FIC – Descendentes da Estrela

Cap 11 – Chuva de luz

Haviam dois bruxos sentados na porta do observatório, na função de vigias. Pela aparência e pelas atitudes despreocupadas em relação as suas funções, podia se perceber que se tratavam de mercenários do vilarejo nenhum um pouco interessados no que estava acontecendo e tudo o que queriam era conseguir algum lucro. Não foi nada difícil para Harry fazer com que eles ficassem inconscientes de forma silenciosa, e ele e o professor puderam entrar sem problemas. Dentro da construção antiga, o professor Sharewood os guiou pelos corredores escuros com a destreza de quem sabia exatamente para onde estava indo. Porém, parou abruptamente em um lugar, onde havia a continuação do corredor e uma entrada lateral que iniciava uma subida de degraus.

– Aqui. – orientou o professor, com uma certeza que não deixou espaço para Harry contestar.

Logo o final das escadas e uma saída pode ser vista devido a uma iluminação azulada e inconstante, como se fosse uma fogueira acesa em intensidades que variavam repetidamente. O professor parou e impediu o auror de continuar erguendo o braço na sua frente. E no mesmo instante a luz aumentou e Harry ouviu a voz de Julie gritando:

– O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM ELA, ANNE?!

Rapidamente eles avançaram até o fim das escadas e se viram em um acesso a abóboda do teto, onde havia um estreito corredor circundando todo o inicio da estrutura de cúpula do observatório, por onde era possível a passagem de somente uma pessoa. E foi quando eles se depararam com a cena que acontecia no andar logo abaixo deles.

As irmãs Rostagnis estavam presas e uma plataforma e a luz azul as envolvia, rodopiando em volta delas como se fossem grãos de areias apanhados em um vento forte. A pequena Sarah imóvel, aparentemente suportava aquilo, mas o treinamento de Harry lhe apontava que na verdade ela estava sendo mantida imóvel por algum encantamento e não era preciso estar perto para perceber que a menina estava apavorada com o que acontecia. Pela primeira vez ele via Anne, que também se mantinha imóvel da mesma forma, mas sem um feitiço que a prendesse, e mantinha uma expressão de quem não sabia o que estava acontecendo. Julie se debatia em suas correntes gritando e seu pulsos sangravam com os machucados que estava ganhando com o esforço de se soltar. Abaixo da plataforma estava alguém muito parecido com o professor Lee, rodeado por outros bruxos vestidos de negro. Antes que o cérebro de Harry começasse a processar aquele grupo de bruxos às suas informações de auror, ele viu Matthew sendo segurado por dois dos bruxos, tentando mordê-los para que o soltassem. Então, em um gesto impaciente, um dos bruxos o atingiu com um feitiço, e o menino desabou no chão como se fosse um boneco sem vida. De súbito, Harry foi atingido por um impulso que aprendera a controlar, mas que naquela momento falava mais alto do que todo o seu treinamento auror: não podia ficar ali parado esperando uma melhor oportunidade para entrar em ação, devia agir e salvá-los.

– São as estrelas. – contou o professor deduzindo o que estava acontecendo – Acho que sei o que eles vão fazer. Precisamos… Potter?

O auror não estava mais ao seu lado, estava andando sorrateiramente pelo corredor circular, e antes que pudesse impedi-lo, ele atacou.

***

Os pulsos de Julie doíam e ela tinha plena consciência de que aquela sensação escorregadia era causada pelo seu sangue, mas no momento ela não percebia ou se importava com qualquer outra coisa que não fosse Sarah na sua frente. Mesmo que a menina não pudesse abrir a boca, ela estava gritando e seus olhos mostravam todo o pavor que estava sentindo. A luz azul já a cobria quase por inteira. Era como uma chuva leve que caia e cada gota de luz se fixava nela, e agora começara a fazer o mesmo com Anne.

– Julie!

Ela olhou para a irmã, que a encarava com o mesmo olhar de Sarah, e falou com um tom de voz tremida:

– Está tirando! Está sugando a energia de mim!

Uma movimentação começou abaixo da plataforma e pelo canto do olho Julie registrava feixes de luzes passando. Mas algo muito maior que aquilo estava em seus pensamentos naquele instante. Anne não dissera magia. Não estava funcionando, aquilo estava errado e ela podia sentir nela mesma.

– SE SOLTE, ANNE!

– Não po-posso… eu… – a voz dela falhou e não saiu, e Sarah caiu desmaiada na frente delas.

Desesperada, a visão de Julie começou a embaçar. Pensando com todas as suas forças que perder as mãos para se livrar daquelas correntes não seria nada se pudesse chegar até nas irmãs, ela se concentrou em se lançar para frente, sem ouvir seus músculos que pareciam gritar de dor. Então, o que a mantinha naquele lugar se soltou e ela avançou para frente tropeçando. Ainda tinha as algemas em volta dos pulsos machucados, mas as correntes haviam sumido. Sem parar para pensar como aquilo acontecera, ela correu até Sarah e assim que tocou na menina recebeu uma descarga elétrica e foi jogada para trás, caindo de costas no chão da plataforma. Anne também caiu desmaiada, com a cabeça a poucos centímetros de onde estava a irmã.

– Anne! – Julie se levantou e se arrastou de joelhos até as duas.

De repente, tudo ficou escuro e silencioso, e tudo o que brilhava na sua frente eram as irmãs completamente cobertas pela luz.

***

Harry atacou primeiro os homens de preto que estavam com Matthew. Mesmo os dois caindo inconscientes no chão, o movimento fora o bastante para chamar a atenção dos outros, que o perceberam no teto. Usando sua habilidade auror de deslocamento, ele se desfez em uma ilusão de nuvem e fumaça e saltou para o chão, se desviando de feitiços e circulando até encontrar o momento exato em que pôde atacar vários deles ao mesmo tempo. E quando o último que sobrara avançou por trás dele na certeza de que não era percebido, ele usou de alguns truques trouxas uteis para esses momentos: deu uma cotovelada na costela dele e em seguida um soco no queixo, que jogou o bruxo para longe e totalmente fora do seu caminho.

– Um auror. – disse Larsen Sharwood, como se seus pensamentos saíssem em voz alta devido a surpresa. Logo ele desfez essa sua reação e reassumiu toda a sua pose elegante de um herdeiro distinto dentro da sociedade mágica – E não se trata de qualquer auror. A que devo a honra da visita, senhor Potter?

Harry apontou a varinha para ele e exigiu:

– Pare imediatamente!

– Parar? Mas não estamos fazendo nada de errado. – ele sorriu de uma maneira saisfeita.

– Está infringindo cerca de três artigos sobre o mal uso da magia, e posso citar vários outros atos ilegais começando pelo sequestro de Anne Rostagni!

– Mas não a sequestrei, ela veio aqui por sua própria vontade.

