SEMANA DE ANIVERSÁRIO DA LAP! VIII

Esse especial terá poucos caps e a história se passa alguns anos depois da EDDFinal, apresentando novos personagens xD

ENTRE DOCES E DRAGÕES ESPECIAL

Como sempre, a turma de novatos em Hogwarts se aproximava da frente do Salão Principal com o temor da novidade pairando ao redor deles. Todos aqueles rostinhos demonstravam apreensão diante da expectativa de passarem boa parte dos seus próximos sete anos dentro das paredes daquele castelo, que exalava tanto idade quanto magia em suas pedras.

Porém, quando chegaram ao lugar estipulado pelo professor que os guiava, onde deveriam aguardar que seus nomes fossem chamados, uma das crianças continuou avançando. Era uma menina de olhos escuros e cabelos volumosos, de cachos castanhos e rebeldes que saltavam para o lado que bem entendessem. Sem dar a mínima importância aos olhares assustados que recebera dos colegas e muito menos à atmosfera de interrogação que se instaurou em todo o salão com a sua atitude, ela retirou o Chapéu Seletor de cima do seu tradicional banquinho e, sem cerimônias, subiu em cima dele. Então, lançou um olhar carregado para todos os presentes e colocou o Chapéu na cabeça, se auto-anunciando:

– Dorothy Doumajyd!

Houve um murmúrio geral de surpresa que foi cessado quando a menina continuou, colocando as mãos na cintura, em uma pose típica de quem sabia mandar e era obedecida, e decretou:

– De agora em diante, está renascida a Tarja Vermelha em Hogwarts!

O decreto ficou por alguns segundos no ar, diante do choque silencioso dos presentes, que só foi quebrado quando a voz do Chapéu Seletor reboou por todo o salão, anunciando:

– SONSERINA!

CAP 01 – Um intruso em Hogwarts

Ian largou um último saco de adubo no depósito da estufa e deixou escapar um suspiro cansado. Estava acostumado com o serviço pesado, mas aquele pedido passara muito acima da média dos outros pedidos. Afinal, Hogwarts tinha muitas estufas que necessitavam daquele preparo especial que seu mestre fazia, e provavelmente os entregadores antigos deveriam usar magia para trazer aqueles sacos até ali, o que facilitara o trabalho. Não que ele achasse que magia pudesse resolver tudo, já que completara perfeitamente a tarefa sem ela.

Limpando as mãos no macacão que usava, ele voltou para onde seu mestre estava, na estufa principal, conversando com a velha professora de herbologia, e informou:

– Terminei, mestre.

– Muito bem, Ian. – disse o velho senhor, com um tom risonho totalmente fora do habitual.

Imediatamente o garoto percebeu que o estranho comportamento dele era provocado pela presença da professora, que também estava muito mais sorridente do que quando o recebera na porta.

– Deixe-me apresentar o meu aprendiz, Karoline. Esse é o Ian Ganderson, e ele tem um talento incrível para lidar com a terra!

– Ora, tem mesmo? – a professora lhe lançou um olhar alegre, o avaliando – Ele poderia tentar uma bolsa aqui em Hogwarts? Nós temos um programa que-

– Creio que não será possível, professora. – o garoto se apressou em interrompê-la, do modo mais educado possível.

– E por que não? – ela perguntou surpresa – Sua idade não é problema, já que você poderia fazer somente as matérias de-

– Ele não tem magia, Karoline. – explicou o senhor, um pouco mais sério, como alguém que já havia se conformado e aceitado a verdade – É um rapaz talentoso, mas sem o mínimo para ser um aluno em Hogwarts.

– Oh, é mesmo? – comentou a professora em um misto de espanto e pena – Lamentável… Mas admiro a sua generosidade em aceitá-lo como aprendiz, Agravaine! É um gesto raro. Ele lhe deve ser imensamente agradecido.

– Com licença, – pediu o garoto em um murmuro – vou esperar o senhor na carroça.

O mestre assentiu com um gesto de cabeça e ele saiu sem olhar para trás.

Lá fora, passou de onde estava a carroça, com a qual vieram de Hogsmeade até os terrenos da escola, e caminhou até alcançar a beira do lago. Era um lugar bonito e agradável, porém, para ele era um tanto quanto pesado, talvez pelo próprio ar estar carregado da magia que ele nunca poderia ter ou sentir.

Tudo bem. Era um aborto e o mestre Agravaine fora generoso o bastante para aceitá-lo, mesmo nessa condição de escória da sociedade mágica, coisa que nem seus pais haviam feito.

Desde que a sua situação de nascido bruxo sem magia foi confirmada, Ian passara a ser um excluído dentro de sua própria casa. Não podia freqüentar as escolas para onde seus irmãos maiores haviam ido, assim como não poderia nem sonhar em entrar em Hogwarts. Porém, mesmo sendo um simples aprendiz de jardineiro, naquele momento ele estava mais perto da famosa escola de elite do que qualquer de seus irmãos já sonhara em estar.

Aquele era o gramado de Hogwarts. Aquele era o lago de Hogwarts. Ali ao fundo estava o aclamado campo de quadribol, onde as pessoas da cidade podiam ir torcer pelos alunos, futuros prodígios do esporte. Ali estava o grande castelo, imponente, que ele só via de longe, como uma paisagem dos arredores de Hogsmeade. Lá estava a grande porta de carvalho, aberta… Ian olhou de novo para conferir, e a porta estava mesmo aberta.

A idéia brotou em sua mente tão rápida quanto o vislumbre de um pomo de ouro, absurda e brilhante ao mesmo tempo.

Por que não? Talvez ele nunca tivesse a chance de pisar ali novamente. Por que não aproveitar para ir além do possível? Era o horário de aulas, ninguém iria reparar se ele entrasse só um pouquinho e espiasse. E se alguém o surpreendesse, bastava fazer uma expressão de confuso e dizer que procurava um banheiro. Por mais retardado que parecesse, não teria importância. Já era um ignorado mesmo, alguém que nascera para ser bruxo, mas nunca viria a ser. Então, qual o problema?

Decidido, ele lançou um olhar rápido para a estufa, onde não havia sinal algum do seu mestre estar com a intenção de ir embora, e então olhou em volta, verificando se havia alguém por perto. Como não avistara ninguém, ele se sentiu seguro em avançar, indo diretamente para a porta.

Ao pisar nos degraus de pedra, uma sensação de ousadia o invadiu. Da próxima vez que alguém o olhasse com desprezo e comentasse sobre a sua situação mágica, ele poderia rir em segredo, dizendo que mesmo o famoso castelo de pedras já esteve ao seu alcance.

Pisando cuidadosamente para não fazer barulho, ele passou pela porta e esperou um pouco até que a sua visão se acostumasse com a sombra fresca do interior do castelo. Andou até as escadarias e logo avistou as famosas ampulhetas ao lado dela, que marcavam os pontos das casas e conferiu que a disputa entre elas estava acirrada. Então olhou para cima das escadas, que se perdiam em vários andares. Havia um murmúrio quase inaudível vindo das salas de aulas, portanto não seria uma boa idéia subir. Procurou a sua volta e viu outra grande porta dupla, de onde não vinha ruído algum. Cheio de coragem, avançou até ela e a empurrou com cuidado.

Seus olhos não conseguiam acreditar no que viam. Estava na entrada do grande Salão Principal, onde os aprendizes de bruxos mais famosos do mundo faziam as refeições e eventos sociais. Aonde vários nomes famosos que se ouvia no jornal ou eram proclamados nas esferas estiveram sentados em seus anos de estudantes.

Então, se ali era o tão famoso salão principal de Hogwarts, aquelas escadas na lateral do lugar só poderiam ser… Não pensando em nada mais além de avançar e chegar ao topo daquele patamar, Ian seguiu aos tropeços até a lendária Ala dos Dragões.

Não havia ninguém na Sociedade Bruxa que não conhecesse sobre os Dragões, Ian achava que até mesmo os trouxas deveriam saber. Eles eram os bruxos mais famosos, mais importantes e mais ricos de todo o mundo. Era simplesmente impossível não ter ouvido seus nomes ou como eram popularmente conhecidos, o D4. E ali estava o lugar que eles haviam deixado em Hogwarts, como prova para as futuras gerações de que ainda dentro dos castelo eles já eram poderosos.

Lá, em cima da lareira, estava o quadro em tamanho real deles, quando ainda eram jovens e alunos. O chefe auror MacGilleain, com um grande sorriso no seu uniforme da Lufa-lufa. O mestre Nissenson com o mesmo ar de inteligência com que se apresentava em seus congressos na cidade. O músico famoso Hainault, mostrando que já era calado e de aparência distante mesmo antigamente. E, no meio deles, estava a maior personalidade dentre todas: Christopher Doumajyd, o bruxo que era até mais importante do que o próprio Ministro da Magia. Mesmo jovem, o Líder dos Dragões já parecia agir como alguém que nascera para ser exatamente o que era: aquele que ditava as regras no mundo bruxo.

– O que está fazendo aqui?!

Ian perdeu o chão por debaixo de seus pés: havia sido flagrado. Sem perder tempo, ele se virou para ver quem havia falado e se deparou com uma menina baixinha com cabelos escuros cheios e bagunçados que mais pareciam com uma juba.

– O que está fazendo aqui?! – ela sibilou, se aproximando, o encarando fixamente como se ele estivesse violando algo sagrado.

– Me desculpe! – ele pediu, usando a sua estratégia de fuga – Eu estava procurando o-

– Por que não está na sala de aula? Cadê o seu uniforme? De que casa e ano você é? – a garota exigiu saber, perguntando tudo muito rápido.

– Eu não- – ele tentou explicar.

– Se pensa que pode fugir da Tarja Vermelha com desculpas está muito enganado! – ela o agarrou pelo pulso e o arrastou com ela – Vou levá-lo imediatamente para-

Dessa vez foi ela que não pôde terminar. Percebendo que a menina não o ouviria e que estaria encrencado, ele forçou seu braço para se desprender da mão dela e correu desembalado em direção a escada. Porém, quando estava prestes a pisar no primeiro degrau, sentiu algo lhe agarrando pela cintura e o fez tropeçar. Tanto ele quanto a garota rolaram escada abaixo e caíram estatelados no chão.

– NÃO VAI FUGIR , IDIOTA! – rosnou ela – EU CONTROLO A DISCIPLINA DOS ALUNOS NESSA ESCOLA E É REGRA OS ALUNOS PERMANECEREM NA SALA DE AULA DURANTE-

– NÃO SOU UM ALUNO DE HOGWARTS, SUA LOUCA! SAI DE CIMA DE MIM!

Com isso, a expressão furiosa da garota se desfez, e ela o encarou confusa, perguntando:

– Não? Quem é você então?

– Eu só vim fazer uma entrega com o meu mestre. Ele está lá fora na estufa. Pode ir perguntar se duvida.

Pronto, agora estaria encrencado. Se ela realmente fosse e seu mestre ficasse sabendo dessa sua aventura, não teria como escapar de uma punição.

Mas, ao contrário de todas as possíveis reações que ele havia imaginado que aquela menina poderia ter, ela deu um imenso sorriso e se levantou em um pulo exclamando:

– Quer dizer que você veio de fora de Hogwarts?!

Ele pestanejou, tentando entender o motivo de ela ter fica feliz com o fato, e então assentiu.

– Muito bem! – ela deixou de lado o sorriso e voltou a ser séria com ar de mandona – Não vou te denunciar para a direção da escola e nem lhe entregar uma Tarja Vermelha Disciplinar… com uma condição!

Se levantando e analisando os vários pontos doloridos de seu corpo para verificar se havia algum lugar que requeresse reparos, ele não prestou muita atenção no que a menina dissera. Porém, mesmo assim ela anunciou como se fosse uma ordem suprema:

– Me leve para um passeio em Hogsmeade!

– O QUÊ?! – Ian quase se engasgou com a própria pergunta.

***

Atualizações tbm em LAP Rabiscos e Esconderijo do Mot-Mot o/

Fic – Entre Doces e Dragões Final (FINAL)

CAP 19 – Ao estilo D4

Depois de embarcarem na carruagem, não demorou muito para que Doumajyd adormecesse e deixasse a cabeça pender despreocupadamente no ombro de Mary. Sabendo que nada de mal poderia acontecer estando com os amigos, ela se deixou levar também pelo sono, repousando a cabeça no cabelo bagunçado do noivo.

Desde então ela perdera a noção do que estava acontecendo a sua volta e, só depois do que pareceram dias, ouviu a voz distante de Nissenson a chamando:

– Mary?… Mary, acorda.

Mary abriu os olhos com dificuldade e o dragão esperou pacientemente, até ela estivesse desperta o bastante para entender o que ele falava.

– Olhe ali. – ele apontou para fora da carruagem.

Sem entender, ela, ainda usando a cabeça de Doumajyd como travesseiro, apenas voltou o olhar para o lugar indicado. Como se tivesse recebido uma carga elétrica, ela ficou totalmente acordada e praticamente se jogou para a janela, se esquecendo do dragão que ainda dormia. Este acabou caindo e acordou assustado, enquanto Mary exclamava:

– Mentira!

Sem nem ao menos esperar que a carruagem parasse por completo, ela saltou para fora, não acreditando no que via.

Estavam em Hogsmeade, na tão conhecida praça do relógio, que àquela hora da noite deveria estar deserta. Mas, não só haviam pessoas ali, como elas pareciam estar prontas para uma grande festa de gala.

– Mas o quê…?… Como? – Mary se perguntava perdida, olhando para todas aquelas pessoas conhecidas que sorriam para ela.

Lá estavam não só os seus pais e o irmão, a senhora Doumajyd, Christinne e seu marido, Vicky e seus pais, Summer com Archie Gilmore, a professora Caroline, Sarah Swan, Sharon, o senhor Monagham e as famílias dos outros dragões, como também pessoas da D&M, de Hogwarts, da Academia e famosos da Sociedade Mágica.

– O que é isso? – perguntou Doumajyd, também saindo da carruagem, ainda atordoado pelo sono.

Nissenson desceu na carruagem logo atrás dele e anunciou, somente para que os noivos ouvissem:

– Um casamento produzido pelo D4!

– E agora, que tal você acompanhar suas bruxas madrinhas? – MacGilleain parou atrás de Mary, a empurrando na direção de Sharon e Christinne – Deixe o Chris por nossa conta!

***

Summer começou a tocar a marcha nupcial no piano enquanto Vicky e a professora Caroline conjuravam pétalas cor de rosas que caiam rodando lentamente pelo cenário da Praça do relógio. Sarah providenciara as luzes que deixavam todo o lugar iluminado e mantinha uma luz principal com sua varinha, que direcionava para onde Mary entrava, seguindo o tapete vermelho. Ela era conduzida pelo pai, que não conseguia esconder a emoção e segurava bravamente o choro.

Em menos de meia hora, ela não só fora totalmente produzida por Sharon e Christine, como ganhara um vestido branco pomposo, repleto de detalhes dourados. Na praça, fora montado tudo o que precisariam para a realização da cerimônia ao ar livre. Os convidados, dispostos ao longo do local, estavam todos voltados para a estátua do bruxo a cavalo, onde estava um altar.

– Como a Mary bonita ficou bonita assim?! – perguntou Charles surpreso para a mãe, que apertava a mãos com força, tão nervosa e emocionada quanto era permitido à mãe da noiva ficar em circunstâncias como aquela.

Mary passou pelos convidados recebendo seus cumprimentos e desejos de boa sorte e felicidade, até chegar ao altar. Lá a senhora Doumajyd a esperava, em um resplandecente vestido vermelho, com o filho ao lado, com vestes de gala brancas. Sem dizer uma palavra, a bruxa pegou a mão do dragão e a estendeu para Mary. O senhor Weed fez o mesmo, entregando a noiva para Doumajyd, simbolizando a união das famílias.

Assim, juntos, os dois avançam os últimos passos que faltavam até chegar ao altar, onde o responsável pela celebração da cerimônia os aguardava. Porém, ao pararem diante dele, todas as luzes se apagaram subitamente.

Assustada, Mary olhou em volta, só conseguindo distinguir vultos e ouvindo o murmúrio geral de surpresa. Doumajyd segurou sua mão com mais força para que não a perdesse.

– Vocês dois, parabéns. – disse uma voz.

Então, mais de repente do que quando se foram, as luzes voltaram.

– Ryan?! – Mary e Doumajyd se depararam com ao amigo, no lugar onde antes estava o responsável pela celebração.

– O que você está fazendo? – perguntou Mary surpresa, vendo que ele usava as mesmas roupas que o senhor do qual tomara o lugar.

O dragão olhou bem de um para o outro e então declarou, com um ar sério:

– Acho que, de todas as pessoas desse mundo, eu sou a que não só tem o direito como o dever de ouvir o juramento de vocês.

– Isso não parece com você. – comentou Doumajyd – Pensei que só iria aparecer no final.

Em resposta, Hainault encolhe os ombros, lembrando:

– Não foi o próprio ilustríssimo Chris quem me disse se algo acontecesse, deixaria tudo por minha conta?… – ele sorriu, quebrando o ar sério que mantinha – Desde então, venho pensando no significado de deixar tudo por minha conta.

Compreendendo o que o amigo dissera, Doumajyd sorriu satisfeito. Mary, ao contrário, continuou sem entender, e pediu em tom de reclamação:

– Do que estão falando?

– Não se preocupe, Mary. Uma promessa entre o D4 é mantida acima de tudo. – Hainault tentou tranqüilizá-la – Tudo o que eu quero, é lhes desejar sinceras felicidades, de frente para vocês.

Com aquelas palavras, dois sentimentos de Mary a respeito do dragão deram voltas dentro dela: o de ele ter sido o seu primeiro amor e o amigo que sempre esteve junto dela nesses últimos seis anos; e o buraco que sentira há pouco tempo atrás, quando suspeitara da amizade dele. Sem perceber, seus lhos se encheram de lágrimas, ciente de que nunca conseguiria retribuir tudo o que ele tinha feito para ajudá-los.

– Obrigada, Ryan Hainault. – foi tudo o que ela conseguiu dizer, com um sorriso tremido.

Ao lado do altar, Nissenson e MacGilleain sorriam satisfeitos, como quem havia completara uma missão com grande sucesso. Mary olhou para eles e agradeceu também:

– Obrigada, todos vocês.

– Vamos ter tempo para os agradecimentos, Mary. – disse Hainault – Agora vamos ao que importa.

E, com um estalar de dedos dele, Nana se aproximou, carregando uma almofada. Com dificuldade, ela fez uma reverência torta, e estendeu as alianças para os noivos.

