FIC – Legacy

Capítulo Vinte – Caos no ministério

          Estava se sentindo amaldiçoado. Aquela Celebriant tirara toda e qualquer forma de honestidade dele e tudo era culpa de Angellore tê-lo enganado. Se isso não bastasse, ele a amava tanto que chegava a doer pensar em algo como o que estava pensando. Mas ele iria fazer, e então Ethan Kennicott poderia morrer em paz.

***

          Aleena encontrou a vila que procurava e respirou fundo. Aquele trabalho era somente para ela que o Lord incumbira: encontrar o manual do artefato, que devia estar por ali.  Avistou um galpão velho de três andares no meio do lugar e entrou. Se as suas informações estivessem corretas, estaria ali dentro.
          Não estava acostumada a receber ordens desse tipo e que precisasse fazer o trabalho inteiramente sozinha, mas estava feliz por ter recibo uma ordem direta do Lord. Algum tempo depois, arrependeu-se de ter aceitado a missão sozinha: não estava encontrando o que ele queria e sabia que se voltasse sem o manual, seria castigada.
          Percebeu que havia mais alguém ali, e seu coração saltou. Segurou a varinha fortemente e apontou para onde vinha o barulho. Então viu uma mulher que estava de pé ali, encarando-a tranqüilamente.

          – Sou eu, Aleena. Pode abaixar a varinha.

          Ela bufou e baixou a varinha, aproximando-se da mulher.

          – O que você está fazendo aqui?
          – Os aurores estão aí fora, te procurando. Parece que alguém te viu e acionou os aurores. Estou aqui para ajudá-la a escapar. Porta da direita, no segundo andar. Pode descer as escadas que eu vou distrai-los. Agora saia.

          Sem pensar, Aleena correu para a escada, indo para onde a mulher falara.

***

          Alric e Erling estavam em lados opostos da vila, procurando pelo comensal responsável. Haviam recebido a informação que ele estaria ali, atrás de um artefato a pedido de Voldemort. Celebriant montara os grupos de apoio e lá estava ele, na batalha novamente. Quando Erling lhe contou que voltaria à ação, mal pode conter sua adrenalina. Finalmente conseguira voltar.
          Andando tranqüilamente, sem fazer barulho, ele prestou atenção no prédio a sua frente. Não havia iluminação alguma na vila, mas alguma coisa brilhava dentro de um galpão velho de lá. Aproximou-se rapidamente por trás e colocou sua capa de invisibilidade. Olhou para cima e viu, no segundo andar, o comensal saindo pela janela e flutuando até o chão. Sem pensar duas vezes, jogou um feitiço nela, mas ele percebeu a presença dele e se defendeu.
          Os dois começaram a duelar furiosamente e o capuz do comensal caiu, deixando Alric desconcertado.

          – Aleena! – ele gritou, com raiva.
          – Alric! Eu vou matar você!

          Aleena parecia estar furiosa por ter encontrado alguém, ainda mais ele. Pelo jeito ela não encontrara o que procurava e estava com medo de ser capturada por ele. Alric estava confiante que iria vencê-la, quando uma coisa chamou sua atenção. Viu que algo se mexeu levemente entre as folhagens e uma varinha saiu de lá. Com esse descuido, Aleena conseguiu acertar um feitiço nele, fazendo-o voar longe. Atordoado, Alric conseguiu se levantar e correu até onde estava antes para ver o que havia acontecido e assustou-se: Aleena estava estirada no chão, morta.

          Correu para dentro da mata de onde tinha visto a varinha sair e jogou um feitiço de procura. Tinha alguém ali, correndo na direção oposta. Alric avistou ao longe uma varinha iluminada e correu atrás da pessoa. Quando conseguiu se aproximar o suficiente, atirou um feitiço e a pessoa caiu no chão, desmaiada.

          Alric não conhecia aquele homem. Pelo menos ele nunca tinha visto em qualquer lugar, fosse no ministério ou nos comensais. Rapidamente amarrou-o e jogou um sinal de luz. Alguns segundos depois, Celebriant e outros dois aurores aparataram onde ele estava.

          – Ele estava fugindo. Acredito que tenha sido ele que matou a comensal.

          Celebriant rapidamente pegou a varinha do homem e jogou um feitiço nela. Um pequeno Avada Kedavra saiu dela, lançando uma iluminação verde no rosto da mulher.

          – Sabe quem é ele, Roth? – perguntou ela, abaixando-se para vê-lo melhor e voltando a encarar Alric.
          – Nunca o vi.
          – É o nosso bibliotecário: Ethan Kennicott.

***

          Angellore acordou assustada. Respirando fortemente e com uma dor lancinante no peito, ela tentou se controlar. Aleena estava morta. Sim, devia ser um pesadelo, mas, no fundo, Angellore sabia que a irmã estava morta. Rapidamente levantou-se, trocando de roupa com um aceno da varinha e aparatou.
          Merus estava na sala, com roupas de dormir quando ela chegou, parecendo preocupado. Quando a viu, correu até ela.
         
          – Minha irmã, Merus. – disse ela encarando o homem.
          – Eu sei. Acabei de receber a informação pelos meus informantes. Eu sinto muito.
          – E o corpo, onde está? – falou ela, segurando a varinha.
          – Preso no ministério, óbvio. – ele segurou o braço dela, firme – Eles estão certos que você vai tentar retirar o corpo de lá, portanto não ouse fazer essa loucura.
          – Mas eu não posso deixá-la lá, Merus!
          – Ela sabia no que estava se metendo, Angel. Sua irmã não era boba. Ela vai ser enterrada logo e nós a pegamos. Sem contar que você sabe dos planos do Lord. Se não a enterrarem, logo estaremos mais próximos dela que qualquer auror.
          – Merde! – praguejou ela, sentindo um ódio descer pela sua garganta – Quem a matou, Merus?
          – Ainda não sei. Quem estava lutando com ela era seu irmãozinho querido, mas de acordo com o que sei, não foi ele. Ele foi jogado longe por sua irmã e alguém, escondido, a matou. E parece-me que o assassino já foi capturado e está sob interrogatório no ministério.
          – Eu vou falar com Celebriant.
          – Está doida? Se fizer isso Cleaver vai te prender na hora! Qualquer contato que ela mantiver com você agora só vai piorar as coisas para ambas. Temos que agir com calma, Angel. – falou Merus puxando a mulher para sentar-se no sofá.
          – Eu estou calma – Angellore soltou-se de Merus, indo se sentar sozinha – Só quero matar o assassino da minha irmã. Ele está lá, então?
          – Sim. Ainda não tive nenhuma informação sobre quem é ele, mas parece-me que não é nenhum comensal e ninguém dos aurores.
          – O que ela estava fazendo lá, Merus? Sozinha!
          – Como ficou sabendo disso?
          – Ela me encontrou antes de sair. Disse que o Lord chamou ela para conversar e a incumbiu de uma tarefa simples. Como ela foi morrer por lá?
          – Pelo que eu entendi ela estava conseguindo fugir. E derrubar Roth ela faria tranqüilamente, o problema foi que havia esse homem escondido. E ele foi quem matou sua irmã.
         
          Angellore grunhiu, irritada. Estava sentindo uma dor no peito ainda, por causa do pesadelo. Por mais que ela não visse sua irmã há algum tempo, as duas mantinham contato sempre, fazendo o máximo para se encontrarem ou conversarem. O Lord também sempre confiara nas duas, mandando-as para as missões com a certeza de que tudo iria dar certo. E agora o Lord mandara Aleena para uma missão solitária e ela acabara sendo morta por algum imbecil. Angellore sentia as pernas tremerem de ódio. Acabaria com quem quer que fosse. Olhou para Merus, que parecia bem nervoso também e levantou-se, aparatando sem pronunciar uma só palavra.

***

Erling estava em sua casa, conversando com Alric quando ouviu um barulho forte e seco na parte inferior. Levantou rapidamente, segurando a varinha. Passos rápidos e a porta de onde ele se encontrava se abriu, e Celebriant apareceu, extremamente machucada, sendo carregada por Lopez.

– O Ministério foi invadido – ela disse, arfando.
– O quê? – gritou Alric, aturdido.

Erling sentiu o coração parar. Depois de Aleena ser morta por um funcionário do ministério, ele sentiu que algo estava errado. O ministro e seu acessor estavam estranhos havia alguns meses, mas ninguém conseguiu provar que o acessor estava sendo dominado ou que o ministro estivesse preocupado. Ele percebeu que Alric levantou-se para ajudar Celebriant, mas ela balançou a cabeça.

– Eu estou bem, agora vamos sair daqui!

Alric segurou o braço de Erling e Celebriant, aparatando com os três. Ao longe, Erling ainda pôde ver muitas pessoas encapuzadas entrarem na casa, segundos depois que eles aparataram.
A tontura da aparatação ainda continuou depois que eles chegaram até o lugar onde Alric aparatara. Percebeu que ele fazia feitiços protetores pela casa, que estava imunda.

– Onde estamos, meu irmão?
– Escondidos. Aqui ninguém vai nos achar. É uma mansão antiga de meu pai, que estava perdida e eu a encontrei antes de tirar Angellore da prisão. Agora – ele encarou Celebriant que estava jogando feitiços em seus machucados, parecendo um pouco menos preocupada – Nos conte direito essa história.

Celebriant parou o que estava fazendo e respirou fundo, encarando os homens.

– A partir de hoje o nome daquele-que-não-deve-ser-nomeado não deve mais ser dito. Seu nome está amaldiçoado e, se alguém o disser, será encontrado, com ou sem feitiços de proteção. Eles entraram calmamente no Ministério e mataram o ministro. Foram muito silenciosos e aqueles que tentaram reagir na hora foram mortos. Nós estávamos lá, mas conseguimos sair graças ao tumulto da entrevista do novo ministro, que estava com Imperius há muito tempo. Só que alguns comensais nos viram e nos perseguiram. Havia muitos deles e não iríamos conseguir. Eles estão procurando agora todos os aurores que não se renderam ao comando deles e como eu sabia que vocês seriam os próximos, cá estou.

A noite ficou tão silenciosa que Erling sentiu calafrios percorrerem seu corpo. Celebriant terminou de enfaixar o braço e encarou Alric.

– Eu não vou ficar por aqui. Tenho um esconderijo preparado há algum tempo. Mas entrem em contato da forma de sempre.

E, sem dizer mais nada, Celebriant aparatou, carregando Lopez consigo.

***

Angellore limpou o corpo da irmã e colocou uma roupa bonita. Sua irmã gêmea, morta por Ethan Kennicott. Ainda não acreditava que aquele idiota tinha sido capaz de matá-la, mas iria atrás dele tirar suas dúvidas.

Colocou o corpo da irmã cuidadosamente em cima da pira funerária e lançou as chamas que consumiriam Aleena até virar pó. Ninguém iria encostar mais nenhum dedo na sua irmã.

Assim que o corpo sumiu, Angellore foi ao encontro de Merus, que a esperava com um homem amarrado em uma árvore.

– Todo seu.

Ela aproximou-se do homem, que levantou o olhar e gritou, desesperado.

– Mas eu te matei! – ele gritou, parecendo beirar a loucura.

– Matou sim. E agora eu vou te matar. Mas antes, algumas horas de dor… Crucius!