Harry lançou um olhar para a plataforma, onde Julie parecia estar dispostas a arrancar seus braços fora na tentativa de se livrar das correntes. Em um ato incalculado, Harry fez com que as correntes desaparecessem, e esse segundo de distração era tudo o que o outro bruxo estava esperando. Harry sentiu um impacto em seu estômago, seus pés sairam do chão e ele bateu pesadamente contra a parede de pedra. Sua varinha saiu da sua mão e voou para o bruxo, que se aproximou calmamente, praticamente cantando vitória, enquanto perguntava:

– E veio sozinho, senhor Potter? Aquele que derrotou o grande Lorde das Trevas ainda acha que pode fazer qualquer coisa sem precisar de ninguém?

Harry ergueu a cabeça e olhou para ele, mas ao mesmo tempo viu o professor se movendo lá em cima e erguendo sua varinha para o teto. Então tudo ficou escuro.

– O quê? – ele ouviu o bruxo se espantar e isso foi o suficiente.

– Estou de férias! – disse Harry se erguendo em um impulso ágil do chão pegando sua varinha, dando um soco no rosto do bruxo e lhe lançando o feitiço mais forte que ele conhecia de paralisamento.

Ofegando, naquela escuridão, seus olhos perceberam que ainda havia uma luz fraca vinda de cima da plataforma.

***

Sem pensar direito no que estava fazendo, apenas fazendo algo que lhe parecia o correto a fazer, Julie aproximou as mãos devagar das cabeças das irmãs, e dessa vez não aconteceu o mesmo que antes. Pequenas descargas elétricas, formando estranhos e tortos caminhos de luz, vinham para suas mãos, sem causar nenhum tipo de dor, apenas uma sensação de formigamento. Percebendo o que era que deveria fazer, ela respirou fundo e colocou as mãos sem medo na cabeça das irmãs. E então, houve uma explosão.

FIC – Descendentes da Estrela

Cap 10 – Observatório da Colina

Os braços e pés de Julie estavam machucados com os esforços para tentar se livrar das correntes. Nunca em sua vida desejou tanto e tão intensamente ter um mínimo de poder mágico para poder combater, de uma maneira justa, com aqueles que a prenderam. Percebeu que, mesmo inconsciente, por toda a sua vida desde a morte de seus pais e se avô, sempre pensara que poderia contar com Anne para situações que envolvessem magia. E só agora, com a colaboração da irmã para os seus seqüestradores, ela se sentia totalmente sem recursos. Não era uma bruxa e nunca seria, isso era fato. O máximo que sabia fazer era ensinar e esperar representar alguma coisa na formação mais básica de futuros grandes magos, nada mais além. Ser descendente de um poder antigo não significava nada quando ela não tinha o mínimo vestígio de poder para algo tão simples como se livrar daquelas correntes.

Por isso, só lhe restava uma alternativa: esperar por um milagre.

Durante todo o tempo em que ficaram lá, que na sua percepção pareceu ser um dia inteiro, mas que Julie sabia que não poderia ter sido mais de duas horas, Anne permaneceu calada. Ela sentara no chão e aguardava pacientemente com os olhos fechados, como se estivesse se concentrando. Hora ou outra sua boca se mexia, como se estivesse recitando uma lista de feitiços, coisa que ela costumava fazer nas férias quando estava em casa.

A vendo daquele jeito, Julie sabia que não podia culpá-la. Aquela era a maneira da sua irmã ser. Ela, dentre todas as pessoas que conhecera, entre elas o próprio Lee, era alguém destinada a ser grande, uma daquelas pessoas sábias que só apareciam de poucos em poucos tempos. O problema é que nem sempre todo esse potencial era usado de uma forma adequada, e isso agora fazia Julie pensar se o caminho que sua irmã estava tomando não a levaria para o lado das trevas.

– Está quase na hora! – Larsen Sharwood voltou a entrar no salão, sendo seguido pelas pessoas encapuzadas, que por sua vez arrastavam Sarah acorrentada – A coloquem no centro e a paralisem. Ela deve ficar imóvel.

Julie prontamente ficou de pé assim que eles subiram no patamar e tentou avançar em direção a irmã menor, que lhe lançou um olhar suplicante. Ela não abria a boca, como se essa estivesse colada, e também não resistia e seguia a todas as ordens, como se estivesse sob um encantamento. Seus cabelos loiros estavam bagunçados, os olhos inchados como alguém que chorara muito e havia uma mancha roxa na sua bochecha, como se alguém a tivesse espancado.

– Sarah! – Julie chamou, sabendo que seria inútil, mas tentando ler na expressão da menina o que ela tinha a dizer. Porém seu chamado só fez com que os olhos se enchessem de lágrimas e essas rolassem silenciosamente pelo seu rosto.

Quando Sarah foi devidamente colocada no lugar que Larsen ordenara, este olhou para cima, para o teto abobadado, e então retirou um relógio das vestes, conferindo. Não se tratava de um relógio comum, e Julie podia afirmar isso somente olhando para a aparência dele, apesar dela não conseguir enxergar os ponteiros eles não deviam funcionar como um relógio comum.

Tudo ficou em silêncio por um tempo. Somente Julie era a que mais se movimentava, olhando dele para a irmã, e essa também olhava fixamente para o relógio, como alguém que sabia o que iria acontecer e estivesse ansiosa por ver. Então, o bruxo ergue sua varinha, sem tirar os olhos do que quer que fosse que os ponteiros estivessem indicando, e com um gesto rápido, fez com que o pano que cobria aquela arte do teto se soltasse e caísse pesadamente no chão atrás do patamar. Imediatamente, os outros bruxos apagaram os archotes, e tudo ficou escuro.

***

Perplexo, Harry seguiu o professor por todo o caminho sem fazer perguntas, já que ele parecia saber exatamente o que fazia.

Eles entraram em uma lareira de pó de Flu em Hogwarts e surgiram em um bar pequeno e sujo de uma cidade litorânea. Ao sair na pequena cidade de ruas de pedras, Harry não sabia dizer exatamente onde estavam, e a escuridão da noite não lhe permitia ver alguma coisa que indicasse em que parte do país era aquela. Porém, uma coisa era certa: era um vilarejo bruxo, muito pequeno e pobre, mas era um lugar totalmente mágico. Entretanto, não parecia haver ninguém por lá. Não era como se todos estivessem recolhidos em suas casas devido ao horário e também não era como se estivesse abandonado. Parecia mais que todos haviam ido para algum lugar de repente, como em tempos de guerra, quando as pessoas fogem e se escondem ao soar de um alarme.

Mesmo achando tudo muito estranho, Harry continuou apenas seguindo, porque todo aquele cenário simplesmente evidenciava que havia algo errado ali e que provavelmente o professor já tinha confirmado suas suspeitas e não perdia tempo em chegar onde queria ir.

Assim que dobraram uma esquina, no que parecia ser o fim do vilarejo, uma estrada de terra, com sinais de erosão e com suas margens encobertas por um ato alto, surgiu na frente deles. Ela seguia serpenteando em um declive acima, se dirigindo para uma construção de pedras escuras que ficava perigosamente à beira de um penhasco.