Com os gestos de orientação de Hainault, Doumajyd colocou a aliança na mão de Mary e ela fez o mesmo com ele. E então, o dragão continuou com a celebração:

– Noivo, Christopher Doumajyd, promete sempre estar ao lado de Mary Ann Weed e a fazê-la feliz, mesmo nas dificuldades que enfrentarão ou quando ela estiver tão brava ao ponto de ter que socá-lo para se acalmar?

– Claro que sim! – ele respondeu rápido ao seu modo, e então se corrigiu e disse de forma firme como convinha – Prometo!

– Noiva, Mary Ann Weed, promete estar sempre ao lado de Christopher Doumajyd e fazê-lo feliz, mesmo quando ele diga ou aja de forma estúpida, agindo como um dragão descontrolado?

– Prometo. – ela assentiu, sorrindo.

– Então… que tal selar esse juramento com um beijo? – sugeriu Hainault.

Mary e Doumajyd ficaram de frente um para o outro e se enfrentaram com olhares, como se estivem repetindo os mesmo votos de forma silenciosa, apenas entre eles. Então, Doumajyd a puxou pela cintura e a ergueu, fazendo com que ela ficasse uma cabeça acima dele, e ela, por sua vez, segurou o rosto do dragão e o beijou.

No mesmo instante, os convidados romperam em aplausos e vivas. Summer assoviava com toda a sua força e grita vivas, fazendo com que Archie Gilmore a acompanhasse no seu entusiasmo. Sarah, com a ajuda de MacGilleain, improvisaram um misto de luzes e fogos de artifícios com suas varinhas. Vicky, Nissenson e a professora Caroline também se uniram e fizeram com que as pétalas que conjuravam fossem levadas por um vento e percorresse todos os cantos da praça, caindo depois como uma chuva, junto com as fagulhas dos fogos.

Mary e Doumajyd olharam para todo aquele cenário de festa ao redor deles, com todas as pessoas que testemunharam de perto todas as brigas, confusões e alegrias que os conduziram até aquele dia. Diante do seu casamento, no melhor estilo D4, a única que coisa que Mary conseguiu sussurrar para o noivo, antes de se juntarem a comemoração, foi:

– Inacreditável.

Epílogo
1 ano depois

Em Hogsmeade, uma fila gigante de pessoas segurando seus exemplares de ‘Rowjisuky: um encontro, uma única chance’, de Simon Nissenson, dobrava quarteirões. Depois de um ano rodando o mundo em explorações e pesquisas, finalmente o jovem, mas já grande, mestre em poções voltava para a sua terra natal, trazendo as descobertas sobre a planta mágica rara que há séculos vinha intrigando os pesquisadores.

Dentro da Floreios e Borrões, as pessoas se abarrotavam para conseguir um autógrafo do dragão, que somente aquele dia cederia essa oportunidade aos seus fãs.

– Aqui está. – ele entregou o livro para um garoto que agradeceu imensamente feliz, mais encantado em ter a assinatura de um bruxo famoso que poderia guardar para sempre, do que ter o próprio bruxo na sua frente.

Em seguida, uma moça se aproximou escondendo o rosto atrás do livro.

– Pois, não? – pediu Nissenson educadamente.

Tchaaan! – Vicky se revelou.

O dragão se surpreendeu, deixando bem claro que não esperava encontrá-la ali, mas mesmo assim sorriu para ela.

– Há quanto tempo! – a bruxa cumprimentou com um sorriso de orelha em orelha.

– É. – ele concordou se levantando, com uma intenção clara de cumprimentá-la.

Contente por ter sido bem recebida, Vicky estendeu a mão, já se preparando mentalmente para convidá-lo para um jantar. Mas, de repente, o dragão sai para o lado e circula uma pilha de livros, abrindo espaço entre as pessoas e fugindo.

– EEEIII! – Vicky corre atrás dele protestando – Simon! Espera! É só um autógrafo e eu vou embora! Prometo, Simon! Não vou arrastá-lo para lugar nenhum! ESPERA, SIMON!

***

Adam MacGilleain, diante de todos os bruxos importantes do Ministério, proclamou o seu discurso de posse do cargo de Chefe dos Aurores:

– Para acabarmos com antigos preconceitos, sempre honrando os que depositam suas esperanças em nossas ações, vamos trabalhar arduamente em busca de um mundo melhor! Assim como hoje estou aqui, sendo prova de que não importa a sombra maligna que paira sobre o passado do meu nome, espero que outros sigam o exemplo e construam conosco uma Sociedade Bruxa onde impere a igualdade, independente de origens, famílias ou status!

Uma salva de palmas finalizou o seu discurso, e os flashs das câmeras irromperam pelo salão, assim como as perguntas dos reportes.

***

Ryan Hainault, com uma mochila nas costas, parado na frente da lareira do seu quarto, olhava firmemente para o porta-retratos que tinha nas mãos. Então, o depositou novamente no seu lugar, e colocou junto dele um pergaminho.

Lançando um último olhar para a foto, ele deu um longo suspiro decidido e saiu, fechando a porta devagar, ciente de não a abria novamente tão cedo.

***

– Ei, naquele dia aqui, você não me disse qual era o seu sonho. – Doumajyd lembrou.

– Meu sonho? – Mary olhou para o cenário a sua volta, tentando se recordar da conversa que haviam tido naquele mesmo lugar, há exatamente um ano atrás.

Os dois estavam na praia deserta onde tinham ficado antes do seu casamento. Fora uma viagem impulsiva de Doumajyd, alegando que deveriam ir para um lugar distante somente os dois. E em menos de um dia lá estavam, afastados de toda a civilização, usando galhos secos para riscarem a areia e vivendo alguns momentos sem as obrigações e deveres dos bruxos que eram os modelos seguidos na sociedade mágica.

– Huuum… – ela pensou no que responderia, parando com seus rabiscos – Lembra do que você me disse aqui? Que eu era o seu sonho?

– Lembro. – ele respondeu, se apoiando do seu galho e olhando para ela.

– Mesmo hoje, não existe ninguém mais importante para você do que eu?

– Mas é claro que não! – ele respondeu rápido e um pouco ofendido com a pergunta, e então acrescentou – Não fale como se estivesse sonâmbula!

Ela riu da reação atrapalhada dele e continuou o inquirimento:

– A partir de agora também? Haja o que houver?

– Eu jurei, não foi? – ele disse – Não importa o que aconteça, eu nunca vou te deixar. E posso jurar novamente sem problemas.

Ela o encarou por um tempo, o avaliando, e então recomeçou a rabiscar:

– Mas eu não me importo em ser a segunda pessoa mais importante.

– …O que é isso? – ele perguntou preocupado, não entendendo onde ela queria chegar.

– Só estou dizendo que eu posso me tornar a segunda pessoa mais importante para você.

Confuso, o dragão apenas a encarou. Sabendo que o marido não entenderia por conta, ela decidiu ajudá-lo. Largou o se galho, correu até a borda da praia, e gritou para a vastidão do mar com todas as suas forças:

– QUANDO VOCÊ CRESCER, NÃO SE TORNE UM METIDO COMO O ILUSTRISSIMO CHRISTOPHER DOUMAJYD! – e então ela olhou para o dragão parado na areia, e acrescentou – Mas pode ter um cabelo estranho como o dele.

Ainda demorou alguns instantes, mas logo a expressão de Doumajyd, um misto de apavoramento e felicidade, confirmou que ele havia entendido, mas ainda não acreditava:

– O quê?!

– O meu sonho, – ela continuou, colocando as mãos na barriga – também se realizou.

Imediatamente, ele largou o galho e correu até ela. Se ajoelhou na sua frente e encostou a cabeça na barriga de Mary, como se isso o permitisse confirmar.

Sem conseguir se conte, ele se levantou saiu correndo para todos os lados em volta dela, gritando para o mar:

– INACREDITÁVEEEEEEEEL!!!

Mary apenas ria com tudo, o deixando agir como um idiota que não sabia o que fazer para demonstrar o quanto estava feliz.

Então, quase sem ar, ele voltou correndo até ela e abraçou forte, a pegando no colo e a rodando. Mas logo em seguida se deu conta do que estava fazendo e a colocou de volta no chão com todo o cuidado, a forçando a se sentar na areia:

– Senta aqui, Mary. Está cansada, não? Está com fome? Eu vou pescar um peixe pra você e depois temos que- – sem terminar o que dizia ele a abraçou de novo e repetiu baixinho pra ela – Inacreditável!

***

No porta retratos do quarto de Hainault, na foto tirada no dia do casamento de Mary e Doumajyd, os dragões e a noiva, todos se abraçavam e sorriam contentes, transmitindo a alegria deles naquele momento, há um ano atrás.

No pergaminho deixado para trás pelo dragão antes de partir, estava escrito:

“Existem tempestades que passam a ser flores. Em um mundo assim, até mesmo dragões podem ser boas pessoas, quando existe alguém que acredita neles… Porém, alguns dragões precisam continuar sozinhos e buscar suas flores por si mesmo.

Apesar de ser um adeus, é a vida.

A nossa história não termina aqui. Ela irá começar agora…”

FIM

Nota da L:

Foi a exatamente há três anos atrás que Di-hana e eu decidimos começar a escrever uma fica baseada em hanadan. Começamos meio capengas, sem saber direito como fazer uma adaptação, nos perdendo nas escolhas dos nomes, quebrando as cabeças para escolher um título significativo… Mas aí está, Entre Doces e Dragões completa! xD

Durante todos esses anos, nos tempos em que fizemos intervalos durante uma fic e outra, sentíamos um imenso vazio, e ficávamos na mesma situação dos leitores, querendo saber o que acontecia depois. Porém, tudo o que tem um começo deve ter um final, é a vida xD

É com um sentimento bom de trabalho cumprido que chego ao final de EDD. Contente pelos comentários que recebi, pelos e-mails trocados, pelos acontecimentos que me surpreenderam e que só tive oportunidade de presenciá-los devido por causa da fic. Por mais que ela não seja algo que irá me trazer status como escritora, foi uma aprendizagem incrível, que nenhuma universidade no mundo é capaz de fornecer.

Agradeço a todos os leitores que acompanharam até o final e tiveram a paciência de esperar todos esses anos pela conclusão. Aos comentários e aos incentivos que recebi. A Di-hana que começou a escrever essa fic comigo e me fez perder o medo de continuá-la sozinha. Aos meus amigos próximos que ficaram ouvindo minhas lamúrias de‘eu preciso escrever, mas não sai nada! Vou me jogar da ponte!’. P, que leu a fic desde o começo, mesmo antes de assistir hanadan e se entusiasmava com os capítulos. Ao Yuri que não leu a fic desde o começo, mas é fã de hanadan e não acreditou no total de paginas da fic no começo xD A Thata que tbm leu a fic desde o começo, fã do Ilustríssimo Eu, e a qual eu joguei em um desfiladeiro a fazendo assistir hanadan e hj se vê o resultado irremediável disso xD Ao Arashi que faz o seu melhor para dominar o mundo e incentiva seus súditos a fazerem o mesmo através de suas músicas e seu mundo colorido xD

Agora, chega de babação e agradecimentos e vamos às informações técnicas o/

Estou lutando bravamente contra a minha vontade de reler todas as três fics desde o começo. Mesmo assim, vou revisar a EDDFinal antes de abrir um blog somente para ela aqui no blog da LAP. Então a reunião de todos os capítulos vai demorar um pouquinho…

Estamos preparando algumas novidades para o blog que serão lançadas no niver de 9 anos da LAP \o/ Tudo está em total sigilo e segredo para que o Mot-Mot não descubra e dê um jeito de acabar com a festa, mas posso adiantar que vai ter um especial de EDD xD Agora, para saberem mesmo o que vai ser, aguardem até dia 30 de Junho xD

Até lá, pessoal! o/

Fic – Entre Doces e Dragões Final

CAP 18 – O sorriso da deusa

Depois de terminarem a refeição, e de terem ficado sabendo de todos os detalhes sobre aquela jornada em busca de um talismã falsa, Mary e Doumajyd foram conduzidos pelo bruxo que roubara a tiara para outra parte do castelo.

Conforme contara o velho, ele era a pessoa que administrava os seus negócios, exatamente como Richardson fazia. Era em quem mais confiava no mundo, e por isso lhe incumbiu da missão de roubar a Sorriso da Deusa e fazer com que os noivos se movimentassem conforme o planejado.

Na sala para onde foram, havia uma grande lareira com um fogo esverdeado, onde duas figuras entre as chamas já esperava por eles.

– Mãe! Pai! – Mary exclamou correndo até lá, os reconhecendo imediatamente.

Sentia que não se importava em se queimar com as chamas se fosse possível abraçá-los de verdade e não somente ver as suas imagens. Só agora, com seus pais assim tão perto, ela percebia quanta saudade tinha deles.

– Você está bem? – perguntou sua mãe preocupada, apertando as mãos.

– Se machucou? – perguntou seu pai apreensivo.

Mary sabia que, na verdade, naquela preocupação toda com o seu estado, também estava misturado o medo deles de a filha se zangar com o que haviam feito. E isso ficou confirmado pela sua mãe quando ela falou, como se fosse um pedido de desculpas:

– Nós queríamos que você mesma se certificasse se seria feliz!

– Nos desculpe, Mary! – pediu seu pai, preparado para receber qualquer tipo de inculpação da filha – Você teve que passar por tantas coisas desagradáveis!

Seria mentir dizer que não sentia vontade de gritar com eles, os informando sobre toda a apreensão pela qual ela passara naquela viagem. Porém, todo esse sentimento era encoberto pelo contentamento de pensar no que eles foram capazes de fazer somente para que ela pudesse crescer por si mesma.

– Nos desculpe, Christopher. – pediu o senhor Weed humildemente, para o dragão.

Doumajyd, que até o momento permanecera imóvel apenas observando, se aproximou da lareira com uma expressão indecifrável. Ele olhou de um para o outro nas chamas e disse com firmeza:

– Eu devo agradecer!

Tanto o senhor, a senhora Weed e a filha o encararam sem compreender por que o dragão agradecia, quando normalmente estaria entre um misto de zanga e aborrecimento.

– Nada no meu mundo poderia ter me tornado tão forte como estou agora. – ele continuou – Uma vez prometi para Mary que me tornaria um homem melhor, para que ninguém pudesse ficar o nosso caminho. Hoje posso afirmar que sou melhor, e tudo graças a vocês… Muito obrigado por confiarem em mim, a ponto de deixarem a felicidade da sua filha sobre minha responsabilidade! Agora, Mary e eu não temos receio de juntar nossas forças, e construir uma vida juntos!

Nas chamas, a mãe de Mary começou a chorar e oscilou, precisando ser amparada pelo senhor Weed. Este, também emocionado com as palavras do dragão, disse:

– Confiamos em você e na nossa Mary, Christopher.

Mesmo com o tempo limitado que possuíam na lareira, por serem trouxas e terem recebido uma concessão especial, Mary tentou lhes contar tudo o que tinha acontecido, para que ficassem tranqüilos. Depois que eles se despediram e o fogo mágico da lareira se apagou, como tivesse sido atingido por uma rajada de vento, foi a vez do ladrão da tiara se desculpar:

– Perdão por ter causado tantos problemas e preocupações, senhor, senhorita. – ele se curvou educadamente, assim como fazia para atender as ordens do seu mestre.

– Acha que é tão fácil?! Apenas pedir desculpa e está tudo bem?! – rosnou Doumajyd e, antes que Mary pudesse fazer qualquer coisa para impedir, ele avançou contra o bruxo, pronto pra socá-lo.

O bruxo não reagiu, apenas fechou os olhos e esperou pelo impacto da fúria do dragão… Mas ele não o atingiu. Doumajyd parou há milímetros de acertar o nariz do bruxo. E então, rindo, lhe deu um cascudo na testa, comentando:

– Isso deve ser o suficiente.

Confuso, o bruxo abriu os olhos e o encarou.

– Até que eu me diverti bastante. – contou o dragão no lugar de uma explicação, saindo sem dizer mais nada.

Soltando o ar, que tinha prendido diante da cena que achou que iria presenciar, Mary respirou aliviada e agradeceu decentemente o bruxo, seguindo o noivo logo depois.

***

– Comparando com antigamente, suas estratégias melhoram excepcionalmente, não? – comentou a senhora Doumajyd, tomando a sua xícara de chá em companhia do velho bruxo.

– Não me compare com a época em que eu tinha vinte anos. – ele pediu, servindo a sua xícara – E as minhas estratégias eram limitadas aos jogos de quadribol.

– Me desculpe por ter feito esse pedido complicado. Muito obrigada mesmo.

– Ora, assim eu fico embaraçado. – ele declarou sorrindo – Eu não poderia negar esse pedido à Ketherin Doumajyd.

– Eu não deveria pedir a você para fazer algo que trás tantas lembranças.

– São apenas lembranças antigas… – ele se reclinou na poltrona, olhando para o teto – Eles serão felizes, não se preocupe.

– Espero. – ela deu um suspiro.

– Realmente, ele se tornou um bruxo extraordinário… Como falam?

– Um dragão.

– Sim, um dragão extraordinário. – e acrescentou rindo – Alguém capaz de lhe superar, Ketherin. Não espere nada menos que isso.

***

Como foram orientados, Mary e Doumajyd estavam esperando no gramado do grande jardim do castelo, aproveitando a brisa vinda do mar e os poucos raios de sol que insistiam em passar pelas frestas das nuvens naquele tempo indeciso.

– Apesar de estar me sentindo ótimo, – comentou Doumajyd, com o olhar perdido no horizonte – estou um pouco frustrado com essa história.

– Mas, sabe… Amor eterno não pode ser alcançado com um encantamento ou um talismã. Ele não existe se não pudermos acreditar e confiar um no outro, não é?… Isso que é importante… – Mary esticou as pernas e se inclinou para trás, olhando para o céu nublado – Acho que aquela tiara representava isso. Depois de ter superado todos esses problemas, podemos ter confiança na escolha que fizemos.

– Por isso que é o Sorriso da Deusa, não? – perguntou o dragão concentrado – Na mitologia não havia uma deusa bonita que abençoava o amor?

Ela riu com a relação que Doumajyd fizera, concluído e expondo parcialmente pensamentos que ele formulara, e não sabia explicar direito. Porém, logo notou que alguém vinha em direção deles, saindo do castelo.

– Não sei se a deusa mitológica está nos abençoado, – ela murmurou para ele, sorrindo – mas com certeza uma deusa está sorrindo para nós hoje.

Sem entender, Doumajyd olhou para trás, vendo que a sua mãe se aproximava, indiscutivelmente sorrindo para eles. Sem perderem tempo, os dois se levantaram para recebê-la.

– Bem vindo de volta, Christopher. – disse a bruxa polidamente, ao chegar até eles.

Doumajyd a encarou por um tempo, e então sorriu também, de uma maneira que Mary nunca havia o visto sorrir para a bruxa:

– Estou de volta, mãe. – e acrescentou – Senti saudades.