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Capítulo Dezenove – Os verdadeiros responsáveis
Halbran sentou-se no sofá de sua sala, acabado. Tinha passado um dia se reunindo com chefes de outras universidades, tratando de vários assuntos. Sua cabeça girava com o tão atarefado ele andava. Não tinha mais tempo para ler seus livros e nem conseguia dormir à noite.
Começou a lembrar de seu último pesadelo e aquilo lhe deu náuseas. Lembrar da morte de seus pais era agonizante, porque ele nunca conseguira pegar os responsáveis pelo assassinato, apesar de saber bem quem eram. Estava se levantando para ir ao banheiro quando a porta de seu escritório se abriu, fazendo-o encarar a pessoa para lá. Era o auror responsável pela segurança dele, e parecia estar bem preocupado.
– Senhor, desculpe incomodá-lo, mas Oxford está sob ataque! Queira me acompanhar.
– Como assim está sob ataque? – perguntou ele, estupefato.
O auror ignorou a pergunta dele, segurou-o pelo braço e retirou-o da sala, correndo com ele pelos corredores. Tudo parecia normal em volta: nenhum alarme, ninguém correndo e nenhum feitiço ricocheteava pelas paredes. Desconfiado, Halbran foi pegar sua varinha quando um feitiço o atingiu e ela voou nas mãos do auror.
– Desculpe por isso, senhor – disse ele, dando um sorriso que não pertencia ao seu rosto – Mas não me faça matá-lo antes da hora, sim?
Halbran encarou o homem e sentiu um frio na espinha. Não estava entendendo o que seu segurança estava fazendo, mas começou a se preocupar. Quando puxou o braço para se soltar do homem, ele puxou-o para dentro da biblioteca e jogou-o no chão.
Atordoado, Halbran levantou-se o mais rápido que pode, mas o homem já apontava a varinha para ele.
– Seria uma sensação maravilhosa poder machucá-lo e conseguir o que desejo, mas para sua sorte estou com pressa – ele deu outro daquele sorriso cínico e aproximou-se – O livro. Agora.
Halbran suspirou, irritado. Deveria ter imaginado que aquele livro daria problemas! Celebriant havia mandado ele para lá por ser bem mais seguro que o Ministério e ele não teve como dizer não. O problema é que havia um comensal na frente dele, querendo algo que não poderia nem chegar perto das mãos de Voldemort. Antes que ele pudesse sequer pensar no que fazer, a voz do auror chegou até ele.
– Você merece isso, mon cher – a voz falou, dando uma risada que Halbran conhecia desde os tempos de Hogwarts – Imperio.
Halbran acordou atordoado. Sentou-se e olhou em volta, procurando sua varinha nos bolsos. Felizmente ela estava lá, intacta. Percebeu, então, que ainda estava na biblioteca, mas num canto mais afastado. Já era noite e tudo estava escuro. Levantou-se e olhou para onde o livro estivera guardado e não se surpreendeu: havia um livro ali, mas ele tinha certeza que não era o verdadeiro. Caminhou lentamente até a porta da biblioteca, pensativo.
Era bem óbvio que à essas horas Angellore já teria entregado o livro à Voldemort e nada mais poderia ser feito. Como sempre, ele não poderia deixar de desconfiar de Celebriant, que havia mandado o livro para Oxford algumas semanas antes desse roubo acontecer.
Chegou em seus aposentos e deitou-se na cama, irritado. Ser o diretor de Oxford sempre fora seu sonho, mas desde que este se tornara realidade, ele estava vivendo num pesadelo. Sem contar que, para ajudar, Angellore havia aparecido depois de muito tempo e tornado as coisas ainda mais confusas.
Não que Halbran quisesse ela de volta ou que sentisse vontades que não deveria. O problema era que remexer em algo que ele havia guardado há tanto tempo estava doendo demais. Tinha noção do quanto ela havia mudado desde que se tornara comensal e há algumas horas ele tivera a certeza de que não conhecia mais Angellore. Aquela que ele conhecera em Hogwarts se fora há muito tempo.
Seus olhos começaram a fechar de tão cansado que ele estava. Parecia que seu corpo tinha sofrido bastante com a brincadeira de Angellore, e agora ele não estava agüentando em pé. Lembrou-se novamente de seus pais e, então, percebeu que havia um embrulho em cima de sua escrivaninha. Rapidamente, jogou um feitiço no pacote, para ver se estava enfeitiçado, mas nada aconteceu. Então, abriu-o cautelosamente.  Antes que pudesse ver o que havia dentro do pacote, tudo escureceu.
          Pareciam duas lápides mal feitas. Olhando mais perto, dava para ter certeza que eram mal feitas. Duas pessoas, uma com dezesseis anos e longos cabelos negros e a outra, loirinha, com dez, olhavam para as lápides, totalmente sujas de terra. Dois nomes estavam escritos toscamente: Yoshiro de Bran, 19/08/1993, e Clarice Cleaver de Bran, 19/08/1993.
– Vamos – murmurou a mais velha, puxando a mais nova pelo braço.
– Covardes! – resmungou a mais nova para as lápides, saindo correndo para a enorme casa.
A mais velha olhou para trás e balançou a cabeça serenamente, indo de encontro a mais nova, que estava sentada no sofá da sala, com a varinha em mãos e murmurando feitiços para a parede.
– São uns covardes, Lunne. – resmungou a menina, nem olhando para a irmã.
– Sei bem como se sente. Agora vamos arrumar as coisas. Teremos trabalho daqui para frente.
– Será que você não entende? – a menina levantou-se, irritada – Porque vamos fazer isso no nome deles? Eram uns covardes que não sabiam onde tinham se metido! Se soubessem não teriam se matado de forma humilhante, deixando um bilhete! E agora vamos usar o nome deles para que eles ganhem tudo!
– Celebriant – a morena aproximou-se, fazendo a mais nova encará-la – Você sempre soube se controlar. E agora isso será mais necessário no que vamos fazer. Entende? Estava escrito na carta que isso é nosso treinamento! Antes de mais nada precisamos treinar. A morte deles foi necessária! Eles não se mataram por qualquer motivo, e sim por ordens do Lord. – Lunne sentou-se ao lado da irmã – E somos menores de idade! Se alguém desconfiar que eles morreram e estamos sozinhas não conseguiremos nada! Entende agora?
– Eu só queria ter tido a oportunidade de matá-los – resmungou a menina – Pelo menos aos meus olhos seria uma morte honrosa – e, sem dizer mais nada, ela aproximou-se do local onde os pais haviam se matado e as duas começaram a limpar a sujeira que eles haviam feito.
         
          Yuri olhava desesperado para sua esposa. Havia chegado do ministério há alguns minutos e encontrou a casa  com as luzes todas acesas e as portas abertas. Sua mulher, aquela que ele amava mais que a si próprio estava estirada no chão do quarto, toda ensangüentada e… morta. Ele nunca havia visto tanto sangue assim em toda a sua carreira de auror e aquilo fez com que tivesse ânsia de vômito.
          Ouviu passos na parte inferior da casa e seu coração palpitou. Ainda estavam ali! Tirou a varinha das vestes, e, rapidamente desceu as escadas. O som vinha da sala principal e ele correu para lá, deparando-se com duas meninas que o olhavam intensamente com a  varinha em mãos. Por um momento as meninas pareceram se preocupar por ele estar ali, mas a preocupação sumiu tão rápido quanto apareceu.
          – Quem são vocês? – perguntou ele, procurando em volta se havia alguém mais escondido.
          – Já não se lembra mais das suas sobrinhas, titio? – falou a menina loira, encarando-o serenamente.
          – Titio? Eu não tenho irmãos! Expelliarmus!
          As duas meninas começaram a duelar com ele, com uma rapidez incrível para a idade delas. Com certeza aquilo era coisa do seu irmão. Yuri duvidava que essas meninas poderiam ter feito aquilo com sua esposa. Aquilo era um feitiço de alta complexidade e ninguém, a não ser alguém que conhecesse muito de arte das trevas, conseguiria conjurar aquilo. Conseguiu desarmar a morena, que havia caído desmaiada ali perto, mas a loira continuava a duelar com ele, com um sorriso no rosto que fez com que ele achasse que estava sonhando. Se não tivesse visto fotos das duas quando eram pequenas, ele teria certeza que quem estava ali não era a menina loira, mas sim, seu irmão gêmeo.
         
          – Você não precisa fazer isso, criança! Não suje sua mão por tão pouco! – ele gritou, quando a menina cambaleou um pouco para trás com o feitiço que ele tinha mandado.
          Ela ergueu os olhos para ele e deu um sorriso maldoso.
         
          – Patético! Eu nunca vou perder para alguém como você! – e, dizendo isso, ela levantou a varinha.
          Sangue. Por todos os lados. Por todas as partes. A menina abaixou a varinha, limpando alguns respingos vermelhos que voaram para seu rosto.
          – Lunne, levante-se – resmungou Celebriant para a irmã, que abriu os olhos como se nada tivesse acontecido.
          – Já acabou? – falou Lune, inconformada – Nem deu tempo de você se divertir! Eu pelo menos me diverti bem mais com a mulher. Ah, não! – ela disse, ao ver a roupa cheia de pontos vermelhos – Você me sujou!
          – É claro que te sujei. – falou Celebriant, encarando-a – Você ficou muito perto dele. Esqueça isso e pegue a poção. Não quero que ninguém mais nos veja.
         
          Lunne, encarando a irmã com os olhos gelados, pegou dois recipientes do bolso e entregou um deles à Celebriant. As duas fizeram um brinde e, alguns minutos depois, estavam Yoshiro e Clarice, na sala, sorridentes.
         
          —
          As luzes estavam acesas, a casa inteira aberta e ele não via seus pais em lugar nenhum. Encarou o céu e não viu nenhuma marca negra, mas, mesmo assim, ele sentiu que havia alguma coisa de errado. Eram as férias de páscoa dele e seus pais haviam pedido que ele viesse sozinho da estação, que era bem perto da casa. Começou a correr, entrando na casa o mais rápido que pôde.
          Sua corrida durou até o momento que ele percebeu o estado que a casa estava por dentro. Completamente destruída em quase todos os cômodos e… Halbran sentiu o coração gelar: sangue por todos os lados.
          Não ia nem olhar na sala, da onde ele viu que vinha a maior parte do sangue, mas então percebeu que tinha mais alguém lá. Respirando fundo e com a varinha em mãos, ele encarou as duas pessoas que estavam ali, tentando não olhar para o ponto onde havia um corpo no chão.
          – Olha se não é meu adorado sobrinho – falou a mulher, dando um sorriso cínico – Gostou da nova decoração da casa, meu amor?
         
