FIC – Entre Doces e Dragões Especial

CAP 05 – Estranho conhecido

Seguindo os passos, Mary e Doumajyd foram guiados pelas ruas escuras de Hogsmeade. Primeiro passaram no Restaurante Casa dos Gritos, onde os passos ficaram um tempo cintilando em uma mesa, sugerindo que Dorothy havia parado ali por um tempo e provavelmente feito uma refeição.

– Aqui não foi… – Nissenson começou a formular uma pergunta, mas levou uma cotovela de Vicky, que dizia para que ele guardasse seus comentários.

Logo os passos voltaram a se mover e seguiram rapidamente para o zoológico, onde se tornaram inconstantes e mais confusos de se seguir, já que alternava a sua direção várias vezes e de forma repentina. Até que depois de várias voltas, elas seguiram para a saída e voltaram a percorrer as ruas da cidade, até entrarem na Praça do Relógio.

– Vicky, por acaso aqui… – foi a vez de McGilleain tentar perguntar, e antes que ele pudesse terminar de o fazer, Vicky agarrou ele e o marido pelos braços, os fazendo parar no meio da rua na antes do início da calçada que circulava toda a praça. E então os arrastou para longe, sendo seguidos por um Hainault que parecia olhar distraidamente em volta, como se estivesse em um simples passeio noturno.

– Acho que entendi. – declarou ela, quando estavam afastados o suficiente do casal Doumajyd, que não haviam notado a fuga dos amigos devido a concentração em seguir as pegadas para dentro da Praça.

– Entendeu o quê? – perguntou Nissenson.

– Parece que existe uma lógica por trás do suposto seqüestro da Dorothy. – contou Hainault, como alguém que já sabia da informação e apenas aguardava um melhor momento para contar.

Os outros dois olharam de um para outro, aguardando uma explicação mais detalhada.

– Pensem. – começou Vicky – Perceberam que os caminhos que percorremos são os lugares que fazem parte do passado da Mary e do Chris?

– Sim. – respondeu Nissenson.

– Era o que eu queria ter perguntado antes. – completou McGilleain.

– Contamos todas essas histórias para a Dorothy, não contamos? – ela perguntou para eles, que afirmaram com um aceno de cabeça – Não acham natural ela querer visitar esses lugares que fazem parte da história dos seus pais?

– Espera. – Nissenson pareceu ter entendido o raciocínio de Vicky e do amigo – Quer dizer que isso não é um seqüestro?

– Pelo caminho que fizemos, parece mais um passeio. – disse Hainault.

– Então devemos contar isso para o Chris e a Mary! – exclamou McGilleain.

– Não! – Vicky o cortou antes que ele pudesse esboçar qualquer movimento para fazer aquilo – Acho que eles compreenderem por eles mesmos faz parte do plano de quem elaborou tudo isso.

– Mas quem elaborou tudo isso? – Nissenson perguntou perplexo.

– Penso que não cabe a nós descobrirmos. – Hainault concluiu.

***

Apesar de dizer que não queria a sopa, Dorothy a devorou como se estivesse há dias sem uma refeição decente, diante dos olhares surpresos de Ian e do estranho.

Enquanto a garota se distraía com sua colher e prato, Ian disfarçadamente analisava, atendo a qualquer movimento que o estranho fazia. Apesar de achar que não havia um grande perigo, nada até o momento o deixara totalmente tranquillo. Afinal, haviam sido seqüestrados e a cordialidade que receberam nos últimos momentos não eram o suficiente para quebrar a desconfiança.

– Você! – Dorothy apontou a colher para o estranho de repente, o encarando com seu olhar determinado, como se anunciasse uma sentença – É familiar.

Ele sorriu e continuou com sua sopa.

– Conhece ele? – Ian perguntou baixinho, confuso.

– Ele parece com alguém. – ela disse, sem tirar os olhos dele, apesar de continuar comendo – Mas conheço tantas pessoas que não consigo me lembrar com quem… Provavelmente alguém do trabalho do meu pai.

– Está chegando pero. – comentou o estranho.

Ian se surpreendeu com aquilo. Ele ia realmente ajudá-la a lembrar e assim fazer com que eles descobrissem quem ele era de verdade?

Entretanto, ele não parecia ser algum conhecido do pai de Dorothy, já que ele não parecia tão velho para ter algum negócio com a gigante D&M, e com certeza não era um herdeiro famoso, ou a garota se lembraria mais facilmente, já que ela convivia com essas pessoas. Apesar de não ser tão velho, também não parecia ter muito mais idade com eles. Era mais como alguém que tinha recebido a licença para usar magia há pouco tempo… Então uma idéia lhe ocorreu, e ele sussurrou para ela:

– Ele não é parecido com alguém que você conhece?

Aquilo pareceu fazer sentido na cabeça dela e por um momento ela se perdeu em pensamentos, como se levantasse suposições e revisasse seu arquivo mental de rostos em busca de traços conhecidos. Se ela descobrisse com que ele parecia, poderiam começar a entender porque estavam ali.

O estranho apenas observava o esforço que ela fazia, como se estivesse ciente de que agora era apenas uma contagem regressiva, e não tivesse muito a perder caso ela realmente descobrisse.

– AAAH! – fez a garota, quase virando a mesa no processo de levantar e exclamar.

– Lembrou? – perguntou Ian, sem tirar os olhos do estranho

***

Mary viu os passos luminosos pararem embaixo da estátua do bruxo montado a cavalo na Praça do Relógio e ali se deter, cintilando no mesmo lugar.

– Ela… ela ficou parada aqui. – informou para Doumajyd.

– Por que ela viria aqui? – ele perguntou – Por que ela andaria pela cidade inteira quando sabe que não pode fazer isso sozinha?

– Dorothy estava passeando, mamãe? – Julyan perguntou – Eu posso passear também?

– Não pode. – o dragão respondeu imediatamente – Não sozinho. Tem muitas pessoas ruins que só estão esperando uma chance de fazer algo ruim com vocês.

Mary escutou o marido repetir o que ele sempre falava para os filhos diante de perguntas como aquela e então, algumas coisas do que estava acontecendo começaram a fazer sentido.

– Talvez, – começou devagar, ainda relutante com essa possibilidade – ela só quisesse sair.

Doumajyd a encarou por um tempo, tentando pegar o fio de pensamento dela.

– Porque ela iria querer sair? – ele perguntou confuso, e o filho o seguiu na mesma expressão.

