FIC – Mentiras

Capítulo 24 – O filho querido

Paul estava olhando a mansão Nottinghan com certo desespero. Entrara lá dentro e vasculhara cada canto, ciente de que seu irmão estivera ali. O que ele estava procurando? Tudo havia sido vendido ou retirado da casa e não havia nada ali que pudesse interessar aquele homem a não ser cômodos vazios.

Ele estava com medo. Não tinha certeza do porque, mas não queria assustar Harry mais do que ele já estava. A obsessão do seu irmão era muito forte e vinha de muitos anos. Depois de tudo o que ele fizera, ele não tinha ideia do que poderia acontecer com Anigel. Ou do que Anigel poderia fazer a si mesma ao ver que não teria como escapar.

O curandeiro havia o procurado pela manhã. Ele disse que havia estudado alguma coisa sobre aquele tipo de feitiço há algum tempo, mas nunca havia visto algo daquela forma. Juntamente com alguns especialistas do Ministério, eles chegaram a conclusão que, além de sua memória ser apagada, algo havia sido inserido em sua mente: o rosto de Paul como o culpado.

Tirando os pensamentos negativos da cabeça, ele viu um jornal velho jogado no chão e de repente teve um vislumbre. Há alguns dias, quando Merus havia passado pelas casas, lera em um jornal trouxa sobre sua aparição. Apesar de não compreender muito bem naquela hora, naquele momento ele decidiu vasculhar os jornais dos trouxas das últimas semanas. Quem sabe haveria uma informação que pudesse ajuda-lo a encontrar Anigel, antes que fosse tarde demais?

***

À noite, Anigel colocou seu irmão novamente na cama e deu boa noite para seus pais. Estava sentindo-se bem naquela situação. Ter seus pais de volta era algo que ela não acreditava ser possível.

Quando abriu a porta do seu quarto, porém, sua felicidade se esvaiu e a tensão tomou conta do seu corpo. Não conseguia sentir-se bem perto de Merus. Ele estava ali, deitado na cama e lendo um livro tranquilamente, com toda a certeza esperando por ela.

– Venha deitar, Anigel.

Ela acenou com a cabeça e correu para o banheiro. O que ela faria?

– Está tudo bem contigo? – a voz dele perguntou lá do quarto.

– Sim – ela conseguiu resmungar – Eu já vou.

Assim que terminou de escovar os dentes e tomar um banho, já não sabia o que fazer para enrolar no banheiro e decidiu enfrentar o homem. No momento em que saiu do banheiro, porém, Merus estava de pé esperando-a.

– Tu demoraste tanto por quê?

– Eu estava tomando banho. – ela murmurou, sem saber o que falar.

– E eu estava te esperando. Acha que sou idiota? – ele grunhiu, se aproximando dela em dois passos e segurando-a pelo ombro.

– Nã-não. – ela conseguiu dizer, mesmo tremendo de pavor.

Ele puxou-a rispidamente e começou a beijá-la. Sem saber o que fazer, ela ficou parada, enquanto o homem a puxava mais para si e tentava a todo custo tirar sua roupa. Quando ele conseguiu abrir um rasgo em seu pijama, ela o empurrou. Ele cambaleou um pouco para trás, parecendo não acreditar no que ela fizera e avançou.

Anigel agiu por instinto e socou Merus no rosto.

O homem ficou parado alguns instantes, ainda a encarando incrédulo e seus olhos se tornaram insanos.

– Tu pediste isso! – ele grunhiu e tirou a varinha do casaco – Crucius!

Ela se perdeu em dor. Caiu no chão, gritando, enquanto o homem se aproximava dela e lhe dava repetidos pontapés nas costelas, pernas e costas. Ele levantava a varinha por alguns segundos antes de recomeçar a tortura e voltava a bater nela. Anigel, enfim, desmaiou.

***

Harry chegou ao QG dos aurores naquela manhã e encontrou Paul, andando de um lado para o outro.

– O que aconteceu?

– Eu ainda pesquisando algumas coisas a respeito do que o curandeiro disse. – ele disse, encarando Harry profundamente – O homem pode realmente não saber o que aconteceu, mas eu lembrei…

Ele suspirou profundamente e Harry se desesperou.

– Se você tem alguma pista, Paul, fale!

– Não é uma pista, Harry. É algo que pode explicar algumas coisas. Eu e Anigel estávamos tendo sonhos e aparições, certo? – ele disse, voltando a caminhar de um lado para o outro na sala – Eu sonhei várias vezes com ele me dizendo que logo voltaríamos para casa e suas aparições eram muito reais… E se todas as aparições fossem reais, Harry?

– Mas… eu nunca via quando Anigel mostrava! Se fossem reais elas-

– Você não compreendeu! – ele cortou Harry, fechando os punhos de raiva – E se, o que nós víamos, somente nós poderíamos ver pela nossa conexão com ele? Compreende? Não era somente Anigel que via… eu também via. E muitas vezes era como se eu estivesse em um sonho, vendo o sonho dos outros.

Ao ver o rosto espantado que Harry mostrava naquele momento, Paul aproximou-se da mesa.

– E se eu estivesse vendo os sonhos e as aparições somente pela minha conexão com ele e não porque ele queria que eu visse? E se era ele que manipulava tudo isso, para parecer que Anigel estava ficando louca?

– Se isso for verdade, não vai fazer diferença agora, Paul! – Harry respirou fundo e encarou o homem – Ela está presa em algum lugar com aquele maníaco!

– Esse é o meu ponto, Harry! Eu não deveria ver seus sonhos e pelo jeito ele não percebeu que eu tinha acesso. E então, quando cheguei a essa conclusão, eu me lembrei do que ele disse em vários pesadelos: estamos voltando para casa, Anigel.

– Casa… mas que casa?

– Eu pesquisei em alguns jornais trouxas notícias diferentes desde que Merus fugiu. Ele estava rondando algumas casas e nós achamos que era porque ele estava procurando Anigel. Mas e se ele estivesse procurando um lugar onde escondê-la? Ainda não encontrei nada demais, mas toda vez que ele apareceu em alguma das casas, uma notícia esquisita sobre roubos com a porta fechada e desaparecimentos ou qualquer coisa estranha está vinculada.

Harry travou instantaneamente.

– Eu chequei apenas a mansão dos Nottinghan e está vazia. – ele disse, ao ver a feição de Harry.

– Eu vou chamar os aurores e procurar nas outras localidades. Você procure mais notícias. – ele levantou-se num pulo e correu para a porta, mas antes de sair voltou-se para o homem – Continue procurando. Qualquer coisa sabe como me achar.

***

Ao acordar, Anigel sentiu uma dor extrema em seu braço esquerdo. Assim que tentou levantar, descobriu que ele estava envolto em uma tala. Sentia seu corpo todo dolorido e seu rosto inchado, mas não lembrava muito bem do que acontecera. Até o momento que olhou para frente e viu Merus de costas para ela na frente da janela. Toda a tortura da noite anterior voltara com o terror da lembrança.