– É um antigo observatório. – contou o professor ofegante, parando por um momento – Tenho certeza de que eles estão lá. Mas precisaremos de um plano para passar. – ele indicou o vilarejo com um gesto de cabeça – Provavelmente há mais pessoas o ajudando, já que não há ninguém aqui. As pessoas desse vilarejo são na maioria bruxos e bruxos exilados ou condenados por um passado sombrio. Não é um lugar de boa fama, e eles fazem de tudo por alguns sicles.

– Qual é o seu plano? – Harry perguntou.

– Não tenho um plano. – ele informou – Você é o auror, a pessoa que deveria entender de estratégias.

Harry o encarou surpreso. Não que ele estivesse errado, já que realmente o auror ali era ele, mas…

– Eu pensei que você sabia o que estava acontecendo já que de Hogwarts viemos direto para cá… Como sabia disso?

O professor pensou um pouco, como se estivesse tentando encontrar uma melhor forma de dizer algo para o que nem ele mesmo conseguia achar um sentido.

– Foi como se, de repente, tudo fizesse sentido. – ele apontou para o observatório – Aqui era um dos melhores lugares para se observar as estrelas há pelo menos dois séculos atrás, mas foi abandonado há muito tempo. Por ser um lugar imapeável e ainda conter encantamentos que afastam os trouxas, foi adotado com um vilarejo bruxo, apesar de não prosperar. Mas tudo isso me acorreu de repente, com uma certeza absoluta de que eles estavam aqui. Como se… como se…

– Como se alguém o estivesse chamando? – Harry perguntou.

– Exatamente… Apesar de agora parecer estúpido.

– Não, não é. Mas não é algo que ocorre facilmente. Precisa haver uma ligação muito forte para que isso ocorra. Mas discutirmos isso agora não vai ajudar! Precisamos entrar naquele observatório e descobrir o que está acontecendo.

– Pelo menos nessa parte posso eu tenho uma idéia. De todos os lugares no mudo onde ele poderia ir, escolheu justo esse. Isso nos dá uma grande pista sobre qual é a intenção do Larsen.

– O quê?

– Quebrar o selamento sob os descendentes da estrela.

***

Aos poucos os olhos de Julie se acostumaram com a falta de luz, e logo ela pode perceber que o fato de não conseguir enxergar era apenas uma ilusão. Antes, com os archotes acessos e com o pano encobrindo o teto, não se podia perceber. Mas agora, sem esses dois, uma luz não tão brilhante, mas constante, jorrava pela abertura circular. O estranho era que não havia uma lua cheia lá fora e, se ela não estivesse enganada, era uma noite de lua nova. Porém, aquela luz não era algo produzido no chão: ela vinha diretamente do céu.

– Estrelas. – Julie ouviu o murmuro de Anne e viu o brilho de seus olhos olhando diretamente para o céu.

Então, algo estranho começou a acontecer. Junto com a tênue luz que banhava Sarah, algo mais luminoso começou a descer até ela, como se fossem minúsculos flocos de neve, entretanto eram visivelmente feitos de luz pura. Os flocos cintilantes levitavam calmamente, até ficarem na altura da menina, então, como se atraídos por uma força gravitacional, eles se prendiam a ela.

– Está funcionado! – Anne comemorou baixinho.

– O que vai acontecer com ela? – Julie perguntou preocupada, muito longe de encontrar alguma coisa para comemorar naquela situação.

Mas a garota não respondeu e não tirou os olhos do que acontecia a sua frente. No mesmo instante os flocos começaram a aparecer aos montes e praticamente caíram como uma avalanche do teto, cobrindo Sarah por inteiro, abafando totalmente o grito assustado que ela começara a saltar.

– O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM ELA, ANNE?!

Dessa vez, o sorriso da irmã desaparecera, e Julie teve um forte pressentimento de que algo estava muito errado.

FIC – Entre Doces e Dragões Especial

CAP 05 – Estranho conhecido

Seguindo os passos, Mary e Doumajyd foram guiados pelas ruas escuras de Hogsmeade. Primeiro passaram no Restaurante Casa dos Gritos, onde os passos ficaram um tempo cintilando em uma mesa, sugerindo que Dorothy havia parado ali por um tempo e provavelmente feito uma refeição.

– Aqui não foi… – Nissenson começou a formular uma pergunta, mas levou uma cotovela de Vicky, que dizia para que ele guardasse seus comentários.

Logo os passos voltaram a se mover e seguiram rapidamente para o zoológico, onde se tornaram inconstantes e mais confusos de se seguir, já que alternava a sua direção várias vezes e de forma repentina. Até que depois de várias voltas, elas seguiram para a saída e voltaram a percorrer as ruas da cidade, até entrarem na Praça do Relógio.

– Vicky, por acaso aqui… – foi a vez de McGilleain tentar perguntar, e antes que ele pudesse terminar de o fazer, Vicky agarrou ele e o marido pelos braços, os fazendo parar no meio da rua na antes do início da calçada que circulava toda a praça. E então os arrastou para longe, sendo seguidos por um Hainault que parecia olhar distraidamente em volta, como se estivesse em um simples passeio noturno.

– Acho que entendi. – declarou ela, quando estavam afastados o suficiente do casal Doumajyd, que não haviam notado a fuga dos amigos devido a concentração em seguir as pegadas para dentro da Praça.

– Entendeu o quê? – perguntou Nissenson.

– Parece que existe uma lógica por trás do suposto seqüestro da Dorothy. – contou Hainault, como alguém que já sabia da informação e apenas aguardava um melhor momento para contar.

Os outros dois olharam de um para outro, aguardando uma explicação mais detalhada.

– Pensem. – começou Vicky – Perceberam que os caminhos que percorremos são os lugares que fazem parte do passado da Mary e do Chris?

– Sim. – respondeu Nissenson.

– Era o que eu queria ter perguntado antes. – completou McGilleain.

– Contamos todas essas histórias para a Dorothy, não contamos? – ela perguntou para eles, que afirmaram com um aceno de cabeça – Não acham natural ela querer visitar esses lugares que fazem parte da história dos seus pais?

– Espera. – Nissenson pareceu ter entendido o raciocínio de Vicky e do amigo – Quer dizer que isso não é um seqüestro?

– Pelo caminho que fizemos, parece mais um passeio. – disse Hainault.

– Então devemos contar isso para o Chris e a Mary! – exclamou McGilleain.

– Não! – Vicky o cortou antes que ele pudesse esboçar qualquer movimento para fazer aquilo – Acho que eles compreenderem por eles mesmos faz parte do plano de quem elaborou tudo isso.

– Mas quem elaborou tudo isso? – Nissenson perguntou perplexo.

– Penso que não cabe a nós descobrirmos. – Hainault concluiu.