Indo contra todos os conceitos que Mary havia estabelecido à personalidade dela até aquele dia, a senhora jogou os braços em volta do pescoço do filho, como faria uma mãe carinhosa, o segurando apertado.

– Que bom que você está bem. – ela murmurou, com uma voz embargada.

Então o soltou, mas continuou segurando as suas mãos, o analisando para verificar por ela mesma se estava tudo bem com o seu herdeiro. Depois, olhou para, Mary, que presenciava toda a cena sem saber como reagir.

– Você está bem, senhorita Weed?

– Estou, senhora Doumajyd. – ela se apressou em responder de uma forma educada e cuidadosa, como havia aprendido a fazer durante todos esses anos.

E então, deixando Mary completamente sem chão, ela também a abraçou, como abraçara o filho.

– Acho que já está na hora de começar a me chamar pelo nome, Mary. Afinal, vou ser como sua mãe também.

Mesmo lutando contra, Mary não conseguiu evitar que seus olhos se enchessem de lágrimas diante da atitude dela. Finalmente, um muro de concreto que sempre esteve cercando o relacionamento dela e de Doumajyd vinha ao chão, com apenas um único gesto.

– Obrigada. – foi tudo o que ela conseguiu dizer, baixinho.

***

A senhora Doumajyd falou que ainda teria que resolver alguns detalhes no castelo, e que os dois poderiam voltar para Londres sem ela, com a carruagem.

Mary sentia um misto de cansaço e contentamento. Finalmente estava voltando pra casa, e podia respirar como se tudo tivesse acabado. Só nesse momento ela teve a plena consciência como estava esgotada. Doumajyd também estava no mesmo estado. Apesar de ele não demonstrar abertamente, ela podia perceber que o dragão estava ao ponto de se desligar assim que houvesse oportunidade.

Porém, ao saírem dos muros do castelo em direção a carruagem, foram barrados por duas pessoas que aparataram na frente deles:

– BEM VINDOS! – MacGilleain e Nissenson quase o fizeram cair para trás com o susto.

– Vocês também sabiam de tudo?! – perguntou Doumajyd em tom de acusação, no lugar de uma resposta ao cumprimento.

– Ryan nos contou. – disse Nissenson.

– O Ryan? – perguntou Mary confusa.

– No leilão. – o dragão explicou – O Ryan conversou com o bruxo que roubou a tiara e ficou sabendo de tudo.

– Então era isso? – Doumajyd e Mary trocaram olhares de compreensão.

– Aquele dinheiro todo foi devolvido logo em seguida. – contou MacGilleain, e então pediu – Desculpa por enganar vocês.

– Pode nos bater se quiser. – se dispôs Nissenson.

– Vocês mereciam… – Doumajyd ponderou a oferta – Mas eu faria o mesmo no lugar de vocês!

Os quatro riram, deixando tudo resolvido entre eles apenas com poucas palavras. Porém, ainda havia um problema, e Mary foi a primeira a perceber:

– Onde está o Ryan?

– O Ryan? – MacGilleain repetiu a pergunta, com se a estivesse confirmando – Vocês sabem… ele é um tanto tímido!

– Tímido? – Mary repetiu rindo, mas não entendo a resposta.

– Então vamos! – anunciou Nissenson, cortando o assunto, passando um braço em volta do pescoço de Doumajyd e praticamente o arrastando para a carruagem, enquanto MacGilleain fazia o mesmo com Mary – Para encerrar, temos um presente para vocês!

– O quê? – perguntaram os dois surpresos, sem saber o que esperar.

Fic – Entre Doces e Dragões Final

CAP 17 – Segredo Ancestral

– Aqui. – falou o bruxo que roubara a tiara, indicando uma escada em espiral.

Sem perguntas, Mary e Doumajyd o seguiram pela escadaria acima.

Depois de serem resgatados na ilha, eles haviam voltado para o continente com o helicóptero. De lá, foram conduzidos pelo bruxo que roubara a tiara para o mesmo jato em que deveriam ter voltado há cerca de um mês atrás. Agora, finalmente estavam de volta a Inglaterra, apesar de não saberem dizer com certeza em que parte do país. Pela paisagem, Mary deduzira ser algum lugar ao sul, onde haviam muitas planícies e rochas, que terminavam em precipícios para o mar.

Durante toda a viagem, quando Mary exigia uma explicação, o bruxo apenas pedia educadamente que eles esperassem por mais algum tempo e que não cabia a ele a tarefa de dar as respostas. E ela, apesar de sentir que até mesmo o ar estava carregado em volta do dragão, com a vontade que ele tinha de socar aquela pessoa desconhecida que lhes causara tantos problemas, se surpreendeu com o fato de o noivo se controlar. Talvez o tempo em que ficaram na ilha também serviu para lhe ensinar que nem tudo poderia ser resolvido na base dos seus esbravejos.

Foi dessa forma, alimentando as expectativas deles quanto ao ‘último estágio’, que o ladrão da tiara conseguira levar os dois até aquele castelo isolado, sem relutância. Mary pensava que se conseguiram sobreviver todo aquele tempo em uma lha deserta, sem usar magia e sem respostas, poderiam enfrentar um castelo para desvendarem o mistério por trás do roubo do talismã da família Doumajyd.

Ao terminarem de subir as escadas, o ladrão os levou por um corredor até parar diante de uma grande porta. Depois de abri-la, com um gesto de varinha, se afastou, deixando com que os dois entrassem primeiro.

Mary e Doumajyd se viram diante de uma sala tão luxuosa quanto a própria mansão Doumajyd, mas um lugar que se assemelhava muito mais a Hogwarts do que qualquer outro. Haviam tapeçarias pelas paredes e os móveis eram feitos de uma madeira escura e pesada. Havia também uma grande lareira acesa com um fogo azulado, e na mesa do centro estava servido um verdadeiro banquete. Vendo aquilo, de repente Mary se deu conta de que fazia um longo tempo que não tinham uma boa refeição, e do quanto estava enjoada de comer somente peixes.

– Fiquem a vontade. – disse uma voz vinda de perto do fogo.

Surpresos, os dois olharam para lá e se surpreenderam ao ver um senhor de idade sentado em uma poltrona, tão imóvel que parecia ser parte da decoração. Ele os encarava intensamente, como se o avaliasse, de uma maneira que chegava a incomodar. Tinha uma longa barba que começava a pratear e um cabelo ralo da mesma cor. Usava roupas bruxas um tanto simples para alguém que tinha um castelo como aqueles. Mas, mesmo assim, ele possuía uma atmosfera de poder em volta dele, assim como os Doumajyd.

– Desculpe pela demora. – pediu o ladrão, se aproximando da poltrona e fazendo uma breve reverência.

E sem dizer mais nada, o bruxo saiu da sala, os deixando sozinhos com o velho.

Com esse modo de agir dele, Mary imediatamente lembrou de Richardson. O ladrão da tiara agia e falava exatamente como o secretário de Doumajyd, deixando bem claro que ele estava sobre as ordens daquele senhor.

– Você é o cara por trás de tudo o que aconteceu? – começou Doumajyd, ainda mantendo o seu controle, mas encarando o velho de um jeito que dava medo.

– Como foi a vida de sobreviventes na ilha deserta? – perguntou o senhor de forma casual, como se estivesse perguntando sobre o clima lá fora.

Não obtendo resposta de nenhum dos dois, que permaneciam imóveis, ainda perto da porta, o velho fez um gesto amplo em direção a mesa:

– Estão com fome, não estão? Podem comer o que quiserem.

Mary engoliu em seco, repetindo para si mesma que por mais convidativo que aquele cheiro estivesse, não deveria se deixar levar tão facilmente por aquela pessoa que ela não conhecia.

– O que pretende? – perguntou Doumajyd de forma ríspida, deixando bem claro que ele deveria parar com aquele rodeio.

O velho respirou profundamente e então levantou, de maneira muito hábil para a idade que aparentava ter, e foi até a lareira, apreciar o fogo mágico.

– Las Vegas, Hong Kong, mar do sul… – ele sorriu, como se lembrasse de algo antigo – Não foi interessante?

E então olhou para eles, com um sorriso.

– Quem é você? – murmurou Doumajyd, de vagar.

Mary notou que o dragão falara aquilo como se aquela pessoa, naquele momento, lhe parecesse familiar. Mas não teve tempo de perguntar qualquer coisa para o noivo. No mesmo instante, o ladrão reaparecera na sala trazendo consigo a caixa da tiara, e a colocando em cima da mesa.

– Ah! – Mary correu até ela – A tiara!

Doumajyd permaneceu no mesmo lugar, olhando da caixa para o velho.

– Foi um longo caminho até ela se encontrar com vocês, não foi? – perguntou para o dragão, voltando a olhar o fogo.

Mary abriu a caixa e pegou cuidadosamente a tiara nas mãos, para verificar se era realmente ela ali e não um truque, e respirou aliviada. Agora tudo estava acabado. Eles tinham a tiara, não estavam presos em uma ilha deserta, estavam novamente na Inglaterra e… Doumajyd arrancou a tiara das mãos dela.

Sem dizer uma palavra, ele avançou até a lareira.

– O QUE ESTÁ FAZENDO?! – Mary correu chocada ao perceber a intenção dele, mas não conseguiu o impedir de jogar a Sorriso da Deusa no fogo.

Ela paralisou ao ver a tiara em meios as chamas, intacta. Porém, ela só permaneceu assim alguns instantes. Logo não resistiu a temperatura e derreteu, se deformando em algo escuro e retorcido, e as pedras desapareceram como fumaça.

– …O que você fez? – perguntou Mary em um fiapo de voz chorosa, se ajoelhando na frente da lareira.

– Não precisamos disso! – o dragão falou para ela e então declarou para o velho, com o seu tom de líder dos Dragões – Vocês não vão mais nos arrastar para as suas armadilhas!

O velho riu e saiu de perto da lareira, nem um pouco afetado pelo que acabara de acontecer.

– Então você percebeu? – ele perguntou, calmamente.

Doumajyd o encarou um tanto confuso, deixando bem claro para Mary que se havia alguma coisa para ser percebida, ele não tinha percebido.

– Era uma imitação. – contou o velho.

– Imitação?! – Mary e Doumajyd exclamaram juntos.

– Quer dizer que essa tiara era falsa?! – perguntou Mary pasma.

– Não e sim. Não essa tiara, mas sim a tiara. A Sorriso da Deusa nunca existiu.

– Como assim? – perguntou Doumajyd irritado – Foi tudo uma história inventada?!

– Isso mesmo. – ele confirmou, se sentando novamente na poltrona – O noivado do herdeiro Doumajyd com uma moça simples foi celebrado em todo o mundo bruxo, ao contrário do que se esperava… Parece que não há ninguém que seja contra ele.

– Não diga coisas sem sentido, velho! – rosnou Doumajyd, avançando para ele com a intenção clara de atacá-lo de alguma forma – NÓS QUASE MORREMOS POR SUA-

Antes que o dragão pudesse completar a frase, ele foi atingido por um feitiço do velho e lançado contra a parede. Foram movimentos de segundos e Mary precisou de outros tantos para entender o que havia acontecido e ir ao socorro do noivo estirado no chão.

– Você ainda é muito novo, mestre Christopher. – disse o velho – Pensei que havia aprendido algo naquela ilha… Ainda que o mundo celebre o casamento de vocês, existem pessoas que se preocupam. Pessoas que estão imensamente felizes, mas ao mesmo tempo imensamente preocupadas.

– O que isso significa? – pediu Mary, ajudando o noivo a se levantar, ainda atordoado com o impacto que levara.

– Mary Ann Weed. Você, tendo uma forma de pensar diferente, conseguiria ser feliz vivendo uma vida de ostentação?… Doumajyd, sendo alguém em quem o mundo mágico deposita suas esperanças para um futuro, tem certeza desse casamento quando ainda é tão jovem?… A força do amor de vocês é capaz de superar todas as barreiras que surgirem?… Eram essas perguntas que eu desejava ver respondidas.

– E por causa disso você fez essa coisa idiota?! – perguntou Doumajyd, já totalmente esquecido do seu auto-controle e se levantando com dificuldade – O que aconteceria se nós tivéssemos terminado?!

O velho olhou bem para eles:

– Vocês não estariam aqui agora, diante de mim. Somente isso.

– Era um teste… – Mary murmurou, compreendendo – Por que o senhor queria nos testar?

– Não eu. Só fiz o que me pediram.

– Foi a minha mãe? – perguntou Doumajyd sério.

– Conheço a sua mãe há muito tempo, meu jovem. Você não deve lembra de mim pois era muito pequeno, e por isso tudo era perfeito. Ela precisava de alguém que tivesse meios de agir e que já tivesse passado por algo parecido.

As palavras dele flutuaram algum tempo pelo ar, enquanto os dois absorviam aquela informação.

– …Quem e você? – o dragão repetiu uma de suas primeiras perguntas.

– Como assim parecido? – Mary emendou a pergunta.

O velho deu um grande suspiro, se preparando para contar da melhor forma.

– Katherin Doumajyd é uma pessoa forte. Uma bruxa de ferro, como dizem… Ela precisou se tornar alguém assim. Ganhou muito nesses anos, mas também perdeu muito do que era antigamente. – ele olhou bem para Doumajyd – A Ketherin dos tempos de Hogwarts era muito parecida com você, mestre Christopher, uma aluna única. Alguém disposta a desafiar o mundo pelo que acreditava…

– E no que minha mãe acreditava? – perguntou o dragão.

– Acreditava que tudo estaria bem se ela amasse uma pessoa, somente isso. Quando esse amor foi colocado a prova, assim com vocês, ela percebeu que precisava se tornar mais forte.

– Quer dizer que a senhora Doumajyd também passou por isso? – Mary tentava acreditar.

Anos atrás, ela chegou a odiar a bruxa, por tudo o que ela fizera com as pessoas a sua volta para destruir a sua relação com o herdeiro Doumajyd. Porém, na sua formatura, ela havia cedido e reconhecido que não conseguiria interferir no que eles sentiam. Vivendo no mundo bruxo fora dos muros de Hogwarts, como uma noiva não declarada de Doumajyd, e na pavorosa expectativa de tornar referência dentro da sociedade mágica, Mary achava que tinha compreendido um pouco do motivo para a bruxa querer tanto separar os dois. Mas em nenhum momento ela pensara que a bruxa já havia feito algo semelhante, e que seus atos apenas refletiam a preocupação com que seus filhos cometessem os seus mesmos erros do passado.

– Ela tinha alguém como a Mary? – inquiriu o dragão – Quem era essa pessoa?

O bruxo deu um meio sorriso, mas não respondeu. Apenas continuou, deixando bem claro que estava ignorando a pergunta propositalmente:

– Foi Ketherin quem me pediu para planejar essas provas para vocês. Entretanto, isso foi algo que pediram para ela.

– Quem? – perguntou Mary, não tendo a mínima idéia de quem poderia ter sido.

– Seus pais, Mary Ann.

A resposta, dita de forma simples, foi poderosa o suficiente para abrir um buraco embaixo dos pés dela. Como assim seus pais haviam pedido que a força do sentimento entre os dois fosse testado?! Os mesmos pais que brindavam todo o dia por sua filha ter conseguido conquistar um bruxo rico e poderoso?! Os mesmos pais que pensavam que nunca mais teriam problemas na vida por causa disso?!

– Dinheiro não significa felicidade. – disse o velho, como se lesse os pensamentos dela – E o que seus pais mais desejam no mundo é a sua felicidade e a do mestre Christopher. Por isso, eles recorreram à Ketherin… Você foi uma moça humilde durante toda a vida, Mary Ann Weed, e seu noivo nasceu em um berço de ouro. Vocês são pessoas diferentes que se completam, e provaram isso ao superarem todos esses obstáculos… Talvez, na vida que terão de agora em diante, problemas maiores esperarão por vocês. Mas, por terem compreendido o que é mais importante, serão capazes de superá-los, juntos.

Ele se levantou da poltrona e seguiu até a mesa.

– Vocês ainda têm uma longa vida pela frente. – ele puxou uma cadeira e se sentou – Então, só por hoje, o que acham de perderem um dia dessa vida para saborear essa refeição com um velho?

Mary e Doumajyd se entreolharam, e ela deu um grande suspiro:

– Estou com fome.

Vencido, Doumajyd sorriu e seguiu a noiva até a mesa.

Fic – Entre Doces e Dragões Final

Última parte de EDD e EDDII

CAP 14 – Isolados

Mary despertou lentamente, mas não abriu os olhos. Não só eles, como todo o seu corpo, estava tão pesado que, mesmo naquele estado de pouca consciência, tudo o que queria era voltar a dormir. Então permaneceu daquele jeito, como se ainda estivesse em sono profundo. Sentia o seu rosto repousado no seu braço, a claridade do dia e o calor do sol batendo nela, o canto dos pássaros, a brisa refrescante, o som das ondas do mar… ondas do mar?

Confusa, ela se forçou a acordar direito e olhar em volta, raciocinando.

– …Que lugar é esse? – ela murmurou, soerguendo-se sobressaltada, se dando conta de que não reconhecia o cenário a sua volta.

Estivera deitada dormindo na areia pelo que parecia ter sido um longo tempo. Logo ao seu lado estava a sua mala, como se tivesse sido jogada ao lado da dona. Tinha a sua frente um vasto mar azulado, que se perdia no horizonte imenso, de um céu azul claro. O sol estava alto e as ondas vinham tranquilamente quebrar na areia branca e fina como farinha. Olhou em volta e viu que a faixa de areia se estendia até um amontoado de grandes pedras a sua esquerda e dobrava o mar a sua direita. Atrás dela havia uma floresta, com vegetação típica de trópicos. E ali, perto dela, estirado na areia, dormindo e respirando calmamente, estava Doumajyd.

– Chris! – ela se arrastou até ele, ainda sentindo dificuldade em se movimentar – Chris! Acorda! Estamos em um lugar estranho! Chris!

Mas a única resposta que ela conseguiu dele foi um resmungo acompanhado de um meio sorriso, de quem está sonhando com algo bom, e então ele virou para o outro lado e continuou dormindo.

– Será que é um sonho? – ela olhou em volta preocupada.

Mesmo forçando sua memória, tudo o que lembrava era de ter entrado no jato em Hong Kong para voltarem para casa. Depois disso não havia nada além do despertar naquele lugar.

Então se levantou, batendo a areia das roupas. Não podia simplesmente ficar sentada ali esperando que Doumajyd acordasse e ajudasse a descobrir o que tinha acontecido. Precisa andar e procurar por alguém. E foi isso que fez.