– Desculpe pela tala mal feita. – ele falou, sem se virar para ela – Tu caíste da escada ontem e não pude fazer muito por ti.

Sentindo o pânico dominá-la, ela segurou o braço com a tala sem conseguir falar.

– Eu trouxe um presente para ti. – ele disse e ela percebeu que ele segurava alguma coisa nos braços.

No momento em que ele se virou, Anigel abriu a boca, em choque. No seu colo, um pequeno bebê dormia, envolto em cobertores.

– O que significa isso? – ela perguntou, assim que sua voz resolveu sair.

– Ora, muito simples. Pedi-te um filho e tu não me destes. Então peguei um para nós.

– Pe… pegou? – ela ainda o encarava, sem compreender.

– Sim. Há uma vila trouxa aqui em frente de casa. E eu peguei esse lindo menino! Tem seus olhos, Anigel. Olhe! – ele colocou o bebê no colo dela e o pequeno abriu os olhinhos verdes, a encarando silenciosamente.

– Mas… esse bebê tem uma mãe! – ela falou, olhando para o bebê que começara a mexer as mãozinhas gorduchas.

– Sim, Anigel. Tu és a mãe dele! – ele deu um grande sorriso.

– Não posso fazer isso! – ela tentou devolver a criança para ele, mas com o braço envolto em uma tala e o bebê no outro, não conseguiu.

– Tu podes, Anigel! – ele grunhiu, aproximando-se dela com uma fúria no olhar – Tu não quiseste me dar um filho, portanto esse será teu!

Anigel encarou o bebê e sentiu seu estomago apertar. Ele fora até aquele ponto para obriga-la. Ele sabia que ela nunca deixaria a criança ali sabendo que sua mãe estava desesperada atrás do bebê.

– Devolva essa criança. – ela disse, encarando o homem e forçando-se a ter coragem – Eu terei um filho com você.

Merus encarou-a, parecendo desconfiado, mas ele logo se aproximou dela e deu lhe um beijo na boca.

– Ah, meu amor! Tu me deixas tão feliz! – ele pegou o bebê no colo e levantou-se – Então devolverei essa criança para sua mãe! – ele estava na porta quando parou e virou-se, voltando e se sentando do lado dela na cama – Anigel, tenho que lhe informar. – ele deu um sorriso para o bebê, que tentava pegar seus cabelos – Se tu não cumprires essa promessa… – ele segurou o rosto dela com uma mão, fazendo com que ela o encarasse – Tu vais comigo até a casa dessa criança. E lá, eu irei matar esse lindo bebê na frente de sua mãe, enquanto você vai assistir. E será somente sua culpa.

Anigel assentiu, sentindo suas entranhas revirarem. Viu quando Merus saiu do quarto e levantou-se, esperando ele sair pela porta da frente. Logo depois, viu o homem passar pelo portão para levar a criança até a vila. Quando percebeu, estava no chão, as lágrimas rolando com tanta intensidade por seu rosto que não conseguia enxergar direito. Piscou um pouco ao olhar para a janela e então pode ver. Grades. Ela não havia reparado que sua janela estava cheia de grades. Levantou-se, estranhando e viu a porta. Era uma porta comum, mas junto dela havia uma porta de metal feita de grades.

Sem compreender muito bem, correu até a o corredor.

– Anigel! – a voz de sua mãe a chamou, e ela virou-se para vê-la.

Ela sentiu a bílis subir pela sua garganta. O que estava na frente dela não era sua mãe. Era um esqueleto vestido com roupas. O oco onde ficariam os olhos estava fixo nela, como se realmente estivesse a olhando.

– Algum problema? – falou o esqueleto com um movimento do maxilar.

E então pode reparar. A casa estava imunda. Poeira marrom cobria todo o corredor. Os quadros, que ela estava vendo tão bonitos, estavam cheios de poeira. E, de repente, como veio aquilo tudo se foi. Tudo estava bonito como antes, perfeitamente organizado. Olhou para trás e viu sua mãe, mas dessa vez ela não era um esqueleto.

– Estás se sentindo bem?

Merus estava no topo da escada, encarando-a com preocupação.

– Sim. – ela falou, fazendo o possível para parecer serena. – Eu estava descendo para tomar café. Me acompanha?

Deliciado com o convite dela, Merus segurou seu braço direito gentilmente e os dois desceram as escadas. Anigel olhou para trás e novamente viu os quadros bonitos piscando: ora bonitos, ora cheios de poeira.

Capítulo 25 – A quebra

Harry já havia voltado de sua busca e havia avisado Paul de que fora infrutífera. Anigel não estava em nenhum daqueles endereços onde Merus passara. Paul ainda estava lendo e a noite já estava chegando. Já estava cansado de tanto ler quando finalmente encontrara alguma coisa.

Havia uma pequena nota sobre a casa onde os Paquet moravam. Ali dizia que os antigos moradores havia colocado a casa a venda há algumas semanas graças a um roubo. Pelo que dizia a matéria, os donos haviam se assustado com a tentativa de assalto e teriam se mudado instantaneamente.

Poderia ser uma coincidência, mas eles teriam que tentar. Já eram seis horas da tarde. Eles precisavam se apressar.

***

Anigel passara o dia inteiro passeando pela casa. Já estava conseguindo ver além da beleza de tudo. Percebera que a casa inteira estava rodeada de grades e alarmes. O jardim estava destruído, com a grama alta. Tudo era cheio de pó, menos o quarto dela e a cozinha. Aqueles eram os únicos ambientes limpos e organizados da casa, e também os dois ambientes mais seguros que ela encontrara.

Deu uma passada na biblioteca e pode notar que ali também havia grades nas janelas e elas não pareciam ter sido instaladas há muito tempo. Sentiu a aproximação de alguém e pegou o primeiro livro que viu, fingindo-se de interessada. Não conseguia olhar para seus pais ou seu pequeno irmão desde que começara a ver a casa diferente. Eles viravam esqueletos.

– O que estás fazendo?

Respirando fundo, ela virou-se e tentou abrir um sorriso.

– Estou lendo. – ela mostrou o livro – Estava me sentindo entediada.

– E o braço, como está?

– Bem melhor depois que você o curou. Obrigada.

Ele se aproximou dela e ela segurou o instinto de correr. Estava tão próximo de seu rosto que ela pode perceber o quanto Azkaban havia tirado a sanidade de seu corpo. Estava mais magro e com olheiras, e seu olhar mais profundo, como se algo a mais houvesse se perdido em sua estadia na prisão. Tocando sua face com suavidade, Merus lançou lhe um sorriso e a beijou. Respirando fundo e tentando conter a onda de pânico que a invadiu, ela correspondeu ao beijo, fingindo que também estava gostando.