***

Apesar de dizer que não queria a sopa, Dorothy a devorou como se estivesse há dias sem uma refeição decente, diante dos olhares surpresos de Ian e do estranho.

Enquanto a garota se distraía com sua colher e prato, Ian disfarçadamente analisava, atendo a qualquer movimento que o estranho fazia. Apesar de achar que não havia um grande perigo, nada até o momento o deixara totalmente tranquillo. Afinal, haviam sido seqüestrados e a cordialidade que receberam nos últimos momentos não eram o suficiente para quebrar a desconfiança.

– Você! – Dorothy apontou a colher para o estranho de repente, o encarando com seu olhar determinado, como se anunciasse uma sentença – É familiar.

Ele sorriu e continuou com sua sopa.

– Conhece ele? – Ian perguntou baixinho, confuso.

– Ele parece com alguém. – ela disse, sem tirar os olhos dele, apesar de continuar comendo – Mas conheço tantas pessoas que não consigo me lembrar com quem… Provavelmente alguém do trabalho do meu pai.

– Está chegando pero. – comentou o estranho.

Ian se surpreendeu com aquilo. Ele ia realmente ajudá-la a lembrar e assim fazer com que eles descobrissem quem ele era de verdade?

Entretanto, ele não parecia ser algum conhecido do pai de Dorothy, já que ele não parecia tão velho para ter algum negócio com a gigante D&M, e com certeza não era um herdeiro famoso, ou a garota se lembraria mais facilmente, já que ela convivia com essas pessoas. Apesar de não ser tão velho, também não parecia ter muito mais idade com eles. Era mais como alguém que tinha recebido a licença para usar magia há pouco tempo… Então uma idéia lhe ocorreu, e ele sussurrou para ela:

– Ele não é parecido com alguém que você conhece?

Aquilo pareceu fazer sentido na cabeça dela e por um momento ela se perdeu em pensamentos, como se levantasse suposições e revisasse seu arquivo mental de rostos em busca de traços conhecidos. Se ela descobrisse com que ele parecia, poderiam começar a entender porque estavam ali.

O estranho apenas observava o esforço que ela fazia, como se estivesse ciente de que agora era apenas uma contagem regressiva, e não tivesse muito a perder caso ela realmente descobrisse.

– AAAH! – fez a garota, quase virando a mesa no processo de levantar e exclamar.

– Lembrou? – perguntou Ian, sem tirar os olhos do estranho

***

Mary viu os passos luminosos pararem embaixo da estátua do bruxo montado a cavalo na Praça do Relógio e ali se deter, cintilando no mesmo lugar.

– Ela… ela ficou parada aqui. – informou para Doumajyd.

– Por que ela viria aqui? – ele perguntou – Por que ela andaria pela cidade inteira quando sabe que não pode fazer isso sozinha?

– Dorothy estava passeando, mamãe? – Julyan perguntou – Eu posso passear também?

– Não pode. – o dragão respondeu imediatamente – Não sozinho. Tem muitas pessoas ruins que só estão esperando uma chance de fazer algo ruim com vocês.

Mary escutou o marido repetir o que ele sempre falava para os filhos diante de perguntas como aquela e então, algumas coisas do que estava acontecendo começaram a fazer sentido.

– Talvez, – começou devagar, ainda relutante com essa possibilidade – ela só quisesse sair.

Doumajyd a encarou por um tempo, tentando pegar o fio de pensamento dela.

– Porque ela iria querer sair? – ele perguntou confuso, e o filho o seguiu na mesma expressão.

– Chris, nossa filha é importante para nós. E eu sei, que da mesma forma que você, ela carrega o fardo de ser a herdeira Doumajyd. Mas… Lembra quando andávamos por Hogsmeade sem problemas? Lembra que essa era a melhor parte de Hogwarts? – ela pensou um pouco e acrescentou – Bom, pelo menos para mim era, já que era o único momento em que eu ficava longe da arrogância de certos dragões.

– Como assim era bom ficar longe do Ilustríssimo Eu? – ele perguntou incrédulo.

– Quase sempre era.

– Os melhores momentos que você teve em Hogwarts foram comigo, não se lembra?

– Sim. – ela desdenhou – Como o dia e que ficamos presos na casa dos gritos e você ficou doente. O maior nome dentro da Sociedade Bruxa desmaiando de febre no meio de escombros de uma construção.

– Foi um bom dia, sim! Foi nosso primeiro encontro!

– Não, aquilo não foi um encontro. – Mary o corrigiu.

– Claro que foi! E você me fez ficar esperando plantado aqui por quatro horas e estava nevando! Se não fosse por isso, essa história da febre não teria acontecido e seria um encontro melhor.

Ela lhe lançou um olhar de dúvida.

– Ok, então o encontro no Zoológico? Aquilo foi um encontro, não foi?

Mary lembrou da sua real intenção por trás daquele encontro duplo e tentou disfarçar, pulando para o como aquele dia terminara:

– Mas no final você socou o namorado da Vicky.

– Mas ele mereceu.

– É, ele mereceu. – não podia negar.

– E eu comprei aquele bicho estranho legal para você!

– Não lembro de bicho estranho nenhum.

– Aquele que rosna estranho quando a gente abre a boca dele e que a mamãe esconde dentro da gaveta? – perguntou Julyan.

– Julyan! – Mary.

– Esse mesmo! – Doumajyd riu.

– Enfim, estamos falando da Dorothy e não sobre nós!

– Os pezinhos! – informou o menino apontando para as marcas que começaram a se mover de novo e seguiram até um canteiro.

E, como se fosse levado por uma lufada de vento, os passos sumiram no ar.

– E agora? – Julyan perguntou, esperando que seus super pais resolvessem aquele problema facilmente.

Porém, Doumajyd e Mary se entreolharam sem saber o que fazer. Então, uma voz conhecida veio de algum lugar atrás deles:

– Que tal admitirem que vocês se preocupam demais, mesmo sem motivos?

