocou na menina recebeu uma descarga elétrica e foi jogada para trás, caindo de costas no chão da plataforma. Anne também caiu desmaiada, com a cabeça a poucos centímetros de onde estava a irmã.

– Anne! – Julie se levantou e se arrastou de joelhos até as duas.

De repente, tudo ficou escuro e silencioso, e tudo o que brilhava na sua frente eram as irmãs completamente cobertas pela luz.

***

Harry atacou primeiro os homens de preto que estavam com Matthew. Mesmo os dois caindo inconscientes no chão, o movimento fora o bastante para chamar a atenção dos outros, que o perceberam no teto. Usando sua habilidade auror de deslocamento, ele se desfez em uma ilusão de nuvem e fumaça e saltou para o chão, se desviando de feitiços e circulando até encontrar o momento exato em que pôde atacar vários deles ao mesmo tempo. E quando o último que sobrara avançou por trás dele na certeza de que não era percebido, ele usou de alguns truques trouxas uteis para esses momentos: deu uma cotovelada na costela dele e em seguida um soco no queixo, que jogou o bruxo para longe e totalmente fora do seu caminho.

– Um auror. – disse Larsen Sharwood, como se seus pensamentos saíssem em voz alta devido a surpresa. Logo ele desfez essa sua reação e reassumiu toda a sua pose elegante de um herdeiro distinto dentro da sociedade mágica – E não se trata de qualquer auror. A que devo a honra da visita, senhor Potter?

Harry apontou a varinha para ele e exigiu:

– Pare imediatamente!

– Parar? Mas não estamos fazendo nada de errado. – ele sorriu de uma maneira saisfeita.

– Está infringindo cerca de três artigos sobre o mal uso da magia, e posso citar vários outros atos ilegais começando pelo sequestro de Anne Rostagni!

– Mas não a sequestrei, ela veio aqui por sua própria vontade.

Harry lançou um olhar para a plataforma, onde Julie parecia estar dispostas a arrancar seus braços fora na tentativa de se livrar das correntes. Em um ato incalculado, Harry fez com que as correntes desaparecessem, e esse segundo de distração era tudo o que o outro bruxo estava esperando. Harry sentiu um impacto em seu estômago, seus pés sairam do chão e ele bateu pesadamente contra a parede de pedra. Sua varinha saiu da sua mão e voou para o bruxo, que se aproximou calmamente, praticamente cantando vitória, enquanto perguntava:

– E veio sozinho, senhor Potter? Aquele que derrotou o grande Lorde das Trevas ainda acha que pode fazer qualquer coisa sem precisar de ninguém?

Harry ergueu a cabeça e olhou para ele, mas ao mesmo tempo viu o professor se movendo lá em cima e erguendo sua varinha para o teto. Então tudo ficou escuro.

– O quê? – ele ouviu o bruxo se espantar e isso foi o suficiente.

– Estou de férias! – disse Harry se erguendo em um impulso ágil do chão pegando sua varinha, dando um soco no rosto do bruxo e lhe lançando o feitiço mais forte que ele conhecia de paralisamento.

Ofegando, naquela escuridão, seus olhos perceberam que ainda havia uma luz fraca vinda de cima da plataforma.

***

Sem pensar direito no que estava fazendo, apenas fazendo algo que lhe parecia o correto a fazer, Julie aproximou as mãos devagar das cabeças das irmãs, e dessa vez não aconteceu o mesmo que antes. Pequenas descargas elétricas, formando estranhos e tortos caminhos de luz, vinham para suas mãos, sem causar nenhum tipo de dor, apenas uma sensação de formigamento. Percebendo o que era que deveria fazer, ela respirou fundo e colocou as mãos sem medo na cabeça das irmãs. E então, houve uma explosão.

FIC – Descendentes da Estrela

Cap 10 – Observatório da Colina

Os braços e pés de Julie estavam machucados com os esforços para tentar se livrar das correntes. Nunca em sua vida desejou tanto e tão intensamente ter um mínimo de poder mágico para poder combater, de uma maneira justa, com aqueles que a prenderam. Percebeu que, mesmo inconsciente, por toda a sua vida desde a morte de seus pais e se avô, sempre pensara que poderia contar com Anne para situações que envolvessem magia. E só agora, com a colaboração da irmã para os seus seqüestradores, ela se sentia totalmente sem recursos. Não era uma bruxa e nunca seria, isso era fato. O máximo que sabia fazer era ensinar e esperar representar alguma coisa na formação mais básica de futuros grandes magos, nada mais além. Ser descendente de um poder antigo não significava nada quando ela não tinha o mínimo vestígio de poder para algo tão simples como se livrar daquelas correntes.

Por isso, só lhe restava uma alternativa: esperar por um milagre.

Durante todo o tempo em que ficaram lá, que na sua percepção pareceu ser um dia inteiro, mas que Julie sabia que não poderia ter sido mais de duas horas, Anne permaneceu calada. Ela sentara no chão e aguardava pacientemente com os olhos fechados, como se estivesse se concentrando. Hora ou outra sua boca se mexia, como se estivesse recitando uma lista de feitiços, coisa que ela costumava fazer nas férias quando estava em casa.

A vendo daquele jeito, Julie sabia que não podia culpá-la. Aquela era a maneira da sua irmã ser. Ela, dentre todas as pessoas que conhecera, entre elas o próprio Lee, era alguém destinada a ser grande, uma daquelas pessoas sábias que só apareciam de poucos em poucos tempos. O problema é que nem sempre todo esse potencial era usado de uma forma adequada, e isso agora fazia Julie pensar se o caminho que sua irmã estava tomando não a levaria para o lado das trevas.

– Está quase na hora! – Larsen Sharwood voltou a entrar no salão, sendo seguido pelas pessoas encapuzadas, que por sua vez arrastavam Sarah acorrentada – A coloquem no centro e a paralisem. Ela deve ficar imóvel.

Julie prontamente ficou de pé assim que eles subiram no patamar e tentou avançar em direção a irmã menor, que lhe lançou um olhar suplicante. Ela não abria a boca, como se essa estivesse colada, e também não resistia e seguia a todas as ordens, como se estivesse sob um encantamento. Seus cabelos loiros estavam bagunçados, os olhos inchados como alguém que chorara muito e havia uma mancha roxa na sua bochecha, como se alguém a tivesse espancado.

– Sarah! – Julie chamou, sabendo que seria inútil, mas tentando ler na expressão da menina o que ela tinha a dizer. Porém seu chamado só fez com que os olhos se enchessem de lágrimas e essas rolassem silenciosamente pelo seu rosto.

Quando Sarah foi devidamente colocada no lugar que Larsen ordenara, este olhou para cima, para o teto abobadado, e então retirou um relógio das vestes, conferindo. Não se tratava de um relógio comum, e Julie podia afirmar isso somente olhando para a aparência dele, apesar dela não conseguir enxergar os ponteiros eles não deviam funcionar como um relógio comum.

Tudo ficou em silêncio por um tempo. Somente Julie era a que mais se movimentava, olhando dele para a irmã, e essa também olhava fixamente para o relógio, como alguém que sabia o que iria acontecer e estivesse ansiosa por ver. Então, o bruxo ergue sua varinha, sem tirar os olhos do que quer que fosse que os ponteiros estivessem indicando, e com um gesto rápido, fez com que o pano que cobria aquela arte do teto se soltasse e caísse pesadamente no chão atrás do patamar. Imediatamente, os outros bruxos apagaram os archotes, e tudo ficou escuro.

***

Perplexo, Harry seguiu o professor por todo o caminho sem fazer perguntas, já que ele parecia saber exatamente o que fazia.

Eles entraram em uma lareira de pó de Flu em Hogwarts e surgiram em um bar pequeno e sujo de uma cidade litorânea. Ao sair na pequena cidade de ruas de pedras, Harry não sabia dizer exatamente onde estavam, e a escuridão da noite não lhe permitia ver alguma coisa que indicasse em que parte do país era aquela. Porém, uma coisa era certa: era um vilarejo bruxo, muito pequeno e pobre, mas era um lugar totalmente mágico. Entretanto, não parecia haver ninguém por lá. Não era como se todos estivessem recolhidos em suas casas devido ao horário e também não era como se estivesse abandonado. Parecia mais que todos haviam ido para algum lugar de repente, como em tempos de guerra, quando as pessoas fogem e se escondem ao soar de um alarme.

Mesmo achando tudo muito estranho, Harry continuou apenas seguindo, porque todo aquele cenário simplesmente evidenciava que havia algo errado ali e que provavelmente o professor já tinha confirmado suas suspeitas e não perdia tempo em chegar onde queria ir.

Assim que dobraram uma esquina, no que parecia ser o fim do vilarejo, uma estrada de terra, com sinais de erosão e com suas margens encobertas por um ato alto, surgiu na frente deles. Ela seguia serpenteando em um declive acima, se dirigindo para uma construção de pedras escuras que ficava perigosamente à beira de um penhasco.

– É um antigo observatório. – contou o professor ofegante, parando por um momento – Tenho certeza de que eles estão lá. Mas precisaremos de um plano para passar. – ele indicou o vilarejo com um gesto de cabeça – Provavelmente há mais pessoas o ajudando, já que não há ninguém aqui. As pessoas desse vilarejo são na maioria bruxos e bruxos exilados ou condenados por um passado sombrio. Não é um lugar de boa fama, e eles fazem de tudo por alguns sicles.

– Qual é o seu plano? – Harry perguntou.

– Não tenho um plano. – ele informou – Você é o auror, a pessoa que deveria entender de estratégias.

Harry o encarou surpreso. Não que ele estivesse errado, já que realmente o auror ali era ele, mas…

– Eu pensei que você sabia o que estava acontecendo já que de Hogwarts viemos direto para cá… Como sabia disso?

O professor pensou um pouco, como se estivesse tentando encontrar uma melhor forma de dizer algo para o que nem ele mesmo conseguia achar um sentido.

– Foi como se, de repente, tudo fizesse sentido. – ele apontou para o observatório – Aqui era um dos melhores lugares para se observar as estrelas há pelo menos dois séculos atrás, mas foi abandonado há muito tempo. Por ser um lugar imapeável e ainda conter encantamentos que afastam os trouxas, foi adotado com um vilarejo bruxo, apesar de não prosperar. Mas tudo isso me acorreu de repente, com uma certeza absoluta de que eles estavam aqui. Como se… como se…

– Como se alguém o estivesse chamando? – Harry perguntou.

– Exatamente… Apesar de agora parecer estúpido.

– Não, não é. Mas não é algo que ocorre facilmente. Precisa haver uma ligação muito forte para que isso ocorra. Mas discutirmos isso agora não vai ajudar! Precisamos entrar naquele observatório e descobrir o que está acontecendo.

– Pelo menos nessa parte posso eu tenho uma idéia. De todos os lugares no mudo onde ele poderia ir, escolheu justo esse. Isso nos dá uma grande pista sobre qual é a intenção do Larsen.

– O quê?

– Quebrar o selamento sob os descendentes da estrela.

***

Aos poucos os olhos de Julie se acostumaram com a falta de luz, e logo ela pode perceber que o fato de não conseguir enxergar era apenas uma ilusão. Antes, com os archotes acessos e com o pano encobrindo o teto, não se podia perceber. Mas agora, sem esses dois, uma luz não tão brilhante, mas constante, jorrava pela abertura circular. O estranho era que não havia uma lua cheia lá fora e, se ela não estivesse enganada, era uma noite de lua nova. Porém, aquela luz não era algo produzido no chão: ela vinha diretamente do céu.