– Chris, nossa filha é importante para nós. E eu sei, que da mesma forma que você, ela carrega o fardo de ser a herdeira Doumajyd. Mas… Lembra quando andávamos por Hogsmeade sem problemas? Lembra que essa era a melhor parte de Hogwarts? – ela pensou um pouco e acrescentou – Bom, pelo menos para mim era, já que era o único momento em que eu ficava longe da arrogância de certos dragões.

– Como assim era bom ficar longe do Ilustríssimo Eu? – ele perguntou incrédulo.

– Quase sempre era.

– Os melhores momentos que você teve em Hogwarts foram comigo, não se lembra?

– Sim. – ela desdenhou – Como o dia e que ficamos presos na casa dos gritos e você ficou doente. O maior nome dentro da Sociedade Bruxa desmaiando de febre no meio de escombros de uma construção.

– Foi um bom dia, sim! Foi nosso primeiro encontro!

– Não, aquilo não foi um encontro. – Mary o corrigiu.

– Claro que foi! E você me fez ficar esperando plantado aqui por quatro horas e estava nevando! Se não fosse por isso, essa história da febre não teria acontecido e seria um encontro melhor.

Ela lhe lançou um olhar de dúvida.

– Ok, então o encontro no Zoológico? Aquilo foi um encontro, não foi?

Mary lembrou da sua real intenção por trás daquele encontro duplo e tentou disfarçar, pulando para o como aquele dia terminara:

– Mas no final você socou o namorado da Vicky.

– Mas ele mereceu.

– É, ele mereceu. – não podia negar.

– E eu comprei aquele bicho estranho legal para você!

– Não lembro de bicho estranho nenhum.

– Aquele que rosna estranho quando a gente abre a boca dele e que a mamãe esconde dentro da gaveta? – perguntou Julyan.

– Julyan! – Mary.

– Esse mesmo! – Doumajyd riu.

– Enfim, estamos falando da Dorothy e não sobre nós!

– Os pezinhos! – informou o menino apontando para as marcas que começaram a se mover de novo e seguiram até um canteiro.

E, como se fosse levado por uma lufada de vento, os passos sumiram no ar.

– E agora? – Julyan perguntou, esperando que seus super pais resolvessem aquele problema facilmente.

Porém, Doumajyd e Mary se entreolharam sem saber o que fazer. Então, uma voz conhecida veio de algum lugar atrás deles:

– Que tal admitirem que vocês se preocupam demais, mesmo sem motivos?