FIC – Entre Doces e Dragões Especial

CAP 04 – Feitiço Rastreador de Primeira Ordem
– Quem é você?! – rosnou Dorothy, erguendo os punhos e ficando em posição de ataque, pronta para enfrentar qualquer coisa mesmo estando desarmada.
Mas a única resposta que recebeu foi uma gargalhada de quem estava se divertindo com a situação.
 – Não pense que vai conseguir o que quer facilmente! – Ian tentou ajudar de alguma maneira – Nesse momento o senhor Doumajyd deve estar querendo arrancar a sua cabeça!
– E é justamente isso que eu quero, caro amigo. – a pessoa entrou e fechou a porta calmamente, um gesto nem um pouco parecido com o de um seqüestrador, mais com alguém que entra na própria casa – Mas até que isso aconteça, eu peço que vocês aguardem aqui sem muita agitação. Seria melhor se ainda estivessem amarrados, mas já que se soltaram, não vou prendê-los novamente… Estão com fome?
Ian ficou sem saber o que responder, principalmente porque o seqüestrador falara do modo mais educado que alguém já havia lhe falado. Já Dorothy continuou na mesma pose de ataque e estreitou os olhos, respondeu a pergunta com seu jeito doce de falar:
– Não pense que vai nos enganar, idiota! E não pense que vou deixar vocês me usarem para conseguir alguma coisa do meu pai!
– Que seja.
Ele puxou uma varinha do bolso de suas vestes e Dorothy recuou, ainda em pose de ataque, o que fez Ian se sobressaltar. Porém, o estranho apenas fez um gesto simples em direção a uma mesa velha, e instantaneamente ela foi coberta por uma toalha limpa. E, com mais gestos, também fez parecer pratos, talheres e uma travessa com sopa recém feita.
Não tenho ordens para deixá-los morrer de fome, mas também não tenho ordens para alimentá-los. Então, quem vai sair perdendo são vocês.
E então ele sentou-se à mesa, servindo um prato para ele, mais uma vez agindo tranquilamente como alguém que estava na própria casa.
Ao perceber a atitude tranqüila dele, Ian se deu conta de que estava tão preocupado com o ‘como fugir dali’ que não pensara em mais nada. Uma vez que entramos em uma situação como de seqüestro, nosso principal pensamento sempre é o de defesa e de fuga, e só depois de algum tempo é que tomamos consciência de analisar pequenos detalhes. E foram esses pequenos detalhes que fizeram o garoto chegar a uma conclusão:
– Isso não é um seqüestro, não é mesmo?
Dorothy o encarou surpresa e o suposto seqüestrador se limitou a sorrir.
– De certa forma você está correto, mas agora ainda não é a hora de explicar o que está acontecendo e essa explicação muito menos vira de mim. Então, enquanto somos obrigados a esperar, porque não aproveitam e comem?
Com isso, Dorothy lhe lançou um olhar inquiridor, que dizia com todas as palavras que a decisão caberia a ele, já que ele parecia estar à frente dela no entendimento de tudo aquilo.
– Confie em mim. – foi tudo o que ele sussurrou para ela, antes de seguir para a mesa – Isso cheira bem!
– Garanto que é melhor sopa de tomate que vai experimentar! – se gabou o estranho.
***
A senhora Ganderson permaneceu estática diante da porta da sua casa. Ao abri-la, já tinha preparada em mente mais de mil ofensas contra aqueles que estavam espancando a sua porta tão tarde da noite. Mas assim que se deu conta de que aqueles rostos a sua frente eram os mesmos que ela vira muitas vezes no Profeta Diário, a sua mente ficou em branco e tudo o que conseguiu fazer foi um gesto involuntário de recuar.
– Estamos procurando por Ian Ganderson. – informou o Chefe Auror MacGilleain.
A pergunta ficou sem respostas por alguns segundos e então a mulher pareceu se dar conta do que poderia ser, e respondeu em tom de defesa:
– Juro que não temos nada a ver com o que ele aprontou! Aquele inútil não volta para casa faz dias!
– O que a senhora é dele? – perguntou Nissenson, aproveitando para dar uma olhada geral na casa, e confirmando que ali era um lar bruxo, apesar de visivelmente pobre.
– Mãe. – ela respondeu, ainda na defensiva – Se ele aprontou algum coisa, senhor Chefe Auror, pode ficar a vontade para-
Mas ela não pode terminar, Doumajyd avançou para frente deles, com Julian ao seu lado, e perguntou impaciente:
– Só nos diga onde ele está, senhora.
Foi então que a mulher se deu conta de que não só estava diante de pessoas importantes, como essas pessoas eram o D4. E só conseguindo ligar esse fato a uma única coisa, ela desabou em lágrimas:
– Eu juro que não temos nada a ver com o que aquele aborto aprontou! Fizemos de tudo para torná-lo uma pessoa melhor, mas não teve jeito! Garanto que meus outros filhos são bruxos honrados! Não nos julguem pelo que Ian fez!
Os quatro dragões e Julian permaneceram parados, apenas assistindo ao desabafo da mãe.
– Quem é? – um bruxo barbudo apareceu à porta, e logo os visitantes o concluíram que ele seria o marido da senhora.
 Assim que deu conta da presença dele ali, a mulher engoliu o choro e ficou calada, como quem não ousava respirar, mas mesmo assim era visível que tremia.
– Senhor, queremos saber onde Ian está.
O bruxo estreitou os olhos, o que não contribuiu em nada para a sua aparência de poucos amigos, e pensou por um tempo. Então, empurrou a mulher para dentro e respondeu de uma forma seca:
– Nenhum Ian mora aqui. Boa noite, senhores.
E estava prestes a fechar a porta quando foi impedido por Doumajyd, que o impediu. Por um tempo, os dois ficaram se encarando, como se medissem forças.
– Senhor, só queremos saber onde ele está. – MacGilleain tentou contornar a situação de uma forma pacífica – Garanto que vocês não sairão prejudicados.
– Aquele menino que segura uma varinha como se fosse um graveto não merece morar em um lar de bruxos. – respondeu o senhor – Podemos ser humildes, mas ainda sim temos uma tradição. Ian já está grande o suficiente para se virar sozinho. Ele não faz mais parte dessa família.
Aquela declaração deixou Doumajyd surpreso:
– Quer dizer que resolveu ignorar seu filho pelo simples fato de ele não poder usar magia? QUE TIPO DE IDIOTA VOCÊ É?!