– Estrelas. – Julie ouviu o murmuro de Anne e viu o brilho de seus olhos olhando diretamente para o céu.

Então, algo estranho começou a acontecer. Junto com a tênue luz que banhava Sarah, algo mais luminoso começou a descer até ela, como se fossem minúsculos flocos de neve, entretanto eram visivelmente feitos de luz pura. Os flocos cintilantes levitavam calmamente, até ficarem na altura da menina, então, como se atraídos por uma força gravitacional, eles se prendiam a ela.

– Está funcionado! – Anne comemorou baixinho.

– O que vai acontecer com ela? – Julie perguntou preocupada, muito longe de encontrar alguma coisa para comemorar naquela situação.

Mas a garota não respondeu e não tirou os olhos do que acontecia a sua frente. No mesmo instante os flocos começaram a aparecer aos montes e praticamente caíram como uma avalanche do teto, cobrindo Sarah por inteiro, abafando totalmente o grito assustado que ela começara a saltar.

– O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM ELA, ANNE?!

Dessa vez, o sorriso da irmã desaparecera, e Julie teve um forte pressentimento de que algo estava muito errado.

FIC – Descendentes da Estrela

Cap 09 – Descendentes da Estrela
           
Moody encarou com seus dois olhos a lareira a sua frente. Lá estava o rosto de Harry, flutuando entre as chamas e com uma expressão séria demais para alguém que estava de férias.
– Algo de errado?
– Moody, precisamos que verifique algo no Ministério para imediatamente!
– É sobre a menina Rostagni? Conseguiu algo?
– Você está certo. Há algo realmente errado nessa história toda e precisamos agir depressa!
– Farei o que estiver no meu alcance aqui. – ele girou seu olho mágico em todas as direções e disse – Não há ninguém, pode falar.
***
Julie foi arrastada por dois homens encapuzados até um grande salão circular de pedras frias. Agora podia perceber que estava em um castelo antigo, exatamente como Hogwarts. Porém, a construção não emitia aquela aura mágica, que pesava tanto em sua percepção, como algo tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe. Haviam grandes aberturas transversais nas paredes ao invés de janelas, e o aspecto escuro e úmido das paredes sugeriam que deveriam estar próximos ao litoral, e que aquele não era um lugar habitado, mas sim de alguma forma usado temporariamente.
No salão não havia móveis ou qualquer coisa feita de madeira. Espalhados metricamente pelas paredes estavam pendurados suportes de metal com fogos mágicos, que variavam entre azul e roxo. No centro dele, uma plataforma quadrada se elevava em três degraus, com quatro colunas de pedras encaixadas nas bordas da última elevação. Ainda havia mais um degrau circular, relativamente pequeno, com espaço somente para uma pessoa, no centro entre as colunas. Essa plataforma parecia estar em plena sintonia com um círculo no teto, tapado por um pano negro pesado, sustentado lá provavelmente por magia. Além da entrada pela qual vieram, existia também mais duas outras, com seus caminhos ocultados pela escuridão.
Julie não reagia, simplesmente obedecia quem quer que fosse. Sabia que Anne estava lá e agora Sarah também, então não poderia fazer nada até saber como elas estavam e poder pensar em alguma coisa. Não sabia com quem estava lidando e tinha plena consciência de que não poderia contar com a ajuda de Harry… ou qualquer outra pessoa que pudesse ajudá-la.
Na rápida conversação que teve com Anne através da porta, não pôde perguntar coisas que agora lhe pareciam o mais óbvio de ter perguntado naquele momento. Como ela estava, quem a tinha seqüestrado, o que tinha feito desde então, foram questões que surgiram em seu pensamento assim que a irmã falou ‘Preciso voltar antes que sintam minha falta!’, e sumira, tão sorrateiramente quanto tinha aparecido.
Desde então Julie ficara trancada naquele lugar, remoendo idéias de quem estava por trás daquilo tudo e o que queriam com elas. Por isso, quando os encapuzados chegaram, ela seguiu as ordens silenciosamente e agora fora levada até ali.
Os dois pararam diante do centro do salão, diante da plataforma, e a soltaram. Porém, ela não estava exatamente livre, já que os dois apontavam as varinhas diretamente para ela. Mesmo com uma vontade enorme de perguntar para eles o que estava fazendo naquele lugar, o que aconteceria de agora em diante ou o que pretendiam fazer, Julie continuou calada.
Logo, passos foram ouvidos ao longo de uma das entradas escuras e mais figuras encapuzadas apareceram. Julie perdeu a respiração quando viu quem estava com eles.
– Realmente, – disse a pessoa com um sorriso – não esperava ter que reencontrá-la, senhorita Aborto.
            ***
Harry repassou todos os pergaminhos comas informações que Moody lhe entregara enquanto fazia o percurso até a biblioteca de Hogwarts. Lá, dentro da ala reservada, ele entregou tudo o que trouxera nas mãos do professor Sharwood.
– Isso é tudo o que temos.
– É o suficiente. – disse o professor analisando os pergaminhos – Tudo o que preciso saber é o que meu irmão andou fazendo nos últimos tempos. A personalidade dele eu conheço muito bem.
– Acha que pode mesmo ser ele por trás disso tudo?
Ao invés de uma resposta, o professor pegou um livro grande e pesado e praticamente o jogou na frente de Harry, já que não havia uma forma fácil de manuseá-lo.
– As informações mais antigas sobre o Antigo Conselho Supremo.
Harry encarou o livro, enquanto a poeira que havia se desprendido dele com o impacto ainda flutuava pelo ar. Sem perder tempo, o professor o abriu onde estava marcado com um pedaço de folha e apontou para uma pequena nota, aparentemente sem importância se olhasse pelo contexto do resto do conteúdo da página. Harry leu rapidamente:
“O Conselho Supremo definiu o vinculo por encantamento das famílias ligadas com o incidente da Pedra da Estrela e determinou que a responsabilidade pelo selamento seja um legado para as próximas gerações dos seus conjurantes.”
Não vendo nada de novo naquela informação, Harry encarou o professor, esperando que ele dissesse qualquer coisa. Mas como ele permaneceu na irritante pose de quem aguardava que o outro fizesse uma ligação própria, o auror falou:
– Foi o que Julie me contou.
– Isso mesmo. Percebe a importância dessa pequena nota, senhor Potter?
Então, tudo se esclareceu na mente de Harry:
– Isso quer dizer que… Realmente não é uma lenda. Temos um registro!
– Exatamente, senhor Potter.
Harry se controlou para não se mostrar incomodado com a maneira e o tom como o professor falava, justamente como fazia seu antigo mestre em poções.
– Isso significa – ele continuou – que de fato não é uma lenda e que se alguém se dispusesse a pesquisar, como nós fizemos, poderia muito bem encontrar essa pequena nota aqui.
– Então, – a jeito auror de pensar de Harry, com anos de treino, começou a formular automaticamente os próximos passos que deveriam dar – o que temos que fazer é pedir os relatórios de controle da área reservada e verificar quais pessoas estiveram aqui nos últimos tempos.
– Uma pessoa em especial. – acrescentou o professor em tom sinistro – Se Larsen Sharwood esteve aqui, não precisamos suspeitar de mais ninguém.
***
– Você! – da mesma forma que várias coisas se esclareceram na mente de Julie, várias outras ficaram muito mais confusas.
Por que o irmão de Lee estava diante dela?
– Surpresa? – ele perguntou, com um meio sorriso de quem estava satisfeito por conseguido fazer com que ela ficasse desorientada – Quer ficar mais surpresa ainda?
Com um estalar de dedos dele, dois vultos surgiram no ar e caíram pesadamente no chão na sua frente. Imediatamente, Julie reconheceu quem eram:
– SARAH! – ela fez um movimento automático para ir até a menina, que foi prontamente impedido pelos bruxos que a escoltava – Sarah! Você está bem? Eles te machucaram?
A menina se levantou, encolhida e olhando em volta amedrontada, e então segurou firmemente a mão do garoto menor ao seu lado, Matthew. Para responder a pergunta da irmã, ela simplesmente meneou a cabeça, dizendo que sim, mas não ousando fazer mais do que isso. O menino por sua vez mantinha uma expressão determinada, de quem estava sendo forte e valente para proteger outra pessoa, e por nenhum momento deixava de prestar atenção no que acontecia a sua volta.
– Quer se surpreender ainda mais? – perguntou o irmão de Lee, e com outro estalo de dedos, uma das pessoas encapuzadas revelou o seu rosto.
Agora, Julie não sabia como reagir ao ver sua outra irmã em meio às pessoas que a haviam seqüestrado, como se fosse uma deles. Talvez, se não tivesse falado com ela quando estava presa e fosse realmente outra surpresa vê-la ali, ficaria nervosa e gritaria. Mas agora, tudo o que soava em sua mente era ‘Anne é esperta. Deve estar planejando algo. Confie nela.’
Porém, a sua falta de reação não pareceu levantar suspeita.
– Então ficou sem fala ao descobrir que a sua queria irmã está conosco? – o irmão de Lee, que agia como se fosse a pessoa tinha o comando de tudo, deu alguns passos à frente, se aproximando das crianças – Realmente, tenho que admitir que a princípio não era a minha intenção, e quando descobrimos que ela não era o que procuramos não hesitaria em eliminá-la. Porém, como desperdiçar um talento reconhecido que pode nos ajudar com um pouco de incentivo? – para enfatizar o que dizia, ele pegou Sarah pelas vestes e a ergueu do chão, apontando sua varinha para ela.
Como se fossem uma só, tanto Julie quanto Anne deram um passo a frente. Mas somente Julie foi impedida de avançar pelos outros bruxos, Anne foi impedida por si mesma.
– Viu? – perguntou o bruxo, rindo da tentativa inútil de Matthew em resgatar a amiga das suas mãos – Sua irmã, que está em um nível muito superior ao seu, Senhorita Aborto, sabe que não pode ir contra. Então, espero que siga o exemplo dela e nos obedeça. – ele colocou a menina novamente no chão, e no mesmo instante Matthew se pôs na frente dela, o enfrentando com um olhar que dizia de forma clara que não o deixaria encostar nela de novo – Tudo seria bem mais simples se você simplesmente continuasse quietinha no vilarejo. Nós iríamos buscar a menina enquanto você dormia e só notaria a falta dela quando já fosse tarde demais. Muito simples… Mas você estragou tudo saindo e a deixando sobre os cuidados de uma bruxa graduada. Não tínhamos intenção de explodir casas, mas você nos obrigou.
– Senhora Weasley. – Julie sussurrou, apavorada só em imaginar o que eles poderiam ter feito com ela, porque provavelmente ela tentara os impedir.
– Como eu disse, tudo seria mais fácil se simplesmente tivesse ficado QUIETA DESDE O COMEÇO! – e, como se aquela fosse uma ordem, os bruxos ao lado dela movimentaram suas varinhas e a fizeram sair do chão e voar até uma das colunas, onde foi presa por correntes mágicas, que mantinham seus movimentos falsamente livres.
– O QUE QUER DE NÓS?! – ela perguntou, tentando inutilmente se livrar das correntes que, apesar de permitir que ela avançasse um pouco, sempre a puxavam de volta para a coluna.
– Já expliquei isso uma vez. – disse ele entediado – Anne, pode repetir para ela? Temos tempo. – e com um movimento da sua própria varinha, ele fez com que a garota levantasse e voasse até a outra coluna, sendo presa da mesma forma que Julie.
E, no tempo em que dera para que as coisas fossem esclarecidas entre elas, o bruxo se ocupou de Sarah.
– Ele não vai machucá-la. Não se preocupe. – Anne tentou tranqüilizar a irmã.
– Anne, você tem um plano, não tem? – Julie perguntou em um sussurro, ainda sem desgrudar os olhos da movimentação abaixo delas, onde os bruxos encapuzados tentavam imobilizar um Matthew que esperneava e socava tudo o que via na frente.
– Não.
Julie pela primeira vez olhou direto para a irmã, que devolveu um olhar determinado.
– Como assim? – ela perguntou confusa, percebendo que a garota não fazia o mínimo movimento para se livrar das correntes.
– Não tenho um plano. – Anne repetiu – Fiquei preocupada quando soube que a Sarah estava com outras pessoas e não com você. Mas nós não estamos em perigo. Ele não pode fazer nada. – vendo que a irmã não conseguia encontrar um sentido no que ela falava, tentou explicar melhor – Ele precisa de nós três. A princípio achou que só eu bastava, mas não foi o suficiente. Sarah é pequena, mas não usa magia com tanta freqüência quanto uma quintanista de Hogwarts. A concentração de poder nela deve ser muito maior e pode dar certo. Se falhar novamente, só há mais uma alternativa: usar nós três juntas. Se reunir todas, pode ser que-
– Do que está falando, Anne? – Julie a interrompeu, compreendendo que não era como se a irmã cedesse por não haver opção – Quer dizer que você está realmente do lado deles?
A garota hesitou por um tempo, procurando por uma resposta.
– Não estou exatamente do lado deles, mas… Não percebe, Julie? Isso é incrível! Aquela história que nosso avô contava para dormirmos é de verdade! Somos Descendentes das Estrelas! Fazemos parte da história e-
– ANNE! – Julie praticamente pulou para frente, na sua tentativa de apenas com uma palavra devolver o bom senso para a irmã, mas a corrente retornou o impacto e a puxou de volta.
– A História Bruxa pode ser recontada a partir de hoje, Julie. – a garota continuou, séria, diante de uma Julie já ofegante pelas tentativas de se soltar – Você não quer se vingar por todos esses anos sendo a Senhorita Aborto? Pois agora é a sua chance de mostrar que alguém que sempre foi menosprezada pode alterar todo o futuro da magia. Sinta-se honrada e colabore.
Sem saber o que fazer, enquanto sua irmã menor era presa por um bruxo que ela sabia não ter boas intenções e a outra concordava com aquilo, Julie fechou os olhos com força e pensou na única pessoa que ela queria que estivesse ali agora.
***
– O nome dele não está em lugar algum. – disse Harry, passando o dedo pelo pergaminho que a muito custo lhes foi entregue pela velha bibliotecária – Será que ele pode ter mandado outra pessoa?
– Talvez… – os olhos do professor pararam diante de um nome – Mas uma coisa eu tenho certeza, senhor Potter: não pisei nessa ala no último ano.
E ele apontou um nome na lista, que datava de três meses atrás ‘Lee Sharwood’
– Ele se passou por um professor!
– Realmente somos parecidos, porém não a ponto de sermos confundidos. Entretanto, meu irmão é um excelente bruxo e viu muita coisa no Ministério. Ele pode muito bem ser capaz de enganar a segurança mágica de Hogwarts de uma forma mínima, como um encatamento de confusão, que lhe desse a oportunidade de entrar sem ser reconhecido e não acionar nenhum alarme.
Harry sabia, como auror, que isso era possível, já que a segurança em Hogwarts não era mais uma prioridade do Ministério depois da segunda queda de Voldemort.
– Segundo esses relatórios, há exatamente três meses meu irmão está de férias do seu trabalho. Provavelmente aqui foi o lugar em que ele começou a colocar seu plano em prática. Tudo o que temos que fazer é…
Harry esperou que o professor continuasse, mas ele não fez isso. Toda a concentração que ele havia demonstrado até aquele minuto sumira de repente, e seus olhos ficaram desfocados.
– Professor? – o auror tentou chamá-lo, e não ouve resposta.
Então Harry pegou a sua varinha, já que havia a possibilidade de alguém ter lançado algum encatamento-armadilha, que seria acionado quando algum investigador chegasse aquele ponto. Porém, quando ele começou a recitar um feitiço de revelação, o professor voltou ao normal, e o encarou assustado:

– Eu sei onde eles estão.

FIC – Descendentes da Estrela

Cap 08 – Desaparecimento
Harry e Julie ficaram em uma pousada pequena da cidade e combinaram que acordariam cedo no outro dia para voltarem a pedir uma autorização à diretora. Felizmente, os alunos estariam em provas e não os importunariam, o que facilitaria a busca na biblioteca. Porém, ele já não tinha tanta certeza quanto à bibliotecária, que ainda era a mesma da sua época, e deveria estar tão mais rabugenta quanto mais velha. Rindo e imaginando um grande urubu grisalho, Harry bateu na porta do quarto de Julie:
– Julie, temos eu ir o quanto antes para Hogwarts. Você já levantou?
Não houve resposta.
– Julie? – ele bateu novamente.
– Ela não saiu. – informou uma voz do lado oposto da porta.
Harry virou-se e se deparou com uma pintura de uma mulher com um grande nariz e que parecia muito interessada em bisbilhotar.
Harry bateu mais uma vez e escutou atentamente. Só pôde ouvir os ruídos no andar inferior onde provavelmente o café estava sendo servido.
– Talvez ela tenha morrido. – sugeriu a pintura um tanto dramática e questionavelmente preocupada.
Mesmo sabendo que seria improvável, o comentário da pintura fez Harry sentir um pressentimento ruim. Ele bateu novamente de forma mais insistente e tentou abri-la.
– Julie?!
– Algum problema, senhor Potter? – perguntou uma empregada que tinha acabado de subir as escadas com um monte de toalhas e ouviu as batidas.
– Aquela moça que estava comigo, ela já desceu?
– Não, senhor.
– Ela não responde e a porta não abre.
– Ela pode a ter encantado por dentro com um feitiço anti-ruído e trancado.
– Não. Ela não pode, sabe? Ela é um… – Harry não conseguiu dizer a palavra – Ela não usa magia.
A empregada assentiu com a cabeça, como se não fosse uma surpresa ter um hóspede assim e pediu licença para tentar abrir a porta, tirando uma varinha do seu avental.
– Senhorita Rostagni? Posso entrar? Senhorita Rostagni?… – como não houve resposta, ela apontou a varinha para a fechadura e a destrancou.
A porta abriu imediatamente e os dois entraram. Harry olhou por todo o lugar e ficou paralisado: não havia ninguém lá.
– Tem certeza de que ela não foi embora ontem à noite, senhor Potter? A cama nem ao menos foi desfeita.
Isso era verdade. Não havia sinal algum de que alguém tinha passado a noite ali naquele quarto. Mas Harry a vira entrando na noite passada lhe desejando boa noite. Como ela não estava ali?
– Tem certeza de que ela não saiu? – perguntou ele novamente para a empregada.
A empregada negou.
– Alguém veio se hospedar aqui depois de nós?
– Na verdade somente um senhor apareceu para o jantar. Depois ninguém mais.
– Era um estranho?
– Não, ele já esteve hospedado aqui outras vezes. Mas há algum tempo ele não aparecia. Ontem ele disse que estava com pressa e precisava ir embora logo.
– Mais ninguém?
– Para se hospedar, não. Tivemos a visita de um professor de Hogwarts que não vem normalmente ao vilarejo, mas isso não chega a ser estranho.
– Esse não seria o professor Sharwood?
– Sim, ele-
– Preciso ir para Hogwarts! Se a moça aparecer por favor me avise, ok?
– Sim, senhor. Mas-
Harry não ouviu mais nada. Seu sentido de auror falava mais alto e dizia que algo estava extremamente errado.
***
– O professor Sharwood está preparando o seu teste nesse momento, senhor Potter. – disse a diretora – O senhor deve se lembrar como era complicada essa semana, não? Complicada tanto os alunos quanto para nós, professores.
– Por favor, eu preciso falar urgentemente com ele, professora. Apenas uma pergunta!
A diretora comprimiu os lábios e eles ficaram tão finos quanto uma linha, indicando a sua contrariedade com o que estava falando:
– Apenas uma pergunta, senhor Potter, nada mais do que isso! Não posso permitir que assuntos que não estão ligados com a escola interfiram em um dos momentos mais críticos de nossos alunos!
– Sim, senhora. – Harry concordou depressa para cortar o sermão dela – Preciso ir, professora. É urgente!
– Senhor Potter! O quê-
Mas Harry não esperou pelo resto da pergunta. Precisava encontrar o professor o mais rápido possível. Havia uma probabilidade de ele saber onde Julie estava, e essa era a sua única pista.
***
Uma batida insistente na porta da sua sala fez com que o Professor Sharwood se desconcentrasse em suas tarefas e se levantasse, irritado. Porém, ao abri-la e ver uma pessoa incomum na escola, sua irritação foi substituída por surpresa:
– Senhor Potter? Aconteceu algo?
– Julie. Onde ela está?
– A senhorita Rostagni?
Harry percebeu que ele se referiu a ela de uma forma muito informal, por estar falando com um estranho, e ficou constrangido. Mas afinal, aquele cara a conhecia melhor que ele, por que formalidades?
– Sim, a senhorita Rostagni. Sabe onde ela está?
– A última informação que tenho é de que ela está investigando o desaparecimento da irmã junto com um auror considerado a elite do Ministério.
Harry viu um Draco Malfoy na sua frente, mas procurou controlar-se e explicou a situação:
– Ela sumiu da hospedaria. A empregada disse que o senhor foi até lá ontem à noite, então eu pensei que você poderia-
– Que uma coisa fique bem clara, senhor Potter: não sei até onde sabe, mas eu não volto atrás no que digo… ao contrário de certas pessoas. Eu sabia que vocês estariam no vilarejo, então acha que eu iria até lá?
– Quer dizer que não foi para lá ontem à noite?
– Claro que não! Minha última aula de reforço foi até meia-noite. E como sabe hoje teremos exames, não posso me dar ao luxo de ficar dando passeios!
– Então… – a mente de Harry começou a formular todas as possíveis situações, desde uma maldição de controle na empregada até uma possível poção Polissuco. – Professor, o fato é que temos uma testemunha afirmando que o senhor esteve ontem em Hogsmeade e que depois disse Julie sumiu. Gostando ou não, o senhor está envolvido!
O professor pareceu se incomodar com a agressividade do auror e voltou para a sua mesa dizendo:
– Pois é fato que não sai do castelo ontem e tenho como provar. Então o senhor, por favor, me dê licença que tenho um exame para aplicar hoje!
Ele juntou seus papéis e livros de qualquer jeito e saiu da sala, passando por Harry sem ao menos olhá-lo.
Harry permaneceu estático na porta. O que faria agora?
***
Julie sentiu os olhos tão pesados que não conseguia abri-los. Percebeu que estava deitada em um piso frio de pedra, com as mãos e pés amarrados e também estava amordaçada. Não conseguia se lembrar de como chegara a ficar assim. Com muito esforço, ela abriu os olhos, que pareciam estar grudados, e tentou focalizar as imagens daquele lugar desconhecido.
Com certeza era um calabouço, escuro e úmido. Apesar da escuridão, ela conseguia ver uma pesada porta de madeira com uma pequena abertura trancada por grades. Atrás dela, havia uma abertura estreita, de onde se podia ver um pedaço do céu lá fora. Apesar de estar nublado, ela deduzia que já deveria ser quase meio do dia.
Fez um grande esforço também para conseguir se erguer. Seu corpo estava dolorido e amortecido por ter ficado naquela posição por um grande tempo. Mas por mais que tentasse, não conseguia se lembrar de nada. Onde estaria o Harry? O que teria acontecido?
De repente, ela ouviu um rangido de uma porta pesada sendo arrastada. Logo depois, passos soaram abafados no que poderia ser um corredor além da porta do calabouço. Julie se encostou mais na parede e olhou em volta, procurando algo que pudesse ajudá-la com o que for que fosse acontecer. Ela viu uma sombra se aproximar pela fresta em baixo da porta e parar ali.
– Julie?
Ela sentiu cada parte do seu corpo congelar com aquela voz.
– Julie? Está aí?
Não havia dúvidas de quem era.
– Anne?! É você mesmo?
– Julie, me escuta! Não tenho muito tempo! – a voz da garota vinha abafada pela porta. – Eles foram pegar a Sarah!
– … O-o quê? – Julie sentiu que perdia as forças novamente.
***
Harry estava descendo a escadaria principal de Hogwarts para voltar ao vilarejo. Diante de tudo o que acontecera, a única pessoa a quem poderia recorrer agora seria Moody. Tinha sido o velho auror quem começara com tudo isso e ele teria que ajudar de alguma forma. Mas assim que começou a pisar pelos degraus ouviu vozes alteradas, e uma delas era muito conhecida sua:
– EU PRECISO ENCONTRÁ-LOS AGORA! – berrava Rony irado, sendo impedido por dois professores e por Filch – EU PRECISO ENCONTRÁ-LOS!
– Rony?! – perguntou Harry surpreso, apressando o passo assim que viu o amigo.
– Harry! – ele pareceu aliviado assim que o avistou e tentou ao máximo se livrar dos bruxos que o seguravam.
– Harry! – Rony não deu atenção alguma à diretora – Levaram eles!
– Eles quem? – perguntou Harry ainda procurando entender porque ele estava ali naquele estado desesperado.
– Mattew e Sarah! Levaram os dois, Harry! Hermione tentou impedir e está internada!
– Calma, Rony! – Harry pediu para que os dois bruxos o soltassem.
– Este senhor invadiu os terrenos da escola! – protestou Filch, mas não foi levado em conta pelos outros, que obedeceram Harry.
– Hermione tentou impedi-los! – continuou Rony, assim que os bruxos o soltaram, segurando Harry pelos ombros, como se assim pudesse fazê-lo entender melhor a situação – Eles destruíram parte da casa e levaram as crianças embora! Levaram o Matthew e a Sarah!
– Quem levou?
Nesse instante a diretora apareceu vinda do salão principal, seguida pelo professor Sharwood, para saber o que estava acontecendo.
– Senhor Weasley! O que significa isso?! – perguntou ela, exasperada, reconhecendo o antigo aluno.
– O nome dele era Lee! – disse Rony praticamente chacoalhando Harry – Sarah falou que conhecia ele! Ela disse que ele se chamava Lee e que era um amigo!
Harry encarou o professor poucos metros perto dele e este parecia mais confuso ainda.