          Halbran não conseguia nem segurar seu ódio. Seu pai havia dito que o único irmão dele, seu irmão gêmeo, e sua esposa eram comensais da morte. Tinha dito que com certeza um dia acabariam encontrando eles em batalhas e que ele faria de tudo para matá-los. Mas pelo jeito os dois conseguiram encontrá-los antes. A única coisa que passou por sua cabeça era que ele iria matar aqueles dois, e ele não se importava em morrer no processo.
          – Deixe ele comigo, Clarice – falou o homem que era idêntico ao seu pai, exceto pelo brilho nos olhos negros – Eu quero ter o prazer de destruir esse pirralho.
          Mas antes que qualquer pessoa pudesse lançar um feitiço, o casal se entreolhou e os dois aparataram, ao mesmo tempo que muitos aurores aparataram no local.
          —
         
          Como se tivesse se afogado e voltado à superfície, Halbran acordou tossindo, e virou-se para o lado da cama, vomitando. Quando recuperou um pouco suas forças, olhou em volta, aturdido. Aquilo havia sido um sonho? Não… tinha sido muito real e muito… Ele não tinha certeza de nada, poderia ter sido somente um pesadelo, mas parecia que tinha entrado nas memórias de alguém e visto algo que só os seus pais ou quem os matou poderia saber. Até porque, ele viu sua própria memória e o resto fazia completo sentido. Respirando profundamente, sentou-se na cama, tentando se acalmar, quando viu que o pacote de presente ainda estava em cima da cômoda. Aproximou-se e viu que havia algumas letras miúdas no canto do pacote. Apontou a varinha para lá, fazendo um feitiço de aumento, e leu:
          “Um presente para você. Já ouviu falar em memória viva? Aprendi a usar há pouco tempo e quis testar em alguém. Então aqui está! Aproveite bem e dirija seu ódio a quem realmente ele pertence. De sua adorada prima… Celebriant.”
          E, antes que Halbran pudesse reler o que estava escrito, o papel queimou-se por completo, não deixando nenhum vestígio de que um dia sequer existiu.

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Capítulo Dezoito – A dúvida
Alric parou um pouco e respirou. Olhou para a paisagem à sua volta e sentiu a melhor sensação que poderia ter: estava livre. Nesses últimos meses ele sentia que sua vida ia se esvair completamente, mas agora, ao ver o pôr-do-sol e todo aquele céu avermelhado, teve certeza que não desejava mais nada do que sua liberdade. Erling estava parado ao seu lado, encarando-o alegre.

– Vamos, Alric. Terá tempo para apreciar o pôr-do-sol.

Assim, os dois aparataram.
***

Alric assustou-se ao entrar na casa de Erling. Havia tanta gente ali que nem com o feitiço de aumento de espaço estava conseguindo enxergar todo mundo. Todos estavam ali para recebê-lo e mostrar que tinham certeza que Alric não era inocente, mas que eles continuavam a apoiá-lo. Passou rapidamente o olhar por todos os presentes, que lhe deram tapas nas costas para cumprimentá-lo. Erling continuava sorridente ao seu lado e Alric estava se sentindo um pouco incomodado com aquilo. Não que não estivesse feliz por estar livre, mas tinha algo muito de errado naquilo tudo e ele não gostava de não entender o que se passava.

Mal tinham acabado os cumprimentos e a música ter começado a tocar, ele a viu. Seu coração palpitou, um pouco pela ansiedade, mas muito mais pelo ódio. Celebriant conversava animadamente com o auror Lopez, sem parecer muito preocupada. Encarou-a por alguns instantes para ver se ela o olhava, quando Erling falou no seu ouvido, assustando-o.
– Tudo bem, meu irmão?
– Tudo – resmungou Alric, encarando-o – Só estava pensativo. A gente acaba se acostumando em Azkaban.

Erling apenas assentiu com a cabeça.

– A festa é para você. Pelo menos por hora não pense em outra coisa, certo?
Alric deu um sorriso amarelo, disfarçando um pouco enquanto Erling saía de perto e olhando novamente para o ponto onde Celebriant estivera. Ela estava sozinha agora, perto da mesa de bebidas, parecendo procurar o que ia beber.
Rapidamente, e tentando não se deixar perceber pelos demais, Alric dirigiu-se até um corredor parcialmente escondido da festa, e, assim que a mulher passou por ele com um copo colorido em mãos, ele puxou-a para o corredor.
Ele esperava que ela gritasse ou que se assustasse com o que ele fizera, mas a bruxa encarou-o com um olhar interrogativo e voltou seus olhos para o copo, que estava com seu conteúdo espalhado pelo chão.
– Você derrubou minha bebida. – disse ela, voltando os olhos negros para ele.
Alric pensou bem no que ia dizer. Sua vontade era de esbofeteá-la por deixá-lo tão confuso. Não conseguia entender muito bem o que tinha se passado em Azkaban, pois lá, tudo indicava que ela é quem tinha planejado sua prisão, mas quando pisou no mundo de fora, percebeu que fora Celebriant quem praticamente o tirou daquele lugar. Erling tinha certeza que Alric tinha enlouquecido por dizer aquilo da loira, mas ele tinha suas suspeitas. Realmente fora Celebriant quem fizera as provas, quem o seguira e que conversara com Angellore sem ao menos lhe dizer o que queria ou porque havia necessidade daquilo.
Ele percebeu que ainda segurava o braço dela e parecia estar machucando. Segurou um pouco mais forte, mas ela não pareceu se alterar.
– Quero que me responda algumas coisas – sussurrou ele, ameaçador.
– Há necessidade de machucar meu braço para perguntá-las?
– Não seja cínica. Foi você quem me pôs em Azkaban, não é? Você que planejou tudo isso. – falou ele, continuando a apertá-la e, sem perceber, empurrá-la contra a parede.
– De certa forma eu tenho culpa. – falou ela, encarando-o nos olhos e totalmente tranqüila – Fui eu quem fez as provas que foram usadas no seu julgamento. Mas você foi parar em Azkaban por ser muito descuidado e deixar as provas ao alcance de sua irmã.
– Foi você quem planejou tudo com ela e me fez parar lá. Admita.
– Alric – suspirou ela, revirando os olhos – Você quase me matou em Azkaban quando eu estava tentando ajudá-lo. E mesmo assim eu fiz você sair de lá, com ajuda do seu irmão. Você acha que eu iria ter o trabalho de te tirar de Azkaban, sendo que eu tinha planejado sua ida para lá?
Alric ficou estático, sem saber como reagir. Aquilo foi um balde tão grande de água fria nas suas idéias que ele soltou o braço dela, ainda encarando-a. Ali sim havia um ponto. Porque ela o mandaria para Azkaban e ia retirá-lo de lá? Percebeu que ela massageou o braço dolorido e encarou-o tristemente.
– Sem problemas, Alric. Compreendo sua confusão e sei que não pareço muito confiável. Mas entenda que eu nada tenho contra você. Apenas quis ajudá-lo.
E, sem perceber, Alric aproximou-se dela e beijou-a, selvagem, e foi imediatamente empurrado contra a parede oposta. Celebriant segurava a varinha em mãos, encarando-o de forma superior.
– Não temos nada juntos Alric. Fiz o que achei que tinha que fazer, não para ter algo de volta com você, mas simplesmente para tirá-lo de lá. Não o quero mais.
E, dizendo isso, ela saiu, deixando-o sozinho.
***
Ulrich Lopez estava ansioso. Receava que aquele homem pudesse fazer algum mal à Celebriant. Eles estavam há algum tempo desaparecidos e ele tinha certeza que Roth iria fazer algum mal à loira. Quando olhou para o lado das bebidas, viu Celebriant saindo de um corredor, parecendo um pouco preocupada, mas aparentemente bem. Logo depois, Roth saiu do mesmo corredor, sem aparentar uma emoção.
Preocupado, ele foi atrás da mulher, que tinha se sentado em um dos sofás da casa de Erling. Ela nem ergueu os olhos quando ele se sentou ao lado dela. Tocou em sua mão, fazendo com que ela o olhasse com ternura. Ele observou atentamente a mão dela e percebeu que seu braço estava machucado.
– Foi aquele homem que fez isso agora, não é? – falou ele, quase bufando.
– Acalme-se, Ulrich. Esse machucado foi necessário para que ele pudesse se sentir culpado. Mas ele vai ter o que merece, não se preocupe. Isso é só o começo. – ela sorriu cinicamente, e voltou os olhos para a festa.
– Eu gostaria muito de fazer algo por você agora – ele falou, tirando um pouco do ódio e voltando-se à ela.
– Então vamos embora juntos – ela sussurrou, levantando-se – Quero lhe mostrar como meu namorado.
Perdido em sua emoção, Lopez nem pensou duas vezes. Segurou a mão dela gentilmente e saiu com a loira, olhando para Roth quando passaram por ele, sem nem o cumprimentar.

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Capítulo Dezessete – O habeas corpus
Angellore aparatou na rua escura das proximidades de Londres. Seu cabelo estava loiro e seus olhos azuis; não era uma grande mudança, mas pelo menos não estaria complicando sua própria vida ao aparecer na casa de Lunne. Claro que essa visita já estava planejada por Celebriant há algumas semanas e não parecia ter motivos para se tornar um erro.
A casa dos Cleaver não era uma mansão, mas também não era pouca coisa. No alto da montanha a casa brilhava de tão iluminada, e os jardins estavam impecavelmente quentes, como o verão deixa. Havia algum tempo que Angellore estava na casa de Merus e não tinha o mínimo contato com Celebriant, não contando o último encontro há dois meses sobre Ethan e os rápidos encontros das lutas entre comensais e aurores.
O portão abriu-se magicamente, deixando a vista o caminho até a porta da casa, onde Lunne esperava-a.
– Prazer em vê-la, querida. Entre! Vamos tomar um chá!
Angellore deu um aceno leve com a cabeça e entrou, fazendo com que Lunne fechasse a porta.
– Em alguns segundos minha querida irmã chega, e poderemos contar as novidades. Aguarde na sala, logo estarei lá. – Lunne disse, dando um sorriso irônico e caminhando em direção ao piso superior.
A casa era realmente grande e muito bem decorada (o que Angellore desconfiava ser coisa de Lunne), e, em cima de uma estante no meio da sala havia muitas fotografias. Curiosa, Angellore se aproximou. As fotos eram, em sua grande maioria, da mãe das mulheres, que era incrivelmente parecida com Celebriant, exceto pelos olhos verdes, que pelo jeito ficaram com Lunne.
Assim que chegou na maior fotografia da sala, espantou-se. Por um momento viu Halbran de Bran, sentado ao lado da mãe de Celebriant e com as meninas sentadas ao lado deles.
– Realmente é muito parecido – a voz de Celebriant encheu seus ouvidos e Angellore encarou-a – Meu pai era irmão gêmeo do pai de Halbran. E como pode ver, meu priminho puxou muito bem ao pai, um auror correto e audacioso.
– E seu pai, um comensal famoso. – murmurou Angellore, ainda olhando a fotografia.
– Exato! – Lunne falou, parando ao lado das duas e encarando a fotografia – Ele e nossa mãe eram muito bons. Pena que desapareceram… – ela suspirou falsamente – Realmente uma pena!
As irmãs se encararam e sorriram um sorriso idêntico, cínico e debochado, como se soubessem bem mais que aquilo que falaram. Angellore limitou-se a encarar a fotografia, imaginando e tendo quase certeza do que aconteceu entre as duas famílias.
– Essa foi a última fotografia que tiramos antes de nossos pais sumirem. – Lunne falou – Que tal irmos até a sala?
As três se dirigiram até a sala.
– O que tem de novidade para nós, irmãzinha? – falou Lunne alegremente, servindo chá às três e sentando-se no sofá de couro negro.
– Algo bem divertido para a próxima semana: Alric será libertado.
– Libertado? – Angellore encarou-a, surpresa – Mas, como?
– Claro! Ele era inocente, não? – Celebriant disse, sorrindo.
Lunne deu uma gargalhada que fez com que as outras duas a encarasse.
– Desculpem-me! É que papai era tão idêntico à Celebriant que tenho boas lembranças quando a ouço falar! – Lunne enxugou algumas lágrimas que ousaram sair e olhou para Angellore – Obviamente que Celi tem não um dedo, mas um corpo inteiro nessa história.
– Mais calma, minha irmã. Não uso dos mesmos dotes que você. – Celebriant conjurou uma pasta e abriu-a – Esses são os documentos do processo contra Alric aberto pelo Ministério e a seu favor, abertos por mim. O julgamento dele foi ontem, secretamente e apenas dez pessoas compareceram, além de eu e Erling. Ele foi libertado com a condição de ficar sobre a vigília de alguém.
– O irmão bastardo dele? – resmungou Angellore, o que fez Celebriant concordar com a cabeça.
– Alric não fez objeção – ela sorriu estranhamente e completou – Acho que ele não se sentiu bem ao ver que fui eu quem o tirei da prisão… até porque acho que depois daquela minha visita singular ele não anda muito com minha cara!
– Mas eu não entendo o que tem de tão importante com a saída de Alric de Azkaban! Ele não sabe onde eu estou e você já tem o cargo de chefe… para quê tirá-lo de lá? – perguntou Angellore, sentindo que já sabia a resposta.
         