– NÃO CHRIS! – Nissenson segurou o amigo a tempo, antes que ele pudesse agredir o bruxo, mas não atentou para Julian, que avançou no lugar do pai.
– QUE TIPO DE IDIOTA VOCÊ É?! – gritou o menino, chutando a canela do bruxo.
Diante dessa reação estourada do menino, claramente imitando o pai, os outros dragões se espantaram. Mas antes que qualquer um pudesse fazer alguma coisa, o menino acrescentou usando um tom que lembrava muito o que Mary sempre usava ara dar sermão:
– NÃO PODE DIZER ESSAS COISAS DOS FILHOS!
O bruxo encarou o menino de cinco anos que lhe dava uma lição de moral e então para os outros bruxos, que aguardavam. E, sem dizer mais nada, fechou a porta.
– EEEEI! – foi a vez de Doumajyd socar a madeira.
– Não adianta, Chris. – disse Hainault – Se os pais não o aceitam já é um início para descobrirmos os motivos que esse garoto tenha para ajudar a Dorothy.
***
– Ian nunca faria uma coisas dessas. – disse o mestre Agravaine com uma risada, seguindo com Mary e Vicky para so fundos da sua loja – Sim ele esteve comigo em Hogwarts, e sim ele voltou comigo de Hogwarts. Em momento algum ele pareceu estar prestes a seqüestrar uma aluna da escola… E para que ele faria isso?
– Só o fato de ter tentado já o tornaria famoso. – Vicky respondeu com firmeza – Não é suficiente para alguém como ele?
– Meu aprendiz não é esse tipo de pessoa, senhora Nissenson. Apesar de ter problemas com a família e da sua condição de nascido bruxo sem magia, ele é o menino mais educado que já conheci e o único que aceitei como meu aprendiz. – garantiu o mestre, verificando no seu molho de chaves a procura da que necessitava, sem esconder que aquilo tudo era incomodo.
– Desculpe, senhor. – pediu Mary – Mas eu preciso verificar esse depósito. Se houver algum sinal de que minha filha esteve aqui, teremos uma pista a seguir. Se não, seu aprendiz não estará mais sob suspeita.
– Na verdade ele pode até estar aqui. – informou o mestre – Como eu disse, ele tem problemas com os pais e muitas vezes não volta para casa e dorme na carroça. Finjo que não vejo isso. Sei que se ele soubesse do meu conhecimento, provavelmente procuraria por outro lugar e prefiro ter ele aqui do que na rua. Acreditem, ele pode não ter nascido com magia, mas tem todo o orgulho que um bruxo da melhor linhagem pode ter.
– Então ele se acertaria com a Dorothy. – comentou Vicky prontamente.
– Vicky! – repreendeu a amiga.
– O quê? – perguntou o bruxo, abrindo a porta.
– Nada. – respondeu Mary, entrando no depósito.
Lá dentro estava escuro, mas a luminosidade que vinha fora era o suficiente para iluminar a carroça vazia no fundo do depósito. Mesmo assim, o mestre acendeu sua varinha e focou a luz em volta, apenas confirmando que o lugar estava vazio.
– Bom, não está aqui. – disse o bruxo – Receio que terão que bater a porta dos Ganderson.
Mas Mary não ouviu o que ele dissera, porque no mesmo instante retirou do bolso do seu casaco uma esfera, onde uma fumaça em espiral brilhava e formava a silhueta de alguém.
– Mary! – chamou a figura já formada de Doumajyd – Ele não está na casa dos pais.
– Estou no depósito da loja do Mestre Agravaine e preciso de você para executar o feitiço rastreador.
Com um aceno de confirmação do dragão, a figura voltou a ser fumaça e Mary guardou a esfera.
– Tem certeza disso, Mary? – perguntou a amiga surpresa – Você pode ficar com problemas se executar um feitiço de primeira ordem sem autorização.
– Nunca usei a influência que tenho como senhora Doumajyd para nada, Vicky. Mas, se for para encontrar a minha filha, vou correr o risco. Não se esqueça que várias vezes já fui seqüestrada por alguém que tem problemas com o Chris e não quero que o mesmo aconteça com ela!
Vários estalos foram ouvidos do lado de fora e logo os dragões entraram no depósito.
– Mãe! – Julian correu para o colo de Mary, exigindo – Dorothy!
– Vamos encontrá-la, querido, não se preocupe. Chris! – ele indicou a carroça e pegou a sua varinha. Doumajyd fez o mesmo e se juntou a ela, já ciente do que teria que fazer.
– Não me diga que-
– Eles vão executar o feitiço de rastreamento. – Vicky cortou o marido, falando também para os outros dragões.
– Mas precisa de autorização do Ministério para usar esse feitiço! – falou MacGilleain.
– Mary tem capacidade para executar esse feitiço. – lembrou Hainault – E já o usou pelo menos duas vezes de forma bem sucedida em casos que defendeu, sempre com a autorização do Ministério… E não se esqueçam que Dorothy é a herdeira Doumajyd. Qualquer coisa é valida para resgatar àquela que vai ditar os rumos da sociedade mágica.
– Espero que seja assim. – comentou Nissenson, observando Mary e Doumajyd executarem o feitiço na carroça.
O resultado não foi de imediato, mas logo pequenos pontos luminosos, como se fosse grãos de areia, cintilaram em um tom azulado. E logo eles formaram desenhos luminosos, no formato exato da impressão de um calçado no chão.
– O que exatamente é esse feitiço? – o mestre Agravaine perguntou para Vicky, olhando espantado para as luzes que apareciam no chão do seu depósito.
– É um feitiço proibido para pessoas que não estejam na primeira ordem ou que não desempenham alguma alta função dentro do Ministério. Mary foi precavida em encantar a filha com a primeira parte do feitiço, dando autorização para que ela fosse rastreada, e foi esperta em nomear somente ela e o Chris como os que podiam executar o feitiço completo. Como é algo que confronta um dos direitos mais básicos de uma pessoa, o de ir e vir livremente, ele só pode ser usado com autorização oficial do Ministério. Ele-
– Ela esteve aqui! – exclamou Mary, quando os passos luminosos cintilaram fora da carroça, deram algumas passadas em volta e então saíram rapidamente pela porta.
Sem perder tempo, eles a seguiram, deixando apenas mestre Agravaine para trás.
– Obrigado pela sua ajuda. – Vicky lembrou de agradecer, quando estava saindo pela porta.
-Se houver algum problema com o meu aprendiz me avisem! – o bruxo ainda pediu, antes de ficar sozinho pensando em que enrascada Ian poderia estar metido.