FIC – Entre Doces e Dragões Especial

CAP 04 – Feitiço Rastreador de Primeira Ordem
– Quem é você?! – rosnou Dorothy, erguendo os punhos e ficando em posição de ataque, pronta para enfrentar qualquer coisa mesmo estando desarmada.
Mas a única resposta que recebeu foi uma gargalhada de quem estava se divertindo com a situação.
 – Não pense que vai conseguir o que quer facilmente! – Ian tentou ajudar de alguma maneira – Nesse momento o senhor Doumajyd deve estar querendo arrancar a sua cabeça!
– E é justamente isso que eu quero, caro amigo. – a pessoa entrou e fechou a porta calmamente, um gesto nem um pouco parecido com o de um seqüestrador, mais com alguém que entra na própria casa – Mas até que isso aconteça, eu peço que vocês aguardem aqui sem muita agitação. Seria melhor se ainda estivessem amarrados, mas já que se soltaram, não vou prendê-los novamente… Estão com fome?
Ian ficou sem saber o que responder, principalmente porque o seqüestrador falara do modo mais educado que alguém já havia lhe falado. Já Dorothy continuou na mesma pose de ataque e estreitou os olhos, respondeu a pergunta com seu jeito doce de falar:
– Não pense que vai nos enganar, idiota! E não pense que vou deixar vocês me usarem para conseguir alguma coisa do meu pai!
– Que seja.
Ele puxou uma varinha do bolso de suas vestes e Dorothy recuou, ainda em pose de ataque, o que fez Ian se sobressaltar. Porém, o estranho apenas fez um gesto simples em direção a uma mesa velha, e instantaneamente ela foi coberta por uma toalha limpa. E, com mais gestos, também fez parecer pratos, talheres e uma travessa com sopa recém feita.
Não tenho ordens para deixá-los morrer de fome, mas também não tenho ordens para alimentá-los. Então, quem vai sair perdendo são vocês.
E então ele sentou-se à mesa, servindo um prato para ele, mais uma vez agindo tranquilamente como alguém que estava na própria casa.
Ao perceber a atitude tranqüila dele, Ian se deu conta de que estava tão preocupado com o ‘como fugir dali’ que não pensara em mais nada. Uma vez que entramos em uma situação como de seqüestro, nosso principal pensamento sempre é o de defesa e de fuga, e só depois de algum tempo é que tomamos consciência de analisar pequenos detalhes. E foram esses pequenos detalhes que fizeram o garoto chegar a uma conclusão:
– Isso não é um seqüestro, não é mesmo?
Dorothy o encarou surpresa e o suposto seqüestrador se limitou a sorrir.
– De certa forma você está correto, mas agora ainda não é a hora de explicar o que está acontecendo e essa explicação muito menos vira de mim. Então, enquanto somos obrigados a esperar, porque não aproveitam e comem?
Com isso, Dorothy lhe lançou um olhar inquiridor, que dizia com todas as palavras que a decisão caberia a ele, já que ele parecia estar à frente dela no entendimento de tudo aquilo.
– Confie em mim. – foi tudo o que ele sussurrou para ela, antes de seguir para a mesa – Isso cheira bem!
– Garanto que é melhor sopa de tomate que vai experimentar! – se gabou o estranho.
***
A senhora Ganderson permaneceu estática diante da porta da sua casa. Ao abri-la, já tinha preparada em mente mais de mil ofensas contra aqueles que estavam espancando a sua porta tão tarde da noite. Mas assim que se deu conta de que aqueles rostos a sua frente eram os mesmos que ela vira muitas vezes no Profeta Diário, a sua mente ficou em branco e tudo o que conseguiu fazer foi um gesto involuntário de recuar.
– Estamos procurando por Ian Ganderson. – informou o Chefe Auror MacGilleain.
A pergunta ficou sem respostas por alguns segundos e então a mulher pareceu se dar conta do que poderia ser, e respondeu em tom de defesa:
– Juro que não temos nada a ver com o que ele aprontou! Aquele inútil não volta para casa faz dias!
– O que a senhora é dele? – perguntou Nissenson, aproveitando para dar uma olhada geral na casa, e confirmando que ali era um lar bruxo, apesar de visivelmente pobre.
– Mãe. – ela respondeu, ainda na defensiva – Se ele aprontou algum coisa, senhor Chefe Auror, pode ficar a vontade para-
Mas ela não pode terminar, Doumajyd avançou para frente deles, com Julian ao seu lado, e perguntou impaciente:
– Só nos diga onde ele está, senhora.
Foi então que a mulher se deu conta de que não só estava diante de pessoas importantes, como essas pessoas eram o D4. E só conseguindo ligar esse fato a uma única coisa, ela desabou em lágrimas:
– Eu juro que não temos nada a ver com o que aquele aborto aprontou! Fizemos de tudo para torná-lo uma pessoa melhor, mas não teve jeito! Garanto que meus outros filhos são bruxos honrados! Não nos julguem pelo que Ian fez!
Os quatro dragões e Julian permaneceram parados, apenas assistindo ao desabafo da mãe.
– Quem é? – um bruxo barbudo apareceu à porta, e logo os visitantes o concluíram que ele seria o marido da senhora.
 Assim que deu conta da presença dele ali, a mulher engoliu o choro e ficou calada, como quem não ousava respirar, mas mesmo assim era visível que tremia.
– Senhor, queremos saber onde Ian está.
O bruxo estreitou os olhos, o que não contribuiu em nada para a sua aparência de poucos amigos, e pensou por um tempo. Então, empurrou a mulher para dentro e respondeu de uma forma seca:
– Nenhum Ian mora aqui. Boa noite, senhores.
E estava prestes a fechar a porta quando foi impedido por Doumajyd, que o impediu. Por um tempo, os dois ficaram se encarando, como se medissem forças.
– Senhor, só queremos saber onde ele está. – MacGilleain tentou contornar a situação de uma forma pacífica – Garanto que vocês não sairão prejudicados.
– Aquele menino que segura uma varinha como se fosse um graveto não merece morar em um lar de bruxos. – respondeu o senhor – Podemos ser humildes, mas ainda sim temos uma tradição. Ian já está grande o suficiente para se virar sozinho. Ele não faz mais parte dessa família.
Aquela declaração deixou Doumajyd surpreso:
– Quer dizer que resolveu ignorar seu filho pelo simples fato de ele não poder usar magia? QUE TIPO DE IDIOTA VOCÊ É?!
– NÃO CHRIS! – Nissenson segurou o amigo a tempo, antes que ele pudesse agredir o bruxo, mas não atentou para Julian, que avançou no lugar do pai.
– QUE TIPO DE IDIOTA VOCÊ É?! – gritou o menino, chutando a canela do bruxo.
Diante dessa reação estourada do menino, claramente imitando o pai, os outros dragões se espantaram. Mas antes que qualquer um pudesse fazer alguma coisa, o menino acrescentou usando um tom que lembrava muito o que Mary sempre usava ara dar sermão:
– NÃO PODE DIZER ESSAS COISAS DOS FILHOS!
O bruxo encarou o menino de cinco anos que lhe dava uma lição de moral e então para os outros bruxos, que aguardavam. E, sem dizer mais nada, fechou a porta.
– EEEEI! – foi a vez de Doumajyd socar a madeira.
– Não adianta, Chris. – disse Hainault – Se os pais não o aceitam já é um início para descobrirmos os motivos que esse garoto tenha para ajudar a Dorothy.
***
– Ian nunca faria uma coisas dessas. – disse o mestre Agravaine com uma risada, seguindo com Mary e Vicky para so fundos da sua loja – Sim ele esteve comigo em Hogwarts, e sim ele voltou comigo de Hogwarts. Em momento algum ele pareceu estar prestes a seqüestrar uma aluna da escola… E para que ele faria isso?
– Só o fato de ter tentado já o tornaria famoso. – Vicky respondeu com firmeza – Não é suficiente para alguém como ele?
– Meu aprendiz não é esse tipo de pessoa, senhora Nissenson. Apesar de ter problemas com a família e da sua condição de nascido bruxo sem magia, ele é o menino mais educado que já conheci e o único que aceitei como meu aprendiz. – garantiu o mestre, verificando no seu molho de chaves a procura da que necessitava, sem esconder que aquilo tudo era incomodo.
– Desculpe, senhor. – pediu Mary – Mas eu preciso verificar esse depósito. Se houver algum sinal de que minha filha esteve aqui, teremos uma pista a seguir. Se não, seu aprendiz não estará mais sob suspeita.
– Na verdade ele pode até estar aqui. – informou o mestre – Como eu disse, ele tem problemas com os pais e muitas vezes não volta para casa e dorme na carroça. Finjo que não vejo isso. Sei que se ele soubesse do meu conhecimento, provavelmente procuraria por outro lugar e prefiro ter ele aqui do que na rua. Acreditem, ele pode não ter nascido com magia, mas tem todo o orgulho que um bruxo da melhor linhagem pode ter.
– Então ele se acertaria com a Dorothy. – comentou Vicky prontamente.
– Vicky! – repreendeu a amiga.
– O quê? – perguntou o bruxo, abrindo a porta.
– Nada. – respondeu Mary, entrando no depósito.
Lá dentro estava escuro, mas a luminosidade que vinha fora era o suficiente para iluminar a carroça vazia no fundo do depósito. Mesmo assim, o mestre acendeu sua varinha e focou a luz em volta, apenas confirmando que o lugar estava vazio.
– Bom, não está aqui. – disse o bruxo – Receio que terão que bater a porta dos Ganderson.
Mas Mary não ouviu o que ele dissera, porque no mesmo instante retirou do bolso do seu casaco uma esfera, onde uma fumaça em espiral brilhava e formava a silhueta de alguém.
– Mary! – chamou a figura já formada de Doumajyd – Ele não está na casa dos pais.
– Estou no depósito da loja do Mestre Agravaine e preciso de você para executar o feitiço rastreador.
Com um aceno de confirmação do dragão, a figura voltou a ser fumaça e Mary guardou a esfera.
– Tem certeza disso, Mary? – perguntou a amiga surpresa – Você pode ficar com problemas se executar um feitiço de primeira ordem sem autorização.
– Nunca usei a influência que tenho como senhora Doumajyd para nada, Vicky. Mas, se for para encontrar a minha filha, vou correr o risco. Não se esqueça que várias vezes já fui seqüestrada por alguém que tem problemas com o Chris e não quero que o mesmo aconteça com ela!
Vários estalos foram ouvidos do lado de fora e logo os dragões entraram no depósito.
– Mãe! – Julian correu para o colo de Mary, exigindo – Dorothy!
– Vamos encontrá-la, querido, não se preocupe. Chris! – ele indicou a carroça e pegou a sua varinha. Doumajyd fez o mesmo e se juntou a ela, já ciente do que teria que fazer.
– Não me diga que-
– Eles vão executar o feitiço de rastreamento. – Vicky cortou o marido, falando também para os outros dragões.
– Mas precisa de autorização do Ministério para usar esse feitiço! – falou MacGilleain.
– Mary tem capacidade para executar esse feitiço. – lembrou Hainault – E já o usou pelo menos duas vezes de forma bem sucedida em casos que defendeu, sempre com a autorização do Ministério… E não se esqueçam que Dorothy é a herdeira Doumajyd. Qualquer coisa é valida para resgatar àquela que vai ditar os rumos da sociedade mágica.
– Espero que seja assim. – comentou Nissenson, observando Mary e Doumajyd executarem o feitiço na carroça.
O resultado não foi de imediato, mas logo pequenos pontos luminosos, como se fosse grãos de areia, cintilaram em um tom azulado. E logo eles formaram desenhos luminosos, no formato exato da impressão de um calçado no chão.
– O que exatamente é esse feitiço? – o mestre Agravaine perguntou para Vicky, olhando espantado para as luzes que apareciam no chão do seu depósito.
– É um feitiço proibido para pessoas que não estejam na primeira ordem ou que não desempenham alguma alta função dentro do Ministério. Mary foi precavida em encantar a filha com a primeira parte do feitiço, dando autorização para que ela fosse rastreada, e foi esperta em nomear somente ela e o Chris como os que podiam executar o feitiço completo. Como é algo que confronta um dos direitos mais básicos de uma pessoa, o de ir e vir livremente, ele só pode ser usado com autorização oficial do Ministério. Ele-
– Ela esteve aqui! – exclamou Mary, quando os passos luminosos cintilaram fora da carroça, deram algumas passadas em volta e então saíram rapidamente pela porta.
Sem perder tempo, eles a seguiram, deixando apenas mestre Agravaine para trás.
– Obrigado pela sua ajuda. – Vicky lembrou de agradecer, quando estava saindo pela porta.
-Se houver algum problema com o meu aprendiz me avisem! – o bruxo ainda pediu, antes de ficar sozinho pensando em que enrascada Ian poderia estar metido.