Por mais de meia hora andou pela faixa de areia. Constatou logo que se tratava de uma ilha, mas não encontrou nenhum sinal de que houvesse pessoas vivendo ali. O máximo que havia, por onde andou, eram galhos secos trazidos pela maré e pedras, nada que denunciasse civilização. Então, quando achou que já havia ido longe demais, voltou seguindo as suas pegadas.

Ao chegar ao ponto em que acordara, encontrou Doumajyd sentado em cima da sua mala, encarando o mar.

– Isso é uma ilha deserta, não é? – ele pediu, como se para concluir seus pensamentos.
O silêncio dela indicava perfeitamente um sim.

Doumajyd voltou a encarar o mar e, quando ela se aproximou dele, informou:

– A tiara sumiu.

– Mentira. – foi tudo o que ela conseguiu dizer.

Depois de tudo o que haviam passado, de finalmente terem recuperado a tiara, novamente ela havia sumido.

– Parece que caímos em uma armadilha. – disse o dragão, em tom de quem admitia a contra gosto – Não sei como dormimos, mas acho que havia alguma coisa naquela bebida que o elfo trouxe…

– Inacreditável. – lamentou-se Mary, se largando na areia ao lado da sua mala, no mesmo lugar em que tinha acordado.

Por um longo tempo, os dois permaneceram em silêncio, apenas olhando para a vastidão do mar. Então, de repente, Doumajyd ficou de pé e foi até o limite das ondas na praia, e começou a andar de um lado para o outro como se, avistar algum resgate ao longe ou não, dependesse totalmente do ponto de onde ele olhava.

– Ninguém virá nos salvar. – concluiu Mary.

– E por que acha isso?! – ele perguntou agressivo, demonstrando estar irritado com a situação.

– Porque é uma armadilha. – ela explicou paciente, sabendo que em nada ajudaria no momento começarem novamente a discutir – Vai demorar até os outros perceberem que não voltamos e, quando perceberem, as pessoas que nos jogaram aqui já terão tido tempo suficiente para encobrir pistas… É bem óbvio terem nos largado em uma ilha isolada como essa. Fomos atrás deles em Las Vegas, depois em Hong Kong então… Espera. Chris! – ela ficou de pé, agitada, como se tivesse descoberto algo grande – As pedras!

– Que pedras?

– As pedras da tiara! A história sobre a Sorriso de Vênus! – ela forçou o seu pensamento – Como era mesmo que a Nana havia falado?… Uma era a Esperança do Deserto, não era?

– A Lágrima do Oriente, a Serenidade do Oceano e a Segredo Ancestral. – ele completou.

Eles haviam atravessado todo o deserto americano com a esperança de encontrar a tiara. Depois foram até o Oriente e, mesmo recuperando o que buscavam, haviam brigado. Agora estavam perdidos em um oceano. Não podia ser pura coincidência a relação desse roteiro com as pedras da tiara.

– O que pretende com isso? – ele se perguntou baixinho, procurando por uma explicação.

***

Escurecera e eles chegaram à conclusão de que não poderiam simplesmente ficar sentados na areia esperando que alguma coisa acontecesse. Então, enquanto ainda havia um pouco de luz, entraram pela vegetação e logo encontraram um lugar com grandes pedras, que tinham uma abertura formando uma caverna, de onde saia um pequeno rio. Porém, o entusiasmo com o abrigo logo foi ofuscado pela descoberta de que suas varinhas e esferas haviam sumido. Qual fosse o motivo que tiveram para que os trouxessem até aquela ilha, queriam ter certeza de que não conseguiriam voltar por conta própria e permaneceriam totalmente isolados.

Assim, Mary teve que recorrer ao seu conhecimento de filmes sobre naufrágios e sobrevivência em lugares inóspitos para tentar coisas que nunca pensara em fazer em sua vida, como acender uma fogueira partindo do básico de esfregar um pedaço de maneira no outro.

Tentou algumas vezes sem sucesso, enquanto Doumajyd arrastava as malas para o abrigo. Logo o dragão tomou o seu lugar nas tentativas, achando que se usasse mais força conseguiriam progredir.

– Então, percorremos o caminho das pedras da tiara. – ele comentou, muito ciente do silêncio e do afastamento entre eles, remanescente da briga do dia anterior.

– Acredito que sim. – disse Mary, observando atentamente, esperando por uma faísca.

– Quer dizer que estava decidido o fato de virmos para cá?

Ela concordou com um aceno de cabeça e continuou:

– E se for assim, ainda resta um lugar para irmos…

Uma centelha de fogo acendeu na madeira e os dois se apressaram em alimentá-la, para poderem criar uma fogueira. Quando essa estava bem acessa, os dois olharam em volta, analisando o que tinham.

A caverna não era espaçosa e nada confortável. Mas agora, com luz, as coisas pareciam um pouco melhores. A segunda decisão de importância, depois do fogo, foi separar nas malas tudo o que tinham e que poderia ser usado.

Mary verificou, com um suspiro, que não havia muita coisa além de roupas. Assim como Doumajyd, ela tinha uma garrafinha de água mineral e pacotes de biscoitos, coisas que ganharam na primeira viagem de avião e que ela esquecera completamente, pois não necessitava delas. Tinha toalhas, xampu e sabonete, o que era um certo alívio. Na mala de Doumajyd também só haviam roupas. Afinal, o presidente da D&M não precisava levar peso em sua bagagem. Se necessitava de algo que não tinha, simplesmente, bastava comprar. A única coisa diferente que encontrara era um cartão de crédito, uma coisa que MacGilleain havia lhe dado para que usasse em caso de emergências, mas que o dragão não sabia exatamente como funcionava.

Dormiram mal aquela noite, usando roupas enroladas como travesseiros, e acordaram cedo para decidirem como iriam se virar até que alguém aparecesse… se alguém aparecesse.

Mary passou o dia andando pelos arredores, recolhendo galhos e pedras que poderiam ser usados na caverna. Fez uma boa reserva de galhos para manter a fogueira acessa e acercou com pequenas pedras. Também conseguiu arrumar pedras que poderiam ser usadas como bancos. Já a missão de Doumajyd era buscar por alimento. Sua primeira tentativa foi um lago no interior, onde haviam peixes. Porém, depois de ter mais engolido água do que pego alguma coisa, ele concluiu que peixes não poderiam simplesmente ser pescados com a mão.

À tarde, depois de ter feito tudo o que podia pela caverna, Mary procurou por frutas, mas todas as que encontrou estavam verdes ou tinham uma aparência duvidosa. Desistindo dos peixes, Doumajyd tentara em vão acertar pássaros com pedras, entretanto sua mira de batedor estava completamente enferrujada depois de tantos anos sem jogar quadribol. Logo desistiu e voltou para a caverna, onde ficou abrindo e fechando o seu relógio, que havia misteriosamente parado de funcionar desde que chegara naquele lugar.

O estômago de Doumajyd roncou alto e ele não conseguiu evitar um suspiro zangado, olhando para os pequenos pacotes de biscoito sem graça, que só durariam até o próximo dia.

Mary voltou pouco tempo depois e se sentou no outro lado da caverna, com ar de derrotada.

Os dois permaneceram quietos, um com mais fome e cansaço que o outro, apenas se limitando a jogarem gravetos no fogo, para que ele continuasse acesso.

***

No dia seguinte, Doumajyd tentou mergulhar no mar, repleto de corais, mas também não teve sorte. Quando os seus olhos começaram a arder por causa do sal da água, ele teve que admitir que precisava de equipamentos adequados.

Mary via, desolada, que não haviam mais biscoitos, que não encontravam frutas e que, embora houvessem muitos peixes, esperar que um bruxo que crescera nunca tendo que usar as próprias mãos para conseguir o que queria os pegasse, era perda de tempo. Sem pensar direito, ela saiu andando pela praia, foi até o monte de pedras e subiu na mais alta, tendo vista de toda aquela imensidão de oceano, e ficou horas gritando, na esperança tola de que alguém a ouvisse, até que o sol se pôs e ela desistiu.

Mais uma vez, naquela noite, eles dormiram mal. Não só pelo desconforto, mas pela preocupação e, principalmente, pela fome. Tinham consciência de que não morreriam por ter ficado apenas alguns dias sem comer, mas sabiam que se não encontrassem algo em breve, logo não teriam forças para continuar tentando.

***

No dia seguinte, Mary levantou cedo, decidida a entrar mais longe na floresta, em busca de frutas. Sentia-se mal, não só pelo estado do seu corpo sujo e seus cabelos desgrenhados pela falta de cuidado, mas pelo seu espírito, cada vez mais nebuloso e negativo. Era algo que simplesmente não podia evitar, já que não encontrava nenhuma saída para aquela situação.

Mesmo assim, ainda se surpreendia em comprovar o fato de que a necessidade era capaz de despertar capacidades que ela nunca imaginara ter, como a visão ampliada que lhe permitiu enxergar pontos amarelos no topo de uma árvore e a sua habilidade em subir pelos galhos. Eram frutas e pareciam estar apetitosamente maduras, não podia deixar que a questão altura e dificuldade em chegar até elas a fizessem desistir do alimento.

Conseguiu atingir ao topo, bem perto das frutas. Tudo o que precisava fazer era esticar uma das mãos, enquanto se segurava firmemente com a outra, e então poderia… Antes que se desse conta, seu pé escorregara no galho e ela caiu, deslizando pelo tronco, batendo pesadamente no chão, rolando para o lado e caindo mais uma vez em um barranco, deslizando até parar dentro de um pequeno rio. Esfolada, molhada, suja, tossindo e dolorida em vários lugares, Mary se ergueu com dificuldade e ficou sentada no meio da água, se sentindo completamente perdida.

Estava presa em uma ilha deserta, sem comida, machucada e sem perspectivas de resgate. Definitivamente não havia como ficar pior do que aquilo. Porém, mal havia terminado de concluir esse pensamento, quando um trovão ressoou por toda a ilha, e começou e a chover.

Completamente vencida, tudo o que Mary pôde fazer foi chorar.

***

Doumajyd teve uma idéia para pegar peixes. Conseguiu encontrar galhos adequados e agora só teria que arranjar algo para usar como rede.

No caminho de volta para a caverna, começara a chover e ele apressou o passo. Se Mary não estivesse por lá a fogueira poderia se apagar com o vento, e seria difícil acendê-la novamente naquele tempo úmido.

Porém, ao avistar o abrigo, paralisou. Viu Mary sentada diante da fogueira, abraçando as pernas e com o rosto escondido, como se chorasse. Mesmo de longe, percebeu os braços e as pernas esfolados dela e a sua roupa toda suja, rasgada em vários lugares. Sem perder tempo, ele largou os galhos que trazia e correu até ela.

– Ei, Mary?! O que aconteceu? – ele se ajoelhou ao lado dela, analisando os machucados de forma preocupada.

Ela tremia e estava toda molhada. Então, agindo rápido, ele pegou o seu casado para cobri-la e colocou mais galhos na fogueira.

– Você está bem? – ele perguntou.

– Tudo bem. – ela respondeu com uma voz fraca.

O dragão a encarou por um tempo. Nunca a ouvira falando naquele tom, totalmente contrário a sua personalidade forte. Mas só conseguiu chegar à conclusão de que ela deveria estar cansada e faminta, e então aconselhou:

– Não se esforce tanto.

– Se não nos esforçarmos não iremos sobreviver! – ela respondeu grossa e irritada.

Agora, ele via que não era somente fome e cansaço. Mary agia como alguém que estava a ponto de desistir.

***

Mesmo depois de escurecer, a chuva ainda caia. Dentro da caverna, cada um em seu canto, Mary e Doumajyd se limitavam a olhar para as chamas do fogo, sozinhos com seus próprios pensamentos.

– O que estamos fazendo? – Mary quebrou o silêncio, pensando alto – Tivemos problemas desde o início e agora isso… É como se fosse um erro estarmos juntos, porque nada dá certo…

– Por que diz isso? – resmungou Doumajyd.

– Só para começar, – ela continuou, mantendo aquele tom de voz sem emoção – se aquela tiara não tivesse existido, não estaríamos presos aqui.

Doumajyd olhou para ela, não acreditando no que ouvia:

– Está falando sério?

Ela ficou em silêncio por um tempo, e então disse:

– Realmente nossos valores são diferentes…

– O quê?

– Se nos casarmos, vamos sempre estar juntos… Mas se, mesmo agora, não conseguimos que as coisas dêem certo, como vamos conseguir que elas melhorem depois?

– Se tiver que dar certo, vai dar certo! – ele respondeu, irritado com o jeito negativo dela.

Então se levantou, pegou um casaco e o vestiu dizendo, no seu tom de líder dos dragões:

– Eu não tenho nenhuma dúvida sobre passar o resta da minha vida com você! – e saiu na chuva, pisando furioso pelas poças d’água.

CAP 15 – O colar de Saturno

Enfim Doumajyd havia descoberto uma utilidade para o cartão de crédito de MacGilleain. Depois de ter cortado o dedo nele ao pegar algo na sua mala, pensou que poderia usar uma pedra para afiá-lo, a ponto de torná-lo tão prático quanto uma faca. Assim, conseguiria não só algo extremamente útil, como algo que o auxiliaria a conseguir mais coisas úteis.

Com a faca improvisada, ele conseguiu cortar folhas de palmeiras em tiras para modelá-las. Usando as tiras e um amontoado de folhas de palmeiras, conseguiu montar algo eu se parecia muito com um tapete amarrado, e que amenizaria um pouco o fato de estarem dormindo no chão de pedra. Também conseguiu fazer uma rede de aparência tosca, mas firme, e a amarrou nos galhos que achara no dia anterior.

Colocando os galhos cruzados, como se fossem uma tesoura, conseguiu um movimento de abrir e fechar a rede. Ficara um tanto grosseiro, mas com certeza seria muito mais eficiente do que usar as próprias mãos para pescar. Bastaria ele prender o peixe e teriam uma refeição decente.

Porém, a sua alegria com o fato de ter construído algo com as próprias mãos não durou muito tempo. A situação de Mary, que permanecia na caverna, no mesmo estado do dia anterior, abraçada aos seus joelhos, com o olhar perdido, era a sua principal preocupação. Caberia a ele continuar tentando também por ela. E por isso ele pensava que, se voltasse com um peixe, o estado de ânimo da noiva poderia melhorar.

Entretanto, a prática não era tão fácil como a teoria. No rio, por duas vezes conseguira prender um peixe na rede, mas eles se debatiam tanto que, quando tentava os pegar, eles pulavam e fugiam. Praguejando alto e chutando a água, Doumajyd não desistia e continuava tentando.

Escondida atrás da vegetação de grandes folhas, Mary observava de longe as tentativas frustradas do dragão.

***

Naquela noite, Doumajyd voltara para a caverna de mãos vazias e o estômago roncando ainda mais. Sem dizer uma palavra, ele se largou exausto no tapete de palmeiras e logo adormeceu. Mary, ao contrário, passara aquela noite inteira acordada, segurando firmemente o seu colar com o pingente de Saturno na mão, pensando.

***

Quando o dia começava a clarear e o sol ainda se preparava para nascer, Mary saiu da caverna, deixando para trás um Doumajyd profundamente adormecido, e seguiu para a floresta.

Mesmo não tendo andando por toda a ilha, a geografia dela não era algo difícil de aprender. Ela tinha a forma de uma meia lua, sendo que uma metade tinha uma faixa de areia e a outra, precipícios de pedras. Não era muito extensa, mas era grande o bastante para abrigar uma floresta, várias nascentes e a sua população de seres. As nascentes se juntavam e formavam um rio maior, que atravessava todo o meio da ilha até chegar no mar. Era lá onde Doumajyd tentava pescar todos os dias. Não havia animais grandes, mas eles já tinham avistado roedores e pássaros perto da caverna.

Dentre todos os riozinhos que ela conhecia, existia um mais afastado que ela gostava de ir. Lá, ele passava por uma região de pedras pequenas formando um pequeno lago, tão raso quanto uma poça de água nas suas bordas. Um lugar perfeito para quem quisesse lavar o rosto e se sentar tranquilamente, apenas ouvindo o barulho da água corrente.

Depois de se lavar, tentando amenizar a sensação de que estar mais suja do que realmente estava, ela tirou o colar de saturno do seu pescoço e o encarou por um longo tempo. Apesar de não ter nenhum sintoma de doença, desde o dia de chuva ela se sentia doente e fraca, como nunca se sentira na vida, e seu estado de ânimo se reduzia ainda mais olhando para aquele pingente.

Houve um tempo em que considerava aquele colar um dos seus pertences mais preciosos, a ponto de carregá-lo sempre consigo, como um amuleto. Porém, agora, não conseguia mais o ver como algo além do que realmente era: um colar caro. Não compreendia porque chegara a considerá-lo tanto. Porém, mesmo nesse seu estado de depressão, não conseguia simplesmente largá-lo ali, como sentia vontade de fazer.

Um estrondo, seguido da confusão de pássaros fugindo, fez com que ela despertasse de seus pensamentos. Havia algo por perto dela. Algo grande.

Cuidadosamente, ela ficou de pé e seguiu para a vegetação. Mesmo com um pressentimento de que poderia ser perigoso e de que estava correndo risco, ela avançou para descobrir o que era. Em todos aqueles dias na ilha nada do tipo tinha acontecido.

A princípio, não via nada além das cores da própria floresta. Aquela habilidade de ver longe que havia adquirido no começo se esgotara assim como o seu ânimo, e tudo a sua volta parecia fazer parte de uma única coisa, sem detalhes.

Foi nesse momento em que ficou imóvel, apenas respirando, que viu algo se mexendo a frente dela. Era alguma coisa escura, que se movia de forma estranha, ora parecendo se arrastar e ora parecendo andar como um animal. Percebendo que a coisa ainda não a tinha visto, ela de um passo a frente, para enxergar melhor, mas foi um erro. Acabou pisando em um galho seco, e o estralo ecoou pela vegetação, fazendo a coisa se erguer e notá-la. Imediatamente a sombra avançou, e quando Mary começou a correr, ela se transformou em um urso negro, duas vezes maior do que o normal.

Mary sabia que não podia gritar pedindo ajuda. Estava muito longe da caverna e Doumajyd não a ouviria se não chegasse mais perto. Não havia mais ninguém para socorrê-la e não tinha uma varinha para se defender. Então, tudo o que estava ao seu alcance era correr, e teve o bom senso de seguir o caminho do rio, que era mais limpo e sem obstáculos. Mesmo assim, tropeçou duas vezes, esfolando e batendo os joelhos, levantando sem pensar muito e continuando a corrida, ouvindo passadas pesadas atrás de si.