Celebriant apenas encarou a mulher, levantando as sobrancelhas pensativamente, mas foi Lunne quem falou.
– Roth não recebeu o suficiente, Angellore. Até hoje, qualquer pessoa que entra no caminho da minha irmã deve ser destruído completamente. Acho que nisso puxamos muito bem ao irmão gêmeo malvado.
         
Mais uma vez Angellore teve a certeza que quanto mais conhecia a família de Bran, mais se identificava.
– Quando ele sai?
– Daqui três dias – Celebriant disse – E eu estarei lá, é claro, para recebê-lo bem.
         
Angellore e Lunne riram com gosto enquanto Celebriant servia-se de chá. Lunne levantou-se para buscar alguma coisa e Angellore virou-se para a loira.
– Vou provavelmente encontrar aquele de Bran em breve.
– Vão atacar novamente Oxford? – murmurou a loira, surpresa.
– Não atacar… vou buscar um livro que muito interessa ao Lord. Isso não será ataque, será um roubo. Um roubo, porque esse não é para eles darem falta.
– Sabe que seu amorzinho é muito sério quando se trata de cuidar de sua amada biblioteca. – disse Celebriant, sorrindo ironicamente.
– Isso é tão importante quanto uma formiga morta. – sussurrou Angellore, revirando os olhos.
– Avise-me o dia – murmurou Celebriant, ao ver que Lunne voltava – Quero tirar mais umas fotos.
Angellore apenas abriu a boca para perguntar do que ela estava falando quando Lunne voltou à sala e elas se calaram.
– Não tive a oportunidade de perguntar, Angellore. Como Kennicott agiu ao recebê-la?
– Oh, isso – resmungou Angellore, indiferente – Ele primeiro tentou me atacar, depois chorou que nem uma criança e agora acha que eu estou arrependida e que quero me casar com ele. Claro que ele será muito útil até que ele necessite morrer.
– Pobre rapaz! Depois vocês me dizem que eu sou má com meus casos, mas eles pelo menos sabem que sou má.
– Lunne, não ache coisas demais. Você só sente o prazer das coisas quando as toca. Quanto à nós, eu e Angellore, queremos bem mais que isso para nos saciarmos.
Um sinal soou dentro da casa e Lunne levantou-se, juntamente com as outras mulheres, num gesto que parecia respeito.
– Tem alguém na casa? – sussurrou Celebriant.
– Sim. – murmurou Lunne, levantando a manga do braço esquerdo – Uma visita muito especial.
Celebriant olhou para o braço das duas e encarou-as de novo. A marca negra brilhava incandescente.
– Acha que eu devo ficar? – perguntou Celebriant.
– Ele sabia que estaríamos aqui, Celi. – falou Lunne, olhando para a porta – Se veio é porque precisar ver as três.
E as três encararam um homem com narinas ofídicas e olhos vermelhos aparecer na porta.

FIC – Legacy

Capítulo Dezesseis – A cartada final

Ethan escutou a porta da biblioteca bater lentamente. Olhou para a figura responsável e revirou os olhos. Aquela chefe dos aurores não lhe descia na garganta! Desde o primeiro dia que se encontraram ele não conseguiu gostar dela. Havia algo de mau nela, algo que nem ele podia explicar. A mulher estava séria, mas Ethan notou em seus olhos um brilho de felicidade ao vê-lo ali.
– Kennicott, será que podemos conversar um pouco? A sós?
– Tem que ser agora? Tenho que terminar…
– Agora – interrompeu ela, firme – Nesse instante, se possível.
Ethan sentiu o peso das palavras da mulher. Não era um pedido, mas uma ordem. Temendo ser algo importante, ele levantou-se, e, com um aceno da varinha, colocou todas as proteções necessárias em sua biblioteca, para então seguir Celebriant.
Ela o levou até a sua sala e fechou a porta, trancando-a e colocando um feitiço de silêncio, deixando Ethan surpreso.

– O que significa isso, Cleaver?
A mulher encarou-o seriamente e sentou-se em sua cadeira, fazendo um sinal para que Ethan sentasse também. Ela respirou fundo e apoiou seus braços na mesa, encarando Ethan profundamente, o que o deixou mais nervoso.
– Conhece a comensal DeLynx?
Ethan demorou ainda alguns segundos para compreender a pergunta e sentiu um pouco de alívio e incompreensão invadi-lo.
– Aquela que Roth ajudou a escapar? – disse ele, e Celebriant acenou afirmativamente – Quem não a conhece? Está em todos os jornais!
– Conhece mesmo, então. Se eu lhe mostrasse uma foto dela, a reconheceria?
– Mas é óbvio!
Celebriant sorriu docemente e mostrou a foto tirada de Angellore ao entrar em Azkaban. Ethan assentiu, mostrando que a reconhecia.
– Então você tem ciência que essa mulher é uma comensal procurada e que faria de tudo para prendê-la se a visse? Ou pelo menos avisaria à mim ou a qualquer outro auror sobre onde ela se encontra?
– Claro! – disse ele, entre dentes – E para quê tantas perguntas?
– Estou me certificando de que você tem ciência que encobrir uma comensal fugitiva é um crime e que você poderia acompanhar Roth em Azkaban.
– Encobrir… o que está insinuando?
Celebriant respirou fundo e sorriu, aproximando-se dele.
– Acho que você está encobrindo a comensal DeLynx.
– O quê? Eu, encobrindo? Do que está falando Cleaver?
A mulher balançou a varinha e uma foto apareceu na mesa, fazendo Ethan ficar vermelho de raiva.
– Quem é essa mulher, Kennicott?
Era Eliz, Ethan tinha certeza.
– É minha amiga, Cleaver. E o que você pensa que…
– Sua amiga? – a mulher sorriu e mostrou outra foto, dos dois se beijando – Uma amizade muito bonita, eu poderia dizer. Kennicott, chega de fingimento.
Ethan sentiu seu rosto se avermelhar mais ainda ao constatar que Celebriant tinha lhe seguido e pior que isso, tirado fotos de sua vida íntima.
– Você, sua… Você não tem o direito de se meter na minha vida pessoal, Cleaver! – bufou ele, levantando-se de sua cadeira e jogando-a para trás.
Antes de a cadeira bater no chão, Celebriant já havia sacado sua varinha e feito a cadeira flutuar um pouco mais para trás.
– Acalme-se, Kennicott, ou sua pena em Azkaban vai aumentar.
Ethan encarou a mulher, incrédulo.
– Você bebeu hoje ou é só sua loucura normal?
– Não me olhe com essa cara. Essa sua “amiga”, e parece-me que você sabe tão bem quanto eu, é ninguém menos que Angellore DeLynx, a comensal de quem comentamos agora a pouco, lembra-se?
Ele olhou para Celebriant, chocado. A mulher estava muito calma e segurava as duas fotos que lhe mostrara no alto, para que ele pudesse olhar bem. Como, em mais de meses juntos ele não havia notado a semelhança, que agora parecia inconfundível, entre as duas mulheres? Ele realmente não via os jornais há algum tempo, alguns meses talvez, mas quando entrou no ministério ele já havia lido todas as notícias a respeito de Angellore e não podia ter deixado de notar que Eliz…
Sentou-se, aturdido. O pior de tudo não era descobrir que Liz mentira para ele e que era na verdade alguém longe de ser boazinha, mas sim ter sido acusado pela chefe dos aurores antes mesmo de ter se dado conta dessa realidade. Toda sua vida ele pregara pela honestidade acima de tudo, mas como ia provar à Celebriant que ele não sabia quem ela era, se, há alguns minutos, ele havia confirmado que não deixaria de reconhecer a comensal?
Ao encarar Celebriant pensou em porquê a mulher não os pegara em flagrante no dia em que tirou as fotos e porque deixara para falar apenas a sós. Quem sabe ela queria que ele a entregasse? Saber que Eliz havia o enganado todo esse tempo era doloroso, mas Ethan percebeu que, por mais que ele fosse honesto, estava apaixonado por ela e não conseguiria entregá-la para Azkaban.
Celebriant ainda o encarava, esperando que ele falasse algo. O olhar dela estava diferente agora e muito mais brilhoso que o normal.
– E o que espera de mim, Cleaver?
– Eu que pergunto: o que você pretende fazer diante das minhas acusações, Kennicott?
– O que eu posso fazer? Entregá-la eu não posso, pois nem sei onde ela está, mas também não vou negar que sai com ela, pois seria uma mentira…
– Saiu, é? E tem algo mais que o impede de entregá-la à mim, Kennicott?
– Claro que não – resmungou ele, impaciente – Eu só não sei como eu…
– Kennicott, não minta. Vocês vão se encontrar hoje à noite na sua casa. Se realmente quisesse entregá-la e livrar a sua barra poderia fazer isso hoje. Mas não… você simplesmente se apaixonou pela comensal.
Ethan abriu a boca três vezes para responder, mas ele não tinha resposta. Celebriant pareceu notar isso e sorriu, levantando-se em seguida para encarar o homem de frente. Ela era um pouco mais baixa que ele e seu rosto brilhava como se tivesse conseguido um trunfo maior do que esperava.
– Você a ama, Kennicott – falou ela, começando a rir – Ama!
Ao vê-la rir de quase chorar, Ethan sentiu um suor frio escorrer pelo seu rosto. Era aquilo, mesmo sem ele saber explicar, que o deixava assustado. Aquele olhar maligno e o sorriso maldoso e que faziam com que ele sentisse que estava numa enrascada pior que Azkaban. Estava nas mãos da chefe dos aurores e ela não queria prender Angellore, pelo contrário, queria sim ter algo contra ele.
– Acho que você já notou que não pretendo prendê-lo e muito menos prender Angellore. – falou ela, parando de rir – O caso é que você não tem escolha. Tenho provas suficientes para mandá-lo para Azkaban em duas horas. Se não fizer o que eu quero, você estará lá antes de pensar em dizer alguma coisa contra mim.
– E o que é que você quer? – grunhiu ele, com ódio.
– Acesso a tudo o que eu necessitar, você concordando ou não com o que eu desejo. Fui clara?
Ethan assentiu, à contra gosto, com a cabeça e a mulher pareceu satisfeita. Sorrindo, ela sentou-se novamente, abrindo a porta com um aceno da varinha.
– Está liberado, Kennicott. Até breve.
E, assim, ele saiu da sala dela, sentindo-se mil vezes mais pesado e preocupado que em qualquer momento da sua vida.
_______________________________________________________________
Angellore tocou a campainha, sorrindo. Soubera por Celebriant o que acontecera no ministério e estava louca de curiosidade para saber como Ethan a receberia esta noite. Não que ela não estivesse gostando dele, mas sentia agora que não queria que a história com Halbran se repetisse. Agora queria apenas machucá-lo e enganá-lo, para, então conseguir o que queria.
A porta abriu-se e ela encarou o homem, que parecia ter bebido muito. Os olhos estavam cansados e a aparência de uma pessoa que passou o dia em casa, depressivo. Ela abriu a boca para perguntar o que tinha acontecido quando ele virou de costas para ela, chorando compulsivamente.
Ela arregalou os olhos, surpresa. De todas as recepções imaginadas, nunca passaria pela sua cabeça que o homem iria chorar e ter bebido daquela maneira. Assim que ele se acalmou um pouco ela ousou entrar na casa e fechar a porta. Ao ver a movimentação dela, ele virou-se, com a varinha em mãos.
 – DeLynx! – ele disse, entre soluços e levantou a varinha – Estupefaça!
Rapidamente ela desviou do feitiço e amarrou-o, fazendo com que ele caísse no chão, sem movimentos.
– O que é isso, Ethan? Que rudeza para se receber alguém como eu!
– Você mentiu para mim! – ele gritou e Angellore se aproximou dele, olhando-o de cima.
– Menti? Do que está falando?
– Não seja cínica! Você é Angellore DeLynx, uma comensal fugitiva e…
– Que eu saiba eu não disse em momento algum que eu não era uma comensal fugitiva. Eu apenas omiti o fato que eu sou Angellore DeLynx e substitui por um nome menos conhecido.  – ela falou, irritada – E por quê está chorando? Está com medo que eu lhe mate?
Ethan encarou a mulher, horrorizado.
– É claro que não é medo! Eu não teria medo de você!
– Então pare de chorar e tentar me enfeitiçar para que possamos conversar.
O homem respirou fundo e Angellore o soltou, rindo por dentro. Ethan levantou-se e sentou no sofá, parecendo um pouco mais nervoso.
– O que iria fazer? Me entregar aos aurores? – falou ela, assumindo sua expressão de sentida.
– Não – disse ele, seco, mas ainda com lágrimas nos olhos – Apenas me certificar que você sumisse da minha frente!
– Não foi isso que eu percebi – falou ela, fingindo estar magoada e sentando-se de frente para ele.
– O fato é que eu… eu estou apaixonado por você. E descobrir que você é uma comensal não mudou esse fato.
Angellore abriu a boca e fechou-a rapidamente. Quase começara a gargalhar ali mesmo, e isso seria muito… indelicado. Ao ver que o homem a encarava com os olhos cheios de desejo e paixão, ela sentiu-se empalidecer. Nunca imaginou que seria tão difícil lidar com a paixão de alguém assim, que ela sentia quase a mesma coisa. Fácil foi conquistar o homem, difícil era agora lidar. Celebriant acertara em cheio novamente: o homem era totalmente influenciável quando se tratava de sexo e agora, amor. E Angellore precisava aprender a controlar seus sentimentos para conseguir lidar com ele.
– Eu… nem sei o que dizer – balbuciou ela, se mostrando insegura.
– Eu conheci um lado seu que não condiz com os motivos pelos quais você foi presa, eu acredito na sua inocência, eu… – ele falou, quase ficando sem fôlego.
– Calma, Ethan. Eu… sou uma comensal sim. E tenho que lhe contar um segredo…  – murmurou ela, sentando-se no sofá – eu não estou apenas fugindo dos aurores, mas também de Você-Sabe-Quem… eu…
– Mas então você se arrependeu de tudo o que você fez?
O olhar perdido de Ethan deixou-a totalmente encantada. O homem queria acreditar a todo custo que ela tinha salvação e que eles podiam ser felizes juntos. Angellore sentiu que aquele era o momento de utilizar o homem para o que necessitasse para, depois, matá-lo quando não fosse mais útil. Ela virou-se para ele, sentindo as lágrimas escorrerem e falou:
– Eu amo você, Ethan. E eu quero mudar.
Ele sorriu verdadeiramente e a abraçou, feliz.
– Vamos ser felizes, Angellore. E eu prometo que vou protegê-la até o fim de tudo.
Angellore sorriu, satisfeita.