FIC – Descendentes da Estrela

Cap 07 – A senhorita Aborto

O homem que estava na porta era da mesma altura que Harry, tinha uma vasta cabeleira castanha e olhos claros, com um ar de arrogante.

– Hum, nunca pensei que um dia chegaria a vê-la aqui. – disse o professor em um tom que fez Harry lembrar imediatamente de Draco Malfoy.

Julie ainda ficou paralisada, encarando-o por um tempo, até que conseguiu murmurar:

– …O que faz aqui?

– Acho que sou um professor de Hogwarts ou algo do gênero.

– Mas… Mas eu… a Anne?…

– O que querem? – perguntou ele virando-se abruptamente para Harry.

– Ahn… – Harry esquecera por um momento – Viemos perguntar sobre sua aluna Anne Rostagni. Como deve saber, ela desapareceu e ainda não foi encontrada. Estamos investigando. Sou Harry Potter, auror do Ministério.

O professor deu uma olhada para a testa de Harry para verificar se ele estava falando a verdade mesmo e então os deixou passar, não parecendo nada feliz com isso.

– Sentem-se, por favor. – disse o professor indicando educadamente as carteiras em frente a sua mesa – Não posso demorar muito, tenho uma aula em meia hora.

Harry concordou em ser rápido e sentou-se em uma das carteiras. Julie o imitou em silêncio. Não parecia disposta a abrir a boca para nada, e evitava ao máximo olhar para o professor.

– Bom, – começou Harry vendo que Julie não iria colaborar – Ficamos sabendo que Anne desenvolvia um projeto ambicioso em astronomia, e os usava também para previsões.

– Sim. – concordou o professor.

– Acha que pode haver alguma relação entre o desaparecimento dela com essas pesquisas?

– Talvez.

– …Pode ser mais específico, por favor?

Era evidente que o professor não queria ser mais específico, mas ele não tinha uma autoridade maior do que a de um auror autorizado por sua superiora, então falou:

– Anne é uma aluna rara. Na área de astronomia, ela entende facilmente coisas que eu levei anos estudando. E ninguém fazia segredo disso aqui na escola. É bem provável que alguém que precise desse talento a seqüestrou.

– Então, não acredita que ela tenha fugido?

– Fugir? Não. Anne só voltava para casa nas férias por saudades das irmãs. Se não fosse por elas, ficaria o ano todo aqui na escola estudando. Se tivesse fugido de casa, com certeza teria vindo para cá.

– Tem certeza? – perguntou Harry desconfiando da firmeza com que ele falava.

– Absoluta. A conheço há muito tempo, senhor Potter, acho que sei mais sobre ela do que a própria Senhorita Aborto aqui.

Harry sentiu um arrepio e olhou para o lado. Julie estava furiosa da mesma forma de quando a tinha conhecido. Ela lançou um olhar mortal para o professor, levantou-se e saiu da sala, fechando a porta com toda a força.

Harry permaneceu olhando para a porta, abobado. O professor deu um meio sorriso e disse:

– Bom, se tiver mais alguma pergunta, senhor Potter, por favor seja breve, eu ainda tenho que regular estes telescópios para o terceiro ano.

– Não… acho… Se lembrar de algo que possa nos ajudar, professor. – acrescentou, se levantando – Nós, hum, agradecemos.

O professor levantou da sua mesa e começou a retirar os telescópios que estavam em um canto, enquanto dizia:

– Avisarei. Anne faz muita falta em minhas aulas… É melhor se apressar ou sua companheira de investigação acabará se jogando no lago. – acrescentou ele.

– Hum, certo.

Harry saiu e correu para encontrar Julie. Não tinha entendido o que acontecera, mas uma coisa era certa: aqueles dois já se conheciam.

***

Julie atropelara meia dúzia de alunos enquanto andava pisando duro até a porta principal e realmente ia em direção ao lago nos terrenos de Hogwarts.

Lá fora já estava começando a anoitecer e uma brisa fraca a acompanhou até que ela chegasse na beira, onde parou e olhou para longe, para o céu, onde uma estrela já começava a brilhar. Tinha vontade de gritar bem alto, como se gritando conseguisse tirar tudo o que estava a apertando por dentro. Mas não conseguiu. Não gritaria, por que já tinha aprendido que gritar não resolvia.

– Julie! – Harry parou de correr ofegando ao lado dela – Você vai se jogar no lago?!

Ela não pôde evitar e riu.

– O que foi? – perguntou Harry confuso.

Julie olhou para superfície espelhada do lago e disse:

– Nem pular no lago, nem gritar, nem me jogar do telhado, nem entrar correndo dentro de uma caverna de trasgos… nem jogar bombas em crupes…

Harry ficou mais confuso ainda. Teria que começar desde o começo:

– Você conhece aquele cara?

Ela afirmou com um sinal de cabeça, mas não falou nada.

– Sabe, – Harry suspirou – Não vou pedir que você me conte detalhes pessoais, mas se eles tiverem alguma relação com Anne, não pode ficar escondendo. Ele disse que a conhece melhor do que você mesma.

– Eu sei. Só me deixa pensar por onde começar… – ela respirou fundo e disse por fim – Acho que nosso tempo de investigação aqui acabou. Que tal voltarmos para o vilarejo?… Anne falava de um tal Três Vassouras…

Harry achou uma ótima idéia.

***

– É realmente um lugarzinho movimentado aqui. – Julie comentou para Harry quando ele voltou com duas garrafas de cerveja amanteigada – Tipos estranhos. Não vejo muitas pessoas assim no povoado. Nem seres assim…

– Hogsmeade é bem famosa. Ela é mais movimentada nos dias em que os alunos vem passear.

– Hum… – ela tomou um gole da bebida e continuou olhando em volta.

– Então?

– O quê?

– Será que tem algo que eu preciso ouvir e que você não me contou?

Julie olhou para a garrafa em suas mãos e pensou um pouco antes de falar:

– Eu… Eu fiz uma coisa horrível há quatro anos atrás.

– Coisa horrível?

– Bom, eu realmente não tinha opção e aquela parecia minha única saída, então… não estou tentando me justificar, mas… – ela deu uma olhada para Harry e viu que ele estava impaciente, então voltou a encarar a garrafa para conseguir falar – Minha família não foi bem recebida quando foi morar naquele povoado. Eu lembro como se fosse hoje do dia em que chegamos… As famílias mais antigas não gostam de mudanças, sabe? Elas não querem ninguém atrapalhando a vidinha rotineira delas. E eu fui um ‘atrapalhamento’ desde o começo. Eu não tinha capacidade de fazer coisas simples que qualquer criança bruxa faz, como lidar com corujas ou montar vassouras. Os pais não deixavam as outras crianças brincarem comigo. Então eu me afastava, ficava longe dos outros…

“Mas um dia eu conheci o Lee. Ele era um ano mais velho que eu e tentava desesperadamente fugir da mãe, que o obrigava a ser o menininho perfeito que ela queria. Ele foi o meu único amigo durante a infância…”

**

– Você é idiota ou o quê?! – perguntou um menino de cabelos castanhos e olhos claros, que não passava dos sete anos, agarrado a um galho de árvore tentando desesperadamente tirar seus pés do alcance de um bando de crupes que rosnavam ferozes – Acha que pode jogar uma bombinha no meio deles que eles não vão ligar?!

– Você subiu rapidinho! – riu uma menina de cabelos cor de palha um pouco menor que ele sentada no mesmo galho ao lado, se divertindo ao olhar as tentativas frustradas dos bichos em tentar alcançá-los.

– Como vamos voltar para casa agora?! – perguntou o menino arriscando-se a sentar no galho também, sem se soltar do tronco.

– Uma hora eles vão embora. – disse a menina.

– Eu não vou ficar esperando todo esse tempo!

– Então pede licença para eles!

– Muito engraçado, Julie. Se eu não voltar para casa antes de escurecer minha mãe vai ficar brava! E pior vai ser se descobrirem que eu estou com você!

A expressão alegre da menina mudou rapidamente. Ela começou a balançar os pés no ar e não olhava diretamente para nada. O menino conseguiu finalmente se sentar firme e percebeu como ela estava.