Logo o caminho do rio se tornou inacessível, e ela teve que se embrenhar pela mata. Se arranhando e prendendo a roupa em galhos, ela avançou ofegando, até que saiu em um lugar de vegetação rasteira, coberto com as copas de árvores altas, e parou. Não conhecia aquele lugar e não sabia mais para onde ir, tendo perdido todo o seu senso de direção no seu desespero de fugir e, como não conseguia ver o céu, não conseguia deduzir em que parte da ilha estava pela posição do sol.

Porém, as passadas atrás dela haviam parado. Não estava mais sendo perseguida, mas não significava que o perigo havia desaparecido. Ele apenas estava dando voltas, esperando pelo melhor momento de atacá-la. Confirmando isso, ela ouvia vários grasnidos e gemidos baixinhos, vindo de direções indefinidas. Instintivamente, ela dava voltas no mesmo lugar, olhando em todas as direções, respirando descompassadamente, apavorada.

– Por que tudo dá errado? – ela murmurou baixinho, com a voz tremida – Por que eu tenho que passar por isso?… Eu só queria… Tudo o que eu queria…

– Viver feliz?

A voz familiar a fez gelar. A reconheceria mesmo em uma multidão. Então, alguém saiu do meio da vegetação e parou a frente dela.

– Chris?

O dragão a encarava de uma maneira que ela havia esquecido nos últimos anos: era o olhar do ditador de Hogwarts, aquele que impiedosamente colocava os alunos sobre as torturas da Tarja Vermelha do D4.

– Nunca vai dar certo. – ele disse – Você nunca vai ser feliz.

– O-o q-que está d-dizendo, Chris? – ela gaguejou, espantada demais para conseguir ser firme.

– Somos diferentes. Nossos valores são diferentes. Nunca vai dar certo.

Aquelas frases, as mesmas que ela dissera, ditas por ele, uma após a outra, a atingiam de uma forma muito mais dolorosa do que os tombos que levara.

– Nunca vai dar certo. Sempre haverá problemas. Nunca via dar certo. Somos diferentes. Você não acredita. Nunca vai dar certo.

Aquilo ressoava na cabeça de Mary, a quase a fazendo perder o chão.

– Você é a pior de todas. Nunca mais quero te ver. Nunca via dar certo.

Com aquilo, ela chegara ao seu limite. A raiva por todos os problemas que haviam passado, por todas as dificuldades, a irritação e a agressividade causada pela fome, se misturaram todas em um único sentimento, e algo começou a borbulhar dentro dela. Mesmo o seu corpo não tendo de onde retirar energias, ela explodiu:

– DEPOIS DE TUDO O EU PASSAMOS, DE TODOS ESSES ANOS, DE TODAS AOS NOSSOS ESFORÇOS E TODAS AS LÁGRIMAS VIA TERMINAR ASSIM?! – ela afastou os pés no chão, em uma pose de luta, com os punhos no ar, e sibilou, dando três pulinhos – Passar por tudo isso e morrer nessa ilha no fim do mundo É INACREDITÁVEL!!! – ela avançou com toda a sua força e socou Doumajyd no nariz.

Sentiu a mão afundar e atravessar algo semelhante a uma gelatina, e viu a forma do dragão a sua frente se desfazer em uma fumaça negra e explodir no ar, desaparecendo, como se nunca tivesse existido.

Abalada, ela se deixou cair de joelhos no chão. E então riu, com um riso nervoso de quem ainda não acreditava no que acontecera: era um bicho-papão. Havia um bicho-papão naquela ilha e ele a atacara. E ela derrotara um bicho-papão sem usar a varinha, apenas com um berro e um soco no nariz.

Então, passando aquele momento, ela deixou o óbvio de lado e pensou no que realmente havia acontecido.

Sabia que o bicho-papão usava o maior medo das pessoas para atacá-las, para deixá-las psicologicamente indefesas. Então se deu conta de que nem mesmo ela saberia dizer, antes daquilo, qual era o seu maior medo.

Instantaneamente, se recordou do dia em que aquela mesma cena havia acontecido, quando tudo começara. Quando ela declarou guerra ao D4 e nunca mais teve sossego na vida, porque Doumajyd passara a fazer parte dela. De como correu atrás da carruagem da família Doumajyd, que levaria o dragão para Nova York, gritando com todas as suas forças por ele. De como ela agradecera pelo colar de saturno e como ele o colocara no seu pescoço, dizendo que se tornaria um homem melhor por ela. De como confessou, de uma forma um tanto indelicada, que estava apaixonada por ele.

Então se deu conta que, mesmo agora, depois de tantos anos, depois te ter enfrentado todos esses problemas e de ter se machucado tantas vezes, ela faria tudo de novo. Não importava o quanto Doumajyd fosse estúpido e egoísta, ela o amava. O seu maior medo, aquele que nem mesmo ela sabia, era de que ele dissesse exatamente o que ela vinha pensando desde o anuncio do noivado: que nada daria certo, portanto teriam que desistir.

Antes que percebesse que estava chorando, seu rosto já estava todo molhado de lágrimas, como se finalmente pudesse colocar para fora todos os pensamentos negativos que vinha acumulando. E, em um gesto automático, ela colocou a mão no pescoço em busca do colar que, mais do que compromisso e anúncios para a comunidade mágica, representava a ligação deles dois. Mas ele não estava ali.

– Quê? – ela procurou nos bolsos, pela roupa e no chão a sua volta, mas não havia sinal algum do colar – Sumiu!

***

O sol já havia se posto e Mary não voltara para a caverna. Preocupado e sem fazer idéia de onde ela poderia ter ido, Doumajyd improvisou uma tocha e saiu à procura dela pela ilha. Passara por todos os lugares que conheciam e subira em cima das pedras mais altas a chamando, mas não houve resposta.

Já era tarde da noite quando, andando pela margem onde o rio ficava mais largo por se juntar com a água do mar, a avistou do outro lado, desmaiada no chão. Largando a tocha, que caiu e se apagou na água, o dragão atravessou como um raio o rio a chamando:

– MARY! – ele chegou até a ela e se ajoelhou, pegando a cabeça dela no chão – O QUE ESTÁ FAZENDO?!

Ela entreabriu os olhos e demorou para reconhecê-lo.

– Chris… – murmurou, com um fiapo de voz, demonstrando estar sem forças mesmo para falar.

Vendo que ela não conseguiria se levantar, o dragão a puxou para si e a colocou nas costas, para poder levá-la em segurança pelo caminho pelo qual viera.

Mary sempre fora pequena, e para ele não era um grande peso. Mas na situação em que estavam, em que há dias não tinham uma refeição nutritiva, era um grande esforço carregá-la.

Então, depois que atravessaram o rio, ele sentiu que os braços dela se apertaram em torno do seu pescoço e que ela enterrava o rosto no seu ombro, chorando.

– Desculpa. – pediu ela com um soluço – Eu perdi.

– O quê? – ele perguntou sem entender.

– O colar de saturno… Eu perdi.

Ele parou.

– Ele era… importante… para nós.

Então, a ajeitando melhor nas costas, ele continuou andando, dizendo:

– Não se preocupe com besteiras, Mary. O mais importante para mim é você.

E isso fez com que ela o abraçasse o forte e chorasse ainda mais.

CAP 16 – Dividindo e multiplicando

Na manhã seguinte, Doumajyd saiu bem cedo, antes que Mary acordasse, com a certeza absoluta de que iria conseguir um café-da-manhã decente para ela. E, mesmo ainda sem jeito com o modo que inventara para pescar, naquela vez conseguiu pegar dois peixes.

Feliz consigo mesmo, carregando os peixes dentro da rede, ele voltava sorridente para a caverna quando algo chamou a sua atenção. Em uma árvore não muito alta, avistara um ninho. Se encontrasse algum ovo lá, teriam mais comida do que comeram em uma semana inteira. Então, sem perder tempo, ele escalou pelos galhos até alcançar o seu objetivo. Dentro do ninho, haviam três ovos, e ao recolhê-los, o dragão teve outra surpresa.

***

Mary observava admirada como Doumajyd se arranjavam com o que tinham. No seu estado dos últimos dias, não havia dado credibilidade as coisas que ele fizera usando um cartão deformado, como o tapete onde dormiam. Muito menos achara que ele conseguira pegar alguma coisa com um emaranhado de folhas de palmeira entrelaçadas e galhos. Mas lá estavam dois peixes, espetados em galhos, assando na fogueira e ele também trouxera ovos.

Porém, mesmo com o estômago roncado e a perspectiva de ter uma boa refeição, ela conseguiu manter o bom senso em não elogiar o dragão. Tudo poderia ir por água abaixo se ele ficasse convencido demais com aquele único sucesso em dias de derrota.

– Você vai ficar melhor se comer isso. – ele comentou contente, como há tempos ela não via, enquanto arrumava o peixe no fogo.

– Obrigada, Chris. – ela agradeceu ainda com a voz fraca por causa do que acontecera.

– E também, – ele começou, com o seu jeito típico de quem tinha uma surpresa e já não agüentava mais guardar em segredo – tem isso!

Ele retirou algo do bolso e estendeu na frente dela.

– O colar! – Mary exclamou, espantada, o pegando em um pulo – Onde achou?!

– Veio como brinde com os ovos. – ele comentou, como se tivesse sido algo sem importância.

– Um pássaro pegou? – ela apertou o colar nas mãos e essas contra o peito, em uma promessa silenciosa de nunca mais iria ser tão descuidada.

– Ouvi dizer que alguns gostam de enfeitar os ninhos com coisas brilhantes. – ele contou, avivando o fogo com um galho.

Então ele olhou para ela e vê como ela está feliz por ter recuperado o colar, e comenta:

– Que bom, não é?

Mary não soube dizer sobre o que exatamente ele comentava: por ter o colar de volta ou por ela estar sorrindo. Então, meio sem jeito por tudo o que tinha ocorrido naqueles últimos dias, e que havia criado uma distância entre eles, ele se levantou e foi se sentar ao lado dela, dizendo:

– Sabe, Mary. Acho que você se esqueceu que é responsável pelo que fez comigo.

– O que eu fiz com você? – ela pediu, sem conseguir esconder um tom de susto com a acusação repentina.

– Me fez te dar esse colar. – ele respondeu muito sério – A prova de que somos de Saturno, e que fomos feitos um para o outro.

Há anos ela não ouvia essa teoria do dragão, e achava que ele já havia se esquecido dela. Então sorriu para ele, prometendo:

– Não se preocupe. Nunca mais vou esquecer.

***

Os dias após aquele incidente passaram de uma forma muito mais fácil. Mary e Doumajyd não só tinham superado o problema de falta de alimento como haviam desfeito a distância que crescera inconscientemente entre eles. Nunca, desde que se conheceram, os dois estiveram tão próximos e por tanto tempo juntos, como podiam estar naquela ilha.

Para Mary, não ter que ficar com o herdeiro Doumajyd, o dragão-líder do D4, o presidente da D&M, mas simplesmente estar com Christopher, o seu noivo, até aquele momento era algo fora da realidade. Sempre estiveram envoltos de problemas, trabalho e mais problemas. Conviver com o dragão daquela forma todos os dias, servia para que ela entendesse que, por mais problemas que ainda fossem surgir, estaria tudo bem, desde que estivesse ao lado dele.

Doumajyd, por seu lado, experimentava uma liberdade que nunca tinha tido. E essa liberdade não era somente estar fora de responsabilidades e decisões, mas sim em poder fazer coisas por ele mesmo. Não havia nenhum elfo doméstico a sua disposição, não havia um secretário pronto para atender a qualquer ordem sua, não havia ninguém para lembrar que do no outro lado do mundo as esferas Doumajyds já faziam parte do cotidiano dos bruxos. Era somente ele, Mary e todo o tempo que possuíam.

Mary pensava em tudo isso, sentada na faixa branca de areia, sobre o sol, observando a paisagem, enquanto Doumajyd mergulhava na água salgada, tão feliz como um menino que pela primeira vez via o mar.

Mesmo naquela distância, ela podia perceber como aqueles dias estavam marcando o noivo. Ele não só havia recuperado o corpo forte de quando jogava quadribol na escola, mas se bronzeara como nunca teria conseguido em férias normais na praia. Foi então que ela olhou para as próprias mãos e notou, surpresa, que sua pele também escurecera, e provavelmente escureceria ainda mais se ficasse lá por mais tempo.

– Ei, Mary! – o dragão a chamou, virado para frente da praia, com a água lhe batendo na cintura, cruzando os braços como alguém que se dera conta de uma coisa óbvia somente naquele momento – Quanto tempo será que passou desde que viemos para cá?

Mary pensou um pouco, mas não sabia dizer com certeza:

– Acho que um mês ou mais… Por quê?

Ele olhou em volta, incomodado, como se tivesse um grande problema, e comentou:

– Então quer dizer que a sua formatura já passou.

– Ah! Minha formatura! – ela exclamou assustada – Eu tinha esquecido completamente!

Quando viajara com Doumajyd em busca da tiara para Los Angeles, Mary não fazia idéia da dimensão de tempo que aquela aventura lhe tomaria, e muito menos que ficariam presos em uma ilha deserta. Naquele momento, a sua formatura era a sua menor preocupação e nem lhe ocorrera que poderia perdê-la.

Diante do susto dela, Doumajyd também ficara assustado. E diante dessa reação dele, ela não pôde agüentar e riu, comentando:

– Não fiz meus testes finais mesmo, então, é impossível me formar.

– Ah, que droga! – ele se deixou cair na água afundando, e logo voltou, jogando o cabelo molhado e raramente liso para trás, dizendo – Eu queria que o nosso casamento fosse na sua formatura!

Mary sorriu. Lembrou da primeira vez que ele lhe dissera, muito sério, que deveriam se casar, quando ela tinha dezessete anos e enfrentara a terrível senhora Doumajyd de frente. Desde aquele tempo, ele sempre teve a sua certeza de Ilustríssimo Eu que chegariam a isso.

– Sabe. – ela começou, se levantando e batendo a areia das roupas – Estando aqui, eu pensei sobre o que significa viver junto com uma pessoa.

– O quê? – ele perguntou se aproximando um pouco mais, para poder ouvi-la bem.

Mary começou a andar sobre a areia molhada, pisando na linha aonde as pequenas ondas vinham quebrar, e continuou:

– As dificuldades e as tristezas podem ser divididas, e elas se tornam metade. E as alegrias e felicidades, podem ser multiplicadas, e elas dobram.

Os dois riram. Era perfeitamente simples, e completamente verdadeiro.

– Não seria tão ruim. – ele comentou, acompanhando o andar dela, seguindo pela água – Viver para sempre aqui nessa ilha… Eu posso olhar para você todos os dias e ninguém vai nos atrapalhar!

Então, Mary se lembrou de uma pergunta. De algo que a perturbara no dia antes de partirem de Hong Kong, e que em outras circunstâncias ela não teria dito:

– Chris, qual é o seu sonho?

– O meu sonho? – ele perguntou surpreso, e então se virou para ela, na sua pose típica de líder do D4 – É claro que já se realizou!

– Já? – ela perguntou confusa, não tendo a mínima idéia do que poderia ser.

Ele avançou, até sair do mar e ficar de frente para ela e poder dizer:

– Você.

Mary ficou paralisada encarando um Doumajyd sorridente a sua frente. Ele ainda tinha o poder de a deixar sem reação com somente um palavra.

Vendo que abalara a noiva, ele a abraçou e sussurrou:

– Não importa o que aconteça, eu nunca vou te deixar.

Era exatamente isso que ele fizera quando ela havia se jogado naquele buraco de depressão. Por mais negativos e insuportáveis que fossem os seus pensamentos naqueles dias, ele nunca a abandonara. Então, em resposta, ela retribuiu o abraço, o segurando forte, agradecida e feliz como nunca esteve.

– E qual é o seu sonho, Mary Ann Weed? – ele devolveu a pergunta.

– O meu? – ela pensou por um tempo.

Na verdade, nunca pensara seriamente nisso. Ser advogada e defender as pessoas que como ela eram excluídas da sociedade mágica, não podendo ser inteiramente bruxa e também não conseguindo ser como um trouxa, era mais uma ambição e uma vingança. Porém…

– Meu sonho… – ela repetiu baixinho, soltando o abraço dele – Acho que… – mas não pôde concluir o seu raciocínio.

Lá longe, na linha do mar, havia algo diferente.

– O que é aquilo?! – ela apontou.

Doumajyd se virou e logo avistou o que chamara a atenção dela. Estava cada vez mais perto, flutuando perto da superfície do mar, fazendo um grande barulho que ficava mais intenso conforme ele se aproximava.

– É um helicóptero! – exclamou Mary, correndo até a beira da praia e acenando- AQUI! ESTAMOS AQUI!

Vendo que o helicóptero estava vindo diretamente para eles e que logo seriam resgatados, Mary voltou para Doumajyd, que ainda estava parado na areia, olhando com desconfiança.

– Conseguimos, Chris! – ela praticamente gritava de alegria – Vieram nos buscar! Estamos salvos!

– Espera. – ele disse em um murmuro, sem tirar os olhos do objeto voador estranho – Tem alguma coisa errada.

– Passaram bem? – perguntou uma voz magicamente amplificada.

Mary olhou novamente para o mar, onde o helicóptero parou e virou de lado, e ela pôde avistar quem o tripulava. Mesmo usando roupas trouxas normais, o ladrão da tiara era inconfundível.

– O bicho-papão foi derrotado. – ele disse, com um sorriso triunfante – Vim buscá-los.

– O QUE VOCÊ PRETENDE?! – Doumajyd gritou para ele.

– Preparei o último estágio para vocês. – ele contou, de forma simples, apenas obscurecendo ainda mais a situação.

– O Segredo Ancestral… – Mary sussurrou, lembrando que ainda teriam que passar por mais uma armadilha dentro da sua teoria da tiara.