FIC – Legacy

Capítulo Quatorze – Azkaban

Deu um pulo na cadeira quando ouviu uma batida na porta. Pediu que entrasse; quem quer que fosse, o que estaria fazendo no ministério à essa hora? A porta se abriu e ele encarou Celebriant, que estava com a cabeça baixa e parecendo muito mal.

– Srta. Cleaver? O que faz aqui tão tarde?
– Pode me chamar de Celebriant, Erling. Não há necessidade de formalidade à essas horas da noite. Eu estava terminando uns relatórios e então…

Erling observou-a sentar-se, começando a se preocupar com a mulher.

– Está tudo bem, Celebriant?
– Não.

A voz dela saiu trêmula, como alguém se segurando para não chorar.

– O que houve? – ele saiu de seu lugar, dando a volta e parando ajoelhado na frente dela.
– Eu… não suporto mais, Erling. – a mulher explodiu em lágrimas – Toda essa história, eu não consigo acreditar que ele seja culpado! Deve haver uma saída, algo que possamos fazer para retirá-lo de lá!
– Celebriant, estamos fazendo o possível para isso, nós estamos com um ótimo defensor… – ele levantou-se, abraçando-a.
– Dois meses, Erling! Dois meses preso naquela prisão! Ele deve estar enlouquecendo! – ela murmurou, encostada nele.

Erling abraçou-a mais forte, comovido.

– Erling, eu preciso vê-lo. – ela falou de repente, encarando-o com os olhos molhados.
– Acho que isso não será possível, Celi, em Azkaban eles…
– Eu sou chefe dos aurores que estão lá, e eu quero vê-lo! – ela soltou-se e disse firmemente – Eu vou, Erling. Agora.
– A… Agora? Mas…

Não deu tempo de ele terminar a frase. Celebriant saiu da sala, e Erling correu atrás dela. Assim que alcançou-a, segurou seu braço, mas a mulher não parou de andar.

– Eu vou com você então. Não posso deixá-la ir vê-lo sozinha nesse estado.
Celebriant não respondeu, apenas encarou-o agradecida e os dois aparataram.
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– É aqui. – Erling falou, encarando a porta escura.
– Posso vê-lo antes? A sós?
– Não acho que seja uma boa idéia, Celi. Se ele não estiver com suas faculdades mentais no seu estado normal, o que ele não pode fazer?
– Ele está algemado, Erling – ela resmungou, apertando seus braços contra o corpo – Não acho que poderá me fazer algum mal. E ainda acredito que ele está são.
– Eu também acredito, Celebriant.
– Então deixe-me entrar antes. Prometo que se algo acontecer, eu saio imediatamente.
– Combinados. Qualquer coisa grite meu nome, que gritando consigo ouvir aqui de fora.
– Não será necessário, verá.
E, dizendo isso, ela abriu a porta de ferro, entrando na cela de Alric Roth em Azkaban.
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Então era assim que viviam os condenados à Azkaban. Alric sentia muito frio e as algemas em seus pulsos e pernas esfriavam mais ainda seu corpo. Ouviu um barulho da porta e sentiu-se enojado. Não comia quase nada desde que entrara ali, e a comida era muito desagradável. Levantou a cabeça para ver o que era a nojeira do dia quando a viu.

– Al… Alric?

Por alguns instantes ele achou que estivesse sonhando. Balançou a cabeça, murmurando para si mesmo que ela não estava ali, que aquilo era mais uma alucinação provinda de seu tempo preso ali.

– Alric, eu estou aqui.

Seu coração palpitou. Ela realmente estava ali?
– Celi?

A mulher sorriu, afagando os próprios braços.

– Alric! – ela sussurrou, como se estivesse saboreando o gosto da palavra, mas parecendo com medo de se aproximar – Você… está bem?
– Eu… quanto tempo?

Ele nem sabia o que dizer. Queria dizer tantas coisas, milhares daquelas que perpassaram sua mente nos últimos três… ou seriam dois meses? Não sabia quanto tempo fora, mas fora muito tempo sem nem sequer vê-la.

– Quanto tempo? – ela falou, dando um passo para trás e parecendo terrivelmente angustiada com a situação.
– Sim… há quanto tempo que não nos vemos?
– Ah… com toda essa história, eu… eu só consegui fazer com que Erling me trouxesse agora… me desculpe.
– Erling… está aí?
– Está ali fora. Pedi para entrar primeiro, pois eu… queria te ver.
– Não queria me ver! – ele gritou, num impulso.

Alric fechou sua boca no segundo que gritou. Celebriant deu mais um passo para trás, se afastando cada vez mais dele. O que deu nele para gritar com ela desse jeito?

– Não vim antes porque estava com medo de você… ter enlouquecido! – ela disse, parecendo chorosa – Eu… não conseguia suportar a idéia disso!
– Não digas essas coisas, Celi! – ele levantou-se, com esforço, e caminhou na direção dela, estendendo os braços – Você me mantém são!
Celebriant, ainda parecendo temerosa, saltou para trás quando ele se aproximou e colocou a mão a frente, com medo.

– Por que… por que se afastou?

Alric finalmente percebeu o que estava acontecendo: estava amedrontando-a. Ele deveria estar realmente sujo e assustador naquele estado.

– Está com medo de mim, Celi?
– Eu… estou com medo de você, Alric. O pouco que lhe conheço não me faz ter certeza de como você está… mas depois de ter tirado sua irmã daqui e eu ter te chantageado eu fiquei muito mal. Achei que você estaria muito brabo comigo.
– Mal? Eu… não entendo.
– Me perdoe, Alric!
Por alguns instantes Alric achou que estava delirando, mas logo viu que era real: Celebriant estava chorando.

– Por minha culpa sua irmã achou as provas e mandou para o seu irmão! Se não fosse por mim você não estaria aqui!
– Não, Celi, não seja boba… eu não devia ter ajudado ela… a culpa foi minha… não se culpe!
– Mas as provas… fui quem as fez! – ela encarou-o, chorosa.
– Não existiriam se eu não a tivesse soltado, Celi…
         Rapidamente a mulher correu em sua direção, derrubando-o no chão com a força que o abraçou. Apertando-a terrivelmente, Alric achou por alguns instantes que finalmente voltara a ficar totalmente são.
– Eu não consigo não me culpar… – ela ainda resmungou, abraçando-o.
– Não se culpe, Celi… – ele cheirou os cabelos loiros dela, sentindo uma felicidade crescer dentro de si –  A culpa foi minha… eu não devia tê-la envolvido nisso, meu… amor.
– Meu amor? – ela encarou-o, séria.
– Sim, Celi… eu te amo…
– Eu… também te amo, Alric…

Instintivamente ele puxou-a e beijou-a vorazmente. Sentia vontade de possuí-la novamente, ali mesmo, tanto era o desejo que se apossou dele ao vê-la ali, tão frágil e sentindo-se tão mal por culpa dele. Celebriant correspondeu o beijo, e, quando se soltaram, ela se afastou, parecendo confusa.