– … Julie?

– Que foi? – perguntou ela de forma rude, demonstrando todo o seu aborrecimento.

– Eu não ligo se eles briguem por eu estar com você. – ele resmungou, como se tivesse estivesse admitindo somente para que ela não continuasse daquele jeito.

Ela sorriu para ele:

– Eu sei que você não liga, ou não estaria aqui. Mas…

– É que eles não conhecem você, sabe? Não como eu conheço. Garanto que se eles-

– Não são só os seus pais, Lee. – ela olhou para os telhados da casa ao longe, no vilarejo.

Os crupes lá em baixo se acalmaram e se dispersavam aos poucos. Logo eles nem lembravam mais que aqueles dois em cima da árvore tinham atrapalhado suas sonecas com bombinhas e procuravam por coisas mais interessantes, como um gnomo que passara correndo.

– Acho que podemos voltar agora. – disse ela verificando em volta – Eles já foram.

– Certo. Eu desço primeiAAAAHHHH!!!

– LEE!!! – ela desceu o mais rápido que pôde para socorrer o menino estatelado no chão. – Você está bem, Lee?!

– Ai. – gemeu ele – Eu estou vivo.

– Machucou? – perguntou ela, tocando no braço esfolado dele.

– Não foi nada. Já tive tombos bem maiores que esse.

Ela riu e sua expressão voltou a ser alegre, esquecida de todos os problemas.

– Ei, o que vamos fazer amanhã? – ele perguntou.

– Ora, o quê? Amanhã você vai ficar mais velho! Já tenho oito bexigas de lama fedida esperando para o momento em que você aparecer no quintal de casa.

– Então não vou na sua casa amanhã, pronto!

– Duvido que você não vá!

– Que apostar?

– Suas figurinhas de sapos de chocolate?

– Nem brincando!

E os dois voltaram pelo caminho de terra que levava ao vilarejo.

*

– Quantas vezes nós vamos ter que repetir que não é para você vir aqui?!

– Me solta, Larsen!

– Não! Dessa vez vai ganhar um castigo para nunca mais esquecer! Mamãe está furiosa com você!

– Eu só estava brincando!

– Você sabe muito bem com quem pode brincar!

– Não! Me solta!

– Cala a boca, Lee!

O menino era arrastado por seu irmão, enquanto Julie ficava olhando sem poder dizer nada, se balançando devagar no balanço do quintal da sua casa.

*

– Não importa se alunos do primeiro ano não podem jogar quadribol! Meu pai já comprou uma vassoura de corrida para mim. Assim que eu começar as aulas de vôo eles vão ver que não podem me deixar fora do time!

– E em que posição você vai jogar, Al?

– Qualquer uma. Sou bom em todas!

O grupo da nova geração de alunos de Hogwarts do vilarejo davam gargalhadas. Era uma tarde ensolarada. Eles estavam escorados em um muro de pedras, e cada um contava aos outros o que haviam comprado para a começarem a vida escolar na magia.

– E você, Lee? O seu irmão é da Sonserina, não? Acha que vai para lá também? – perguntou uma menina de cabelos cacheados.

– Eu prefiro não escolher por mim mesmo.

– Ah, todo mundo pensa em ir para alguma casa. – disse um menino de óculos.

– Minha mãe falou que eu vou para a Corvinal com certeza. – disse a menina de cabelos cacheados – Ela disse que é a casa dos bruxos inteligentes.

– Então o Alphonse não vai para lá!

– É claro que não! – defendeu-se o Alphonse – Eu vou para Grifinória!

– Vamos ver. – desafiou o de óculos.

– Shiii. – fez a menina.

– Que foi? – perguntou Alphonse.

– Aborto chegando.

Lee olhou depressa para a direção que ela indicava com a cabeça. Julie vinha andando carregando uma cesta de compras. Ela procurava de qualquer maneira não olhar para o grupo e apertou o passo para passar logo. Quando ela já estava longe, a menina riu:

– Por que ela não vai embora daqui de uma vez? Ela não é uma bruxa!

– Bruxa ou não ela é uma de nós!

– Ah, Lee! Nem começa a defender! Você deveria ser o primeiro a nem querer olhar para ela! – reclamou a menina.

– É mesmo! – apoiou Alphonse – Sua família é a mais respeitável daqui e você não deveria ficar junto de gente igual a ela!

Julie não estava longe o suficiente e ouviu o que eles falavam. Ela segurou mais firme a sacola e correu pela rua.

– Vocês são uns babacas, sabiam? – brigou Lee, saindo do muro e indo atrás dela.

**

Por alguns instantes, várias lembranças passaram pela cabeça de Julie e ela se esqueceu do que estava falando. Harry precisou estalar os dedos na frente dela para que acordasse e continuasse:

– …Bom, nós crescemos e ele me ajudou muito. Principalmente quando meus pais morreram…

**

A Julie de quinze anos olhava fixamente para a superfície escura do lago. Colocou os pés descalços na água e não ligou para a sensação gélida que parecia queimar. Ela não queria pensar em mais nada, não queria fazer mais nada, não queria mais estar ali. A única coisa que tinha na mente era continuar andando até sumir naquela profundeza escura e perder todo o ar.

A água cobriu sua cabeça e ela deixou-se afundar. Fechou os olhos e os gritos ainda parecia ecoar na sua cabeça. “MENTIRA!!!” ela berrava a pleno pulmões para o avô “É MENTIRA!!!”, “Julie, eu não mentiria assim! Seus pais foram mortos pelos comensais esta noite! Não podemos fazer mais nada! Você tem que ser forte!”. “É MENTIRA!!!”. “O que aconteceu?!” perguntava Anne, que acordara com os gritos.

Ela correu, descalça e de pijamas. Correu até não poder mais e caiu no chão chorando, sentido tudo lhe doer por dentro. O que faria agora?… Então se lembrou do lago.

Abrindo os olhos, viu a luz da lua cintilar a cima dela, junto com seus cabelos violetas. Não havia mais nada, ela só iria afundar.

De repente algo a agarrou pelo peito e a puxou para cima. Ela tentou gritar, falando que não, mas não tinha forças para mais nada. Deixou-se levar.

Lee a arrastou até a beira do lago e a cobriu com um casaco enquanto gritava:

– VOCÊ É MALUCA?!

Ela olhava para o lago. Era para estar lá dentro, afundando.

– Julie?! Você está bem? – ele pegou o rosto dela com as duas mãos para forçá-la olhar para ele – Julie?!

Lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela junto com a água do lago:

– Eu quero afundar… – ela jogou o casaco longe e tentou pular de novo no lago – ME DEIXA AFUNDAR!

– NÃO! – Lee a agarrou e os dois caíram no chão.

– ME SOLTA! – ela continuou gritando e se debatendo – EU NÃO TENHO MAIS NADA!

– SIM, SEUS PAIS MORRERAM! – ele tentava se sobrepor aos gritos dela – Mas seu avô e suas irmãs ainda estão aqui e precisam de você! Muito mais agora!

– Nãããõoo! – ela viu que era inútil tentar se livrar do abraço dele e parou, desabando sem forças e chorando. – Eu sou uma inútil! Elas vão ficar melhor sem mim!

– E eu?! Como eu fico, Julie?

– Você volta para Hogwarts! Fica lá o ano todo! Todos vocês vão! Só eu não! Me solta, Lee!

– Eu não vou soltar você! Está me ouvindo? – ele apertou mais ainda. – Muitas pessoas estão perdendo familiares dessa mesma maneira! Acha que todas elas ficam se jogando em lagos gelados?!

– Elas não são como eu!

– Você é a Julie e sempre vai ser! Podendo usar magia ou não! Você sabe que eu não ligo!

Ela abraçou os braços dele e continuou chorando.

Quando ela saíra correndo de casa tinha todos os motivos do mundo para nunca mais sair daquele lago. Mas agora, sentindo todo o calor de Lee, ela o agradecia em silêncio por a ter salvo.

**

– Ele e Anne se davam muito bem, os dois gostavam de estrelas. Quando ele terminou Hogwarts, foi estudar fora do país por dois anos…

**

– Sabe quantas estrelas tem no céu, Lee?

– Muito mais do que você imagina.

– Um dia eu vou saber o nome de todas elas!

– Isso é impossível, Anne. Muitas nem ao menos tem nome ainda!

– Então eu vou dar nomes para todas elas.

– Anne! – a cabeça de Julie apareceu na janela ao lado deles e ela parecia apavorada – O que está fazendo aí?!

– Estamos vendo as estrelas.

– Lee! Vocês podem ver estrelas daqui da janela! Não precisam ir para o telhado!
– E quem disse que é a mesma coisa? Só está falando isso porque nunca as viu desse ângulo aqui.

– Ela tem medo de vir aqui. – sussurrou Anne para o garoto.

– Medo, é?! – Julie estreitou os olhos aceitando o desafio – De subir no telhado da minha própria casa?

– Ah, ela vai vir aqui! – Anne bateu palmas.

Julie sentou na janela e passou as pernas para fora, se apoiou nas laterais e já estava quase perto deles quando um choro a fez virar depressa:

– Ah, Sarah!

Ela pisou em falso na sua pressa de voltar para dentro e resvalou. Ao tentar se agarrar na borda do telhado, bateu o cotovelo e não conseguiu, mas a mão de Lee a pegou antes que fosse tarde demais.

O choro de Sarah continuava lá dentro, mas agora ele vinha junto com a voz de seu avô tentando acalmá-la. Lá fora, Julie estava suspensa pela beira do telhado sendo segurada somente por Lee, e este sendo ajudado por Anne.

– Julie! Você é maluca?! – ralhou Anne furiosa e assustada ao mesmo tempo.

Julie e Lee começaram a rir e ele a puxou de volta.

– Desculpa, Anne. – pediu Julie quando os três estavam em segurança novamente dentro da casa – Eu não queria ter assustado você.

– Não faça isso de novo! – disse a menina em um tom mandão – Se não sabe andar no telhado da sua própria casa deixe para quem sabe! E você, Lee?! – ela apontou o dedo para ele como se o estivesse acusando de ser cúmplice da trapalhada da irmã – Por que não usou sua varinha?

– Eu? Não posso usar magia fora da escola.

– Hum… – ela avaliou a situação – … Ainda bem que você é rápido. Julie tem sorte de ter você.

Lee ficou um pouco sem graça e perguntou para disfarçar:

– O que tem para o jantar?

– Não acredito que você vai mesmo comer a comida dela… – lamentou-se Anne saindo para contar ao avô o que tinha acontecido.

**

Julie riu lembrando de algo e continuou mais animada:

– Ele sabe da história da minha família sobre a pedra da estrela… Mas como lenda! – acrescentou ela ao perceber que Harry poderia levantar suspeitas. – Ele gostava de estrelas e eu tinha uma história sobre estrelas.

**

Julie e Lee, no último ano de Hogwarts, estavam no morro de onde podia ter uma vista privilegiada do todo o vilarejo.

– Estrelas não curam ninguém. – Lee riu, ajeitando o seu telescópio para que Julie pudesse ver.

– Por isso é uma lenda.

– Eu já ouvi uma história trouxa sobre meteoritos que caem e trazem um ser com super poderes junto. Mas nada parecido com essa sua história.

– Não precisa levar ela tão a sério! Eu só contei por que ela fala sobre estrelas. Lee e estrelas, tudo a ver.

– Sei… – disse ele terminando os ajustes – Pode olhar.

