FIC – Dois Passados Tembras

 



Cap 13 – A pessoa escura 

– Tudo está saindo como o planejado, mestre. – disse a Parvana Fauche se curvando em frente a uma grande cadeira de madeira, onde alguém parecia cochilar tranquilamente – Mas tenha que confessar que aqueles pirralhos me surpreenderam! Não esperava que eles superassem tão rápido uma maldição Tembrae no nível um!

Quem estava na cadeira se mexeu quase que imperceptivelmente e riu:

– Afinal… uma geração sempre supera a anterior, não?… Faucher, pode reuni-los! Nossa atração principal já está quase pronta.

– Sim, mestre! – assentiu ela se curvando novamente, parecendo contente com a ordem, e saindo.
***

Todas as portas que Charlotte e Meggy encontravam, levava a mais e mais corredores com mais e mais portas. Continuavam no mesmo lugar subterrâneo, que parecia não ter fim e estavam há um tempo correndo por intermináveis corredores de parede de pedras, iluminados apenas por archotes.

– Já passamos aqui! – disse Meggy ofegando, olhando para o chão – Já desviei desse buraco umas duas vezes!

– Não vai adiantar ficarmos dando voltas… Meggy, tente sentir onde está a fonte da ilusão.

Charlotte sabia que era uma armadilha, uma barreira de ilusão mágica. Mas não conseguia encontrar o ponto de onde a ilusão começava, que seria o único lugar possível de escapar dela.
A garota se concentrou, mesmo não sabendo direito o que teria que fazer. Podia sentir que havia magia ali, em toda a sua volta, mas nada mais do que isso.
– Não está dando certo, mãe.
Nesse mesmo instante, uma das portas atrás delas foi aberta e elas ouviram uma voz conhecida:
 – Charlotte! Meggy!
– Fred! Onde você… Gareth!
O menino correu para a mãe e abraçou.
– Você está bem, Gareth? Seu rosto está esfolado!
– Pai! – Meggy, meio indecisa, finalmente viu que era seu pai mesmo e correu até ele quase chorando – Me desculpa! Eu disse para eles que estava tudo bem e saímos do trem!
– Tudo bem, Meggy, não se preocupe com isso. Tivemos alguns problemas. – disse Fred para Charlotte – Gareth estava sendo controlado e me atacou.
– A Meggy Também. Então isso quer dizer que existem pelo menos duas pessoas.
– Não encontrei nada pelo caminho, somente salas vazias e corredores que levavam a lugar nenhum.
– É um labirinto de ilusão. Temos que encontrar a fonte dele ou podemos ficar presos aqui para sempre.
Outra porta abriu na frente deles e, no mesmo instante, outra foi aberta mais distante. Pela primeira apareceu Lune e na segunda Emily junto com o seu filho menor.
– É magia antiga! – disse Lune antes que qualquer um pudesse falar alguma coisa. – Encontrei aquela professora com quem deixamos a Selene no Ministério! Ela me contou o plano deles! Estão usando Tembrae nas… São as crianças? Elas estão bem?!
– Elas estavam sendo controladas. – explicou Fred.
– Sim, alguém estava controlando o Malthus. – disse Emily – Era alguém que nos conhecia, mas não consegui saber quem…
– É uma maldição com os mesmo princípios da Imperius, porém é mais cruel. Ela aprisiona as pessoas em seus medos, enquanto o controlador usa o corpo. A única maneira de se fugir é superando o medo.
Mais uma porta abriu e dela saiu mais alguém.
– Gregory! – Emily correu até o filho, mas parou no meio do caminho quando Draco apareceu logo atrás dele.
Sem dizer nada, ele passou direto pela esposa e foi até a Charlotte.
– Acho que não podemos fugir da nossa sina do passado, não? É duro admitir que a minha irmã estava certa desde o começo, mas agora temos que encontrar o responsável por tudo isso e acabar com ele!
– Os preparativos já terminaram. – disse uma voz alegre do final do corredor – Agora vocês já podem parar de brincar de labirinto!
– É ela! Como você… – Lune não pôde terminar a pergunta, porque no mesmo instante houve um estralo e o chão começou a tremer.