– Celi…
– Não, Alric. Por isso mesmo que não posso deixar de me sentir culpada. – ela sorriu e foi a vez de Alric sentir-se mal: era o sorriso mais ameaçador que vira na vida – Porque fui eu quem tramou tudo para você ser preso.
– Co…como? O que está dizendo Celi?
– Isso mesmo que você ouviu, meu amor. – ela sussurrou, maldosamente – Eu que fiz a Angellore mandar as provas ao seu irmão, fui eu quem organizou a ida a sua casa e fui eu quem tramou tudo para sua ruína.
Os segundos seguintes fizeram com que Alric se sentisse caindo do céu para o inferno. Então foi ela? Ela quem o colocara ali? Ela que há poucos segundos havia dito que o amava?

– Você… então você… – sua voz saiu carregada de raiva e ele encarou-a, delirante – VOCÊ É A CULPADA?
 O… o que está dizendo, Alric? – disse ela, parecendo confusa.

Alric encarou-a por alguns segundos, incrédulo. Se ela estava se fazendo de sonsa ou era sua mente que estava lhe pregando peças, Alric não sabia, mas o impulso da raiva de estar preso ali foi tão grande que ele não se controlou e gritou:

– VOCÊ NÃO PRESTA, CLEAVER, VOCÊ É A CULPADA! VOCÊ ARMOU TUDO!
– Alric? – ela sussurrou, mais assustada que antes.
– Você armou tudo, então? Como pôde fazer isso comigo? COMO? Sua maldita, é VOCÊ quem deveria estar AQUI!

Novamente o rosto dela se transfigurou, e ela sorria, deliciada com a raiva dele.
– Você está no lugar que merece, Alric, por ser um idiota de acreditar na bondade dos outros… principalmente na da sua irmã.
– VOCÊ NÃO PRESTA, CLEAVER! – ele avançou para cima dela, sem dó, e agarrou-a pelo pescoço – ERLING IRÁ TE COLOCAR EM AZKABAN! É ONDE VOCÊ TEM QUE ESTAR, VOCÊ TEM QUE FICAR AQUI! VOCÊ É CULPADA! TRAIDORA!
– Alric, você enlouqueceu! – ela resmungou, tentando se soltar dos braços do homem – PORQUE ESTÁ DIZENDO ISSO???

– Você é a culpada! NÃO FINJA, sua desgraçada!

O olhar dela mudou novamente e Alric ficou atônito.
– Isso mesmo, meu amor. Continue assim! – ela sussurrou, parecendo borbulhar de felicidade.
– Pare…  – ele falou, tremendo de ódio e de medo – Pare agora, Cleaver! Assuma o que fez! Traidora! Traidora! Você… merece MORRER!
Finalmente ele sentiu a raiva dominá-lo e apertou com toda sua força o pescoço dela.

– Er… ERLING! – ela gritou, parecendo desesperada e gastando suas últimas forças.
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Erling sentou-se do lado de fora, numa cadeira destinada a qualquer auror que fosse vigiar aquela cela. Ele sabia que não havia necessidade de vigiar Alric, pois ele não era alguém perigoso, mas sim o ex-chefe dos aurores que cometera um erro besta. Pensando nisso, ele ficou vagando em suas idéias de como seu irmão fora tão bobo em acreditar naquela comensal. Alric era bom, às vezes até demais.
Já fazia um bom tempo que ouvia apenas sussurros do outro lado da porta e assustou-se ao ouvir Alric gritar.
– VOCÊ NÃO PRESTA, CLEAVER, VOCÊ É A CULPADA! VOCÊ ARMOU TUDO!
Erling levantou-se, surpreso. Seria mesmo seu irmão que gritava daquele jeito? Aproximou-se da porta e ouviu novamente.
– VOCÊ NÃO PRESTA, CLEAVER! ERLING IRÁ TE COLOCAR EM AZKABAN! É ONDE VOCÊ TEM QUE ESTAR, VOCÊ TEM QUE FICAR AQUI! VOCÊ É CULPADA! TRAIDORA!
– PORQUE ESTÁ DIZENDO ISSO?
A voz da mulher pareceu tão aterrorizada que Erling sentiu um frio passar por sua espinha. Seria mesmo seguro deixá-la sozinha com ele? Foi então que ouviu a frase que o deixou petrificado.
        
– Você… merece MORRER!
Erling correu para abrir a porta e chocou-se em ouvir Celebriant gritando por ele. Com um rápido movimento da varinha a porta se abriu, e Erling não teve tempo para ficar chocado: Celebriant estava nas mãos de Alric, totalmente sem ar. Novamente movimentou sua varinha, fazendo com que o irmão voasse contra a parede oposta, libertando Celebriant, que caiu no chão, parecendo morta.

– Por Merlin! Celebriant! – Ele correu até ela, e virou-a. Não estava morta, mas seu pescoço estava muito machucado e ela respirava com dificuldade.
– Erling! – murmurou Alric, parecendo enlouquecido – PRENDA-A , ERLING! Foi ela que me pôs aqui, é ela quem deveria estar aqui!
– Você enlouqueceu, Alric! Sabe quem tentou matar?
– A mulher asquerosa que me pôs aqui, Erling, você tem que acreditar em mim! Ela me disse, ela me disse que foi ela quem tramou tudo, foi ela quem fez tudo…
– ALRIC!

Ao ouvir seu nome tão alto, Alric encolheu-se, assustado.

– Você está fora de si, meu irmão. Eu vou levá-la ao St. Mungus, e você, pense bem no que está dizendo. Essa mulher está movendo mundos lá fora para retirá-lo daqui e quando vem vê-lo quase é morta por você! Que tipo de agradecimento seria esse?
– Erling, eu… não queria, mas ela disse que…
– Se alguma coisa acontecer com ela, será mais uma pena para suas costas! E eu não estarei ao seu lado!

E, antes de  ele responder, Erling pegou uma Celebriant sem ar no colo e retirou-a dali.


          Capítulo Quinze – A irmã esquecida
Angellore estava na casa de Merus, revendo alguns planos para recuperar mais um artefato a mando do Lord, quando o alarme de intrusos soou. Merus levantou-se, com a varinha em mãos, pronto para atacar. Dentro dos limites da residência não havia uma pessoa que não fossem os dois e Merus checou isso, aparatando em cada cômodo da casa. Quando ele estava voltando de sua ronda, uma mulher de cabelos negros apareceu na frente dele, sorrindo.

– Isso é o que você chama de proteção, Merus? Qualquer comensal japonês teria entrado facilmente nesse lugar.

Merus apontou a varinha para a mulher, lançando um feitiço, que foi devidamente bloqueado. Antes que Angellore pudesse sequer lançar um feitiço, a mulher fez com que a varinha dos dois voasse longe.

– Quanta violência! – ela levantou a manga do vestido do braço esquerdo, e ali, brilhava intensamente uma marca negra. – Estamos do mesmo lado, queridos.Angellore encarou a mulher longamente, tentando entender de onde aquele sorriso insuportável e aquele jeito vinham. E então ela se lembrou.
– Céus! Lunne Cleaver?- Finalmente! Tenho que fazer o possível para lembrar-lhes minha irmã, para assim vocês me reconhecerem. Que coisa mais chata!
– Lunne Cleaver? – Merus murmurou, parecendo menos ameaçador – Você não tinha desaparecido depois que terminamos Hogwarts?
– Não confunda, Merus. Meus pais desapareceram, Celebriant ficou por aqui e eu fui para o Japão. Um lugar fabuloso, para os comensais. Não tem idéia de quanta diversão temos por lá, enquanto trabalhamos para o Lord.
– Perdoe minha intolerância, ma cherrie – falou Merus, pegando sua varinha e conjurando bebidas – Sente-se.

Lunne sentou-se e, pegando um copo de uísque de fogo, sorriu.

– O que faz você por aqui? – Angellore perguntou, sentando-se também.
– Então vocês não ficaram sabendo? Oh, que coisa mais triste. Minha irmã está no St. Mungus.
– Celebriant? Mas por quê? – Angellore perguntou, desconfiada.
– Parece que foi atacada por alguém em Azkaban, numa visita, pelo que O’Duck me informou.

Angellore começou a rir.

– Se for quem eu estou pensando, acho que eu deveria estar é pasma e não rindo.
– Não sei quem é, mas o pobre O’Duck estava desesperado, achando que Celizinha não passaria de hoje… e então, me mandou uma coruja, pedindo que alguém viesse. Como só eu existo da família dela, aqui estou. Mas, se conheço minha irmã, isso provavelmente estava planejado e premeditado.

Lunne levantou-se, jogando a cabeça para trás e tomando o último gole de uísque de fogo.

– Agora, vou atrás dela. Conversaremos melhor depois, Merus. Até mais, DeLynx.

E, sem dizer mais nada, saiu da sala.
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Erling andava de um lado para o outro no St. Mungus, à espera de alguma notícia de Celebriant. Sentiu uma mão às suas costas, e virou-se, encarando uma morena alta, com os olhos tremendamente verdes.
– Você é o Sr. O’Duck?
– Eu mesmo. E você é?
– Lunne. Onde está minha irmã?
         
A mulher não parecia nem um pouco preocupada com sua irmã, mas não era um desleixo, mas sim como se ela já soubesse como a mulher estava.
– Ainda não tive notícias! Esses curandeiros estão demorando demais…
– O que houve com ela?
– A senhorita sabe alguma coisa a respeito de tudo o que aconteceu por aqui?
– Não. Não a vejo há sete anos. – murmurou a mulher, olhando em volta tranqüilamente.
– Sete… sete anos? – engasgou Erling, surpreso.
– Exato. Ei, você! – ela gritou para um curandeiro que passava – Preciso conversar com você!
         
Ela saiu, balançando os cabelos negros, sem nem sequer falar mais nada com ele.
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Lunne entrou no quarto onde estava Celebriant, fazendo uma pequena reverência para o curandeiro que a ajudara a entrar ali. Em Londres ainda não era uma conhecida comensal, então todos se desdobravam em ajudar uma mulher tão rica e linda como ela.
Sua irmã estava sentada, tentando retirar os vários aparelhos bruxos conectados a ela. O pescoço dela estava arroxeado, mas não parecia ter danos maiores. Assim que ela percebeu sua presença, parou o que estava fazendo e encarou-a.
         
– Estou tendo alucinações ou seria minha irmã parada ao meu lado?
– Prazer em vê-la também, querida.
– O que está fazendo aqui? – ela disse, voltando a retirar os aparelhos.
– O’Duck mandou uma coruja para alguém da sua família… eu fui a única que poderia receber seu recado.
– Oh, ele fez isso. – ela resmungou, parecendo entediada – Aquele homem é muito bom, sabe? Não é toa que é fácil de ser logrado.
– O que foi dessa vez, Celi? Andou metida em encrenca?