– Tu estás sendo uma perfeita esposa, Anigel. – ele falou, no momento em que parou de beijá-la – Finalmente compreendeu que me amas?

– Sim – ela falou, tentando sorrir ao invés de simplesmente mostrar os dentes.

– Que bom! – ele se afastou um pouco, parecendo muito contente – Assim nosso filho crescerá em um ambiente feliz. Faremos nosso filho essa noite, Anigel! – ele se aproximou dela novamente – Mal posso esperar para vê-la grávida!

– Eu também. – ela resmungou, tentando fazer aquilo parecer feliz.

– Então nos vemos no jantar. Te arrumes bem, Anigel.

– Ficarei linda. – ela disse enquanto ele saia e, no momento em que pisou fora da biblioteca, ela sentou-se na cadeira empoeirada.

Ela conseguia naquele momento lembrar-se de tudo o que acontecera. Mas como os pais dela apareceram ali? O que eram aqueles esqueletos? E então, lembrou-se de Harry e sua visão ficou turva. Estava chorando. Não conseguiria dar um filho para Merus. Jamais deixaria que aquilo acontecesse. Ela já havia decidido. Antes que ele pudesse encostar nela novamente, iria se matar. Se ele não conseguia mata-la, faria aquele pequeno serviço para ele.

***

Apesar de a casa dos Paquet ser na França, não muito longe de Londres, Harry sabia que não poderia aparatar. Os aurores de Paris haviam sido avisados e iriam ficar rondando a casa, para ver se havia algum movimento, mas ele precisava chegar logo lá. Sentia dentro do peito uma angústia sem sentido, como se Anigel estivesse tentando lhe dizer algo. Se ela realmente estava lá, ele não conseguia nem imaginar que tipo de torturas ela estava sofrendo naquela casa.

Paul aproximou-se dele com a vassoura e vários aurores subiram ao céu com os dois. Já passava das sete horas da noite quando eles saíram de Londres e só conseguiriam chegar a Paris dali uma hora.

***

A mesa de jantar estava arrumada e organizada de uma maneira exemplar. Seus pais e Karl (que volta e meia se transformavam em esqueletos) haviam deixado ela e Merus a sós para seu jantar romântico. Merus estava parecendo muito feliz com Anigel arrumada e tão solícita. E ela estava cada vez mais estranhando aquilo tudo.

Enquanto comia, seus pensamentos voaram para alguns dias atrás (na verdade, pareciam meses atrás) e percebeu que algo estava errado. Aquilo tudo era muito estranho. Lembrava-se perfeitamente de ficar presa na cela com seu vestido de noiva e então, quando Merus a trouxe para cima, viu seus pais novamente. Ela sentira o toque deles, cheiro e tudo mais o que se lembrava. Então porque eles estavam se transformando em esqueletos?

Merus falava sobre como queria que seu filho se chamasse e ela apenas acenava, sorrindo. Por alguma razão, estava tranquila. Sabia que não deixaria que ele a tocasse. Só precisava encontrar um meio de se matar antes que aquilo acontecesse. Ficou imaginando se as facas da cozinha seriam afiadas o suficiente para mata-la… E então se lembrou de algo que seu pai mostrara a ela antes de morrer. Pediu licença a Merus, dizendo que iria passar no banheiro retocar a maquiagem. Ele não pareceu se importar, e disse que a esperaria ali. Olhou para o relógio e deu um sorriso. Eram oito e meia da noite.

***

Assim que chegaram ao perímetro de Paris, Harry, Paul e os outros aurores foram recebidos pelo chefe dos aurores da cidade.

– Bem vindos. – ele disse, sem sotaque algum. – Meu nome é Jean Luhien.

– Luhien, eu sou Harry Potter. – ele apertou a mão do homem e começaram a caminhar – Alguma informação? – perguntou, caminhando ao lado do homem apressadamente.

– Meus aurores acabaram de me informar que a casa parece vazia. Mas está carregada de magia e feitiços de proteção, algo que com certeza não parece ser coisa de trouxas. Nossos melhores homens estão tentando retirar alguns feitiços aos poucos para que, se o comensal estiver ali, não perceba o que está acontecendo até ser tarde demais.

– E… Anigel? – resmungou Paul, mais próximo do homem.

– Ainda não conseguimos visualizá-la, mas assim que tirarmos os feitiços, poderemos ter certeza.

E, sem falar mais nada, todos seguiram o chefe dos aurores de Paris até o ponto onde poderiam aparatar. Paul olhou para o relógio e suspirou: oito e meia.

***

Anigel subiu as escadas rapidamente e correu até o quarto dos pais. Merus não iria estranhar esse comportamento, já que suas maquiagens estavam em seu quarto. Abriu a porta de carvalho e encarou o quarto com certo pesar. A cama de dossel azul estava muito empoeirada e não parecia ser mexida por pelo menos alguns meses. O guarda roupas estava da mesma forma que antes e ela abriu a última porta dele, abaixando-se e abrindo a última gaveta. Ela não havia retirado nada da casa, mas era muito estranho que os trouxas que moraram ali não haviam mexido em nada. Tudo parecia da mesma forma que ela deixara, cinco anos atrás.

Abriu a gaveta e ali estava: uma arma trouxa. Seu pai mostrara para ela aquilo pouco antes de morrer. Disse que, mesmo que não tivesse varinha, aquilo poderia ser usado para matar. Ele parecia saber que algo estava para acontecer e pensando naquilo, Anigel sentiu as lágrimas escorrerem pelo rosto. Eles sabiam que iam morrer. Mas como poderiam estar ali, todos aqueles dias?

Guardou a arma em sua bolsa, que ela estava usando desde o começo da noite e aproximou-se da cama de seus pais. Parecia que eles estavam deitados, dormindo. Lentamente, ela chegou mais perto e olhou o que estava debaixo das cobertas. Ali estavam os esqueletos com roupas. O cheiro lembrava terra podre e carniça, mas ela não lembrava daquele cheiro quando os via andando na casa. Ia se virar para sair, quando percebeu que havia algo no pescoço de sua mãe. Aproximando-se lentamente, ela olhou para o pequeno colar de ouro, um pequeno filete com um pingente de um menino e uma menina.

Horrorizada, ela se afastou, sentindo todo o jantar querer voltar de seu estomago. Aqueles eram… aqueles eram os corpos de seus pais.  Rapidamente virou-se e fechou a porta do quarto, descendo as escadas o mais rápido que pode. Aquilo estava começando a formar uma ideia em sua cabeça, mas não conseguia ter muita certeza. Se realmente fosse o que estava pensando, seria horrível demais.

Assim que voltou a sala de jantar, tentou encarar Merus com um sorriso e sentou-se ao seu lado.

– Eu estava pensando em dar uma volta nos jardins. – ela segurou a mão dele e o puxou – Vamos tornar essa noite mais romântica do que já está.