FIC – Entre Doces e Dragões Especial

Demorou, mas saiu! xD
Enfim, tendo que dar atenção para nossas outras fics inacabadas (que, diga-se de passagem, estão muito mais atrasadas que coisas da EDD), é claro que as fics individuais atrasam um pouco. 

E, como já foi dito, estamos diminuindo o ritmo de atualizações agora no final de ano (não significa necessariamente que não temos coisas para postar xD). Um monte de coisas do site antigo estão revisadas e aguardando na fila para serem relançadas e ainda temos os capítulos novos. Só estamos nos dando uma folga merecida depois de cumprirmos nossa promessa de não deixar mais o blog parado xD

E, encerrando aqui as desculpas e blábláblás, eis o cap da semana e fiquem aguardem um grande relançamento para semana que vem o/

***

 


CAP 03 – Princesa Doumajyd

Ian pensava que nada poderia ser pior, e que aquele dia definitivamente excedia expectativas em matéria de dias ruins de toda a sua vida. Não bastava ter sido manipulado por uma menina e ter sido forçado por ela a passear por Hogsmeade, agora tinha sido seqüestrado junto com ela também. Porém, o fato de estar em algum lugar ignorado, com os olhos vendados, pés e mãos amarrados, jogado em um canto, e tendo a referida menina em igual estado ao seu lado, só era amenizado por um outro pensamento que cutucava a sua mente: muito, mas muito mais perigoso do que estar nas mãos de criminosos desconhecidos, sem saber o que poderia acontecer no minuto seguinte, era justamente tudo o que acontecera antes de chegar nesse ponto.

Olhando sobre a luz da informação que o levara a estar ali, a única pessoa que acreditaria que ele era um simples coitado que acabara caindo em uma armadilha do destino seria ele próprio. Para todos os outros, ele seria um cúmplice, alguém que ajudou no seqüestro da princesa Dorothy Doumajyd, a filha do Grande Dragão Christopher Doumajyd. Ninguém iria engolir a conversa de que ele havia sido forçado pela própria Dorothy a tirá-la da proteção do castelo da maior escola de bruxaria do mundo e a expô-la aos seqüestradores.
– Ian?… – chamou a menina, com a voz baixa.

Estavam ali há um bom tempo e provavelmente já havia escurecido lá fora. Os sujeitos seqüestradores simplesmente os jogaram naquele canto amarrados, muito confiantes de que duas crianças não seriam capazes de fugir por conta. Só por garantia, confiscaram a varinha da menina e o revistaram em busca de algo que pudesse ajudar em uma fuga. Depois disso saíram e tudo em volta era apenas silêncio. A não ser pelo-

– Ian! – ela chamou de novo, impaciente.

– O que foi? – ele respondeu mal humorado, deixando bem claro o seu pensamento de que a culpada por tudo aquilo era ela.

– Desculpa. – ela pediu, com um tom sentido.

Por um momento, Ian vacilou no seu mau humor. Não podia ser drástico daquela maneira e a fazer se sentir daquele jeito. Afinal, ela também estava em uma posição assustadora. A usariam para subornar seu pai, e ninguém sabia o que aquelas pessoas poderiam fazer com ela para ameaçá-lo.

– Se bem que se você não tivesse aberto essa boca grande nada disso teria acontecido! – ela acrescentou, voltando ao seu tom de voz normal.

Ok, a culpa era toda, total e exclusivamente dela. E Ian estava pronto para permanecer calado e não dirigir a mais mínima palavra para a menina, nem que eles ficassem trancados naquele lugar por anos.

– Eu só queria sair detrás daqueles muros de pedra. – ela contou com um suspiro, não falando diretamente com ele.