– Eu nunca entendi… – disse ela olhando pela lente – Algumas dessas estrelas nem existem mais. Qual o sentido disso?

– Bom… – Lee cruzou os braços e olhou para o céu – Acho que se aprendêssemos a olhar para o céu de vez em quando, veríamos que somos menores do que pensamos.

Julie desgrudou o olho da lente e sentou na grama rindo:

– Devia falar isso para a sua mãe!

– Para ela pôr veneno na minha comida? Não, obrigado… Deixa ela continuar pensando que minha grande ambição é ter todo o poder astronômico do mundo bruxo. Assim ela deixa com que eu continue meus estudos.

– Lee…

Ele esperou com que ela continuasse, mas ela desviou o olhar para o chão. Então ele sentou ao lado dela e perguntou:

– Algum problema?

– Quando eu era menor, eu pensava que um dia eu iria embora desse lugar, para onde ninguém me olhasse com desprezo. Depois que eu conheci você, eu pensava que qualquer lugar já não seria tão bom, porque você não estaria comigo… Agora a situação inverteu, não? – ela sorriu para ele novamente, mas um sorriso triste – Você vai terminar Hogwarts e vai embora, como seu irmão. E eu vou continuar aqui…

Por um momento os dois permaneceram em silêncio.

– Eu posso sair por uns tempos. Não vou demorar para voltar.

– A questão não é o tempo que demorar… É se você vai querer voltar.

– Enquanto você estiver aqui eu vou ter sempre uma razão para… – ele parou de repente o que estava dizendo, sem graça.

– Eu não sei se vou agüentar ficar aqui sem você do meu lado, Lee. – ela mudou para alegre como mágica de novo – Sem ver você ficar todo vermelho quando está prestes a dizer que gosta de mim.

– É, por mais que todos sempre dissessem que eu não podia gostar… eu gosto de você.

Ela lançou os braços em volta do pescoço dele e disse séria, o encarando:

– E por mais que eu diga para mim mesma que eu não posso amar tanto assim você, eu amo.

Ele riu e a beijou, não pensando em mais nada além de estar ali com ela, naquele momento.

**

– Bom, o Lee, um belo dia, terminou Hogwarts. – disse Julie quando um esbarrão de um duende a fez acordar de seus pensamentos – A família dele esperava grandes feitos na carreira que ele escolheu.

**

– O que vai fazer agora que se formou?

– Não sei. Afinal, sou a vergonha da família, se esqueceu? Fui para a Grifinória, sendo que meu pai e o pai dele se orgulhavam de serem da Sonserina e odiavam a casa rival. Não tenho vontade nenhuma de conseguir um cargo no Ministério, como meu irmão… Ah, e isso sem contar o fato de que namoro Julie Rostagni, a professora mais linda do vilarejo!

– Bobo. – Julie riu e o abraçou mais forte – Você não vai continuar aqui, não é?

– Não para sempre. – concordou Lee.

– E então?

Ele olhou fixo para o céu estrelado e pensou antes de falar.

– Um velho professor da escola sempre me dizia que eu seria um bom astrônomo se continuasse estudando. Que eu deveria fazer um curso fora do país, me especializar.

– Hum, um astrônomo. Pensei que você tivesse falado que seria um jogador de quadribol.

– …Eu tinha oito anos!

– Mas você falou tão sério que desde aquele dia…. E você é bom em quadribol!

– Não, obrigado.

– E então? Você vai?

Ele a encarou e disse:

– Seriam uns dois anos.

– Eu quero o melhor para você, Lee. Sabe disso.

– E se você resolver se jogar no lago de novo? Quem vai te salvar? O Alphonse?

– Como se aquele idiota soubesse nadar!… Eu não vou me jogar em lago nenhum. Tenho a Anne, tenho a Sarah e tenho você.

– É bom saber disso… Mas fique longe do lago, ok?

Ela riu. Porém, não conseguia fazer com que o pressentimento de que algo poderia mudar se o deixasse ir.

**

– …Meu avô morreu e foi nessa época que eu comecei a ter problemas financeiros. Nosso único bem de valor era a casa, mas eu não queria sair dela e minhas irmãs também não. Eu já era maior de idade e oficialmente responsável por elas, mas eu não conseguia manter meus empregos. Era um vilarejo mágico, então eu não tinha grande utilidade. Consegui o emprego de professora, e isso ajudou muito. Eu também procurava fazer outras coisas para ajudar nas despesas e Anne também me ajudava quando estava de férias. Porém, você sabe que os materiais de Hogwarts não são baratos, e o dinheiro que meu avô tinha deixado não daria para sustentar os sete anos de estudos de Anne e mais tarde os de Sarah. Foi então que a mãe de Lee me fez uma proposta…

**

No começo, as cartas de Lee vinham toda a semana. Julie não conseguia mandar cartas por corujas, então dependia totalmente de Anne para enviá-las. Depois elas começaram a atrasar, mas ele explicava que o curso estava exigindo muito dele.

Julie sentia um aperto todas as vezes que olhava para o céu, principalmente durante a noite quando ficava imaginando que estrela ele estaria olhando. Ela tinha Sarah para ocupar seus pensamentos e também seus aluninhos da escola. Começara a dar aulas por necessidade, mas no final descobrira uma magia que estava ao seu alcance: ensinar.

As coisas já não eram tão fáceis como antes. Seus pais não lhe deixaram muito dinheiro quando morreram. E seu avô também não. Ela precisava cuidar das irmãs e arcar com as despesas da escola. Poderia não ter tido a oportunidade de ir para Hogwarts, mas as irmãs teriam.

Quando ela já estava começando a contar os dias para a volta de Lee, recebeu uma visita inesperada. Sem cerimônias, a mãe dele entrou na sua casa. Primeiro ela deu uma olhada geral na sala, principalmente para o quadro da família, e então disse:

– Tenho uma proposta a lhe fazer.

Julie sentiu que não era coisa boa. A mãe de Lee nunca fora uma flor de pessoa. Para falar a verdade, ela pensava seriamente que Lee fosse adotado.

– Que proposta? – ela arriscou perguntar, já que a megera não falava.

– Fique longe do meu filho e eu pago todos os anos de estudos das suas irmãs.

Julie se segurou para não rir na cara dela, mas a velha deixou claro que ela estava falando sério.

– Meu filho virou o que é hoje por sua causa, menina! Não pensa em crescer, em um futuro promissor! Ele pode ter tudo na vida, mas só quer coisas simples! Deixe-o em paz e você não terá mais que se preocupar com dinheiro. Afaste-se dele! Invente algo. Apesar de não ter magia deve ter um pouco de cérebro aí dentro dessa sua cabeça de uva!

– Como a senhora pode entrar aqui na minha casa e me pedir uma coisa dessas?! – perguntou Julie com raiva.

A velha percebeu a estática aumentando a sua volta e respirou dignamente, dizendo:

– Pense bem, senhorita, Rostagni. Você não tem muita opção. – e saiu da mesma forma que entrou.

Depois de alguns dias pensando, Julie percebeu que ela realmente não tinha opções…

**

– …Se eu me afastasse dele, e o deixasse ser um grande bruxo na comunidade mágica como ela tinha planejado, a escola de Anne e Sarah estariam garantidas por ela… Essa foi a coisa horrível: eu aceitei. Eu pensei mais nas minhas irmãs. Eu sou uma inútil, um aborto que não sabe viver como trouxa. Eu não poderia perder a chance de garantir um bom futuro para elas, entende?… Acabei aceitando.

– E então? – perguntou Harry já começando a suspeitar do final da história.

– Bom, o Lee voltou e eu falei um monte de coisas que eu não queria. Ele ouviu sem entender. Queria uma explicação, então eu disse que não queria ser uma egoísta e que a minha vida eram somente as minhas irmãs. Foi uma discussão feia, tanto comigo como na casa dele. Depois disso eu nunca mais o vi. Até hoje… Lee Sharwood… Eu devia suspeitar que a Anne gostasse tanto de astronomia. Ela sempre adorou o Lee, nunca entendeu porque nós brigamos.

– Puxa, – Harry deu um meio sorriso – sabia que um livro sobre a sua vida seria bem mais interessante do que as cinco versões sobre a vida do Menino Que Sobreviveu que estão a venda na Floreios e Borrões?

Julie apertou mais forte a garrafa e disse rindo sem jeito:

– Isso porque eu não te contei a parte do lago. Eu sou a Garota Que Quase Afundou… Temos que voltar. Eu tenho que dar aula amanhã.

– Não conseguimos muita coisa aqui, não?

– O que podemos fazer agora, Harry?

Ele olhou em volta e tentou encaixar todas as informações que tinham conseguido junto com as que já tinham. Mas nenhuma delas apontava para uma nova direção.

– Julie… Hermione costumava dizer que nós poderíamos ter toda a informação que quiséssemos se procurássemos na biblioteca de Hogwarts. Anne deve ter falado que os documentos históricos guardados lá superam até mesmo os do próprio Ministério. Todo o relato da História bruxa está naquele castelo. E realmente não temos muita opção de busca.

– Está dizendo para ficarmos aqui para procurar na biblioteca?

– É uma possibilidade de conseguirmos algo que nos ajude a dar o próximo passo. Eu não tenho uma autorização oficial do Departamento Auror, estou de férias. Não posso simplesmente chegar lá e falar que preciso de documentos antigos sobre o antigo Conselho Supremo para me distrair um pouco.

– Mas…

Julie engoliu em seco e pensou. Não iriam tirá-la do seu trabalho só porque estava tentando encontrar sua irmã…

– Ok… Mas só mais um dia!… Preciso mandar uma coruja, faz isso por mim?

FIC – Descendentes da Estrela

Cap 06 – A aluna das folhas de chá

Foi um alívio finalmente pisar na terra firme de Hogsmeade e tirar a capa, tanto para Julie quanto para Harry.

– Bom, pelo menos chegamos. – disse Julie ofegante, tentando recuperar o ar.
Aparentemente ela tinha prendido a respiração até o último segundo da descida.

Harry a deixou se recompor e prestou atenção a sua volta. Todo aquele lugar lhe era familiar, mas estranho ao mesmo tempo. O vilarejo tinha se desenvolvido, mas a rua principal, com as lojas que eram invadidas pelos alunos, continuava ali. Ele teve a sensação esquisita de que a qualquer momento veria Hermione, Rony e Gina saindo aos risos da Dedosdemel.

– Isso não parece ser uma escola de magia. – disse Julie parando ao lado dele e olhando em volta.

– Lá. – Harry apontou para adiante, onde as torres de Hogwarts eram visíveis por detrás das árvores. – Mas antes temos que avisar da nossa chegada… Minerva Mcgonnagal é a diretora?

– Até onde eu sei, sim.

– Não vão nos deixar entrar se não nos anunciarmos antes. Vamos mandar uma coruja.

– …não gosto de corujas. – resmungou ela o seguindo pela rua larga.

***

Depois de receberem uma resposta com a autorização para entrarem nos terrenos da escola, os dois seguiram o resto do caminho andando. A paisagem de primavera também trouxe várias lembranças para Harry, que por várias vezes teve que ser apressado por Julie para poderem chegar logo.

Enfim, os portões com os javalis ficaram visíveis, e também já havia alguém esperando por eles. Um velhinho encurvado, apoiado em uma bengala e com uma expressão de pouquíssimos amigos aguardava pela entrada deles. Harry não pôde conter uma exclamação quando reconheceu no velho o abominável zelador Argo Filch com os cabelos totalmente brancos.