– Anigel… – ele puxou-a e a abraçou, feliz – Tu és perfeita.

– Eu estava pensando… – ela falou, encarando-o nos olhos enquanto caminhavam juntos – Estou me sentindo meio estranha.

– Estranha? Como assim?

– Não sei! – ela falou, fingindo-se de desentendida – Estou vendo algumas coisas estranhas, meu amor… – ela parou no corredor e o encarou – Meus pais às vezes se transformam em esqueletos.

– Oh, meu amor! Está nervosa! É por isso! – ele segurou o rosto dela e beijou lhe a testa – Se quiser eu posso chamar um curandeiro para vê-la.

– Claro! Eu consultei com um anteriormente e ele me deu pílulas muito boas. Resolviam tudo! – ela deu um sorriso – Sabe onde estão minhas pílulas?

– Aquelas? – ele deu um sorriso maior e ela sentiu o quão perto estava.

– Sim… eu sei que elas me fazem bem. Parece que…- ela parou de falar abruptamente com a compreensão que a invadiu – Parece que abrem minha mente.

– Sim, meu amor. – ele deu um sorriso aterrorizante – É isso mesmo que elas fazem! Deixam tua mente aberta para que eu possa ajuda-la com o que precisa! – ele abraçou-a novamente e puxou-a, voltando a caminhar. – Agora vamos passear e depois, iremos ao nosso canto. Hoje não vais precisar dessas pílulas.

Anigel continuou caminhando ao lado dele até a porta de entrada. Sua mente trabalhava furiosamente, ligando todos os fatos e relembrando tudo aquilo que havia sido esquecido. Ela havia sido enfeitiçada. Aquilo só podia ser um feitiço. Mas como se livrar dele?

***

A casa parecia deserta. Alguns aurores estavam quebrando os feitiços mais poderosos, mas nada parecia acontecer. Harry aproximou-se de Luhien, preocupado.

– E se eles não conseguirem tirar esses feitiços?

– O problema não é o feitiço, Sr. Potter. Há algo maior ali.

– Maior? – murmurou Paul, encarando Luhien.

– Algo parece estritamente conectado a alguém ali dentro. E isso não somos nós que podemos quebrar, só alguém de dentro pode. Enquanto isso, estamos fazendo o possível.

Paul olhou entre os portões e pareceu ver duas sombras ali. Forçou sua mente a se conectar de novo com Merus e tudo se abriu. A casa estava toda acesa. Anigel estava caminhando na direção dele e acenou, parecendo ver algo além dele e ele ficou chocado ao ver como ela estava. Seu rosto estava bem inchado e cheio de hematomas, e seus braços finos estavam tão roxos quanto seu rosto. Sem compreender muito bem, viu quando ela tirou uma arma da pequena bolsa que carregava e chamou por Merus, que estava ali com os olhos fechados. Assim que abriu os olhos, porém, Paul sentiu a fúria do comensal subir e ele viu Anigel colocar a arma na cabeça e puxar o gatilho.

– Anigel! – ele gritou, desesperado, conseguindo abrir os portões com um aceno de sua varinha.

***

Anigel e Merus alcançaram o jardim sujo e mal cuidado. Ela podia ver os portões e eles não eram da forma como antes: estavam mais protegidos e ela podia sentir a aura dos feitiços mesmo não estando tão perto quanto antes. Segurou a bolsa com mais afinco e parou, dando um sorriso para Merus.

– Eu tenho uma surpresa para você! – ela disse, tentando lhe lançar um olhar sedutor – Feche os olhos, meu amor.

Ele pareceu não compreender, mas ao ver o olhar dela, fechou os olhos. Anigel respirou fundo e começou a caminhar para o lado dos portões, tirando a arma da bolsa. Pode ver que havia uma movimentação do lado de fora. Será que aquelas pessoas podiam vê-la? Tentou acenar, mas nada aconteceu. Então encarou Merus e pediu que ele abrisse os olhos.

Tudo passou em câmera lenta na mente de Anigel. Ela viu o comensal a principio não compreender o que ela estava fazendo, mas então ele viu a arma na mão dela e sacou a varinha. Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, porém, ela colocou a arma na cabeça e puxou o gatilho.

– Anigel! – ela ouviu o grito junto com o estampido, mas era tarde demais, ela já havia atirado.

Esperava qualquer coisa, menos sentir o chão como se tivesse sido jogada. Não parecia estar morta. Abriu os olhos e viu que algo se passava além de sua compreensão. Percebeu que havia outra pessoa do seu lado, caída e virou-se.

Paul estava sangrando. O tiro havia o acertado no ombro, mas até aquele momento ela não compreendera como aquilo era possível. A arma estava grudada em sua cabeça! Olhou para Merus e viu que o comensal a encarava furioso.

– Achas que pode conseguir morrer com algo trouxa, inútil? – ele deu uma risada e se aproximou dos dois, com a varinha levantada – Eu desviei a bala para meu querido irmão que entrava pelos portões! Pena que não acertei em algum lugar letal!

– Anigel… isso é uma ilusão! – Paul sussurrou, pegando sua varinha e entregando a ela – Quebre isso e os outros aurores poderão ver!

– Quebrar? – ela murmurou, mas Merus estava muito próximo dos dois.

– Tu me enganaste novamente, Anigel. Desta vez não serei bom contigo.

– Quem me enganou foi você! – ela grunhiu, levantando-se e lançando um feitiço no homem, que conseguiu se desviar por pouco – Isso tudo não existe!

– É claro que existe, Anigel! – ele falou, seus olhos saltando do rosto – Dentro da sua mente, tudo é possível! Tu esperavas por isso! Eu lhe dei o que mais desejava! Ver teus pais novamente! – ele lançou um feitiço nela, mas passou longe – E é assim que tu me agradeces?

– Eu deveria agradecer por você me machucar? – ela grunhiu, sentindo toda a ilusão tremer a sua volta.

A casa parecia tremer. Todo o jardim brilhava e, pela porta, os três esqueletos passaram, juntando-se a Merus.

– Isso não foi muito bonito de tua parte, Anigel! – ele grunhiu, encarando-a com fúria – Retira o que tu disseste!

– Você pegou os corpos da minha família para auxiliar na ilusão… – ela disse, compreendendo o que tinha que fazer para quebrar a ilusão. – E agora eu a quebro!

Sem pensar duas vezes, lançou um feitiço em cada esqueleto, fazendo-os voar.

FIC – Mentiras

Capítulo 23 – O curandeiro esquecido

O curandeiro recebeu Harry e Paul no dia seguinte. Ele estava parecendo um pouco abatido e cansado, mas concordou em recebê-los no final do expediente e talvez fosse por isso que ele parecia tão acabado.

– Em que posso ajuda-los, senhores?

– Estamos aqui para algumas informações sobre uma paciente sua, Anigel Paquet.

– Todas as informações sobre meus pacientes são sigilosas, Sr. Potter.