Todo o corredor sumiu e eles se encontraram em uma enorme caverna bem iluminada, diferente de todo o cenário que haviam percorrido até agora. As paredes eram lisas e acinzentadas, fazendo parecer que toda a superfície fosse feita de metal. Apesar de parecer uma sala de um castelo, a sensação de que estava debaixo da terra era inconfundível, principalmente agora que a ilusão havia terminado.
– É incrível o que podemos fazer com um pouco de espaço, não? – a professora divertia-se com a surpresa deles, aparecendo do lado oposto onde estavam – Esse tempo todo vocês estava no mesmo lugar em que caíram quando entraram na casa abandonada! – e acrescentou olhando diretamente para Lune – Achou que conseguiria me deter com tão pouco, WIB? Eu falei que sou a única aprendiz aceita, não me subestime!
– Do que ela está falando, Lune? – perguntou Emily em voz baixa.
– Eu tinha a prendido copiando o feitiço que ela usou em mim… Ou ao menos eu achei que a tinha prendido.
– Finalmente está na hora de começarmos! – continuou a professora como se anunciasse o início de um espetáculo – A partir de agora, vocês irão ter a honra de serem os primeiros a ver o mais excepcional aperfeiçoamento de magia antiga que um bruxo já criou! E para ser a estrela principal eu chamo a pequena, mas surpreendente…
A professora estralou os dedos e sumiu em meio a uma fumaça rosada e densa. Assim que a fumaça se dissipou, alguém diferente surgiu nela.
– Selene! – a voz da professora ecoou pela sala.
A menina estava branca como nunca, com os olhos embaçados, exatamente como seus irmãos e primos estavam há um tempo atrás. Porém, havia algo muito diferente nela se comparado com os outros. Ela parecia estar desmaiada, inconsciente, mas ao mesmo tempo em pé como se uma força invisível a mantesse assim.
Nenhum deles tentou fazer algum movimento, pois sabiam que ela estava sendo controlada e atacaria. Charlotte segurou Meggy pelo braço quando a garota fez menção de correr até a irmã:
– Não. – murmurou ela – Temos que saber o que fizeram com ela.
– Eles estão usando magia antiga sem varinhas. – Lune começou a explicar, tentando compactar as informações para poder falar em pouco tempo e não deixar nada importante de fora – É uma prática extremamente proibida, com um número infinitamente maior de fracassos do que sucesso. Nem mesmo Voldemort ousou executar algo assim!
 – Aqui está a o melhor exemplo de Tembrae nível três e ainda evoluindo! – disse novamente a voz da professora vinda de algum ponto indefinível – Primeira demonstração!
 – Tinniens. – disse Selene com uma voz baixa, calma e indiferente.


Imediatamente, todos sentiram uma dor aguda na cabeça e um zunido insuportável ecoando em seus ouvidos. Os menores logo estavam de joelhos no chão, segurando os lados da cabeça e fechando os olhos com força. Os maiores ainda mantinham-se de pé, mas todos tremiam e estavam visivelmente impossibilitados de reagir.