***

Nota da L:
Tekitta! o/ Agora EDDFinal começa a acompanhar os caps lançados nos sites de publicações de fics!… Na verdade, vou começar a postar aqui antes xD Pura estratégia… E, mantendo os comentários finais de todos os caps, aqui vai o de hj:

Foi um tanto trabalhoso adaptar essa parte do filme. Ela é praticamente feita de cenas, várias cenas, daquelas que a gente vê e já subentende o que está acontecendo, como a depressão progressiva da Mary… E ô partezinha enjoativa de escrever essa! Mais do que nunca, eu percebi como o ânimo de um personagem pode influenciar em quem escreve :P… Acho que atores e atrizes têm muito dessas frescuras xD… Mas, sem enrolar, é o seguinte sobre esses três caps: tudo o que acontece é muito rápido, muito jogado. Acho que, se ao invés de filme, Hana Yori Dango Final fosse outro seriado, eles explorariam melhor essa questão da depressão. Mas como já estamos em duas horas de filme, e ainda tem um punhado de coisas para acontecer, não dá para ficar enrolando xD

E eu não podia deixar o cartão de crédito de fora! xD Desde a primeira vez que eu vi a cena do Doumyouji amolando o seu cartão de crédito negro super-exclusivo de gente mega-rica, eu rolava de rir xD Outra cena divertida e aleatória dessa parte do filme é ele e a Makino correndo pela floresta e de repente ela some… Sim, a gúria evapora! xD Ela afunda dentro de um buraco e, como a atriz é pequena, piscou não viu xD Quando o Doumyouji se aproxima e vê ela toda torta caída dentro do buraco, ele começa a gargalhar, e toda a aura de Ilustríssimo Eu dele vai pro ralo, pq ele vira somente Jun e a sua risada-estranha-do-além que ele tem desde moleque(só mudando a intensidade) xD… Mas essa cena é tão bônus para os fãs de Hanadan rirem, que não iria ter contexto nenhum na fic e para quem não conhece o seriado (ou o Jun), então tive que deixar de lado… Tbm não coloquei a cena do Jun de topeless no mar, exibindo os seus incríveis ossos de costela, porque ficaria muito tosco xD Se alguém quiser ver a cena por sua própria conta e risco pode procurar no youtube que as fãs dele fizeram o favor de disponibilizar (não querendo ofender as fãs do Jun! Gomen, Thata, Shuri-kun xD Eu só não posso desperdiçar a minha chance de zoar com o Ore-sama, já que a LAP faz parte da minoria mundial que consegue fazer isso xD… Nós e o Mion, neh? “Esse é o drogado!”)

E eis que agora estamos no último estágio da fic! Será que a teoria da Mary sobre a tiara está certa?! Será que finalmente acabaram-se os problemas?!… xD

Fic – Entre Doces e Dragões Final

Última parte de EDD e EDDII

CAP 12 – Suspeita

– O que foi?! – perguntou Doumajyd irritado.

Mary simplesmente invadira a sala onde ele estava tratando da compra da tiara junto com MacGilleain e Nissenson e o arrastara para fora, por toda a extensão do corredor. Ele segurava firmemente a caixa da tiara no braço desde o minuto em que a recebera. Agora que a tinha de volta, não a largaria até ela estar novamente segura na mansão Doumajyd.

– Eu vi uma coisa estranha. – ela anunciou, reunindo coragem para contar – Agora a pouco, aquele cara que roubou a tiara-

– Ele está aqui?! Onde?!

Imediatamente Doumajyd se virou para ir atrás dele onde quer que ele estivesse, mas foi impedido por Mary, que o segurou seu braço livre:

– Espera, Chris!

– O quê? – ele parou impaciente.

– Não há dúvidas, mas…

– Mas o quê?

Ela olhou em volta, para verificar se não havia mais ninguém os escutando, e então respirou fundo e disse de uma vez:

– O Ryan estava com ele.

Doumajyd processou a informação por algum tempo para depois perguntar:

– …O Ryan o quê?

Mary soltou o braço dele, completamente sem jeito, com uma estranha sensação de que o que estava falando era completamente errado:

– Eles estavam conversando, mas como eu vi de longe não sei sobre o que falavam.

– O que isso significa, Mary?

– Não sei, mas no final eles deram as mãos, como se tivessem concluído um negócio.

– Você não viu errado?

– Não… talvez. – ela se atrapalhou, porque ela mesma buscava de toda forma uma justificativa que explicasse que tudo aquilo fora um mal entendido.

– Não fique falando isso com um ‘talvez’! – brigou o dragão.

– Mas-

– Você está suspeitando do Ryan?!

– Não suspeitar. – ela resmungou, torcendo as mãos.

– Você viu errado! – afirmou o dragão, com certeza absoluta.

– Mas, Chris, eu-

– É CLARO QUE VOCÊ VIU ERRADO! – e então ele voltou pelo corredor, visivelmente furioso.

***

Inconformada, Mary andava pela igreja procurando algo. Sua primeira reação tinha sido ir contar a Doumajyd porque pensava que ele iria ajudá-la a resolver aquele problema. Mas deveria ter imaginado desde o começo que, mesmo que o próprio dragão tivesse visto aquela cena, ele ainda acreditaria no amigo acima de tudo. Ela mesma não conseguia acreditar que Ryan Hainault tivesse alguma coisa a ver com o ladrão… Mas então porque eles estavam conversando lá, afastados dos outros? Por que apertaram as mãos?… A única maneira de sanar essas dúvidas seria verificando a própria origem delas. Por isso ela estava em busca do suspeito.

Logo o encontrou em uma escadaria que levava aos jardins, totalmente relaxado, lendo o seu livro.

– Ryan? – ela o chamou, ainda pensando em como falaria.

Ele levantou os olhos do livro e pareceu surpreso em vê-la ali:

– Aconteceu alguma coisa?

Ela desceu os degraus até alcançá-lo.

– Ryan, – Mary começou escolhendo as palavras e se abaixando ao lado dele – Agora a pouco, onde você estava?

– Aqui. – ele respondeu sem pestanejar, como se fosse bem óbvio.

– Você… Você estava conversando com alguém antes, não é? Quem era ele?

O dragão a encarou, com a expressão de alguém que não entendia sobre o que ela estava falando.

– Você não falou com ninguém? – ela insistiu.

– Não falei com ninguém. Estive aqui lendo o livro desde que o leilão terminou.

– Mas você até apertou a mão dele! – ela deixou escapar, devido à confusão dos seus pensamentos.

Ele pensou por um momento e então sorriu, perguntando:

– Não está me confundindo com alguém, Mary?

– Desculpa. – ela pediu.

Ele estava agindo normalmente, sendo o mesmo Ryan Hainault que ela conhecia, não passando nenhuma evidência que denunciasse que tinha acabado de fazer o que ela o vira fazendo… Mas a sensação de que havia algo estranho e errado não diminuiu nenhum um pouco dentro dela.

***

– Como assim não foram atrás de quem ficou com o dinheiro? – perguntou Doumajyd incrédulo para os amigos.

O D4 e Mary estavam reunidos em um barco de passeio pelo canal de Hong Kong, de onde tinham uma vista perfeita da cidade repleta de luzes na noite. O barco era enorme e geralmente usado para grandes festas, mas naquela noite ele estaria à disposição somente para a comemoração particular daqueles cinco ilustres clientes.

– Achamos melhor assim. – falou MacGilleain, dando mais atenção para a sua bebida e aparentemente esquecido de tudo o que dissera que faria antes do leilão – Tudo terminou bem, então porque fazer as coisas desandarem?

– Quer dizer que ele simplesmente pegou todo aquele dinheiro e foi embora? – o líder do D4 ainda tentava entender.

– De qualquer forma a tiara voltou, não? – disse Nissenson, também nenhum pouco preocupado com a grande quantia de dinheiro perdida – Não se preocupe mais com isso, Chris.

Mary se mexia inquieta onde estava ao lado de Doumajyd. Aquela sensação de algo estar extremamente errado não a permitia se acalmar. Mesmo tendo a tiara ali na sua frente, mesmo sabendo que no dia seguinte estariam na Inglaterra e tudo voltaria ao normal, ela não conseguia ficar calma. Então, em uma decisão de impulso, ela se levantou e foi até a frente de Ryan Hainault.

– Ryan, – ela pediu, decidida a ir até o final – vou perguntar mais uma vez! Você não-

Mas ela não conseguiu terminar. No mesmo instante Doumajyd pulou do seu lugar segurando a caixa da tiara debaixo de um dos braços e com o outro a segurando firmemente nos ombros, dizendo:

– Chega, Mary!

– Mas eu-

– Chega, eu disse! Venha comigo! – e a arrastou junto consigo, sob os olhares confusos dos outros dragões.

Ele a levou pelo barco, saindo do salão onde estavam e indo até a proa, onde estariam afastados o suficiente para que os outros não escutassem.

– Está me machucando, Chris! – ela reclamou, se soltando dele.

– Tome juízo! – ele rosnou – Para começar não estaríamos aqui sem eles! Eles nos deram o dinheiro e por isso a tiara está aqui! – ele ergue a caixa na frente dela, para o caso de ela ainda não ter reparado nesse fato – Nós praticamente não fizemos nada!

– Mas definitivamente há algo estranho! – ela se defendeu – Eles deveriam estar furiosos! É inacreditável eles estarem calmos dessa maneira quando o ladrão fugiu com o dinheiro!

– Isso… – Doumajyd tentou encontrar uma justificativa para rebater a resposta dela – Esse tanto de dinheiro não é muito pra nós!

– Claro que é, Chris! É muito, muito dinheiro! Mesmo se for uma pessoa no nível Doumajyd, ela não ficaria calma em simplesmente perder essa quantia!

– Então o quê, Mary?! Qual o objetivo deles?! Por que as pessoas que eu conheço há uma vida toda estariam nos enganando?!

Mary ficou calada. Não sabia como responder a isso. Essa era exatamente a sua desconfiança, mas não conseguia aceitar que um deles poderia estar tramando algo, e essa confusão a atormentava. Mas ela não poderia simplesmente fingir que nada havia acontecido e ignorar o que vira naquela tarde e o modo como os outros dois estavam agindo agora. Não era somente Ryan Hainault, Nissenson e MacGilleain também estavam agindo de uma maneira completamente contrária ao que seria esperado deles. Como se fossem outras pessoas.

– De qualquer maneira está estranho! – ela disse por fim – Tenho certeza de que algo está errado!

– Você que é a estranha, idiota!

– O quê? – ela perguntou indignada com a forma como ele falara.

– Como consegue pensar tão mal deles?!

– Não é que eu esteja pensando mal deles! Eu só-

– Só o quê, Mary?! – ele rosnou ameaçadoramente, como ela não o via fazer há muito tempo – Onde pretende chegar agindo assim?! – então ele respirou fundo, tentando se controlar, e perguntou – Tem certeza que você viu o ladrão? Tem certeza que eles apertaram as mãos? Eles não estavam discutindo?

Mary o encarou por um tempo e então estreitou os olhos dizendo sem conseguir esconder o tom de mágoa:

– Não acredita em mim. – e saiu, tão furiosa quanto ele.

– Espera, Mary! – ele tentou a segurar pelo braço.

– ME SOLTA! – ela exigiu, arrancando o seu braço da mão dele, aparatando logo em seguida.

CAP 13 – Sonhos

– Foi mal por ter incomodado vocês! – exclamou Doumajyd meio sem jeito, entrando na sala da área reservada do hotel luxuoso onde o D4 e Mary estavam hospedados em Hong Kong, trazendo a caixa com a tiara consigo debaixo do braço – Prometo que vou devolver o dinheiro sem falta!

– Esqueça isso, Chris. – disse Nissenson revirando os olhos, já cansado de dizer aquela frase para o amigo – Se é o preço que temos que pagar para você dois serem felizes, é barato.

Depois que Mary havia fugido dele, Doumajyd encerrara a comemoração e eles voltaram para o hotel. A sua raiva com a discussão aos poucos havia sido substituída por dois problemas muito mais preocupantes: primeiro, não podia simplesmente ignorar o que Mary havia dito; e, segundo, não fazia idéia de para onde ela havia ido.

Sabia que a noiva não deixaria de teimar, mas pelo menos achava que ela havia voltado para o hotel. Onde ela estaria em meio a um país desconhecido?… Porém, mesmo preocupado, sabia Mary se esconderia dele até o momento em que estivesse calma o suficiente para que pudesse responder sem explodir. Então, o que ele poderia fazer naquele momento, era agradecer decentemente aos amigos.

Na sala, Hainault lia como sempre, afundado em uma poltrona. Nissenson e MacGilleain, sentados em uma grande mesa, participavam em um desafio para ver quem conseguia experimentar todos os petiscos estranhos que elas haviam pedido ao serviço de quarto sem fazer careta.

Doumajyd estava prestes a dizer, novamente, que pagaria de alguma forma, quando Ryan o cortou:

– Você brigou com a Mary?

– …Mais ou menos. – ele respondeu em um resmungo, deixando bem claro que não queria falar sobre aquilo.

– Por que brigaram agora? – perguntou MacGilleain, apontando qual petisco Nissenson deveria experimentar.

Doumajyd olhou, involuntariamente para Hainault, que o encarou, esperando pela resposta.

– Não é nada. – respondeu o líder, passando a olhar para o tapete quando percebera o que fizera.

– O que é isso? – reclamou Nissenson – Toda essa confusão para recuperar a tiara e agora vocês vão ficar brigando?

– Se você não for firme, a Mary vai te deixar, Chris. – comentou MacGilleain, encarando com suspeita o que parecia ser um pedaço de peixe cru com uma pasta esverdeada salpicada de pontos roxos.

– A Mary deve estar cansada de viver todo o dia com essa fera. – disse Nissenson, empurrando o petisco mais perto do amigo, o incentivando a comer logo.

– Você tem que entender os sentimentos dela, Chris. – continuou MacGilleain – Ela não-

– CALEM A BOCA! – ele rosnou – Vocês ficam falando como se a culpa fosse minha!

– O que isso agora? – perguntou Nissenson indignado – Vai descontar em nós?

– É que a Mary está suspei… – Doumajyd percebeu o que iria falar e parou a tempo.

Então, tentando disfarçar o que dissera, ele fingiu interesse nos petiscos sobre a mesa, e se aproximou para ver, largando a caixa ao seu lado.

– A Mary o quê? – perguntou Nissenson, não se deixando enganar pelo amigo.

– O que há de errado, Chris? – perguntou MacGilleain.

– Nada. – respondeu o dragão, irritado consigo mesmo por ter falado demais.

– Tem alguma coisa errada, sim! – Nissenson disse para MacGilleain, que concordou com um aceno de cabeça.

– De qualquer forma, a amizade é mais importante, não é? – perguntou Doumajyd, deixando os amigos ainda mais confusos em tentar seguir a sua linha de raciocínio.

– Se é importante mesmo não fique latindo e descontando em nós! – brigou Nissenson, irritado com o comportamento dele.

– O que foi, Simon?! – Doumajyd contornou a mesa até ele – Quem está latindo?!

Imediatamente MacGilleain se pôs de pé, com o reflexo adquirindo com anos de experiência, para apartar a briga deles logo no início.

– Você fica falando coisas sem sentido! – acusou Nissenson, ficando de pé e encarando Doumajyd.

– Onde que as palavras do Ilustríssimo Eu são sem sentido?! – o líder o pegou pela gola do casaco.

– Me solta! – disse Nissenson em tom de ameaça, no fim da sua paciência para agir somente com palavras.

– Ei, ei! Vamos nos acalmar! – MacGilleain conseguiu livrar Nissenson de Doumajyd e afastou os dragões, enquanto eles ainda não tinham danos.

– Essa mania de ‘Ilustríssimo Eu’ não vai sarar nem se ele morrer! – reclamou Nissenson, saindo irritado para o outro lado da sala.

– Não dá para domar o Chris se não for a Mary. – Hainault deu a sua opinião sobre a discussão.

– Então chame a adestradora da fera! – exclamou Nissenson.

– NÃO ME TRATEM COMO UM ANIMAL! – Doumajyd explodiu.

Então, furioso, pegou a caixa com a tiara e saiu, batendo a porta.

***

– O que é isso?! É delicioso! – exclamava Mary, depois de experimentar uma espécie de sopa de frutos do mar, servido em uma tigela de onde se bebia diretamente o seu conteúdo.

– Você realmente combina com lugares assim. – comentou Archie Gilmore, mais uma vez completando o copo dela com a bebida típica que ele havia pedido.

Mary não tinha como negar. Há muito tempo não se sentia tão a vontade em algum lugar, mesmo sendo em um país estrangeiro e com costumes totalmente diferentes dos seus.

Os dois estavam em uma pequena lanchonete de esquina, onde tudo eram cores, vapores, barulho e muita gente andando. O banquinho em que sentava era de plástico e a mesa de tampo antigo e arranhado onde comiam tinham uma perna bamba. O movimento da rua logo ali perto, as luzes da cidade que, mesmo àquela hora, estava agitada, formavam um cenário muito diferente da pequena luxuosa comemoração que havia participado apenas algumas horas antes.

– Realmente, é muito mais fácil conviver em meio a pessoas simples. – ela comentou, depois de mais um grande gole da tigela – Quando vou com o Chris em lugares chiques fico tão preocupada com o modo como devo agir que acabo comendo quase nada…

O bruxo a encarou por um tempo, segurando um grande pedaço de carne de porco com destreza nos hashis, enquanto ela tentava em vão pegar um legume com os seus.

– Mesmo assim, você tem confiança de viver sua vida com ele? – ele perguntou quando ela desistiu e pegou o que queria com os dedos mesmo.

– Agora… eu não sei. – ela disse com firmeza, surpreendendo a si mesma com a falta de hesitação, o que ela imediatamente atribuiu à bebida.

– Se você terminar esse relacionamento com ele, vai se sentir livre. – ele comentou.

Foi a vez de Mary o encarar. O tom que o bruxo usara era o de alguém que sabia muito bem o que estava dizendo.

– Por acaso… – ela começou, sem coragem de continuar.

– Sou separado. – ele informou com um sorriso, como se essa informação fosse algo corriqueiro.

– É mesmo? – ela piscou algumas vezes, já que não conseguia imaginar que o bruxo tivesse sido casado.

– Me casei por impulso. – ele contou – Não foi como vocês que estão há tanto tempo juntos.

– E… e porque vocês se separaram? – ela perguntou curiosa, e acrescentou antes de
conseguir evitar – Traiu ela?

Ele riu, e respondeu:

– Não, não foi isso… Na verdade, nós tínhamos uma ótima relação de casal.

– Então, por quê?

Gilmore pensou um pouco antes de falar, como se tentasse lembrar exatamente como acontecera:

– Um dia, eu perguntei para ela qual era o seu sonho.

– Sonho?

– Ela é uma designer. Não era famosa na época, mas tinha muito talento e adorava o seu trabalho. Ela me disse que o seu sonho era desenvolver uma nova coleção que marcaria para sempre o mundo da moda bruxa. Ela se esforçaria muito. Estudaria bastante, aprenderia novas técnicas, conquistaria o seu espaço… E daí em diante seus sonhos iam de Paris para todo o mundo.

– Isso é incrível, não é?

– Exatamente o que eu pensei!… Mas então, me dei conta que, em momento algum, esse sonho tinha algo relacionado comigo. Então eu também pensei em qual era o meu sonho, e só via coisas sobre o meu trabalho, nada relacionado com ela… Foi então que, em algum lugar de mim, percebi que o importante não era ela, e ela percebeu o mesmo. Se insistíssemos naquela relação, estaríamos presos, e nenhum dos dois conseguiria avançar.

Mary ouviu atentamente, e teve que concordar com ele. Seria melhor terminar daquela maneira do que esperar a situação chegar a um ponto insuportável.