Harry abriu a boca para xingar o curandeiro quando Paul segurou o braço dele e interviu.

– Nós compreendemos, senhor. Mas nesse caso, onde a vida da paciente está em risco, será que não há uma forma de nos ajudar?

O homem encarou Paul profundamente e piscou um pouco.

– Eu conheço o senhor de algum lugar?

– Não. – murmurou Paul, encarando Harry sem compreender.

– Senhor, não temos tempo a perder! – grunhiu Harry, encarando o curandeiro com raiva – Anigel foi sequestrada e precisamos de informações! O que ela disse pro senhor? Deu alguma ideia de onde o comensal possa ter levado ela?

– Certo, Sr. Potter. O senhor me convenceu. Deixe-me ver a ficha dela.

O curandeiro levantou a varinha e fez um leve aceno. Nada aconteceu. O homem encarou Harry estranhamente e levantou-se, indo procurar a ficha dela no arquivo que ficava na parede do consultório.

– Tem certeza de que fui eu quem a atendeu? – murmurou ele após alguns instantes, ainda de costas para os dois.

Harry mostrou a receita que encontrara na gaveta de Anigel e o curandeiro aproximou-se, olhando aquilo desconfiado.

– Que estranho. Eu não consigo me lembrar de tê-la atendido e não encontrei nenhum registro sobre ela, mas essa definitivamente é minha letra.

– O senhor se lembra de algo a mais sobre esse dia? – Paul perguntou de repente, encarando Harry com veemência.

– Sim. Perfeitamente, não faz muito tempo. Só não sei como foi que atendi essa tal Anigel.

– Ele foi enfeitiçado, como a costureira! – resmungou Paul para Harry, para que o homem não ouvisse.

– O senhor se importaria em ir conosco ao Ministério para o examinarmos?

– Me examinar? – o curandeiro encarou-os, sem compreender.

– Acreditamos que alguém lançou um feitiço em você e o controlou. Se isso realmente aconteceu, temos um equipamento que pode nos dizer.

– Bom, acho que não tenho escolha. – o homem disse, levantando-se – Vou com vocês.

***

Anigel havia terminado seu jantar com seus pais e estavam todos na sala. Karl brincava com seus carrinhos voadores e seus pais conversavam animadamente com ela. Por alguns instantes, ela não compreendeu tudo o que havia acontecido. A casa estava a mesma, tudo estava igual. Seus pais e seu irmão até pareciam um pouco mais velhos. A única coisa discrepante da cena era Merus, que estava ali também, sentado ao lado dela.

Karl levantou-se e pediu que Anigel o colocasse na cama, pois ele estava com sono. Depois de fazê-lo escovar os dentes e de brincarem um pouco, ela deitou-o na cama e beijou seu lindo rostinho.

– Ani, você nunca vai nos deixar, não é?

– Não, Kar. Eu nunca deixarei.

Com um sorriso ele fechou os olhos e ela saiu do quarto, apagando a luz. Assim que pisou fora do quarto, porém, encontrou seus pais a sua espera. Os dois a abraçaram em conjunto e Anigel não pode deixar de começar a chorar. Aquele abraço ela desejava ter novamente há tanto tempo que começou a chorar compulsivamente, fazendo com que seus pais ficassem surpresos.

– Por que está chorando minha filha? – perguntou a mãe, alisando o rosto dela e limpando suas lágrimas.

– Eu senti… muita falta… – ela tentou dizer, fungando, mas seu pai não deixou que ela terminasse.

– Estamos aqui agora e não sairemos daqui, meu anjo.

– Venha, vamos leva-la para seu quarto.

Os dois a acompanharam até seu quarto, que estava igual. Cada detalhe que ela nem lembrava mais estava ali e suas roupas estavam todas organizadas no guarda-roupa. A única diferença era que havia uma cama de casal e não de solteiro ali.

– Minha cama? – ela perguntou, sem compreender.

– Foi um presente do seu noivo. – respondeu sua mãe, dando um sorriso cúmplice – Vocês vão ficar por aqui quando casarem… até poderem comprar a casa de vocês.

– Ah. – ela engoliu em seco e encarou a mãe – Faz tempo que vocês o conhecem?

– Como assim, filha? – seu pai a encarou com descrença – Vocês namoram desde os quinze anos!

– Venha aqui. – a mãe puxou um álbum do armário e mostrou – Olhe.

Anigel pegou o álbum, trêmula. Estava cheio de fotografias dela e de Merus, juntos, desde quando começaram a namorar. Aquilo estava muito esquisito.

– Então vocês não… vocês não morreram?

– Morrer? – a mãe a encarou – Você está bem, Anigel?

– Precisa de um curandeiro? – perguntou o pai, preocupado.

– Estou um pouco cansada, talvez. – ela resmungou, dirigindo-se ao seu banheiro – Desculpe por isso. Boa noite.

Seus pais desejaram-lhe boa noite também e saíram do quarto, deixando-a a sós. Respirou fundo, foi até o espelho e deu dois passos para trás, horrorizada. Apesar de perceber que alguém tentara curá-la, os roxos em seus olhos e o corte na sua bochecha eram impossíveis de não serem notados. Horrorizada, ela olhou para o corpo enquanto tirava a roupa e percebeu que ele estava inteiramente manchado de roxos doloridos.

Sua mente começara a falhar. Não lembrava muito bem onde conseguira aqueles roxos. Devia ter caído, afinal. Rolado da escada. Ela era desastrada mesmo. Assim que saiu do banho, porém, voltou seus olhos para o espelho e suspirou. Não estava entendendo mais nada.

Voltou ao seu quarto e levou um susto quando percebeu que havia alguém ali. Merus estava olhando pela janela, parecendo imensamente interessado naquilo que olhava. Quando percebeu que ela estava ali, voltou-se e abriu um enorme sorriso.

– Meu amor.

Seu corpo travou completamente. Não conseguia se mexer, tamanho o pavor que sentia. Apesar de seu cérebro pedir para se acalmar, que aquele era seu noivo e ele não lhe faria mal, ela não conseguia.

– O que foi?

– Estou… cansada. – ela murmurou, tão baixo que pode perceber que o homem quase não a escutara.

– Quer uma massagem?

– Nã-não. – sua voz começara a falhar. – Está… tu-tudo bem.

Ela aproximou-se da cama, tremendo, e enfiou-se embaixo das cobertas. Queria que ele desaparecesse dali. Algo lhe dizia que ele não estava certo, e aqueles roxos tinham alguma coisa a ver com ele. Porém, ela sentiu que ele deitou-se do lado dela e novamente sentiu a tensão invadir seu corpo.

– Tu não imaginas o quanto te amo – ele sussurrou no ouvido dela, beijando seu pescoço docemente.

Não conseguia falar. Sentir as mãos dele percorrendo seu corpo era algo doloroso e insuportável. Deu um grito e correu da cama para a porta, mas ela estava trancada e não conseguia abrir.