Celebriant começou a rir fracamente, massageando o pescoço.
– Não é encrenca! Foi um plano bem sucedido, apenas isso. – ela terminou de retirar os equipamentos e levantou-se, espreguiçando-se.
– Então, isso para mim se chama encrenca. – comentou Lunne, sentando-se na cadeira dos visitantes.
– Ora, Lunne, não se faça de santa. Justo você, que tem uma marca negra brilhando nesse braço branco. – ela falou, aproximando-se da irmã e segurando seu braço esquerdo.
– Quieta, Celi. – Lunne levantou-se, ficando rosto a rosto com a irmã, ameaçadora.
Celebriant deu um meio sorriso, que, em instantes, se transformou numa gargalhada.
– Ah, os velhos tempos. – ela resmungou, alegre, enquanto soltava-se da irmã e caminhava até a sua cama – Enfim, o que veio fazer aqui? Com certeza não está aqui para visitar sua irmã doente que foi atacada por um maníaco em Azkaban.
– Aproveitei a deixa para me encontrar com um antigo colega.
– Você e seus casos amorosos – Celebriant revirou os olhos.
– Você que não aproveita seus dotes manipuladores para esse lado.
– Eu uso, mas com um fim, não apenas por diversão. Só sinto vontade de fazer se tenho algo a mais em mente. Nunca vi nenhum homem que pudesse me fazer sentir algo.
– Até porque, você nunca sentiu nada, não é?

Celebriant sorriu sinistramente e suspirou.
– Bom, agora me deixe “acordar”, irmã. Preciso que você avise os curandeiros que acordei, e ao Erling também… mas comente que estou terrivelmente chocada e aturdida com tudo o que aconteceu. Nos vemos na minha casa, mais tarde?
– Com certeza. Até mais, irmãzinha.
E, dizendo isso, Lunne saiu do quarto, indo ao encontro do excelentíssimo senhor O’Duck.

FIC – Legacy


Capítulo Doze – Vitória, problemas e conquista
Sentada na cadeira de Alric, Celebriant mal podia conter sua felicidade. A sala parecia agora menos aconchegante do que um dia parecera com Alric sentado naquela cadeira, mas nada que não pudesse melhorar. Pensando nele, sentiu um leve sorriso formar-se em seus lábios.
Lembrou-se do dia seguinte a prisão, em que ela chorara tanto a ponto de fazer com que Erling sugerisse que ela repousasse, e tentando “consolá-la”, mostrando que ela não estava errada em sugerir a busca na casa de Alric. Quando chegara em casa, Ulrich a esperava, para comemorarem juntos o sucesso do plano. Apesar do homem mal saber direito o que fizera, Celebriant estava feliz que podia ter alguém com quem… contar.
A porta do QG abriu-se e Erling entrou por ela, fazendo com que Celebriant tomasse um ar mais sério.
– Srta. Cleaver, desculpe a intromissão, mas eu preciso falar-lhe.
– À vontade, O’Duck. Sabe muito bem que não precisa pedir permissão para falar comigo.
Ele sentou-se de frente para ela, parecendo preocupado.
– Tivemos um sério problema ontem à noite.
Celebriant sentiu uma raiva invadi-la, mas respirou fundo e se controlou.
– E eu não fui avisada? – sua voz saiu tão doce que impulsionou Erling a continuar.
– Na verdade, não é realmente algo da nossa jurisdição, mas como auror qualificado, acredito que possamos intervir.
– Prossiga – ela murmurou, aproximando-se da mesa.
– Lembra-se do Lofts, que ocupava o cargo de Chefe do Departamento de Biblioteconomia do Ministério, na administração das obras raras e sigilosas?
– Claro que sim. Um homem realmente profissional – ela disse, dando um aceno com a cabeça em afirmação.
A grande verdade era que aquele homem havia ajudado-a, e muito, a conseguir informações para os comensais, quando ainda não tinha esse cargo.
– Ele foi… bem, ele morreu ontem à noite, parecendo ter tido um ataque cardíaco fulminante. Todos os testes para poções de envenenamento deram negativo, e nenhum feitiço foi jogado nele.
– Certo – Celebriant encostou-se na poltrona.
Aquilo sim era um problema.
– Na verdade, o que vim sugerir, é que sabemos que esse cargo é perigoso, e devemos escolher alguém de confiança – Erling parecia extremamente convicto do que dizia.
– Está dizendo que quer que interfiramos no processo de escolha do Ministério?
– Sim e não. Acho que devemos conhecer o novo administrador e ver se ele realmente é honesto e de confiança.
Celebriant parou. Realmente… ela precisava ver o quão corruptível era esse novo Chefe do Departamento de Biblioteconomia do Ministério.
– Hum… tem razão, O’Duck. Verei o que fazer. Já escolheram o substituto?
– Sim. Chama-se Ethan Kennicot.
– Assim que possível irei conversar com ele. Veremos se ele eqüivale ao seu antecessor.
Erling deu um sorriso amarelo e levantou-se, pronto para sair, mas Celebriant chamou-o de volta.
– Erling… quanto à… à… – ela suspirou falsamente, dando um ar sombrio a seu rosto – Alric?
O homem voltou-se para a porta, mal ousando encará-la.
– Será julgado. Não há nada que possamos fazer agora.
– Nada? – ela murmurou com um fiapo de voz.
– Nada. Você é a nova chefe dos aurores. Pense no seu trabalho agora e esqueça Alric. Ele vai pagar pelos erros dele.
E, sem dizer mais nada, ele saiu da sala, fechando a porta. Celebriant sorriu, triunfante. Alric finalmente estava fora de ação. Ele seria condenado e ela continuaria ali, sentada na cadeira que um dia fora dele. Pobre, pobre Alric.
A sala continuava parecendo uma bagunça, apesar do dono ser outro. Celebriant não notou diferença nenhuma no lugar, exceto, quem sabe, as cadeiras no lugar e as escadas fora do lugar. Olhou em volta, procurando Kennicot. Ninguém o havia visto, além do Ministro da Magia, portanto não tinha uma descrição física do homem.
Ao ver um bruxo ao longe, teve a certeza absoluta de ser quem procurava. Aproximou-se dele, que estava concentrado em alguns papéis e nem notou sua presença. Poderia tê-lo matado ali mesmo que ele nem teria se mexido.
Fez um barulho com a garganta, fazendo o homem pular da cadeira e encará-la, assustado.
– Bom dia, Kennicot. Meu nome é Celebriant Cleaver. Sou a Chefe dos Aurores.
– Bom dia, Srta. Cleaver. – ele murmurou, levantando-se e ajeitando os óculos para cumprimentá-la.
Celebriant não deixou de perceber que ele a olhara de cima abaixo antes de estender-lhe a mão.
– Vim apenas conhecê-lo. Seu antecessor era um grande amigo, que me ajudava muito em algumas pesquisas que tive que fazer graças ao meu trabalho.
– Ajudarei no que puder, senhorita, desde que isso seja possível.
Celebriant não gostou dele. Sentia a honestidade em cada palavra pronunciada.
– Esse é um cargo de responsabilidade e muito perigoso… sabe disso, Kennicot?
O homem empertigou-se, sorrindo para ela.
– Não me deixarei seduzir por nenhum galeão que possam me oferecer. Esse lugar é sigiloso, e assim também eu o serei.
– Ah, claro. Que bom saber disso – ela resmungou, sorrindo bondosamente – Fico contente que o ministro tenha escolhido alguém à altura.
Ele apenas fez um aceno com a cabeça, desviando o olhar dela. Não gostou do homem e sentiu que o sentimento era recíproco. Teria que dar um jeito de tirar essa honestidade dele, se quisesse alguns documentos dessa sala.
– Bom, agora voltarei à minha sala. Qualquer coisa que precisar, sabe meu nome e onde é minha sala – ela disse, estendendo-lhe a mão.
– Obrigado – ele resmungou, apertando a mão dela friamente, e virando-se para os papéis que olhava antes dela chegar.
Sentindo-se frustrada, saiu da sala. Precisava conversar com Angellore. Aquele homem tinha um ponto fraco e Celebriant sentia que sabia qual era. E somente a comensal poderia cuidar dessa parte.
Angellore estava há duas semanas estudando a rotina de Ethan Kennicot, desde a última conversa que tivera com Celebriant. Pela primeira vez odiava a morte de alguém do ministério. Lofts, mal ou bem, era fácil de ser corrompido e chantageado com seus vícios e pontos fracos, porém, pelo que observava, Kennicot seria um problema. E ela odiava problemas.
Pensou em vários métodos para corromper o bibliotecário e em todos eles encontrava sérias falhas.
 “Conquiste Kennicot ou o seduza. Faça o que for preciso! O ponto fraco dele com certeza é o sexo. Essas informações são vitais tanto para mim quanto para o seu Lord, Angellore. Ele precisa estar do nosso lado.”
Lembrava-se da conversa com a loira como se ela houvesse acontecido há poucos minutos e bufava de irritação cada vez que pensava no jeito como ela fazia parecer simples.
Estudou o passado de Kennicot, mandando alguns comensais menores investigarem os amigos e a família do homem. Alguma coisa ela tinha que descobrir. Celebriant lhe dissera que o sexo era ponto fraco dele, o que realmente era típico já que se tratava de um homem, porém não podia simplesmente chegar nele, jogá-lo na cama e satisfazê-lo até a exaustão para que depois conseguissem as informações.
Por mais neutro que ele fosse, com certeza a prenderia ao vê-la, sendo ou não fraco quando se tratava de sexo. Se houvesse apenas alguma chance…
Pegou um dos relatórios que ainda não havia lido.
“Ethan sempre foi desligado. Por mais que ele amasse livros e fosse estudioso, nunca sabia o que estava acontecendo ao seu redor. Demorava meses até perceber um corte de cabelo meu. Até mesmo quando a irmã foi para Hogwarts, ele só percebeu que ela já tinha onze anos quando não a viu em casa num dia de aula’, disse sua mãe.”
Então o homem era desligado. Talvez houvesse uma mínima chance dele não reconhecê-la durante um tempo. Sorriu enquanto mil idéias passavam por sua cabeça.
Aproximou-se dele na livraria, carregando vários livros, o suficiente para não enxergá-lo e, num acidente teatral, esbarrou nele deixando a pilha de livros cair no chão. Abaixou-se e pegou os óculos que nunca usava e que haviam caído no chão, dando ainda mais realismo à personalidade que deixara aflorar para se aproximar dele. Viu-o se abaixar, praguejando enquanto a ajudava a recolher os livros.
– Desculpe, eu estava distraído e… – ao sentir a fala dele parar, olhou para cima, vendo que ele observava o decote que se instalara na blusa ao abaixar-se.
– A culpa foi minha, eu estava com tantos livros e acabei não vendo um palmo à minha frente. – falou, sorrindo como a boa moça que sabia ser.
– Ethan… Ethan Kennicot. – o ouviu dizer, apresentando-se com um sorriso no rosto.
– Elize Von Haüssel. Liz. – Angellore disse, utilizando seu nome de meio e outro sobrenome e sorriu, pegando o último livro ao levantar-se de forma que ele tivesse uma visão privilegiada de suas pernas. – Bom, eu preciso pagar isso para começar minhas pesquisas…
– Sobre celtas? Um tema um tanto quanto…
– Trouxa. Sim, eu sei. Estou fazendo um estudo sobre as diferenças observadas entre a bruxaria celta, e a nossa e informação nunca é suficiente ao ponto de não buscarmos mais, certo? Até mais, foi um prazer conhecê-lo, apesar do esbarrão.
Angellore adiantou-se, afastando dele, mas sua passagem foi bloqueada pelo mesmo.
– Espere. Você, ahn… Gostaria de tomar um café comigo? Eu sei bastante sobre celtas, poderia te ajudar com a sua pesquisa.
– Hum… Bem.. Acho que mal não fará, certo? Pode ser em alguma cafeteria aqui por perto? Minha casa está um pequeno caos, estou reordenando meus livros por categorias e, dentro de cada categoria estou organizando-os em subcategorias e finalmente em ordem alfabética. Um trabalho danado que tirou qualquer espaço que poderia servir de mesa ou cadeira, mas vai valer a pena.
– Bom, se você não se importar, poderíamos ir para minha casa, não conheço nenhuma cafeteria aqui por perto. Prometo que não sou nenhum louco assassino. – sorriu e Angellore quase respondeu “mas eu sim”, porém controlou-se.
– Tudo bem. Fica muito longe?
– Não, não… É naquele prédio ali. – respondeu, apontando para o prédio que Angellore observava há dias. – Vamos?
Assentiu e o seguiu, após pagarem os livros que comprariam.
Repousou alguns livros sobre uma mesinha e olhou ao redor percebendo que possuía mais em comum com Ethan Kennicot do que pensava possuir. Se não fosse a honestidade absurda dele, poderia até cogitar a idéia de torná-lo um comensal.
Afastou tais pensamentos e virou-se para ele, sorrindo.
– Bela casa. Eu poderia viver aqui fácil. É muito parecida com a minha. – respondeu, sem mentiras. – Bem, acho que o senhor me prometeu um café, não?
– Ah, sim! Claro! – respondeu, parando de olhá-la e dirigindo-se a cozinha.
Angellore aproveitou para lançar um feitiço na saia, subindo-a alguns centímetros enquanto folgava a fita que prendia a blusa, abrindo ainda mais o decote. Sentou-se e, sem precisar pensar duas vezes, abriu os livros que acabara de comprar, debruçando-se na mesa de forma a exibir o decote de forma descontraída e casual.
Quando Kennicot voltou com os cafés, observou com prazer o olhar dele recaindo sobre seu decote, fazendo-o perder momentaneamente a fala, sentando-se ao seu lado, logo em seguida.
Estava lá há mais tempo do que havia planejado e começou a preocupar-se quando flertar com ele não lhe parecia mais parte de uma missão, mas sim um pequeno prazer.
– Ethan… Me convide para jantar hoje, aqui com você.
– Eu…
– Agora, antes que eu recobre a consciência e aparate para bem longe de você e seus perigos.
– Perigos? – perguntou, confuso, sem entender o que ela queria dizer com isso.
– Sim, perigos. Você está me fazendo flertar com você e eu nunca faço isso e isso é motivo suficiente para achá-lo perigoso para mim. Peça-me para ficar para o jantar antes que eu volte ao meu juízo e nunca mais o veja.
– Fique para o jantar. – Ethan disse, aproximando-se, roçando seu rosto no dela. – Fique para o café da manhã. – pediu, sussurrando em seu ouvido pouco antes de puxá-la para si e beijá-la como desejava fazer desde que a vira, abaixada na livraria catando milhares de livros.
Angellore cedeu, tentando convencer a si mesma que a única razão para isso era a missão e que o fato de ter seduzido-o assim fácil era nada mais do que um objetivo alcançado com sucesso igual a qualquer outro, fosse ele de espionagem ou batalha. Apenas a guerra e seus deveres eram os motivos que a faziam permanecer naquele apartamento com ele e não a vontade absurda que tinha de estar com alguém como não sentia desde Halbran.
Ao pensar em seu ex, afastou-se de Ethan.
– Você é perigoso.
– E você gosta de perigo, não? – perguntou, com um sorriso que, tanto Angellore, comensal cruel com um objetivo em mente, quanto Elize, pesquisadora tímida e devoradora de livros, apreciavam.
– Estou começando a achar que sim. – respondeu, levantando-se da cadeira onde estava sentada, puxando-o para si até suas costas encostarem em uma parede repleta de livros. – Mas acho que preciso de uma dose a mais de perigo para poder te responder com certeza.
Ethan riu, voltando a beijá-la logo em seguida, puxando suas pernas, fazendo com que ela o enlaçasse com pernas e braços enquanto a carregava para seu quarto, deixando o jantar completamente esquecido.