Mais do que ficar com raiva ou com pena, Ian ficou surpreso. Como ela conseguia, com uma só frase, fazer ele ir de um extremo ao outro em seus pensamentos?

– A Nana vai puxar minhas orelhas até caírem. – ela estremeceu – Minha mãe vai me deixar de castigo por anos!… E meu pai…

Dorothy não continuou, e ele podia jurar que ela estava chorando, mesmo que o orgulho não a deixasse fazer isso abertamente.

– Escuta, – ele começou, tentando escolher as palavras – …Nós vamos sair dessa, ok?… Afinal, quem é você? É a filha do maior bruxo de todo o mundo!… Tem dinheiro, prestígio… magia.

– Não é tão incrível assim ser Dorothy Doumajyd. – ela resmungou.

– Como não?! – ele perguntou perplexo – Você tem tudo, não tem?

– Tenho, tenho tudo… E justamente por ter tudo isso, é que coisas como seqüestros podem acontecer comigo. Por isso eu não posso nem pensar em por o pé para fora do castelo! Por isso preciso viver minha vida toda dentro de muros! Não importa se eu tenho a força de dragão do meu pai e a coragem de erva-daninha-cogumelo da minha mãe! – ela inspirou ruidosamente e gritou com toda a potência dos seus pulmões – TUDO ISSO É INACREDITÁÁÁAÁVEL!

Ian ficou estático, com o eco do desabafo da menina ainda reboando dentro da sua cabeça.

– IAN!

– Sim? – ele se apressou em responder, enquanto ela ainda bufava, tentando se acalmar.

– Não vou ficar aqui esperando algo acontecer! Vamos fugir!

Definitivamente, o momento de se jogar em um buraco de lamentação havia passado para Dorothy Doumajyd. Tinha entrado naquela enrascada por sua própria conta, então seria de sua própria conta sair dela. Diante da determinação da garota, tudo o que Ian pode fazer foi fitar a escuridão da sua venda, torcendo para que ela fosse tão genial quanto à geração de dragões da qual descendia.

***

– COMO ASSIM ESTAVA FORA DE HOGWARTS, RICHARDSON?! – Christopher Doumajyd rosnou – ELA NÃO PODE SAIR DE DA ESCOLA!

– Parece que a senhorita Dorothy desapareceu quando estava fazendo a sua ronda disciplinar entre as aulas, senhor Christopher. – respondeu o secretário, não se movendo diante dos esbravejos do chefe, mas visivelmente preocupado com toda a situação – Temos informações de que um fornecedor da escola esteve nos terrenos do castelo no mesmo horário.

– E O QUE ESTÃO ESPERANDO?!

– COMO ASSIM MINHA FILHA FOI SEQUESTRADA, RICHARDSON?! – Mary praticamente abriu as portas do escritório do marido com um pontapé – O QUE ESTÁ FAZENDO AÍ PARADO, CHRIS?! VAMOS ENCONTRÁ-LA! CHAME O ADAM AGORA!

– Calma, Mary. – a fúria do dragão, diante do seu equivalente, diminui para dar lugar ao bom senso – temos que-

– CALMA?! COMO EU POSSO FICAR CALMA SE A MINHA FILHA FOI SEQUESTRADA?!

Vários vidros no lugar estouraram, e uma chama roxa explodiu dentro da lareira, se apagando logo em seguida, tão subitamente como havia começado.
No mesmo instante, um garotinho entrou correndo no escritório e se agarrou nas pernas de Mary, afundando o rosto nos seus joelhos. Logo atrás dele uma elfa-doméstica jovem e muito mais pequena do que o normal para a espécie, veio correndo, toda atrapalhada por estar parcialmente coberta por uma gosma esverdeada e tentando se livrar da mesma, enquanto gaguejava:

– Me-me-mestre Julian! Nã-não po-pode! Não po-pode, mestre!

Já imaginado o que havia acontecido, com um gesto de varinha Mary fez a gosma desaparecer da serviçal. Ao ficar livre do que lhe impedia de se mover, a elfa imediatamente se curvou pedindo desculpas:

– Perdão, senhora Mary Ann! Nina não conseguiu segurar o pequeno mestre no quarto!

O menino desenterrou o rosto das pernas da mãe por meio segundo e mostrou a língua para a elfa.

– Julian! – Mary o repreendeu – Não faça isso! Peça desculpas para a Nina!

– Dorothy! – ele exclamou em um tom abafado de exigência por entre as dobras da vestes dela.

Com um grande suspiro, Mary o desgrudou de suas pernas e o levantou do chão, o entregando logo em seguida nos braços do marido, dizendo:

– Eu mesmo vou atrás dela!

E antes que o dragão, ou mesmo o secretário, pudesse dizer alguma coisa para impedi-la, Mary acendeu a lareira com as chamas verdes de transporte e disse:

– Loja de poções da família Nissenson em Hogsmeade! – e desapareceu como se levada por um vento invisível.

– Papai, eu quero a Dorothy. – o menino pediu novamente, dessa vez encarando seriamente o pai.

– Richardson. – chamou o dragão tomando uma decisão.

– Sim, senhor Christopher.

– Fique no meu lugar por tempo indeterminado e com minha autorização para resolver os problemas da D&M. Eu mesmo vou verificar o que aconteceu com a minha filha. – e então ele falou com a elfa, que já se aproximava na intenção de receber o menino – Ele vai comigo, Nina.

– Eu vou com o papai, Nina. – o menino repetiu a informação para a elfa, para o caso de ela não ter ouvido direito.

Então o dragão ajeitou o menino em um braço e pegou a sua esfera no bolso. A fumaça mal havia se transformado na pessoa que ele queria contatar quando ele praticamente rosnou na esfera:

– Ryan! Vá para o Ministério agora!

E sem mais explicações também entrou na lareira, direcionando as chamas para o mesmo local.

***

Foi com um susto que Vicky recebeu a amiga de infância na lareira da loja principal da família Nissenson no centro de Hogsmeade. Estava para fechar a loja quando as chamas esverdeadas explodiram na lareira e a figura conhecida apareceu entre as labaredas.

Pela experiência de anos em reconhecer o estado de ânimo de Mary, ela sabia muito bem que algo muito grave acontecera, e foi justamente isso que ela questionou assim que a visita inesperada pisou fora da fuligem.

– A Dorothy saiu do castelo. – Mary contou, conseguindo fazer com que o turbilhão de pensamentos em sua cabeça saísse em uma única uma frase, abrangendo toda a situação.