– Por isso, vendo você agora nessa indecisão depois de tanto tempo juntos, me pergunto se esse casamento dará mesmo certo.

Mary limitou-se a cutucar sua comida com os palitos, pensando no que ele dissera.

***

No hotel onde estavam hospedados havia um jardim com fontes, de frente para a baía, de onde se podia ver os grandes prédios iluminados da noite de Hong Kong. Não era um jardim extenso, já que havia sido construído artificialmente e ficava suspenso sobre a água, mas era um lugar extremamente tranqüilo no meio daquela grande e agitada cidade. No topo de uma das fontes em forma de cascata, localizada na melhor posição para se admirar o cenário do outro lado, havia uma parte plana, que Doumajyd havia descoberto que seria como um ótimo banco para alguém que queria ficar isolado de todo mundo.

Era lá onde ele estava, abraçado na caixa da tiara, com o olhar perdido pelas luzes coloridas refletidas na superfície ondulante da baía.

– Chris. – ele ouviu a voz de Hainault o chamar.

Lentamente, ele virou a cabeça e pôde ver o amigo na grama mal iluminada lá embaixo, com a sua aparência despreocupada, o encarando com as mãos enfiadas no bolso do casaco.

– O que foi? – ele continuou – Conseguimos recuperar a tiara, então qual o problema.

Doumajyd não falou de imediato. Não queria iniciar uma conversa que poderia tomar o mesmo rumo que a anterior. Então, depois de pensar um tempo, ele começou:

– Ei, Ryan…

– O quê? – perguntou o outro o incentivando a continuar, ao mesmo tempo aparatando e sentando ao lado dele.

– Eu posso acreditar em você, não é?

– O que é isso do nada? – perguntou Hainault rindo.

– Eu acredito em você. – afirmou Doumajyd, novamente com o olhar se perdendo na paisagem noturna.
Os dois ficaram quietos por um tempo, e então Hainault quebrou o silêncio:

Se

– O quê? – perguntou o dragão, já que tinha seus próprios pensamentos ecoando em sua mente.

Se algo acontecesse… Você disse que deixaria por minha conta, não é?

– Isso. – ele confirmou.

– Sabe, – Hainault se esticou os braços para trás, apoiando o corpo e olhando para cima – eu estou pensando em várias coisas no momento… Sobre o que significa deixar tudo por minha conta.

O tom estranho que ele usara para dizer a última frase fez com que o dragão olhasse para o amigo, que o encarava de uma forma intensa. Vendo que a sua reação o perturbara, Hainault sorriu, desmanchando toda a atmosfera que havia criado.

Doumajyd, visivelmente incomodado com coisas que ele não revelaria, ficou de pé, afirmando:

– De qualquer forma, eu acredito em vocês.

***

– Muito obrigada pela refeição e pela companhia. – Mary agradeceu educadamente, mesmo se sentindo tonta depois de ter bebido tanto.

– Não tem de quê. – Gilmore respondeu da mesma forma.

Ele a trouxera até a frente do hotel onde estava hospedada, para garantir que ela chegaria bem.

– Posso perguntar mais uma coisa? – ela pediu – Por que você estava no leilão?

– Na verdade, – ele riu, meio sem jeito de dizer o motivo – foi um pedido da Summer.

– A Summer? – Mary se surpreendeu, não pelo fato de a amiga ter pedido, mas pelo fato de ele entrar em algo tão perigoso somente porque ela pedira.

– Ela me puxou pelas vestes e ordenou recupere aquela tiara de qualquer jeito!

– É bem coisa dela. – Mary riu.

– Bom, de qualquer jeito, foi bom a tiara ter voltado, não é?

– Foi. – Mary concordou.

– Então, nós vemos, pequena advogada. Boa noite e volte em segurança para o seu noivo.

Ele se virou e seguiu andando pelo lado contrário da rua.

Mary o viu se afastar, pensando em como ele, apesar de tudo o que tinha acontecido, era uma boa pessoa. Então, tomou fôlego e gritou:

– Se fizer a Summer chorar vai ter que se acertar comigo, senhor Gilmore!

Em resposta, ele apenas ergueu a mão, fazendo um sinal positivo.

Mas a satisfação de Mary com a resposta dele só durou um segundo. Assim que se voltou o hotel, todas suas próprias preocupações voltaram a bombardear.

– Um sonho, é? – ela deixou escapar com um suspiro.

***

Mary respirou fundo, tomando coragem para entrar passar pela porta do jato, onde somente Doumajyd estava, aguardando pela partida.

Os outros dragões haviam cada qual voltado de formas diferentes, alegando algum compromisso. Mary desconfiava que isso era somente uma estratégia deles para que os dois ficassem sozinhos durante a viagem e fossem obrigados a conversar e resolver os seus problemas do dia anterior.

Como não havia como escapar, já que não teria dinheiro para voltar por meios trouxas, não havia como fugir. Então entrou de uma vez, não dando tempo para que seus pensamentos a obrigassem a dar meia-volta depois de ter chego até ali.
Ao ver que ela se aproximava, Doumajyd se mexeu na sua poltrona, ajeitando a caixa da tiara que segurava firmemente no colo.

Se Mary se sentia mal por causa do que bebera e a noite pseudo-dormida, seu estado não era pior do que o do dragão. As olheiras dele e o visível mau humor indicavam que o dragão passara a noite em claro. Um péssimo sinal para quem desejava apenas ter uma viagem tranqüila com ele.

– Onde esteve ontem à noite? – ele inquiriu, ao invés de um cumprimento, enquanto ela se sentava em seu lugar, revelando que os temores dela estavam certos.

Ela não respondeu, e fingiu olhar com interesse pela janela.

– Onde você foi?! – ele aumentou o tom de voz.

– Não importa onde eu fui! – ela não agüentou ficar quieta.

– Claro que importa, idiota! Nós estamos noivos e… Está me ouvindo?!

– Será que deveríamos mesmo nos casar? – ela resmungou, ainda sem olhar para ele.

Ao invés do berro certo que ela imaginou que viria dele, Mary não ouviu resposta alguma. Somente depois de um tempo o dragão perguntou, usando um tom baixo:

– Você está mesmo indecisa?
Ela não respondeu, afinal, não era o melhor momento e nem o lugar para discutirem aquilo. Mas o dragão insistiu:

– Nós recuperamos a tiara e agora você-

Ele não conseguiu terminar, mostrando o quanto a situação o deixava nervoso.

Nesse tempo, um elfo-doméstico se aproximou e serviu dois copos de suco, fazendo inúmeras reverências, e saindo apressado logo em seguida. Imediatamente, os dois pegaram seus copos e beberam todo o conteúdo.

– Eu não entendo. – foi a vez dele resmungar.

– Chris, por algum momento, você pensou seriamente se casar comigo é o que você quer para a sua vida?

– Que tipo de pergunta é essa agora?

Mary recostou a cabeça na poltrona, se sentindo cansada.

– O seu sonho… – ela disse, mas não conseguia pensar no que vinha depois disso – O seu… sonho… – por algum motivo, ela não só perdera a capacidade de formular a frase inteira, como também não conseguia manter seus olhos abertos, e então tudo ficou escuro.

Logo em seguida, a cabeça de Doumajyd também tombou ao seu lado. Então, sem que nenhum dos dois se dessem conta, alguém entrou no lugar, retirou cuidadosamente as mãos do dragão de cima da caixa e apegou para si. E, pela segunda vez, a tira fora roubada pela mesma pessoa, que saiu sorrindo, satisfeito com a missão cumprida.

Fic – Entre Doces e Dragões Final

Última parte de EDD e EDDII

CAP 09 – Maçã e Dragões

A perseguição de Doumajyd pelo ladrão pelo cassino foi dificultada pelos apostadores que, sem saber o que estava acontecendo, entravam no seu caminho. Ele percorreu um labirinto de máquinas de apostas, sem perder o bruxo de vista, sempre segurando firmemente a varinha no bolso do casaco, pronto para usá-la caso o outro fizesse o mesmo. Mas parecia que o fugitivo tinha consciência de que se usasse magia ali não conseguiria escapar facilmente como estava conseguindo se fazendo de trouxa.

Saindo do meio das máquinas, o dragão continuou pelo hall de entrada do cassino e saiu para o ar abafado da noite lá fora, bem a tempo de ver o bruxo embarcando em um carro preto, que saiu cantando pneus. Sem pensar duas vezes, ele saiu correndo pela calçada, seguindo o carro.

Mas, mesmo correndo com toda a velocidade que podia, ele não era páreo para quatro rodas. Logo o carro preto se juntou ao agitado tráfego noturno da cidade e ele o perdeu de vista. Cansado e ofegante, Doumajyd desacelerou até parar, e então dobrou o corpo e se apoiou nos joelhos, respirando fundo para recuperar o fôlego. E xingou alto, com raiva de não poder usar magia para continuar a perseguição.

Então, quase no mesmo instante, ele pressentiu algo e se virou para o lado, bem a tempo de pegar algo que por pouco não acertou o seu rosto: uma maçã.

***

A roleta ainda girava devagar, a beira de parar totalmente, com bolinha imóvel no pequeno vão que indicava o número 1. Um ‘Aaaaah’, geral percorria a platéia que já começara a se desfazer, perdendo o interesse.

– Espera! – Mary gritou quando o responsável pela roleta puxava para si todas as fichas apostadas, e as agarrou para impedi-lo – A bolinha caiu no 00! Ela tinha caído ali! Você não viu?!

– Não, senhorita, está no número 1, então a senhorita perdeu.

– Não! – ela tentava explicar desesperadamente – Ela se moveu porque a mesa mexeu! O idiota do Chris pisou em cima da mesa bem na hora a bolinha se moveu! Era para ela ter parado no 00!

Realmente, quando o dragão pisara em cima da mesa para atravessá-la e perseguir o ladrão, ela havia tremido e isso fizera com que a bolinha ainda tivesse mais um movimento antes de parar, passando do 00 para o 1.

– Não está certo! – ela continuava, agarrando o montinho de fichas com mais força – Não posso aceitar isso! É injusto!

– Senhorita, calma! – o gerente surgiu para tentar resolver a confusão – Não pode fazer isso! A senhorita apostou e perdeu!

– Não! – ela insistia espalhando fichas enquanto lutava em recuperá-las – Foi por causa da mesa! Era para ter caído no 00!

Com um gesto do gerente, dois seguranças se aproximaram e pegaram cada um em um dos braços dela, a forçando a largar as fichas e praticamente a levantando da mesa.

– Me solta! Isso não justo! Não podemos perder esse dinheiro! Me solta! Não fiz nada de errado! – em seu desespero de se livrar, Mary se mexia a ponto de os seguranças terem dificuldades de segurá-la, mesmo ela sendo uma metade deles.

Com um impulso para se soltar, ela acabou fazendo com que seus braços escorregasse, e isso causou o desequilíbrio de um dos seguranças, que tropeçou e caiu de cara dentro da fonte. Vendo que ele tinha dificuldades em se levantar, escorregando por causa da roupa encharcada, Mary se aproximou dele, se agachando e pedindo:

– Desculpa, não foi a minha intenção, eu sóAAAIII! – vendo que o segurança conseguiria se ajudar sozinho, ela se levantou para explicar a situação para as pessoas a sua volta, mas acabou acertando a cabeça no queixo do outro segurança que avançara, para aproveitar o momento de distração e pegá-la.

Pego totalmente de surpresa pela cabeçada, o segurança caiu desmaiado, enquanto Mary esfregava o topo dolorido da cabeça, gemendo e completamente desorientada por causa da pancada.

Furioso com aquela vândala em seu estabelecimento, o gerente clamou por mais seguranças, que assim que apareceram a imobilizaram e a arrastaram para fora do cassino. E então, Mary foi jogada na rua pela segunda vez naquela cidade.

– Droga! – ela exclamou olhando para o hotel com raiva.

Tinha os joelhos esfolados, as mãos machucadas e isso sem contar a dor aguda na cabeça que começara a latejar.

– Agora não temos nada! – ela lamentou-se, se sentindo sem um chão embaixo de si – É o fim! Está tudo acab-

– Maaa-ry. – chamou uma voz atrás dela.

Ela sentiu todo o corpo gelar, paralisando. Aquela voz era…

Ela se virou bem a tempo de pegar uma maçã que levitava despreocupadamente até ela, e se deparou com uma cena que não via já há algum tempo: o D4 estava reunido na sua frente, com o aqueles sorrisos típicos que indicavam que ninguém poderia contra eles. Diante disso, Mary não pôde evita de respirar aliviada, como se agora tudo pudesse ser resolvido.

– Mentira… – foi tudo o que ela conseguiu pronunciar, usando um tom agradecido.

***

– Você continua maltrapilha, Mary. – informou MacGilleain enquanto enchia as taças de todos com vinho.

– Nem parece alguém que vai se tornar uma Doumajyd. – completou Nissenson.

– Mas se não fosse assim não seria a Mary, não é mesmo? – Hainault a defendeu.

O D4 fechara um dos bares do cassino mais requintados de Las Vegas para poderem conversar tranquilamente.

– Por…Por que vocês estão aqui? – ela perguntou, ainda sem entender como eles, milagrosamente, aparataram naquela cidade sendo que cada um tinha seus próprios compromissos para cumprir.

– Por que uma das funções do D4 é ajudar quando você está em apuros. – explicou Hainault encolhendo os ombros, como se aquela resposta fosse bem óbvia e ele estivesse surpreso por ela não saber.

– Como foi na roleta? – perguntou Doumajyd, ainda exibindo um imenso sorriso por ter os amigos junto com ele.

Mary abaixou a cabeça e demorou alguns instantes para responder, como alguém que indiretamente confessava que havia falhado em algo muito importante:

– Se eu tivesse ganho, não teriam me jogado na rua daquele jeito…

– Esqueça sobre isso, Mary. – pediu Nissenson em tom de consolo – Por hora, vamos comemorar o nosso reencontro e também…

– Ao casamento de vocês. – completou Hainault, pegando a sua taça, com os outros seguindo o seu exemplo.

Se sentindo melhor, Mary também pegou a sua taça e acompanhou o brinde.

– Bom, mas, falem a verdade! – disse Doumajyd contente – Vocês vieram para cá para ficarem perto do Ilustríssimo Eu, não é?

– Não. – respondeu Nissenson diretamente – Estávamos preocupados com a Mary.

– Como? – o sorriso de Doumajyd diminuiu, não entendendo.

– Quando informei para vocês do leilão, senti que algo estava muito errado. – explicou MacGilleain.

– E vieram só por causa disso? – perguntou Mary surpresa.

Cruzar um oceano e um continente só porque ‘sentiu que havia algo errado’ não era exatamente uma coisa comum de se fazer, por maior que fosse a amizade entre eles.

– Isso mesmo. – confirmou Ryan Hainault – Nós achávamos que você estaria sofrendo com os caprichos do Chris.

– Pessoal… – murmurou ela, de repente com os olhos cheios de lágrimas e então disse alto, de uma vez – Muito obrigada por se preocuparem comigo! Vocês sempre me ajudam!

– Eeei, Mary! – Doumajyd reclamou – Desse jeito até parece que você está sofrendo de forma horrível comigo!

– Mas eu estou sofrendo! – ela disse com as lágrimas começando a escorrer pelo rosto – É claro que estou sofrendo horrivelmente!

– É tão sofroso estar comigo? – perguntou o líder dos Dragões indignado.

– É ‘sofrido’. – corrigiu Nissenson.

– Nem sabe falar direito! – Mary acrescentou ao seu lamento – Como pode ser tão burro assim?

– Vamos, Mary. – disse MacGilleain tentando consolá-la e lhe servindo mais vinho – Não chore.

– Não estou chorando. – ela informou com um sorriso – Estou assim porque estou feliz.

– Você está feliz ou triste?! – perguntou Doumajyd sem entender.

– Ei, Cogumelo. Se continuar jorrando lágrimas sua cara sem graça vai ficar mais sem graça ain-

– Onde ela é sem graça, Simon?! – rosnou Doumajyd, brigando com o amigo – Cuidado para não errar as palavras!

– Não seria ‘cuidado ao escolher as suas palavras’? – perguntou Hainault.

– Você é quem precisa tomar cuidado com as palavras! – Mary o repreendeu, mantendo a expressão em um misto de choro e riso.

– Errei, é? – Doumajyd se fez de desentendido.

– Vamos, não chore. – disse Hainault passando a mão na cabeça de Mary.

– EEEI! – Doumajyd se colocou entre eles, afastando a mão do amigo rapidamente – Não fique tocando nela, idiota!

– O que é que tem? – perguntou Hainault.

– Não pode! – decretou o líder.

– Por quê? – Hainault insistiu.

Doumajyd pensou em algo rápido e disse:

– Porque você vai transmitir para ela a sua doença de distração, idiota!

O restante do D4 explodiu em risadas e MacGilleain comentou:

– Você não muda nunca, não é, Chris!

– E vocês continuam sempre com essas caras de preocupados. – respondeu ele, provocando mais risadas – Ei, digam a verdade. Vocês também ficaram com vontade de se casarem por nos ver juntos, não é?

Cinco segundo de silêncio e três respostas simultâneas:

– Nenhum pouco.

E novo acesso de risos.

– Mas, parando com as brincadeiras, – começou Nissenson – o casamento de vocês está por um fio, não?

– Claro que não. – afirmou Doumajyd com absoluta certeza.

– Se não recuperarmos a tiara da família Doumajyd, pode ser o fim. – disse Mary.

– E o leilão? – perguntou MacGilleain pensativo.

Mary deu um suspiro e respondeu:

– Pretendíamos participar dele assim que conseguíssemos o dinheiro. Mas agora…

– Então o primeiro passo é irmos para o leilão em Hong Kong, não é? – disse MacGilleain.

– Hong Kong? – Mary quase se engasgou, se dando conta de que nunca pedira onde seria realizado o leilão, já que o assunto dinheiro era o mais preocupante.

– Não tem outro jeito, não é? – falou Hainault se espreguiçando.

– Então vamos? – pediu Simon.

– Agora? – surpreendeu Mary – Para Hong Kong?!

CAP 10 – Estratégia do D4

– Mentira… – murmurou Mary andando de vagar pelo chão forrado com tapetes felpudos, completamente surpresa com o que via ao seu redor.

Desde o momento em que se deparou com os dragões em Las Vegas, ficara curiosa em saber como eles tinham conseguido se reunir e virem tão rápido para ajudar Doumajyd e ela. Então agora, todas as suas perguntas foram respondidas automaticamente ao ficar de frente com um jato particular, com um grande ‘D4’ envolto pelo desenho de um dragão estampado perto da cabine do piloto.