– Não sejas tão malcriada, Anigel. Eu posso te castigar novamente.

– O que você quer de mim? – ela gritou, desesperada, caindo no chão do quarto e segurando sua cabeça.

– Te quero por inteiro, Anigel. Quero um filho contigo.

– Um filho? – ela encarou-o, abobada.

– Sim. – ele se aproximou e segurou nas mãos dela, tirando-as da cabeça – Normal para um casal.

Ela continuou o encarando, apavorada, e ele deu um suspiro resignado.

– Eu posso esperar mais um dia, Anigel. – ele se levantou, dando um pequeno sorriso – Se tu não aceitares, eu terei que agir por conta. E isso não seria algo bom para ti, estou certo?

Ele segurou as mãos dela delicadamente e levantou-a, colocando-a na cama. Colocou a coberta em cima dela e deu um leve beijo em sua testa.

– Durma com os anjos, Anigel.

E tudo escureceu.

***

Os testes foram feitos com sucesso e o resultado fora mais do que o esperado. Merus havia controlado o curandeiro de uma forma que sua memória foi apagada, ao mesmo tempo em que ele comandava cada parte do corpo dele. Aquilo parecia Imperius, mas os especialistas estavam preocupados demais. Nunca havia visto um controle tão grande sobre alguém.

Sem compreender muito bem, Harry e Paul conversaram com o curandeiro sobre o tipo de feitiço que faria isso, mas ele disse não conhecer nada parecido, mas como ele mesmo era o paciente, iria estudar mais a fundo e prometeu ficar no Ministério até que aquilo se resolvesse.

Apesar de tudo isso, porém, eles não conseguiram nenhuma pista sobre o paradeiro de Anigel. Merus não pediria resgate também, o que deixava Harry cada hora mais agoniado. O que aquele maluco estaria fazendo com ela?

Ao chegar a sua casa naquela noite, seu coração se apertou e ele começou a chorar. Lembrou-se de Ginny e o quão terrível fora chegar a sua antiga casa e encontra-la morta. O quão culpado ele se sentira na ocasião. Ele deveria estar em casa, mas tivera um contratempo no Ministério e se atrasara. E aquilo custara a vida de sua primeira esposa. Seria aquele descuido de deixar Anigel ir somente com Hermione provar o vestido sua próxima culpa? Seria aquele também o destino de Anigel?

***

Anigel abriu os olhos ao sentir o calor do sol bater neles. As janelas do seu quarto estavam abertas e alguém andava de um lado para o outro nele. Sem compreender, levantou-se um pouco e percebeu que era sua mãe, organizando o quarto com sua varinha em mãos. Ficou um pouco ali, observando-a. Como ela era bonita. Seus longos cabelos loiros caíam com leveza pelas suas costas enquanto ela movimentava a varinha em gestos leves, observando tudo com seus olhos verdes.

De repente, porém, algo começou a escorrer de seu pescoço. Era sangue. Litros e litros de sangue jorrando por debaixo de seus longos cabelos loiros.

– Mamãe? – ela falou, sua voz saindo em um sussurro.

– Sim? – ela virou-se e Anigel gritou.

Seu rosto era um cadáver. Apenas ossos e sangue. Fechou os olhos, horrorizada, ainda gritando, quando percebeu que sua mãe a chamava.

– Anigel, o que foi?

Ela abriu os olhos e encarou sua mãe, que parecia preocupada.

– O que houve?

– Pesadelo. – ela falou, ainda encarando a mãe.

Aquilo havia sido tão real que Anigel sentiu suas entranhas revirarem.

– Levante-se e vá tomar café. Seu noivo já desceu há horas.

Anigel concordou com um aceno e foi até o banheiro para trocar de roupa. Seus olhos passaram pelo espelho, mas não quis olhar para seu rosto sujo pela manhã. Só jogou uma água no rosto, escovou os dentes e tirou o pijama, descendo as escadas.

Merus estava lendo um jornal, mas assim que a viu, ele o dobrou e lançou lhe um sorriso.

– Está tudo bem?

– Sim. – ela resmungou, sentando-se a mesa.

Assim que ela começou a comer, porém, ele sentou-se ao lado dela e ficou a encarando. Sem saber o que fazer e sentindo o pânico percorrer lhe as veias, ela continuou olhando para comida em seu prato.

– Queres passear no jardim comigo, Anigel?

Ela apenas o encarou, sem saber o que fazer. Toda vez que ele falava, seu corpo se retesava. Assim que terminou de comer, porém, ele não esperou que ela respondesse. Puxou-a pelo braço gentilmente e levou-a porta afora. O jardim estava como sempre, bem cuidado e colorido. Merus começara a falar sobre o casamento deles, em como ele pensava em colocar as flores e o que ela achava de colocar o arco no jardim. Anigel apenas acenava, concordando, sem saber o que fazer. Queria voltar para dentro de casa e ficar com seus pais e seu pequeno irmão. Ficar a sós com aquele homem a deixava sem ação.

FIC – Mentiras

Capítulo 21 – O pedido inesperado

Depois de duas semanas, Anigel sentia-se bem pela primeira vez. Desde que começara a tomar as tais pílulas que o curandeiro lhe passara, seus pesadelos haviam praticamente desaparecido. O único problema eram as aparições.

Todo dia, quando estava indo ao trabalho, ela via o comensal. Geralmente ele estava vestido com roupas normais, como Gustav se vestia e a encarava com um sorriso e um olhar devorador. A primeira vez que vira aquilo levou um susto, mas lembrou-se do que o curandeiro lhe dissera e ignorou. E elas nunca aconteciam no mesmo ponto. Quando ia para o trabalho, dentro de casa, nos jardins, qualquer lugar que ela estivesse, ela via o comensal. Ninguém mais via aquelas aparições, nem os aurores e muito menos Harry. Portanto, precisava ensinar sua mente a parar de tentar assustá-la. O único problema é que elas não diminuíam, mesmo com todo seu esforço.

Chegou mais cedo em casa naquela noite e começou a fazer a janta. Apesar de tudo, estava gostando de morar com Harry. Ele era meio desorganizado, mas fazia o possível para ajuda-la quando necessário. E ela gostava de ter alguém para esperar a noite e para compartilhar seu dia.

Assim que Harry chegou, porém, ele parecia acabado. Fazia duas noites que ele saía de madrugada na busca pelo comensal por denúncias, mas nunca tinham certeza se Merus realmente estivera ali ou se era um trote. Aquilo deixava os aurores malucos, mas eles tinham que ir. E se o aviso fosse real?

Depois de jantarem, os dois se sentaram em silencio no sofá, encarando o fogo da lareira. Harry havia fechado os olhos e deitado no colo dela e Anigel acariciava seus cabelos negros, sentindo-se muito feliz. Naquele momento encarava o rosto do namorado fascinada.