– Ela saiu?! Mas ela não pode sair! – Vicky entendeu o tamanho da gravidade para que aquele fato levasse a amiga a estar ali sem aviso prévio – Isso quer dizer que…

– Sim, ela foi levada por alguém! – Mary começou a falar rápido, enquanto caminhava para a saída sendo seguida de perto pela amiga – Ainda não sabemos quem é, mas parece que essa pessoa esteve em Hogwarts hoje. Desculpe vir pela sua lareira, mas aqui é o lugar mais perto do castelo que conheço. Ainda bem que você ainda estava aqui!

– Eu vou com você. – falou Vicky decidida.

– Não precisa, Vicky, eu-

Mas a amiga não ouvia as palavras de Mary. No mesmo instante ela pegou uma esfera do bolso das suas vestes e a imagem de alguém já esperava por ela.

– Vicky! Aconteceu-

– A Mary está aqui, Simon. – ela informou.

– Ah, então você já sabe. Estou indo para o Ministério.

– Nós vamos para Hogwarts.

***

O chefe dos Aurores, Adam MacGilleain, saiu às pressas do elevador, não dando atenção às pessoas que empurrava no processo, e correu pelos corredores do seu departamento, até chegar a sua sala. Antes mesmo de passar pela porta, foi recebido pelos rosnados do amigo:

– Onde pensa que estava, Adam?!

O Chefe parou diante do único bruxo que tinha o direito e coragem de ser grosseiro com ele, mesmo diante do importante cargo que ocupava na comunidade mágica, e respirou fundo:

– Como vai, Julian? – ele bagunçou os cabelos do menino que estava nos braços de Doumajyd.

– Oi, tio Adam. – ele respondeu com um imenso sorriso, não escondendo em nada o quão feliz estava por estar participando de tudo.

– Quero que convoque todos os bruxos qualificados para-

– É claro que ele não pode fazer isso! – informou, um tanto impaciente, Simon Nissenson, que aguardava juntamente com o quieto Ryan Hainault no sofá da sala a chegada do amigo.

– Como assim não pode?! – perguntou Doumajyd furioso – Ele é o Chefe aqui! Pode fazer o que quiser!

– Não, não posso, Chris. – MacGilleain seguiu até a sua mesa e remexeu nos pergaminhos – Pelo que você me informou e pelo relatório que o Richardson me enviou no caminho, ela desapareceu hoje à tarde. Normalmente, nesses casos, temos que espera vinte e quatro horas para podermos iniciar o processo burocrático da investigação e somente aí podermos mobilizar agentes para que procurem pela pessoa desaparecida.

– O quê?! – perguntou o líder do D4, com uma expressão de confusão idêntica ao do filho com tudo o que havia acabado de ouvir.

Diante do silêncio que ocupou a sala depois da indagação do dragão, Hainault foi o primeiro a reagir, ficando de pé e perguntando do seu modo calmo, de quem consegue enxergar as soluções mais simples:

– E extraordinariamente, o que você pode fazer?

– Bom, extraordinariamente, eu posso sair mais cedo do meu trabalho e me juntar ao D4 para procurar a nossa princesa Doumajyd.

Hainault sorriu satisfeito e perguntou para os outros:

– Então o que estamos fazendo aqui nesse escritório?

Apenas assentindo, Doumajyd foi para a porta, sendo imediatamente seguido pelos outros.

***

– Sim, o mestre Agravaine esteve aqui hoje para reabastecer o estoque de adubo especialmente preparados das estufas. – confirmou a professora Karoline – Mas ele é uma boa pessoa, não seqüestraria uma aluna.

– Mas ele é a única pista que temos. – insistiu Mary – Professora, precisamos encontrá-lo!

– Bom, eu posso conseguir isso. É só irmos até a loja dele em Hogsmeade, ele mora nos fundos. Não vai negar falar com vocês, ainda mais se eu estiver junto.

– Tem certeza que só ele esteve aqui, Mary? – Vicky perguntou para amiga, ainda tentando se inteirar de todas as informações.

– Sim, ele foi o único bruxo que passou pelos portões da escola hoje, e você sabe que todo o território da escola está encantado para que qualquer presença seja denunciada.

– Na verdade… – começou a professora pensativa, como se só agora houvesse lhe ocorrido – Na verdade o encantamento denúncia qualquer presença mágica nos territórios, inclusive animais… Mas não é capaz de detectar alguém que não tenha ressonância mágica.

– O que quer dizer com isso, professora? – perguntou Mary, sentindo uma sensação de queda diante daquela revelação de que os muros de Hogwarts não eram tão seguros como ela pensava.

– Se um trouxa tentar passar pelos portões, ele não seria impedido.

– Mas é impossível um trouxa em Hogsmeade sem estar na companhia de algum bruxo! – exclamou Vicky.

– Sim, é impossível um trouxa estar em Hogsmeade sem a tutela de um bruxo, mas não são somente os trouxas que não possuem magia.

– Um aborto. – a resposta surgiu clara como um sol na cabeça de Mary.

A professora Karoline assentiu e declarou com um tom sério:

– Mestre Agraveine me contou que seu aprendiz é um aborto, e ele também esteve aqui hoje.

Sem esperar por qualquer outra coisa, Mary pegou a sua esfera para contatar o marido imediatamente.

***

– Como fez isso?! – Ian, depois de ter tido a venda retirada dos seus olhos, olhava abobado para Dorothy desamarrando as cordas que prendiam seus pés e suas mãos.

– Nós bruxos somos muito confiantes, não é? Pensamos que se as cordas são amarradas usando mágica é o suficiente para que as pessoas não fujam. Nós podem ser desamarrados sem um varinha. – ela sorriu triunfante para ele quando conseguiu soltá-lo – Some isso ao fato de que sou filha da minha mãe. Metade da minha família é trouxa e eu sei alguns truques de trouxas… Agora, vamos sair daqui antes que eles voltem.

Ian se levantou, com dificuldade devido ao tempo imobilizado, e olhou para o lugar escuro a sua volta. Parecia ser um depósito e nenhuma luz, além da fraca luminosidade da lua, entrava pelas janelas. Com certeza não estavam em Hogsmeade ou perto de algum lugar povoado.

Cuidadosamente, Dorothy seguiu nas pontas dos pés em direção a uma porta grande e pesada de ferro e encostou uma orelha nela, verificando se havia algum som pelo lado de fora.