Desino. – disse novamente Selene, anulando o efeito do seu primeiro feitiço, e agora todos estavam no chão de joelhos, ofegando.
Tembrae nível um permite que não só uma, mas várias pessoas sejam controlada de uma distância considerável. Seu defeito é que pode ser anulada com muita força de vontade do próprio controlado. O nível dois não só resolve esse problema, como ainda garante um tempo maior de controle, mesmo se o corpo do controlado estiver esgotado. O nível três, usado com sucesso agora, permite que o simples pronunciamento do feitiço desejado cause o efeito esperado, sem necessitar de varinha ou mesmo gestos. Agora o nível quatro…
Nove bolas luminosas verdes de tamanho médio surgiram em torno de Selene e imediatamente cada uma partiu em direção de um deles.
– São bolas de fangulis! – disse Charlotte, correndo para proteger os filhos ao mesmo tempo em que se desviava da sua bola perseguidora. – Usem protego!
Com a ajuda dos pais, as crianças conseguiram escapar das bolas antes que qualquer uma delas causasse algum dano grave.
– Vocês têm muita experiência com esse feitiço, não? – a professora riu – Mas devo anuncia para vocês que tudo até agora foi um pré-aquecimento.
– O que vamos fazer? – perguntou Emily para Charlotte, ainda segurando firmemente Malthus nos braços.
– Temos que nos dividir. – disse Charlotte para Lune – Emily e Draco devem ficar na defesa, cuidando das crianças. Elas não são capazes de se defender de feitiços desse nível.
– Mas Emily e Draco também não sabem se defender de todos os tipos de ataques, ainda mais se eles usarem magia antiga! – contestou Lune.
– Fred pode ajudá-los! – continuou Charlotte – Apesar de há muito tempo eu não fazer isso, sempre usei magia para ataque e defesa. Você como WIB também, além de conhecer magia antiga. Como a professora falou, o nível que estão usando para controlar minha filha não permite que ninguém mais além do controlador consiga libertá-la. Então temos que chegar até ele.
– Certo. – concordou Lune – Você segura a Selene enquanto eu tento passar por ela e achar o controlador.
– Esse é o problema. – disse Charlotte – Não é professora quem está controlando eles. Essa pessoa ainda não se revelou, temos que-
– Eu queria poder aguardar um momento mais apropriado para isso, mas acho que disponho de pouco tempo antes que o nível cinco seja executado. – disse uma voz diferente da professora, uma voz de um homem.
Todos procuraram em volta, mas nem a professora e nem essa outra pessoa estava visíveis.
– Essa voz… – sussurrou Emily olhando para todos os lados, para tentar confirmar o que estava pensando.
– Chega desse jogo idiota de se esconder! – gritou Lune para o teto – Já chegamos até aqui e continuar escondendo a sua cara não vai adiantar nada!
– Eu não teria tanta certeza disso. Pode ficar mais complicado para vocês se descobrirem quem sou eu.
– Eu sei quem você é! – disse Emily, mas depois pareceu ter se arrependido e olhava para os outros se sentido culpada.
– Você sabe, Emily? – perguntou Lune surpresa.
– Eu já sabia, mas… Tínhamos eliminado essa possibilidade, então eu…
– Realmente era muito estranho você ainda não ter percebido, Emily. Eu tinha uma idéia melhor da sua capacidade, mas vejo que o tempo apaga algumas das melhores habilidades das pessoas.
– Quem é ele, Emily? – exigiu saber Draco – Como você sabe quem ele é?
Ela parecia estar prestes a chorar e olhava do marido para os outros.
– Por que fez isso? – ela perguntou enfim – Por que pegou nossos filhos? Por que está usando eles contra nós? Por que agora depois de tanto tempo?
– Quem é, Emily? – insistiu Charlotte, mas a outra apenas balançou a cabeça negativamente, se segurando para não começar a chorar.
‑ Sim, houve um tempo em que eu pensei que não valia à pena. Mas depois de analisar, eu cheguei à conclusão que não havia nada a se perder… Eu já tinha perdido muito mais antes, e não havia conseguido nada.
– MENTIRA! – gritou Emily. – VOCÊ NÃO PERDEU O QUE TINHA! FOI VOCÊ QUE NÃO QUIS ACEITAR!… Não, vê?! Quem jogou tudo fora foi você mesmo! Não foram os outros que o abandonarem! Foi você quem nos abandonou!
– Abandonou?… Será que seria?… – Charlotte olhou para o marido que também olhava para o teto como se uma luz houvesse se acendido em seus pensamentos. – Não pode ser…
– Quem é, mãe? – perguntou Meggy baixinho ao lado dela, segurando a manga de suas vestes.
– Vejo que agora não será uma surpresa. – comentou  voz – Faucher, pode tirar a ilusão.
Houve outro estralo de dedos e a parede atrás de Selene começou a se retorcer, formando um buraco. Logo, a parede lisa tinha dado lugar a um grande camarote, onde estavam a professora e alguém sentado em uma confortável poltrona, os encarando com desprezo.
Todos, até mesmo as crianças prenderam a respiração com o que viram.
– Pai! – exclamou Gareth que estava ao lado de Fred – É você!
-… Jorge. – foi a única coisa que Fred conseguiu dizer, com os olhos fixos no camarote.
– Há quanto tempo, meu irmão. – disse Jorge sorrindo.