Capítulo Treze – O novo diretor de Oxford
Halbran estava estressado. Essa mudança de cargos, de uma hora para outra deixou-o de cabelo em pé. Não que não desejasse o cargo de Diretor Bruxo de Oxford – era um de seus maiores desejos cuidar daquela universidade – , mas não naquele momento. Não depois que o último diretor deixara roubar um dos mais poderosos artefatos da universidade, que estava sem defesa alguma, o que facilitou muito para os comensais.
Quando se imaginava sendo nomeado diretor, se via sorrindo, recebendo uma festa de comemoração e pulando de alegria. Mas assim que o informaram, sentiu o peso que caía sobre suas costas. Olhou no relógio grande da sala onde estava e assustou-se. Tinha uma reunião com o novo chefe dos aurores que deveria ter começado há meia hora.
Rapidamente despediu-se de seus colegas, que nada faziam para ajudá-lo – apenas queriam tirar o corpo fora dos problemas – e correu pelos corredores em direção à sua sala. Com um toque da varinha, arrumou-a de modo a parecer descontraída e nada ameaçadora. Essa reunião era muito importante para o antigo diretor, que, ainda tentando se manter no cargo, discutiria as formas de prevenção de ataques, fazendo uma lista completa dos patrimônios da universidade. Para ele, tornou-se também uma questão importante ao ver por “onde a carruagem andava por lá”.
Deu um toque à sua secretária e ela abriu a porta, deixando o novo chefe dos aurores passar. Ele levantou-se, olhando para a porta e sorriu. Mas seu sorriso murchou e sumiu em segundos, e, no lugar dele, sentiu um ódio mortal.
– Ora, ora. – a mulher murmurou, parecendo surpresa.
Celebriant de Bran Cleaver. Sua prima. Chefe dos aurores. Só podia ser uma brincadeira.
– Halbran de Bran. – ela falou o nome tão cinicamente, que Halbran sentiu-se intimidado – Se eu soubesse quem era o novo diretor de Oxford, ficaria surpresa com o atraso, priminho. Mas que surpresa mais… agradável.
Ele continuou olhando-a, incrédulo.
– Já eu não posso dizer o mesmo. – ele sentou-se, irritado – Como conseguiu o cargo, Cleaver?
– Não da mesma forma que você, é claro. Como se sente apenas fechando um buraco? – ela disse, sorrindo maliciosamente.
– E não foi o que você fez depois dos atos do Roth?
– Sem implicâncias, priminho. É justamente sobre ele que vim conversar.
– Sobre ele? Essa reunião não tinha sido marcada pelo outro diretor?

A expressão dela mudou, parecendo muito cansada. Halbran continou encarando-a, desconfiado.

– Alric é inocente – ela resmungou depois de alguns minutos.
– Não foi o que eu ouvi por aí… E mesmo que fosse, porque viria conversar comigo?
– Porque por mais que nossa implicância seja mútua, meu sentimento por Alric ultrapassa esse tipo de ladainha.
Halbran olhou duas vezes para ela, e, antes que pudesse segurar, começou a rir.
– E desde quando você tem sentimentos?
Ele a viu respirar fundo, cruzar os braços e sorrir cinicamente.
– E desde quando você se tornou tão… amargurado?
– Não mude de assunto, Cleaver… – ele resmungou, fechando a cara rapidamente – Digamos que eu acredite na sua encenação… O que quer comigo? Não viria até aqui, pelo jeito sabendo que eu era o novo diretor, se não tivesse algum interesse.

– Claro que tenho. Uma coisa que só você pode me oferecer, infelizmente.
– Essa é a Celebriant que conheço. Sem delongas, o que quer? – ele se apoiou na mesa, entediado.
– Uma ficha completa de todos os funcionários e ex-funcionários desse lugar. – ela apoiou-se também, ficando a centímetros dele.
– E no que isso te adiantaria para provar que ele é inocente? O que você realmente quer com isso, Cleaver? Não tem nada a ver com Alric.
– Isso não lhe interessa, de Bran. – ela sorriu, encostando-se na cadeira agora.
– Não posso fazer nada por você então. Era só isso?

Agora foi a vez dele encostar-se na cadeira. Celebriant era uma víbora, alguém que não se devia confiar. Esse tipo de cena só provava que o que ela realmente queria era algo muito além disso.

– Não pode, priminho? Então tudo bem! – ela sorriu, misteriosa, levantando-se e dirigindo-se até a porta – Ah! Quase me esqueci! – ela voltou e segurou o espaldar da cadeira com as duas mãos – Seu reencontro com Angellore foi animador?
Halbran demorou alguns instantes para entender, mas sentiu um frio na espinha quando percebeu o nome que ela havia mencionado.

– O… o quê disse?
– Oh, então é verdade? – ela deu a volta na cadeira, espalmando as mãos na mesa e olhando-o de perto – Achei que poderia lembrá-lo que sei mais coisas que você pensa, de Bran. Como esse seu último reencontro com uma foragida do ministério, com todas as chances de prova. – ela fez um movimento com a varinha e várias fotografias apareceram na mesa – Então, terei sua ajuda?

Mais de vinte fotografias estavam espalhadas pela mesa. Em todas elas, cenas que pareciam, a quem visse, realmente íntimas. E os protagonistas da vez eram ele e Angellore. Ele sabia que nada demais havia acontecido: ele havia encontrado Angellore fugindo, conversaram dois minutos e assim, ela se foi. Como ia imaginar que Celebriant estaria ali, tirando fotos em momentos que pareciam ser muito mais comprometedores que uma simples conversa? Continuou vendo as fotos, sentindo raiva de Celebriant. Essa mulher, sempre! Sempre ela a estragar tudo! Sempre chantageando, desde que a conhecera. Sem contar tudo o que a família dela havia feito…

– Responda, de Bran.

A voz dela tirou-o de seus devaneios no momento que lembrava de seus pais. Seu ódio triplicou, se é que isso era possível. Não havia outro meio. Estava encurralado.

– Para quando precisa dessa lista? – ele resmungou, irritado.
– O mais rápido que sua excelência, o diretor, puder. Mas eu preferia que fosse no mais tardar o final dessa semana.

Halbran encarou-a, temeroso. O sorriso dela era de alguém prestes a fazer o mal. Oxford tomou conta do seu pensamento e ele tremeu. O novo diretor bruxo, prestes a dar informações valiosas à… bem, à alguém como ela.

– O que você realmente quer com isso, Cleaver?
Ela sorriu, parecendo deliciar-se com o medo dele.

– Do que está com medo, de Bran?
– De prejudicar Oxford por causa dos seus planos.
– Oxford não será prejudicada, muito pelo contrário. A partir da semana que vem alguns aurores estarão aqui de plantão para o caso de mais alguma invasão. E tudo o que me passar será somente para mim e será mantido em sigilo. Após o uso, essa lista será queimada.
– Está certo, Cleaver. Mas DESAPAREÇA com essas fotos, entendido?
– Claro, querido… mas com uma condição.
Halbran sentiu novamente o frio na espinha.
– Qual? – ele perguntou, com medo.
–  Se eu precisar novamente de sua ajuda, a terei. Se não, essas fotos sem querer irão escapulir de minhas mãos. Estamos entendido.
– Temos um trato – ele respondeu, encostando-se na cadeira e suspirando, rendido.
– Muito bem. Lista até o final da semana. Au revoir, mon amour. – falou, lembrando incrivelmente a mãe dela.
Ele a viu saindo, e, quando ela fechou a porta, socou a mesa. A única coisa que ele não queria na vida era estar nas mãos de Celebriant.