– Acho que não tem ninguém. – disse ela, fazendo sinal para que ele fosse até lá – Vamos nos esgueirar e encontrar um lugar com uma lareira.

– Se encontrarmos uma lareira. – Ian a corrigiu, na esperança de que ela compreendesse que não poderia ser tão fácil como ela fazia parecer ser.

– Vamos encontrar uma, mesmo que seja preciso andar até Londres! – ela respondeu determinada – É impossível não haver uma larei-

Mas ela não pode terminar de falar. No mesmo instante, a porta foi aberta e os dois se afastaram assustados.

– Então conseguiram escapar? – perguntou uma pessoa, iluminando o local com a sua varinha, não permitindo que os olhos dos dois, acostumados com a escuridão, pudessem distinguir quem era

FIC – Entre Doces e Dragões Especial

Demorou, mas saiu mais um cap o/

CAP 02 – Passeio em Hogsmeade

– A professora Karoline é uma bruxa e tanto, não? – pedia o mestre de Ian lhe dando cotoveladas enquanto o garoto conduzia a carroça sem cavalos pela estrada que ligava Hogwarts à Hogsmeade.

– Hum. – concordou o garoto, não prestando atenção na conversa, mas sim preocupado com a carga extra que levava no compartimento da carroça.

Mesmo tendo dito com todas as letras um ‘NÃO’ redondo para a garota, fora como se essa palavra não tivesse significado nenhum para ela. Sem dar ouvidos aos esbravejos e negativas dele, ela seguiu cuidadosamente até a porta do castelo, assim como ele havia feito para entrar, e saiu sorrateira para os terrenos. Sem ter outra alternativa, Ian a seguiu.

Ao chegarem na frente das estufas, ela teve a brilhante idéia de se esconder na parte de trás da carroça, onde havia um pedaço de pano usado para cobrir as encomendas, que serviria como camuflagem. Diante disso, o garoto percebeu a besteira em que estava se deixando levar: acobertando a fuga de uma aluna da maior escola de magia e bruxaria da Inglaterra. Então, decidido a arrancar a menina da carroça nem que fosse a tapas, ele se aproximou com a intenção de puxar o pano que a cobria. Mas, nesse exato momento ouviu a voz do seu mestre se despedindo da professora na porta da estufa.

E assim, lá estava ele, com um imenso problema do qual não fazia a mínima idéia de como resolver. Com um suspiro desolado, ele desejou com todas as forças do mundo ser capaz de usar pelo menos uma vez na vida um vira-tempo, para poder apagar do seu passado o momento em que teve a brilhante idéia de dar uma espiada no interior de Hogwarts.

***

– Onde vamos primeiro?! – perguntou a menina empolgada, não sabendo para que lugar olhar primeiro na movimentada rua onde pararam.

– Shiiii! – Ian empurrou a cabeça dela novamente para dentro no pano – Fique quieta aí até eu dizer que pode sair!

– Ian! – chamou seu mestre de dentro da loja – Leve a carroça para o depósito e depois pode voltar para casa. Eu vou fechar a loja aqui na frente!

– Sim, senhor! – ele se apressou em obedecer, guiando a carroça até os fundos, em uma ruela deserta.

Ali entrou no depósito e desceu, respirando fundo para ganhar forças e lidar com o que viria. Antes mesmo de tocar no pano, a menina o retirou de cima de si e pulou do compartimento para o chão de pedra, batendo com as mãos nas vestes para tirar a sujeira.

– Onde vamos primeiro? – ela repetiu a pergunta de antes, como se não houvesse tido interferência alguma.

Ian a avaliou de cima a baixo. Ela deveria ter um pouco menos da sua idade e usava vestes da Sonserina. Isso era um problema. Normalmente, alunos de Hogwarts não eram vistos passeando pela cidade a não ser nos finais de semana. A loucura em um passeio com ela era ainda maior pelo fato de ele ser reconhecidamente um aborto nas redondezas. Quem iria acreditar na versão dele da história quando qualquer mentira vinda da menina seria mais crível aos olhos dos outros? Ela poderia simplesmente dizer que ele a seqüestrou para forçá-la a usar magia para ele…

– E então? – ela perguntou, impaciente.

– Então você vai voltar para Hogwarts, pirralha! – ele respondeu de forma grossa, se aproveitando do fator idade para tentar ganhar vantagem – Não vou ficar-

– O seu mestre está lá na frente, não? Eu iria adorar conversar com ele sobre-

– Ok, ok! Eu vou!… – Ian se viu facilmente derrotado – Aonde você quer ir?

– Eu quero ir ao Restaurante Casa dos Gritos, no Zoológico e na Praça do Relógio!

– Ou seja, em qualquer lugar que você pode visitar normalmente nos dias que tem permissão para sair da escola.

Com essa resposta dele, toda a alegria da menina em dizer os lugares pareceu se evaporar. Mas, tentando não demonstrar que a incomodava o fato de ele achar que aqueles lugares eram ‘qualquer lugar’, ela colocou as mãos na cintura e declarou:

– Eu quero!

Então Ian pensou que não seria tão ruim. Não eram lugares absurdos e obscuros. Em todos eles haveriam muitas pessoas e eles poderiam passar despercebidos. Era fazer com que ela desse uma olhada em volta e depois fossem para o outro ponto. E logo ela poderia voltar para Hogwarts satisfeita e ele salvo de ser denunciado.

O único problema era aquele uniforme…

***

– Até que foi uma boa idéia vindo de um idiota como você. – comentou a menina, terminando de dobrar a barra do macacão que Ian lhe dera para vestir.

Não fora tão difícil convencê-la a trocar o seu uniforme impecável por aqueles trapos. Como os alunos de Hogwarts eram conhecidos principalmente por serem bruxos ricos e esnobes, ela teve o bom senso em concordar que com o uniforme seria facilmente reconhecida.

Assim, ignorando o comentário dela e dizendo a si mesmo que retrucar os seus insultos só o faria perder mais tempo, Ian a levou para o passeio na cidade.

O primeiro lugar que visitaram foi o Restaurante Casa dos Gritos. Ao invés de pedir algum dos pratos caros e de nomes estranhos, que Ian imaginava fazerem parte das refeições de Hogwarts e de todos os bruxos ricos, a menina solicitou uma macarronada e almôndegas. Ian apenas pediu um copo de água e, disfarçadamente, contou os nuques que tinha no bolso. Porém, antes que o garçom anotasse o pedido dele ela mandou que ele trouxesse o mesmo para o companheiro, e lhe entregou um galeão estranho, maior que os usados normalmente.