– Eu queria te perguntar uma coisa, Anigel. – ele murmurou, abrindo os olhos e encarando-a docemente.

– Claro, Harry. Pergunte.

– Você quer casar comigo?

A pergunta foi feita de uma forma tão simples e tão rapidamente, que Anigel piscou um pouco, aturdida.

– O quê?

– Eu sei que é cedo. – ele falou, ao ver o rosto espantado dela – Não estamos há anos juntos, mas eu não vejo o motivo para espera. Eu te amo e quero passar o resto da vida junto com você! Já moramos juntos há algum tempo… Anigel?

Ela ainda o encarava com a boca semiaberta, sem saber o que falar. Será que Harry não percebera que a pergunta feita daquela forma a deixara em choque?

– Desculpe, Anigel – ele falou de repente, sentando-se ao lado dela – Eu achei que você também quisesse e-

– Mas eu quero! – ela disse, segurando a mão dele e fazendo-o se calar – Eu só… sabe, quando alguém pede para perguntar algo, não espera esse tipo de pergunta, entende?

– Ah! – ele deu um sorriso amarelo – Eu te assustei.

– Sim.

– Ah, me desculpe, Anigel, é que eu não via a hora de perguntar e-

– Eu disse sim, Harry, para sua pergunta.

– É sério? – ele deu um sorriso lindo e a beijou – Eu quero você sempre comigo!

Ela sorriu também e os dois se beijaram, deitando-se no sofá.

***

Harry e Anigel chegaram em casa e ela desabou no sofá, cansada. Há duas semanas os dois estavam correndo com algumas coisas sobre o casamento. Como o noivo havia insistido muito para uma festa para os mais chegados, ela acabou cedendo. O problema não era a festa em si, mas o que significava. Seu sonho era que seu pai a levasse até o altar e toda aquela pompa de um casamento, onde sua mãe e seu irmão estariam ali, olhando por ela, mas ele pareceu tão empolgado em fazer uma festa que ela teve que aceitar.

Olhou para a porta e viu, debaixo dela, várias cartas. Respirando fundo e tomando coragem, ela se levantou e pegou a correspondência. Estava esperando uma carta a respeito da comida a ser servida no dia do casamento e passou as cartas uma por uma pelas suas mãos.  Dentre elas, estava uma carta que aparecia pelo menos uma vez por mês para Harry, e que ele sempre ignorava ou queimava, sem nem ao menos abrir. Ao ver que o noivo se aproximava, ela entregou lhe a carta em mãos.

Harry não pareceu pensar duas vezes: ao ver quem era o remetente, jogou a carta para a lareira da sala, mas antes que ela pudesse pegar fogo, Anigel jogou um feitiço nela e puxou-a para si.

– O que você está fazendo? – ele perguntou, ao vê-la abrir a carta e começar a ler.

– Quero saber do que você tanto foge.

Anigel leu toda a carta e encarou o noivo, que havia se sentado emburrado no sofá.

– Eles não parecem maus. – ela disse, aproximando-se dele – Porque essa repulsa com eles, Harry?

– Repulsa? – ele encarou-a, um pouco chateado – Não é bem repulsa.

– Então porque você joga as cartas deles fora sem nem ler?

– Isso é… uma coisa minha! – ele grunhiu, virando para o lado da lareira e encarando o fogo – Não quero falar sobre isso.

– Eles estão em Londres, Harry.

O homem encarou-a subitamente, parecendo que ia vomitar.

– Aqui?

– Sim, e querem te visitar. Sabem seu endereço, mas não querem vir sem que você queira.

– Não. – ele falou, ríspido e voltou a encarar o fogo.

– Harry. – ela aproximou-se dele, sentando ao seu lado – São seus melhores amigos, não são? – ao ver que ele fingia que a ignorava, ela continuou – Não vejo motivos para excluí-los de sua vida.

– Eu vejo, Anigel. – ele encarou-a, com os olhos marejados – Mesmo que eles pensem o contrário, a culpa é minha pela morte de Ginny.  – ele virou-se novamente para o fogo, escondendo a dor em seu rosto – Eu jamais conseguiria encara Rony de novo… o rosto dele no enterro…

– Mas eles são seus amigos, Harry! Veja aqui… leia, Harry.

Ele encarou-a, com o rosto dolorido, e pegou a carta da mão dela, lendo-a vagarosamente. Quando terminou, respirou fundo e olhou para o teto, com a expressão incógnita.

– E então? – ela perguntou, segurando o rosto dele e fazendo-o encará-la.

– Você está certa, Anigel. Eu só não sei se sou capaz.

– Então os convide para uma visita. Eu posso até ir para a casa de Paul e deixa-los a sós-

– Não, Anigel. Eu quero você do meu lado. – ele encarou-a, olhando a carta com um olhar estranho – Eu vou chama-los.

***

Anigel recebeu Hermione Granger e Ronald Weasley na porta da casa juntamente com Harry. Depois das devidas apresentações, os quatro começaram a conversar sobre assuntos diversos. Ela via que toda vez que Ronald tentava puxar o assunto de Merus com ela, Harry disfarçava e eles começavam a conversar sobre outras coisas.

Ela sabia que o noivo não queria que a noite fosse desconfortável para ninguém, muito menos para ela. Os amigos dele eram muito simpáticos e em nenhum momento comentaram sobre o tempo que Harry passara afastado. Sentindo que aquilo deveria ser por sua razão, ela pediu licença e foi até a cozinha ver como estava o assado de frango.

Apesar de Harry parecer tranquilo, Anigel sentia o quanto ele estava ansioso com a chegada dos amigos. Depois de mais de dois anos sem vê-los e nem responder às suas cartas, ele com certeza esperava uma recepção nada agradável e ser tratado com carinho estava o confundindo.

Pegou sua caixa com as pílulas e tomou uma, pois ainda não havia tomado naquele dia e como estavam com visitas, não queria que ninguém visse. Assim que se virou, porém, viu Hermione entrando na cozinha, um pouco tímida.

– Ahn… olá! – ela sorriu e aproximou-se – Vim ver se você precisava de ajuda.

– Não, está tudo certo por aqui.

– É que… eles estão conversando e… eu precisava sair de lá um pouco. Se importa se eu ficar aqui com você?

– Claro que não! – Anigel sorriu e apontou para as cadeiras da cozinha.

As duas se sentaram nas cadeiras e ficaram em silencio. Ela não sabia muito bem o que falar.

– Você e o Harry estão juntos há muito tempo? – ela perguntou, encarando-a.

– Quase um ano.

– Fico feliz que Harry tenha encontrado alguém e saído de sua depressão. Foi você que conseguiu convencê-lo a nos convidar?

– Mais ou menos. – ela deu um sorriso, fazendo com que Hermione sorrisse também – Sabe como Harry é teimoso quando quer.