– Eu conheço você! – disse ele encarando Harry com um olhar torto sem cerimônias e mantendo o ar rabugento – Nunca esqueço de um malandro encrenqueiro!

– Olá, senhor Filch. – cumprimentou Harry tentando parecer amigável – Viemos falar com a diretora.

– Ah, ela com certeza ficará encantada de vê-lo, Potter.– esganiçou ele – Mas não espere o mesmo da minha parte!

E ele os conduziu pelos terrenos até o castelo, resmungando vez ou outra que antigos alunos não deveriam voltar para a escola, já não bastava os novos que chegavam a cada ano?

– Não liga para ele. – Harry sussurrou para Julie que parecia estar incerta sobre o que pensar do velho – É só um velho abor… velho rabugento, não muito diferente de quando eu estudei aqui.

Julie deu um meio sorriso, desconfiada do que Harry quase dissera, e passou a dar atenção para o interior do castelo. Não demorou muito para ela não conseguir esconder o seu deslumbramento.

– Podem aguardar aqui. – anunciou Filch, fazendo-os parar no meio do hall de entrada – A diretora está no salão principal com os alunos. Irei avisá-la e logo ela virá até vocês.

Aos passos do velho zelador, Harry supôs que o logo não seria um logo muito breve. Então não pôde conter a sua vontade de ficar olhando em volta e relembrando daquele lugar que sempre fora a sua casa.

– Deve ser incrível viver aqui… – comentou Julie pensativa, estendendo a mão para tocar a parede, mas a encolhendo receosa, quase que instantaneamente – Parece que cada pedra tem sua própria magia…

Harry engoliu em seco. Mais uma vez se dava conta da situação dela.

Ele tinha a experiência de alguém que crescerá trouxa e ficara sabendo que era um bruxo. Mas e ela que sempre vivera com as coisas maravilhosas que a magia proporcionava e nunca pôde tê-las? Era realmente de apertar o coração pensar em tudo o que ele teve ali naquele castelo e ter agora ao seu lado alguém como Julie, que o máximo que teria de Hogwarts é imaginar como seria viver ali através de relatos.

– Você estudou aqui? – ela perguntou de repente, mas não esperou uma resposta e continuou – Mas é claro que estudou, me desculpe. É que… eram só histórias que a Anne contava a cada verão, sabe? A copa das casas, os banquetes, as festas, as aulas…

A voz dela diminuiu até sumir e ela continuou olhando para as ampolas que marcavam a pontuação de cada casa. Harry sentiu uma necessidade enorme de lhe falar algo, mas antes de poder abrir a boca alguém o chamou:

– Potter! – A diretora vinha do salão principal.

Com certeza o cargo de direção de Hogwarts tinha legado à professora Mcgonnagal muito mais do que prestígio. Os cabelos brancos, as rugas mais acentuadas, o andar mais lento, porém não menos determinado. Mas a expressão severa continuava com ela, embora neste momento ela deixasse transparecer um pouco de alegria.

– Bom dia, diretora. – cumprimentou Harry educadamente, usando sua melhor pose de Auror – Estamos aqui para-

– Eu sei para que vieram aqui, Potter. – anunciou a professora retomando a sua atitude severa quando parou em frente dele, o mirando de cima a baixo – Harry Potter, o menino que sobreviveu… – ela deu um sorriso – Tenho orgulho de ter sido sua professora, Harry, e espero que não se esqueça disso!… Senhorita. Rostagni? – ela cumprimentou Julie um tanto friamente, se comparada com as boas vindas de Harry – Sentimos muito por sua irmã. Sei que buscam algum esclarecimento aqui em Hogwarts, mas receio que terão que agir por conta própria. Amanhã começam os exames finais e os professores estão muito ocupados com seus afazeres. Já avisei á eles para responderem suas perguntas, mas terão que ser breves. Sabem com quais alunos vão precisar falar?

– Sim, temos alguns nomes. – disse Julie – Provavelmente eles poderão nos indicar mais.

– Muito bem, peguem esta autorização minha, talvez possam precisar. – ela lhes entregou um pergaminho – Fiquem a vontade, mas lembrem-se que aqui existem regras e não toleraremos que as transgridam ou levem algum aluno à transgredi-las. Estamos entendidos?

– Sim, senhora. – respondeu Harry, e isso o fez pensar que estava parecendo muito mais um aluno do que um auror.

– Se quiserem, estão convidados para almoçar conosco hoje, mas as investigações não podem estender até a noite. Como já falei, teremos exames amanhã, os alunos precisam preparar-se… Qual é o primeiro aluno com quem querem falar?

– Michelle Nigg, Rosemary Dodson e Marilyn Peters.

– Ah, sim. – disse a professora – As companheiras de dormitório de Anne. Elas estão no salão principal. Vou chamá-las.

Durante toda a manhã, as amigas e colegas de Anne não trouxeram nenhuma informação nova, além de algumas fofocas. Aparentemente, Anne mantinha brigas e discussões constantes com uma aluna da Sonserina chamada Beatrice Sweeney.

No almoço, aceitaram o convite da diretora e participaram da refeição no salão principal. Assim, poderiam falar com os professores que talvez trariam algum fato importante que os alunos adolescentes não tivessem notado.

Para o desespero de Harry, eles foram convidados a se sentarem na mesa principal. Dali, todos os alunos, que já tinham sido comunicados pelos colegas da presença do auror famoso, poderiam vê-lo, como se estivesse exposto.

– Poderíamos ter ido almoçar na cozinha. – ele sussurrou para Julie – Eu sei onde fica.

– Eles só querem ver a sua cicatriz. Tente não ficar pensando que estão olhando para você.

– Não é tão fácil assim… – resmungou ele, lançando um olhar rápido por todas as mesas e percebendo o grande número de cabeças voltadas para ele.

– Soube que estão investigando sobre o desaparecimento de Anne. – disse um professor chegando por detrás deles – Sou a professora Maven, diretora da Corvinal. Muito prazer em conhecê-los, senhor Potter, senhorita Rostagni.

Os dois o cumprimentaram e a professora continuou:

– Anne era a melhor aluna da Corvinal, destacava-se em tudo o que fazia. E por isso não era bem vista por muitos colegas. Mas tem uma aluna em especial com que vocês deveriam conversar: Beatrice Sweeney.

– Elas brigavam muito, pelo que ficamos sabendo. – comentou Julie.

– Sim, e já sabem o motivo das discussões?

– Um aluno, chamado Ernest Dawood, nos disse que era por causa dele – comentou Harry.

– Dawood nunca perde uma oportunidade para se vangloriar. Ele já foi um motivo sim, mas elas competiam em outra área além do amor. As duas eram adivinhas e costumavam prever o futuro e contabilizar os acertos.

– Ah, meu Merlin… – Julie meneou a cabeça incrédula – Anne fazia isso, mesmo?

– Não só faziam como Dawood promovia apostas em cima das previsões delas. Mas tem uma diferença básica entre elas. Anne desenvolvia uma pesquisa extensa em astronomia, e era através de uma analise dos astros que ela fazia suas previsões. Já a Senhorita. Sweeney via o futuro pelas folhas de chá. É um talento natural dela. Eu acho que vocês deveriam consultá-la e pedir para ela ler as suas sortes.

– Por que ver nossas sortes? Não deveríamos só fazer algumas perguntas? – pediu Harry.

– O melhor meio de conseguirem alguma resposta dela é deixando que ela veja pela xícara. Prestem atenção no que ela fala. Como eu disse, é um talento natural que ela tem.

***

Beatrice Sweeney não era uma aluna muito sociável. Filch teve que conduzir Harry e Julie até a sala comunal da Sonserina, onde ela costumava ficar quando os outros alunos aproveitavam o sol nos terrenos do castelo. Ela era um perfeito exemplo de sonseriana mal encarada, mas não passava um ar de charlatanismo como o da antiga professora de adivinhação de Harry, a professora Sibila.

– Tomem a primeira. – ordenou ela enchendo duas xícaras. – Até a última gota.

Harry achou engraçado uma garota de quinze anos agindo como uma bruxa altamente capacitada e segura do que fazia. Ela tinha cabelos negros que mantinha presos em duas redes, uma em cada lado da cabeça. Não usava jóias que tilintavam, mas tinha uma corrente no pescoço com uma pedra exagerada e de valor questionável. Além disso, usava uma sombra em volta do olho que fazia com que eles parecessem estar flutuando em buracos negros.

Ela fez os mesmos gestos que Harry tinha aprendido em sua primeira aula de adivinhação, e imediatamente alguma coisa gritou dentro dele: adivinhação era uma tremenda bobagem.

– Primeiro a sua. – ela disse analisando a xícara de Julie. – Vejo um nó. – ela deixou a xícara e se concentrou em Julie – Você teve muitos problemas, e eles te trouxeram até aqui. O nó representa um perigo adiante, um perigo que você irá enfrentar devido a esses problemas… Tome mais uma. – ela serviu mais duas xícaras e pegou a xícara de Harry. – Uma chave. Você encontrará a solução para o mistério, uma chave que irá abrir todo o caminho. Pode ir bebendo a outra… Uma bengala. – ela disse olhando para a outra xícara de Julie – Você necessita de apoio, não pode fazer as coisas sozinhas. Precisa que alguém lhe mostre a verdade. A última, por favor… A sua, senhor Potter: um triângulo. Um acontecimento inesperado, uma coisa que está além do que pode imaginar… e tem também uma borboleta, no lado do triângulo. Borboletas representam felicidade. Então esse acontecimento inesperado está ligado com a sua felicidade. Mais uma vez. – ela encheu mais duas xícaras e esperou pacientemente – Essa é a última, prometo.

Harry e Julie se entreolharam e engoliram todo o conteúdo de uma vez, entregando as xícaras logo em seguida. Mas isso surpreendeu a adivinha que olhou para as duas xícaras, dizendo:

– Vocês beberam ao mesmo tempo e as entregaram ao mesmo tempo. Isso representa que o que uma diz, complementa o que a outra diz… – ela as pegou – Uma lua e uma janela… – largando as xícaras sobre a mesa, a aluna encarou os dois. – Na vida conseguimos vários amigos que nos dão suporte para seguirmos em frente. – ela olhou diretamente para Julie – Mas muitas vezes nós os perdemos, e junto as possibilidades que teríamos e que poderiam ser concretizadas. Porém, no destino, um raio pode cair duas vezes em um mesmo lugar, se lhe dermos uma chance. – ela olhou para Harry – Só precisam de um pequeno empurrão… Três galeões. – ela acrescentou com um pequeno sorriso de triunfo.

– O quê? – perguntou Harry.

– O pagamento. – disse Beatrice com ar de quem tinha feito um bom negócio.

***

– Três galeões para ela falar um monte de coisas dedutíveis? – reclamava Harry depois de terem se afastado bastante da sala comunal da sonserina – Claro que você pode encontrar algo perigoso investigando o desaparecimento da sua irmã. Claro que eu estou aqui para ajudar e descobrir esse mistério. Você precisa de apoio, claro, estou fazendo o papel da bengala. Um acontecimento inesperado? Estamos em uma investigação, acontecimentos inesperados são conseqüências disso! – ele olhou para Julie que não dizia nada desde que saíram – …Desculpa, você acredita em adivinhação? Eu não nunca tive boas experiências com elas…

– Não é isso. – disse ela pensativa – Aprendi a desconfiar de magias que nem todos têm, mas… o que ela falou por último…

Harry tentou lembrar de todas as palavras:

– Bom, ela não me pareceu estar falando de algo futuro… na verdade ela não foi nada clara!