Quando os pedidos chegaram, mais uma vez o conceito que Ian tinha dos alunos de Hogwarts, que chegava muito perto a de bruxos de Primeira Ordem, desmoronou ao ver a macarronada sumir em questão de minutos. Mesmo sendo visivelmente uma bruxinha rica e mimada, a menina não se preocupava em lambuzar o rosto no processo de devorar a macarronada como se fosse a melhor coisa que ela já provara na vida.

– O que foi? – perguntou ela depois de sugar rapidamente dois fios da massa que lhe saiam pela boca.

– Nada. – respondeu ele rápido, sacudindo a cabeça para enfatizar a resposta e desviar os pensamentos.

– Meu tio costumava fazer esse prato… – disse ela um tanto pensativa – Mas não tenho certeza quanto esses bolinhos de carne. – ela cutucou os referidos bolinhos com o seu garfo, desconfiada.

Satisfeita, ela forçou Ian a praticamente engolir sem mastigar o seu prato, para que pudessem ir para outro lugar.

No zoológico, o garoto teve que praticamente correr atrás dela, que ia de uma jaula a outra encantada com todos os animais que via.

– Ian! Ian! Vem ver! Olha! Olha! – ela apontava em várias direções quase ao mesmo tempo, o deixando confuso.

– NÃO SUBA AÍ! – ele correu até a menina e a agarrou quando ela pendeu perigosamente para dentro do viveiro dos tebos (javalis africanos que podem fica invisíveis) em sua empolgação de apontar e berrar ao mesmo tempo.

Os dois caíram para trás e chamaram a atenção das pessoas em volta. Pedindo desculpas, em um movimento automático de anos de prática em se desculpar com os outros, Ian se levantou e ajudou a menina a fazer o mesmo, pedindo:

– Você é suicida?

Ela apenas riu, como se quase ter virado lanche de tebos fosse divertido, e correu para conferir o próximo viveiro.

Ian soltou um grande suspiro e a seguiu, já imaginando a manchete do Profeta Diário do dia seguinte: Aborto seqüestra aluna de Hogwarts e a atira em jaula de bestas em Hogsmeade.

***

Ian pode ler a exclamação muda no rosto da menina assim que eles param diante do monumento da Praça do Relógio. Diante da expressão de alegria dela, ele conferiu mais uma vez a estátua para ter certeza de que não havia algo de extraordinário nela. Nada. Era a mesma estátua encardida de sempre, com um bruxo a cavalo que ele vira durante todos os anos da sua vida.

– Eu sempre quis vir aqui! – disse ela como se tivesse deixado escapar um pensamento pela voz.

– Por quê? – Ian indagou, tentando entender o motivo para que aquele lugar, que ela aparentemente nunca vira antes, causasse aquela reação.

– É um lugar especial. – contou ela – Eu só vi em fotos, e ouvi falar dele em conversas.
– E por isso queria vir aqui?

Ela lhe lançou um olhar carregado, como se estivesse advertindo a não continuar minimizando algo que ela considerava tanto.

– Quer dizer, – ele tentou se explicar de outro modo – até entendo o fato de ir a um restaurante e comer um monte e depois sair pulando pelo zoológico… Mas por que essa Praça que está em fotos e histórias é tão importante?

Sem responder, ela deu mais uma olhada para a estátua e então chegou bem perto dela, quase se encostando à pedra fria, e olhou para cima analisando a visão dali.

– É claro que é um lugar importante. – ela cruzou os braços se virando, e olhou diretamente para ele – Se não houvesse essa estátua, a neve e meus pais, provavelmente eu não estaria aqui agora.

Ian a encarou por um tempo, ainda não vendo um motivo suficientemente forte para justificar o comportamento dela.

Com um grande suspiro, a menina o ponderou por um tempo, como se o avaliasse e disse, em um tom de quem cedia:

– Ok, pessoa simples de Hogsmeade. Em troca por ter obedecido hoje, vou contar algo que muita gente deseja saber. – ela olhou um volta e apontou para um muro de um canteiro de flores e então seguiu para lá.

Ian a seguiu e teve que segurar o riso quando ela quase caiu dentro do canteiro ao tentar se sentar em uma pose majestosa no muro de pedra. Sem deixar que o tropeço tirasse o efeito da sua última frase, ela indicou o lugar a sua frente para que ele se aproximasse, e então começou a contar, escolhendo as palavras, como se estivesse diante de uma grande platéia:

– Minha mãe contou que meu pai era um idiota!

Ele soltou uma gargalhada, mas ela não se deixou abalar e continuou firme:

– Que nunca acreditou nele até o dia em que eles se encontraram na frente dessa estátua. Nesse dia estava nevando muito e meu pai esperou por ela durante quatro horas na neve! Estava quase congelando quando ela chegou.

Ian deu um grande suspiro enquanto ela continuava contando as aventuras românticas de seus pais. Ele questionara e agora teria que ouvir. Então, fingiu escutar, enquanto olhava para o movimento da praça. Aquele era o último lugar. Assim que ela terminasse a sua historinha, ele diria que tinha cumprido a sua missão e a arrastaria de volta até os muros do castelo. Pronto, seu dia estaria terminado sem grandes prejuízos.

– Daí meus tios fizeram o casamento deles aqui nesse lugar e-

– O quê? – aquela informação tirou Ian de seus pensamentos.

– O quê? – ela repetiu a pergunta, não entendo o que ele não havia entendido, já que estava concentrada demais em contar.

– Casamento? Aqui? – ele questionou, perplexo.

Só havia tido um acontecimento assim naquela praça há muito tempo, em uma época quando ele ainda era pequeno.

– Espera! – ele fez uma incrível ligação de tudo em segundos – Qual é o seu nome?!

– Dorothy. – ela respondeu, erguendo o queixo automaticamente, em uma pose de orgulho.

O garoto a encarou por um tempo, esperando que ela disse mais. Mas como não veio mais nada depois do nome, ele arriscou:

– Dorothy Doumajyd?

Assim que terminou de pronunciar as sílabas, várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. A garota arregalou os olhos, em um misto de fúria e choque. Então, no mesmo segundo, estalos aconteceram à volta deles, e ela rosnava para ele:

– Idiota! Estragou tudo!