FIC – Descendentes da Estrela

Cap 09 – Descendentes da Estrela
           
Moody encarou com seus dois olhos a lareira a sua frente. Lá estava o rosto de Harry, flutuando entre as chamas e com uma expressão séria demais para alguém que estava de férias.
– Algo de errado?
– Moody, precisamos que verifique algo no Ministério para imediatamente!
– É sobre a menina Rostagni? Conseguiu algo?
– Você está certo. Há algo realmente errado nessa história toda e precisamos agir depressa!
– Farei o que estiver no meu alcance aqui. – ele girou seu olho mágico em todas as direções e disse – Não há ninguém, pode falar.
***
Julie foi arrastada por dois homens encapuzados até um grande salão circular de pedras frias. Agora podia perceber que estava em um castelo antigo, exatamente como Hogwarts. Porém, a construção não emitia aquela aura mágica, que pesava tanto em sua percepção, como algo tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe. Haviam grandes aberturas transversais nas paredes ao invés de janelas, e o aspecto escuro e úmido das paredes sugeriam que deveriam estar próximos ao litoral, e que aquele não era um lugar habitado, mas sim de alguma forma usado temporariamente.
No salão não havia móveis ou qualquer coisa feita de madeira. Espalhados metricamente pelas paredes estavam pendurados suportes de metal com fogos mágicos, que variavam entre azul e roxo. No centro dele, uma plataforma quadrada se elevava em três degraus, com quatro colunas de pedras encaixadas nas bordas da última elevação. Ainda havia mais um degrau circular, relativamente pequeno, com espaço somente para uma pessoa, no centro entre as colunas. Essa plataforma parecia estar em plena sintonia com um círculo no teto, tapado por um pano negro pesado, sustentado lá provavelmente por magia. Além da entrada pela qual vieram, existia também mais duas outras, com seus caminhos ocultados pela escuridão.
Julie não reagia, simplesmente obedecia quem quer que fosse. Sabia que Anne estava lá e agora Sarah também, então não poderia fazer nada até saber como elas estavam e poder pensar em alguma coisa. Não sabia com quem estava lidando e tinha plena consciência de que não poderia contar com a ajuda de Harry… ou qualquer outra pessoa que pudesse ajudá-la.
Na rápida conversação que teve com Anne através da porta, não pôde perguntar coisas que agora lhe pareciam o mais óbvio de ter perguntado naquele momento. Como ela estava, quem a tinha seqüestrado, o que tinha feito desde então, foram questões que surgiram em seu pensamento assim que a irmã falou ‘Preciso voltar antes que sintam minha falta!’, e sumira, tão sorrateiramente quanto tinha aparecido.
Desde então Julie ficara trancada naquele lugar, remoendo idéias de quem estava por trás daquilo tudo e o que queriam com elas. Por isso, quando os encapuzados chegaram, ela seguiu as ordens silenciosamente e agora fora levada até ali.
Os dois pararam diante do centro do salão, diante da plataforma, e a soltaram. Porém, ela não estava exatamente livre, já que os dois apontavam as varinhas diretamente para ela. Mesmo com uma vontade enorme de perguntar para eles o que estava fazendo naquele lugar, o que aconteceria de agora em diante ou o que pretendiam fazer, Julie continuou calada.
Logo, passos foram ouvidos ao longo de uma das entradas escuras e mais figuras encapuzadas apareceram. Julie perdeu a respiração quando viu quem estava com eles.
– Realmente, – disse a pessoa com um sorriso – não esperava ter que reencontrá-la, senhorita Aborto.
            ***
Harry repassou todos os pergaminhos comas informações que Moody lhe entregara enquanto fazia o percurso até a biblioteca de Hogwarts. Lá, dentro da ala reservada, ele entregou tudo o que trouxera nas mãos do professor Sharwood.
– Isso é tudo o que temos.
– É o suficiente. – disse o professor analisando os pergaminhos – Tudo o que preciso saber é o que meu irmão andou fazendo nos últimos tempos. A personalidade dele eu conheço muito bem.
– Acha que pode mesmo ser ele por trás disso tudo?
Ao invés de uma resposta, o professor pegou um livro grande e pesado e praticamente o jogou na frente de Harry, já que não havia uma forma fácil de manuseá-lo.
– As informações mais antigas sobre o Antigo Conselho Supremo.
Harry encarou o livro, enquanto a poeira que havia se desprendido dele com o impacto ainda flutuava pelo ar. Sem perder tempo, o professor o abriu onde estava marcado com um pedaço de folha e apontou para uma pequena nota, aparentemente sem importância se olhasse pelo contexto do resto do conteúdo da página. Harry leu rapidamente:
“O Conselho Supremo definiu o vinculo por encantamento das famílias ligadas com o incidente da Pedra da Estrela e determinou que a responsabilidade pelo selamento seja um legado para as próximas gerações dos seus conjurantes.”
Não vendo nada de novo naquela informação, Harry encarou o professor, esperando que ele dissesse qualquer coisa. Mas como ele permaneceu na irritante pose de quem aguardava que o outro fizesse uma ligação própria, o auror falou:
– Foi o que Julie me contou.
– Isso mesmo. Percebe a importância dessa pequena nota, senhor Potter?
Então, tudo se esclareceu na mente de Harry:
– Isso quer dizer que… Realmente não é uma lenda. Temos um registro!
– Exatamente, senhor Potter.
Harry se controlou para não se mostrar incomodado com a maneira e o tom como o professor falava, justamente como fazia seu antigo mestre em poções.
– Isso significa – ele continuou – que de fato não é uma lenda e que se alguém se dispusesse a pesquisar, como nós fizemos, poderia muito bem encontrar essa pequena nota aqui.
– Então, – a jeito auror de pensar de Harry, com anos de treino, começou a formular automaticamente os próximos passos que deveriam dar – o que temos que fazer é pedir os relatórios de controle da área reservada e verificar quais pessoas estiveram aqui nos últimos tempos.
– Uma pessoa em especial. – acrescentou o professor em tom sinistro – Se Larsen Sharwood esteve aqui, não precisamos suspeitar de mais ninguém.
***
– Você! – da mesma forma que várias coisas se esclareceram na mente de Julie, várias outras ficaram muito mais confusas.
Por que o irmão de Lee estava diante dela?
– Surpresa? – ele perguntou, com um meio sorriso de quem estava satisfeito por conseguido fazer com que ela ficasse desorientada – Quer ficar mais surpresa ainda?
Com um estalar de dedos dele, dois vultos surgiram no ar e caíram pesadamente no chão na sua frente. Imediatamente, Julie reconheceu quem eram:
– SARAH! – ela fez um movimento automático para ir até a menina, que foi prontamente impedido pelos bruxos que a escoltava – Sarah! Você está bem? Eles te machucaram?
A menina se levantou, encolhida e olhando em volta amedrontada, e então segurou firmemente a mão do garoto menor ao seu lado, Matthew. Para responder a pergunta da irmã, ela simplesmente meneou a cabeça, dizendo que sim, mas não ousando fazer mais do que isso. O menino por sua vez mantinha uma expressão determinada, de quem estava sendo forte e valente para proteger outra pessoa, e por nenhum momento deixava de prestar atenção no que acontecia a sua volta.
– Quer se surpreender ainda mais? – perguntou o irmão de Lee, e com outro estalo de dedos, uma das pessoas encapuzadas revelou o seu rosto.
Agora, Julie não sabia como reagir ao ver sua outra irmã em meio às pessoas que a haviam seqüestrado, como se fosse uma deles. Talvez, se não tivesse falado com ela quando estava presa e fosse realmente outra surpresa vê-la ali, ficaria nervosa e gritaria. Mas agora, tudo o que soava em sua mente era ‘Anne é esperta. Deve estar planejando algo. Confie nela.’