– Isso mesmo.

Harry ficou calado esperando que ela dissesse algo além, mas ela continuou pensando.

– Bom, essa menina não nos disse nada que ajudasse de imediato. Qual é o nosso próximo passo?

– Acho… acho que temos que falar com o professor de astronomia dela.

– A pesquisa que ela desenvolvia. Com certeza esse professor saberá nos dizer coisas muito mais interessantes. Como é o nome dele?

– Não sei.

– Não sabe? Mas sua irmã não falava sobre a pesquisa?

– Sobre a pesquisa sim. Ela a desenvolvia, não o professor. O gênio era ela, não?

Ele ponderou e indicou o caminho para as torres.

***

Harry bateu na grande porta de madeira ao final de uma longa escadaria em espiral que levava a torre mais alta do castelo. Ouviram um movimento apressado vindo do outro lado e logo a porta foi aberta.

– Olá. – disse Harry assim que alguém apareceu, entregando a autorização que tinha ganho da diretora – Podemos fazer algumas perguntas, professor? Nós estamos querendo saber sobre… a sua aluna… que… – Harry não conseguiu terminar a frase porque não estava sendo ouvido.

O professor encarava fixamente algum ponto além de Harry, não dando a mínima atenção ao que ele falava ou ao pergaminho que ele estendia. Então o auror olhou para trás e viu uma Julie branca, que se agarrava aos próprios braços como se esse gesto tivesse o poder de evitar que ela caísse em um profundo abismo.

FIC – Descendentes da Estrela

Cap 05 – Dando o primeiro passo

Logo de manhã, vozes diferentes foram ouvidas por toda a casa.

Harry foi soterrado por abraços antes mesmo de conseguir pisar direito na cozinha. Molly Weasley, com os cabelos esbranquiçados e com o mesmo semblante de mãe protetora que Harry lembrava, foi a primeira:

– Ah, Harry! Há quanto tempo! Só víamos você pelos jornais!

– Er… olá, senhora. Weasley!

Ela lhe deu dois beijos bem estralados em cada uma das suas bochechas e ainda o sufocava em um abraço quando o senhor Weasley apertou a sua mão:

– Puxa, Harry! Mesmo quando eu ainda trabalhava no ministério, encontrar você era difícil.

– Hermione nos contou agora que você estava aqui, Harry. – disse a senhora. Weasley – Ah, mas você está tão pálido. Tem se alimentado direito, querido?

Harry sorriu agradecido. Uma das coisas que ele mais sentia falta das suas visitas n’A Toca era a preocupação maternal que a senhora. Weasley dividia com ele.

O dia transcorreu agitado durante todo o resto da manhã. Hermione tentava fazer as coisas e sempre era impedida pela sogra, que alegava que ela não deveria ficar se esforçando por causa do seu estado. Logo antes do meio dia Fred e Jorge chegaram, com presentes tanto para o aniversariante quanto para o sobrinho.

– Não se preocupe, Hermione. – disse Fred assim que notou o ar de contrariedade enquanto via o filho remexer nas novidades das Gemealidades Weasleys que eles trouxeram. – Nada do que trouxemos pode fazer a casa pegar fogo.

– O máximo que ele vai conseguir, – continuou Jorge – é criar tentáculos no próprio nariz.

– Coisa que não vai ser problema para uma curandeira do seu calibre! – apressou-se em acrescentar Fred, com um sorriso que não aliviava nem de perto a preocupação de Hermione.

O almoço não poderia ter sido melhor. Há muito tempo Harry não participava de uma reunião de família assim, desde quando era adolescente e se reunia com os amigos n’A Toca. Ele ficou sabendo, em animada conversa com a Senhora Weasley, como estava o resto da família. Somente Rony, Fred e Jorge permaneciam no país. Os outros irmãos estavam trabalhando fora. A novidade era que Gina estava na França como representante do Ministério para assuntos exteriores. Harry tentou disfarçar o seu interesse em saber mais sobre ela, afinal, já fazia muito tempo. Embora ele sentisse um aperto toda vez que lembrava dela, admirou-se de como ela chegou longe em tão pouco tempo. Porém, pensou ele, com o carisma que ela tinha estava claro que ela poderia alcançar muito mais em sua carreira.

Assim, ao final do almoço, ele anunciou que não poderia ficar o resto da tarde porque tinha um compromisso. Recebeu vários protestos que foram amenizados por Rony e Hermione. Eles sabiam qual era o compromisso, mas procuraram discretamente não revelar para o resto do pessoal. Porém, Matthew não conhecia os códigos de éticas de uma missão e anunciou em alto e bom som para os avós e os tios:

– O tio Harry tem um encontro com a professora Rostagni, a minha professora.
– Matthew! – repreendeu Hermione.

– Deixa ele, Mione. – disse Harry encolhendo os ombros.

– Um encontro, Harry? – perguntou Jorge com um sorriso afetado – Não perde tempo, heim?

– É um caso que eu… – Harry começou a explicar, mas os gêmeos não davam a menor atenção ao que ele dizia e comentavam como Harry deveria estar aproveitando as suas férias.

Sem poder se defender das insinuações cada vez mais pretensiosas, Harry despediu-se e passou no seu quarto para pegar a pasta do caso Anne Rostagni antes de sair.

Havia combinado com Julie que naquela tarde iniciariam as suas investigações. Precisava que ela contasse exatamente como tudo aconteceu e que desse o maior número possível de informações sobre Anne. Assim, quando ela tocou a campainha na casa antiga no final do vilarejo, ela atendeu de pronto.

– Desculpe o atraso, – ele apressou-se em dizer – mas eu estive-

– Ocupado. – ela terminou indicando para que ele entrasse – Eu sei. As reuniões da Família Weasley já são bem conhecidas aqui do vilarejo. Ainda mais quando os irmãos do senhor Weasley se empolgam com os seus fogos de artifícios.

Harry riu, lembrando inesperadamente de um dia espetacular de fogos em seu quinto ano em Hogwarts, e disse entrando:

– Eles devem ter melhorado muito desde a última vez em que eu assisti aos espetáculos das Gemealidades… Bom, aqui está o relatório. Preciso da sua versão.

Eles se sentaram na sala onde Sarah montava um quebra cabeça com peças que tentavam fugir quando a menina se distraia.

– Foi em uma terça à noite. Eu tive que correr até o hospital porque a Sarah tinha sido mordida por um gnomo rabugento que insiste em fazer buracos em nosso quintal dos fundos. Anne ficou preparando o jantar, era ela quem fazia comida aqui… Eu, anhm, nunca me dei muito bem com isso. – ela deu um meio sorriso – E quando eu voltei, nem uma hora depois, ela tinha sumindo. Não levaram nada, não deixaram nada, não soubemos de mais nada depois. Eu convoquei os aurores, mas como você sabe, eles não foram de grande ajuda. Minha irmã continua desaparecida.

“Seus professores em Hogwarts me mandaram várias cartas pedindo o que havia acontecido com ela e porque ela não voltou para as aulas. A direção da escola falava principalmente em nome do professor de astronomia. Ela desenvolvia uma pesquisa nessa matéria que lhe garantia os seus NIEMs sem problemas.”

– E ela não tinha amigas em Hogwarts? Alguém que pudesse dar alguma informação?

– Claro que tinha. Mas a investigação não passou desse ponto. Corujas não me obedecem, apenas olham para mim como se estivessem rindo da minha incapacidade de lhes ordenar alguma coisa. E não podia deixar a Sarah e ir para a escola entrevistar as colegas da Anne, não do jeito que ela estava.

– Bom, então acho que o primeiro passo seria irmos até a escola e descobrir com quem ela mantinha contato.

Julie o encarou por um tempo e perguntou:

– Irmos?

– Não vou conseguir nada em Hogwarts sem uma autorização do departamento dos Aurores. Preciso que a responsável pela desaparecida vá comigo.

– Mas eu não posso ir para Hogwarts! – exclamou ela como se fosse a coisa mais absurda do mundo – Primeiro: a Sarah. Segundo: não tenho magia para entrar em um lugar desses!

– Podemos deixar a Sarah com a Hermione por um dia. Ela vai gostar de alguém que possa cuidar do Matthew amanhã, quando toda a bagunça da festa tiver terminado. E ser um aborto não é impedimento nenhum para alguém entrar em Hogwarts. Sei disso, quando eu estudava lá havia um zelador assim.

Julie pestanejou, procurando alguma falha no que Harry acabara de dizer e foi forçada a concordar:

– Certo. Eu… Domingo? Amanhã?!

– Claro, pelo que eu sei você trabalha durante a semana e não tem um dia melhor para irmos.

Ela olhou para a irmã que se jogara no chão para pegar uma peça antes que ela se escondesse em baixo do sofá.

– Está bem. Vamos amanhã… Mas, vamos de trem?

– Eu estava pensando em… Por acaso tem medo de altura?

Julie franziu a testa como se não tivesse entendido a pergunta.

***

No outro dia, bem cedo, Julie bateu na porta da casa do Weasley, segurando firmemente Sarah pela mão. Quem atendeu a porta foi Matthew, ainda de pijama, que, quando viu quem era, voltou correndo para o seu quarto e gritou que não podia atender a porta porque estava fazendo o dever de casa.

Hermione não os deixou ir sem antes tomarem um reforçado café da manhã, já que não conseguira o mesmo de Rony, que já tinha saído para o seu treino extra-oficial. Depois de dar todas as recomendações para a menina sobre como deveria se comportar e não causar nenhum problema para a senhora. Weasley, Julie e Harry seguiram para o quintal dos fundos, de onde deveriam partir.

– Exatamente como você vai fazer para que os trouxas não nos vejam? – perguntou ela quando Harry tirou uma das antigas vassouras de Rony de um galpão.

– Assim. – ele pegou uma capa e apontou a varinha para ela dizendo – Engorgio!
A capa aumentou duas vezes de tamanho e ele a colocou nos ombros, fazendo com que só sua cabeça não ficasse invisível.

– Com a capa poderemos fazer um caminho mais direto, não tendo que pegar atalhos para nos desviarmos de trouxas. E essa vassoura de Rony é bem veloz, chegaremos em menos de duas horas… Podemos ir?

Hermione, Sarah e Matthew se despediam alegremente da varanda e Julie parecia pensar que ainda havia uma possibilidade de ela dizer que não ia. Entretanto, a sua determinação em encontrar a irmã tinha que ser maior do que o seu medo de voar em objetos mágicos que nunca teria controle.

– Muito bem, o que eu faço? – perguntou ela.

– Primeiro, é melhor se segurar. – disse Harry montando na vassoura – Eu corro bastante, mas prometo que você não vai cair se segurar bem firme. Pode subir.

Julie montou na vassoura totalmente sem jeito e logo Harry colocou a capa sobre eles. Matthew deu um berro de alegria e Harry ainda pode ouvi-lo perguntar se emprestava a capa para ele brincar assim que voltasse quando decolaram.

A sensação térmica era muito mais baixa, mesmo usando a capa como proteção contra ao vento.

– Harry! Tem nuvens ali! Bem ali! Cuidado!

– Eu vi. Calma! Nuvens nem são tão perigosas assim!

– Vamos morrer! Devíamos ter ido andando!

Harry revirou os olhos e tentou acelerar. Não queria nem pensar na volta…