Se ela se surpreendera ao descobrir que o D4 tinha um meio trouxa de locomoção rápida, a sua surpresa foi maior ainda ao pisar dentro dele e se ver diante de uma cópia exata de como era a Ala do D4 em Hogwarts, com o detalhe de ser pelo menos cinco vezes maior. O interior do jato fora visivelmente ampliado com magia, e tinha desde uma sala de jogos a uma cozinha. Eles haviam, inclusive, substituído os equipamentos trouxas de imagem e som por esferas D&M, e o painel que informava as condições de vôo fora trocado por um similar que funcionava a base de magia.

– Gostou, Cogumelo? – perguntou Nissenson bem atrás da orelha dela, para assustá-la e tirá-la o seu transe – Bem vindos ao jato de D4!

– Na verdade seria algo que daríamos para vocês depois do casamento. – explicou MacGilleain – Mas como vocês adiantaram a lua de mel…

– Vocês estão dando um avião para nós? – ela perguntou pasma, e então protestou – E não estamos em uma lua de mel!

Mas nenhum deles a ouviu, todos estavam mais interessados em mostrar para Doumajyd o que o jato tinha para oferecer.

Mesmo relutante a princípio, por causa da sua experiência recente com aviões trouxas, o líder do D4 logo foi convencido pelos amigos de que aquele ‘jado’ não era como os outros. Seria um equivalente a carruagem de sua mãe, e que seria muito útil, tanto para que eles pudessem se reunir mesmo com o excesso de trabalho e com cada um estando em lugares distantes, como para que o próprio presidente da D&M pudesse se locomover sem necessitar perder horas com as formalidades de ter que passar por vários lugares até chegar ao seu destino.

– Realmente… – Mary suspirou.

O jeito de Doumajyd ver o mundo já era diferente para ela, mas o modo do D4 ver o mundo chegava ao ponto de ser incompreensível.

Quando finalmente tudo o que tinha que ser mostrado fora mostrado e eles decolaram, o D4 e Mary se reuniram nas poltronas, dispostas como se estivessem em uma sala de estar, para discutirem o que fariam no leilão.

– Não temos outra alternativa se não participarmos do leilão. Então eu dou um jeito no dinheiro. – informou MacGilleain – Quando dermos o lance, ele vai para a pessoa que roubou, não é? O ponto é descobrirmos quem ele é. Depois disso, o pegamos e acertamos as contas. – ele fez um sinal com sua varinha, de quem atacava.

– Não se empolgue, Adam. – disse Nissenson rindo do modo auror de resolver as coisas do amigo – Nosso objetivo principal é recuperar a tiara.

– A questão é como vamos encontrar o culpado nesse leilão quando ele estará repleto de pessoas suspeitas. – falou Hainault.

– Bom, não vai ser tão fácil. – com um gesto de varinha, MacGilleain fez um pergaminho aparecer na mesa ao centro deles e se desenrolar, revelando uma planta – O leilão vai ser realizado nesse local.

Todos se aproximam da mesa para analisar o pergaminho enquanto o dragão auror continuava explicando:

– Serão salas fechadas em torno de um salão, de onde as peças a serem leiloada estarão expostas. Como o submundo mágico está diretamente ligado com o trouxa, possivelmente também teremos representantes dos sem magia. Para que não haja fraudes, eles usam tanto meios trouxas quanto mágicos de proteção. Uma das medidas é usar um computador para dar os lances, em um sistema que automaticamente converte as moedas que serão usadas na negociação.

– Como se fosse um leilão na internet? – Mary perguntou.

Intrertet? – Doumajyd riu, como se ela tivesse dito algo muito estranho.
– Mas assim fica fácil de descobrir quem deu os lances, não? – perguntou Hainault, ignorando o amigo.

– Na verdade não. Apenas os lances são dados de maneira eletrônica. A negociação é feita com dinheiro vivo.

– Quer dizer que até essa quantia enorme que será o lance da tiara serão pagos em dinheiro na hora? – perguntou Mary espantada.

– Exatamente. – MacGilleain confirmou.

– Inacreditável… – foi tudo o que ela conseguiu dizer.

– Mas a pessoa que gerencia isso tudo deve saber quem é o culpado. – disse Doumajyd, tentando seguir o raciocínio dos outros, mesmo o assunto envolvendo tecnologia trouxa.

– Bom, independente disso, – Adam tocou com a ponta da varinha no meio do pergaminho – no momento em que você pisa aqui dentro, se torna um criminoso. Mesmo nós estaremos sujeitos a isso.

– Que medo. – Mary murmurou.

– O que eu não entendo de verdade é porque existem pessoas que não querem que vocês casem! – exclamou Nissenson para os noivos – Não há dúvidas de que quem fez isso é contra.

Mary pensou por um momento, levantando todas as possibilidades possíveis, e sugeriu a que lhe parecia mais cabível:

– Acho que é alguém que não gosta da personalidade do Chris.

– O quê? – ele riu, como se o que ela tivesse dito fosse algo completamente idiota e impossível.

– É mesmo. – concordaram os outros três em coro.

– Eii! – o líder protestou e então se virou para brigar especificamente com quem começara – Isso é o que você diz da pessoa com quem irá viver de agora em diante?!

– Não vejo outro motivo. – ela cruzou os braços, em tom de quem o desafiava.

– Ok, vocês dois, se acalmem. – pediu MacGilleain, da sua forma de quem treinara anos apartando a brigas internas do D4 – De qualquer maneira, o culpado estará lá. Ele precisa estar para receber o seu dinheiro.

– E nós iremos pegá-lo! – sentenciou Doumajyd, ficando de pé, para dar mais efeito do que dissera.

– Vamos acabar com ele! – MacGilleain se juntou ao líder.

– Vamos mostrar para ele o quanto o D4 pode ser perigoso quando levamos as coisas a sério! – ajudou Nissenson, também se levantando.

– Isso! – Hainault também apoiou, mas no momento em que ficou de pé bateu a cabeça no lustre, que ficava baixo devido ao formato do jato.

Se seguiu um momento de silêncio, em que todos olhavam para Hainault, encolhido com a pancada.

– …Tudo bem, Ryan? – perguntou Mary.

– Ai. – ele respondeu, esfregando a cabeça.

E então todos caíram na gargalhada, inclusive o dragão ferido.

***

A princípio Mary achou que MacGilleain havia dado as coordenadas erradas para o motorista, por que ele estacionara em frente a uma igreja antiga. Era uma construção toda branca que parecia ter décadas, repleta de outras construções anexas menores e com um imenso jardim murado. Mesmo sendo algo muito suspeito, por se tratar de um lugar como aquele, haviam seguranças e câmeras espalhados por toda a extensão do lugar. E era visível que haviam tanto segurança trouxas, quanto bruxos. A diferença entre eles estava apenas nos equipamentos de escuta usados, um eletrônico e o outro não passava de uma esfera em versão mini, usada apenas para contato de voz.

– Vamos. – sussurrou Doumajyd, assim como ela, olhando a tudo em volta, e a guiando para as grandes portas da igreja, onde um recepcionista os esperava com um sorriso.

Então Mary e o D4 foram conduzidos por vários corredores, até chegarem a um corredor onde haviam várias portas numeradas. O recepcionista indicou uma das portas para eles com uma reverência educada e MacGilleain já a estava abrindo, quando Mary soltou uma exclamação apontando: Archie Gilmore vinha pelo lado oposto do corredor, e entrou em uma das últimas portas.

Mary não sabia dizer se ele realmente não os notara ou se simplesmente os ignorara ali.

– É seu conhecido? – a voz de Nissenson soou atrás dela perguntando.

– Foi ele quem deixou roubar a tiara. – explicou Doumajyd, sem tirar os olhos da porta por onde o bruxo havia entrado.

– Então não é ele o culpado? – perguntou Nissenson.

– Aquele desgraçado… – Doumajyd rosnou baixinho, deixando bem claro o que ele achava de Gilmore, e então avançou com a intenção de tirar satisfações com ele.

Mas antes que o dragão desse dois passos, Mary o segurou pelo braço, o impedindo.

– Mas… – ela começou e não terminou quando o noivo olhou diretamente para ela.

Mas o quê? – ele insistiu.

– Eu sinto que ele não é o culpado. – ela disse de uma vez só.

– Como assim? – perguntou Doumajyd incrédulo.

– Vamos, vamos. – Hainault interferiu no que já era um inicio de discussão – Sendo ele culpado ou não, nós sabemos exatamente onde ele está. – então ele abriu a porta da sala onde ficariam durante o leilão – O mais importante agora é o leilão, depois veremos isso.

***

O bruxo que havia roubado a tiara e sido perseguido por Doumajyd no cassino em Las Vegas entrou em uma das salas do leilão, fez uma reverência e então relatou:

– Aconteceu algo fora do plano, senhor.

Na extremidade da sala, sentado em uma confortável poltrona, de onde se tinha uma visão privilegiada do salão onde ocorreria o leilão, estava um senhor idoso, com cabelos e barbas prateados. Ele apenas limitou-se a comentar, sem olhar para o outro bruxo:

– Fora do plano?

– Os amigos dele estão o apoiando. – contou o ladrão da tiara.

Com um grande suspiro, o velho se ajeitou confortavelmente na poltrona, dizendo:

– Não se preocupe… Não será uma boa oportunidade de testar o quão forte e importante é essa amizade?

O bruxo concordou com um aceno de cabeça, compreendendo o que deveria fazer, e então tomou posição em frente ao computador disponível na sala, de onde passaria a comandar os lances dados pelo seu senhor.

CAP 11 – O leilão

Mary olhava boquiaberta para um vaso de formato esquisito que, segundo a sua descrição, exalava constantemente um perfume capaz de entorpecer as pessoas, a ponto de elas aceitarem tudo o que lhes for proposto. O preço pago por ele fora tão alto, que Mary olhou duas vezes em direção ao computador para entender que lá haviam mais zeros do que elfos-domésticos na mansão Doumajyd.

– É um leilão cheio de tesouros, não é? – comentou Nissenson ao seu lado, observando o vaso sendo retirado com cuidado, por um homem usando máscara, do pedestal onde estava exposto no meio do salão.

A sala onde estavam possuía uma parede toda de vidro, de onde se tinha uma visão completa do grande salão. De lá também eram visíveis outras dezenas de paredes de vidro como aquelas, que deviam ser das outras salas. Mas nada podia ser visto através deles, o que fazia Mary imaginar que os outros compradores também deveriam estar na mesma situação, olhando admirados para o desenrolar do leilão tentando enxergar inutilmente quem estaria por trás daquele vidro enegrecido magicamente.

– Está na hora da Sorriso de Vênus. – avisou MacGilleain, vendo na tela do computador a lista dos próximos itens a subirem no pedestal.

Mal o dragão terminara de falar, uma mulher com um chamativo vestido prateado entrou, carregando elegantemente uma almofada onde repousava a tiara. Com um andar treinado, como o de uma modelo, ela colocou a almofada no pedestal e saiu de cena, da mesma forma rápida como entrou.

No mesmo instante que a tiara entrou, Mary apoiou os braços no vidro, involuntariamente tentando enxergar melhor, e logo em seguida Doumajyd se juntou a ela.

– Começou. – informou MacGilleain, quando os números começaram a aparecer na tela.

O lance inicial era de três milhões e, assim que o leilão foi iniciado, o número subira rapidamente para dez milhões.

– O que é isso? – perguntou Nissenson perplexo olhando para a tela, quando o valor aumentou para quinze milhões.

Hainault, que lia tranquilamente em uma poltrona, erguera os olhos do livro para ver a tela.

– O que aconteceu? – Doumajyd se aproximou, tentando entender o que acontecia.

– Vinte e cinco milhões? – perguntou MacGilleain incrédulo, continuando dando lances para que ficassem sempre na frente.

– Vinte e cinco?! – ecoou Mary com a voz fraca, e então olhou para a tiara, ao mesmo tempo tão perto e tão longe dela – Está bem na nossa frente…

O cronômetro informava que ainda restavam cinco minutos até os lances serem encerrados.

– Tem alguém dando lances toda a hora. – comentou Nissenson, também espantado com o que estava acontecendo.

– Isso quer dizer que tem alguém disputando conosco? – perguntou Hainault do seu canto.

– Talvez o próprio vendedor esteja aumentando os lances. – deduziu MacGilleain, quando o valor já estava em 55 milhões.

– Talvez ele queira ver a nossa reação. – sugeriu Hainault, o único dragão que mantinha a calma enquanto todos os outros cercavam o computador.

– Ele quer que nós compremos por um preço extremamente alto. – suspirou Nissenson – Desse jeito ele mesmo vai levar.

– Que merda! – praguejou Doumajyd, tirando as mãos de MacGilleain do teclado e passando ele mesmo a apertar o botão para dar os lances repetidamente.

– Chris! – Mary foi até ele – O dinheiro não é seu!

– E tudo bem se deixarmos assim?! – ele rosnou para ela, sem deixar de dar os lances.

– Não estou falando disso! – ela devolveu no mesmo tom.

– Acalmem-se! – pediu MacGilleain.

– Nós já compramos essa briga. – disse Nissenson – Vamos fechar esse leilão!

– A negociação aqui é na base do dinheiro vivo, não? – Doumajyd explicou o seu ponto de vista para a noiva – Não tem como alguém sair com esse tanto de dinheiro daqui sem ser percebido! Quando pegarmos o ladrão, pegamos o dinheiro de volta!

– Mas será que vai dar certo? – Mary resmungou, demonstrando a sua descrença nesse plano.

– Os lances estão sendo cada vez maiores. – Nissenson apontou para a tela – Noventa e cinco milhões.

Vendo que a quantia ultrapassava, e muito, o que tinham, MacGilleain usou a sua esfera para pedir que providenciassem mais dinheiro imediatamente.

– Trinta segundos. – Nissenson respirou fundo, quando o valo ultrapassou os 100 milhões.

– Vamos ganhar com certeza! – Doumajyd apertava o botão sem parar.

Quando o relógio marcou cinco segundos, os lances pararam. Somente quando Doumajyd apertava o botão o valor era aumentado.

– Desistiram? – perguntou Hainault.

O tempo terminara, fechando no valor exato de 155.668.700,34 dólares.

– Isso! – Doumajyd jogou o punho no ar para comemorar.

– Conseguimos! – MacGilleain e Nissenson bateram as mãos.

Mary limitou-se a cair sentada na frente do computador, incapacitada de conseguir fazer qualquer conversão. A única coisa que ela sabia é que nunca teria tanto dinheiro na vida, mesmo se juntasse por três vidas inteiras.

***

Mary esticou os braços bem alto, respirou fundo e tentou se acalmar olhando para o céu nublado. Queria muito gritar, como sempre fazia na Torre do Desabafo nos seus tempos de Hogwarts, mas um terraço de uma questionável igreja em Hong Kong não era exatamente o melhor lugar para isso.

Ela havia deixado que os dragões resolvessem os negócios do leilão e procurara um lugar para poder respirar ar puro.

– Será que assim está bom? – ela se apoiou no muro de proteção -… Está tudo bem nos casarmos?…

– Eeei!

Mary olhou em volta assustada, e então avistou Archie MacGilleain vindo em sua direção.

– Senhor Gilmore? – ela perguntou surpresa.

– Então vocês vieram mesmo até aqui. – ele comentou quando chegou até ela – Conseguiram levar a tiara?

– Sim… parece. – ela respondeu na defensiva, pois não fazia a menor idéia do porque ele estava ali.

– Cento e Cinqüenta e cinco milhões… – ele comentou, se apoiando no muro e olhando para a paisagem – Somente um Doumajyd para ter tanto dinheiro assim… O que foi? Está com uma expressão chateada. Brigou com o herdeiro?

– Não, não brigamos. – ela respondeu rápido – Mas…

– Está em dúvida. – ele completou com um sorriso.

Mesmo sentindo vontade de dizer que não, Mary simplesmente não conseguiu dizer nada, então simplesmente passou a dar mais atenção para a superfície áspera do muro.

Com a falta de resposta dela, Gilmore não insistiu, mas tirou uma esfera do bolso do seu casaco e estendeu para ela. Entendendo o gesto, Mary pegou a sua própria esfera e colocou diante da dele, criando assim, automaticamente, uma ligação, o que permitiria que eles entrassem em contato.

– Se realmente estiver com dúvidas, fique a vontade para falar comigo. Vou ficara aqui em Hong Kong até amanhã… Até mais, pequena advogada. – e então ele foi embora.

Mary segurou firmemente a esfera na mão e mais uma vez não pôde evitar o pensamento de como Archie Gilmore era semelhante à Doumajyd, mas ao mesmo tempo diferente, de uma forma que Doumajyd nunca iria ser.

– Adulto. – ela encontrou a palavra.

Então ela pôde chegar à conclusão de que a sua inquietude não estava mais relacionada com a tiara e o seu roubo. Afinal, esse problema já tinha sido praticamente resolvido. Aquele sentimento pesado vinha de algo muito mais profundo e remoto do que o roubo da tiara.

Com a cabeça doendo, Mary decidiu que não iria pensar mais naquilo por hora. Depois dali ela e o D4 iriam para algum passeio para comemorar pela cidade, e ela não queria expor suas preocupações, já que nem ela mesma sabia as definir direito, e acabar com a comemoração dos amigos, que se preocuparam tanto em ajudá-los.

Voltando a respirar fundo, ela andou para a lateral do terraço, de onde poderia olhar para o grande jardim. Mas assim que se encostou no muro uma coisa lhe chamou a atenção.

Lá embaixo estava Ryan Hainault, em uma sacada no primeiro andar, não totalmente visível, mas inconfundivelmente o dragão. Mary estava prestes a chamar a atenção dele, para que ele subisse até o terraço com ela, de onde teria uma visão muito melhor, quando perdeu todo o fôlego: ao lado dele estava o bruxo que havia roubado a tiara.

Sem entender, Mary instintivamente se baixou atrás do muro, de forma que poderia ver, mas dificilmente seria vista. Mesmo daquela distância, mesmo não ouvindo uma só palavra, ela tinha certeza que eles estavam conversando. Não era uma briga, não era uma conversa exaltada e muito menos ela reconhecia alguma expressão de fúria no amigo. Ele simplesmente conversava com a sua calma de sempre. Então, o dragão estendeu a mão para o bruxo, e esse retribuiu com um aperto no mesmo instante e saiu logo depois.

Sem perder tempo, Mary correu para as escadas e desceu todos os lances praticamente aos pulos. Mas quando chegou a entrada da igreja, só teve tempo de ver o ladrão entrando em um carro preto.

– Mentira! – ela balbuciou, diante do carro que acelerou e passou rapidamente por ela.

Mary ainda conseguiu ver, através do vidro fechado, a figura de um velho de barbas e cabelos prateados, que a encarou enquanto ela permanecia paralisada no mesmo lugar.