Porém, a sua falta de reação não pareceu levantar suspeita.
– Então ficou sem fala ao descobrir que a sua queria irmã está conosco? – o irmão de Lee, que agia como se fosse a pessoa tinha o comando de tudo, deu alguns passos à frente, se aproximando das crianças – Realmente, tenho que admitir que a princípio não era a minha intenção, e quando descobrimos que ela não era o que procuramos não hesitaria em eliminá-la. Porém, como desperdiçar um talento reconhecido que pode nos ajudar com um pouco de incentivo? – para enfatizar o que dizia, ele pegou Sarah pelas vestes e a ergueu do chão, apontando sua varinha para ela.
Como se fossem uma só, tanto Julie quanto Anne deram um passo a frente. Mas somente Julie foi impedida de avançar pelos outros bruxos, Anne foi impedida por si mesma.
– Viu? – perguntou o bruxo, rindo da tentativa inútil de Matthew em resgatar a amiga das suas mãos – Sua irmã, que está em um nível muito superior ao seu, Senhorita Aborto, sabe que não pode ir contra. Então, espero que siga o exemplo dela e nos obedeça. – ele colocou a menina novamente no chão, e no mesmo instante Matthew se pôs na frente dela, o enfrentando com um olhar que dizia de forma clara que não o deixaria encostar nela de novo – Tudo seria bem mais simples se você simplesmente continuasse quietinha no vilarejo. Nós iríamos buscar a menina enquanto você dormia e só notaria a falta dela quando já fosse tarde demais. Muito simples… Mas você estragou tudo saindo e a deixando sobre os cuidados de uma bruxa graduada. Não tínhamos intenção de explodir casas, mas você nos obrigou.
– Senhora Weasley. – Julie sussurrou, apavorada só em imaginar o que eles poderiam ter feito com ela, porque provavelmente ela tentara os impedir.
– Como eu disse, tudo seria mais fácil se simplesmente tivesse ficado QUIETA DESDE O COMEÇO! – e, como se aquela fosse uma ordem, os bruxos ao lado dela movimentaram suas varinhas e a fizeram sair do chão e voar até uma das colunas, onde foi presa por correntes mágicas, que mantinham seus movimentos falsamente livres.
– O QUE QUER DE NÓS?! – ela perguntou, tentando inutilmente se livrar das correntes que, apesar de permitir que ela avançasse um pouco, sempre a puxavam de volta para a coluna.
– Já expliquei isso uma vez. – disse ele entediado – Anne, pode repetir para ela? Temos tempo. – e com um movimento da sua própria varinha, ele fez com que a garota levantasse e voasse até a outra coluna, sendo presa da mesma forma que Julie.
E, no tempo em que dera para que as coisas fossem esclarecidas entre elas, o bruxo se ocupou de Sarah.
– Ele não vai machucá-la. Não se preocupe. – Anne tentou tranqüilizar a irmã.
– Anne, você tem um plano, não tem? – Julie perguntou em um sussurro, ainda sem desgrudar os olhos da movimentação abaixo delas, onde os bruxos encapuzados tentavam imobilizar um Matthew que esperneava e socava tudo o que via na frente.
– Não.
Julie pela primeira vez olhou direto para a irmã, que devolveu um olhar determinado.
– Como assim? – ela perguntou confusa, percebendo que a garota não fazia o mínimo movimento para se livrar das correntes.
– Não tenho um plano. – Anne repetiu – Fiquei preocupada quando soube que a Sarah estava com outras pessoas e não com você. Mas nós não estamos em perigo. Ele não pode fazer nada. – vendo que a irmã não conseguia encontrar um sentido no que ela falava, tentou explicar melhor – Ele precisa de nós três. A princípio achou que só eu bastava, mas não foi o suficiente. Sarah é pequena, mas não usa magia com tanta freqüência quanto uma quintanista de Hogwarts. A concentração de poder nela deve ser muito maior e pode dar certo. Se falhar novamente, só há mais uma alternativa: usar nós três juntas. Se reunir todas, pode ser que-
– Do que está falando, Anne? – Julie a interrompeu, compreendendo que não era como se a irmã cedesse por não haver opção – Quer dizer que você está realmente do lado deles?
A garota hesitou por um tempo, procurando por uma resposta.
– Não estou exatamente do lado deles, mas… Não percebe, Julie? Isso é incrível! Aquela história que nosso avô contava para dormirmos é de verdade! Somos Descendentes das Estrelas! Fazemos parte da história e-
– ANNE! – Julie praticamente pulou para frente, na sua tentativa de apenas com uma palavra devolver o bom senso para a irmã, mas a corrente retornou o impacto e a puxou de volta.
– A História Bruxa pode ser recontada a partir de hoje, Julie. – a garota continuou, séria, diante de uma Julie já ofegante pelas tentativas de se soltar – Você não quer se vingar por todos esses anos sendo a Senhorita Aborto? Pois agora é a sua chance de mostrar que alguém que sempre foi menosprezada pode alterar todo o futuro da magia. Sinta-se honrada e colabore.
Sem saber o que fazer, enquanto sua irmã menor era presa por um bruxo que ela sabia não ter boas intenções e a outra concordava com aquilo, Julie fechou os olhos com força e pensou na única pessoa que ela queria que estivesse ali agora.
***
– O nome dele não está em lugar algum. – disse Harry, passando o dedo pelo pergaminho que a muito custo lhes foi entregue pela velha bibliotecária – Será que ele pode ter mandado outra pessoa?
– Talvez… – os olhos do professor pararam diante de um nome – Mas uma coisa eu tenho certeza, senhor Potter: não pisei nessa ala no último ano.
E ele apontou um nome na lista, que datava de três meses atrás ‘Lee Sharwood’
– Ele se passou por um professor!
– Realmente somos parecidos, porém não a ponto de sermos confundidos. Entretanto, meu irmão é um excelente bruxo e viu muita coisa no Ministério. Ele pode muito bem ser capaz de enganar a segurança mágica de Hogwarts de uma forma mínima, como um encatamento de confusão, que lhe desse a oportunidade de entrar sem ser reconhecido e não acionar nenhum alarme.
Harry sabia, como auror, que isso era possível, já que a segurança em Hogwarts não era mais uma prioridade do Ministério depois da segunda queda de Voldemort.
– Segundo esses relatórios, há exatamente três meses meu irmão está de férias do seu trabalho. Provavelmente aqui foi o lugar em que ele começou a colocar seu plano em prática. Tudo o que temos que fazer é…
Harry esperou que o professor continuasse, mas ele não fez isso. Toda a concentração que ele havia demonstrado até aquele minuto sumira de repente, e seus olhos ficaram desfocados.
– Professor? – o auror tentou chamá-lo, e não ouve resposta.
Então Harry pegou a sua varinha, já que havia a possibilidade de alguém ter lançado algum encatamento-armadilha, que seria acionado quando algum investigador chegasse aquele ponto. Porém, quando ele começou a recitar um feitiço de revelação, o professor voltou ao normal, e o encarou assustado:

– Eu sei onde eles estão.

ENTREVISTA – O Livreiro

“Para quem está acostumado a lidar com o mainstream da produção de histórias – livros, roteiros, filmes, peças – as fanfics têm um cheiro estranho. Partem de universos já criados, geralmente por livros estrangeiros que vendem como pão quente, são escritos por gente jovem e raramente são publicados em algum lugar além da internet. Mas basta apenas mergulhar (deixando os preconceitos na borda) para descobrir um mundo de gente que lê muito, escreve muito e pensa  desde cedo em histórias, o que funciona ou não, qual a melhor maneira de contar. Pedimos então a uma legítima fanfiqueira, Brunella França, moderadora da comunidade sobre o tema em O Livreiro, para entrevistar uma emérita fanfiqueira, Lhaisa Andria, que acaba de lançar um estudo sobre o assunto. Pronto para a viagem?”