– Eu não o culpo. – suspirou Hermione – Imagino que sua dor tenha sido insuportável, mas não foi diferente da minha e do Rony.

– Ele se culpa pela morte dela e me disse que não conseguia encarar vocês.

– É um grande idiota, como sempre. Como se ele tivesse culpa por Ginny estar em casa e ele não! Eu tentei dizer isso nas cartas, mas acho que ele não entendeu.

– Hum… – ela encarou a mulher com um sorriso amarelo.

– O que foi?

– É que… ele não lia as cartas.

– Ele não lia? – ela encarou-a, parecendo compreender – Ah, entendi. Posso bater nele?

– À vontade. Mas deixa um pouco para eu poder cuidar no final.

As duas riram com vontade e então Harry e Ronald entraram na cozinha também e os quatro voltaram a conversar.

Logo depois que o jantar foi servido e Anigel levou os pratos para se lavarem acompanhada de Hermione, enquanto Ronald e Harry conversavam na sala. As duas resolveram que fariam um café e enquanto esperavam, continuaram a conversar. Ela gostou da mulher. Apesar de nunca tê-la encontrado pessoalmente, conhecia a história dos três amigos em Hogwarts. Estava se sentindo bem em conversar com uma pessoa gentil e disposta como ela, como há muito tempo não se sentia.

Levantou-se para ver se o café estava pronto quando percebeu que alguém a encarava dos jardins, pela janela da cozinha. Abaixou o olhar, constrangida. Não queria que Hermione percebesse que ela havia visto algo, mas a mulher olhou exatamente para onde Anigel olhara.

– Quem é aquele, um auror da vigia?

Anigel encarou Hermione, sem compreender.

– Você está… – ela engoliu em seco – Você está vendo?

– O que foi, Anigel? Claro que estou vendo! O homem de cabelos cacheados… – e então a mulher sacou a varinha rapidamente, fazendo com que ela pulasse de susto – Aquele é Merus, não é?

– O que está acontecendo aqui? – Harry perguntou, aparecendo na cozinha ao lado de Rony – Hermione?

– Merus está lá fora! – falou Anigel.

– Anigel… – ele falou, encarando-a preocupado – Você está bem?

– Hermione viu, pergunte a ela! – ela falou, quase chorando.

– Harry, ele estava lá fora! – Hermione falou, apontando para onde as duas haviam visto o homem – Eu o vi.

– Então vocês duas ficam aqui. Eu e Rony vamos lá fora ver com os aurores se ele realmente está lá! – ele disse, sacando a varinha e correndo para o lado de fora.

Logo três aurores entraram e ficaram de guarda, enquanto as duas também estavam com as varinhas a postos. O que pareceu ser uma eternidade de silencio se passou até que elas começaram a ouvir sons de luta do lado de fora.

– Sou eu que ele quer! – resmungou Anigel, segurando a varinha e encarando Herrmione – E eu estou aqui, escondida e sendo vigiada todo tempo!

– Eu entendo sua frustação, mas vamos esperar aqui. Se ele entrar por essa porta, nos o prendemos!

O som de uma das janelas da sala quebrando fez com que os aurores se aproximassem das duas, mas não havia nada demais. Era apenas um feitiço. E foi quando Anigel ouviu a voz do comensal no pé do seu ouvido:

– Tu estás se escondendo porque, meu amor?

Anigel virou-se rapidamente para o lado, mas não havia ninguém. Sem compreender, ela encarou Hermione, que encarava a porta firmemente. Parado na soleira da porta estava o comensal Merus, encarando a cena como se estivesse achando graça.

O que aconteceu a seguir foi tão rápido que Anigel só percebeu quando estava no chão. Hermione e os três aurores lançaram um feitiço ao mesmo tempo, mas nenhum deles acertou o comensal, que corria na direção dela. Sem pensar duas vezes, lançou um feitiço no homem, mas ele virou-se para o lado e então Hermione pulou em cima dela, e o comensal foi atingido por um feitiço de Harry e voou através da janela quebrada.

Os aurores correram até lá fora, mas o comensal já havia aparatado. Harry apareceu em sua frente e segurou seu rosto e ela percebeu o quanto aquilo havia sido terrível para ele somente pela sua feição.

– Anigel, me perdoe! Eu nunca mais duvido de você!

– Nem todos são reais, Harry. – ela disse, segurando as mãos dele – Está tudo bem.

– Se não fosse Hermione, eu não sei o que poderia ter acontecido. – ele resmungou e virou-se para os amigos – Isso é tudo culpa minha.

– Você é um babaca, Harry. – falou Rony, revirando os olhos – Sempre se culpando.

– Você não foi responsável pela morte de Ginny, Harry. – falou Hermione, com os olhos marejados – E nem por isso.

Harry abraçou Anigel e os dois se levantaram. Ela soltou-se do namorado e segurou as mãos de Hermione em agradecimento. Depois de contatar o ministério e pedir mais reforços e proteção para a casa onde os dois moravam, os quatro finalmente sentaram-se no sofá.

Ela ainda estava um pouco atordoada com tudo aquilo. Apesar de ter dito a Harry que nem todas suas aparições eram reais, ficara um pouco encucada. Como Merus havia os encontrado? Como havia escapado tão facilmente? Ele havia passado seis meses na prisão e mesmo assim conseguia se livrar de todos os aurores que estavam ali para protegê-la? Será que aquilo iria mesmo impedir o comensal?

Capítulo 22 – O vestido de noiva

Dois dias após a invasão de Merus, Anigel não podia fazer mais nada. A cada passo que dava aurores a seguiam. Harry também estava passando mais tempo com ela e cada vez que ela olhava para o lado, ele perguntava se estava vendo o comensal.

Apesar de tudo, estava se sentindo mais tranquila. Naqueles dois dias, as aparições desapareceram. Havia dito a Harry que não o via mais, mas o noivo não estava convencido. E, além daquilo, ele estava nervoso com a aproximação do casamento. Dali um mês eles casariam e fariam uma pequena comemoração. Tudo estava arranjado, mas mesmo assim Anigel sentia que ele estava mais nervoso do que ela.

Naquele dia, porém, teria que ir até a loja de vestidos de noiva para fazer a prova final do seu vestido e como Harry sabia que ele não poderia ir junto, chamou Hermione para fazer-lhe companhia.

Anigel entrou no trocador e esperou que a costureira fizesse os ajustes com sua varinha. Hermione estava sentada em uma cadeira, sorrindo. O vestido era simples: longo, de cetim branco e com algumas rendas e bordados na parte superior e na barra da saia. Ela preferira algo mais simples a um real vestido de noiva, cheio de babados e saias enormes.

– Você está muito bonita, Anigel. – ela falou assim que a mulher terminou os retoques.

– Maravilhosa! – murmurou a costureira – Faltou a tiara e os sapatos. – ela então se virou para Anigel e apontou o dedo – Você não saia daqui, mocinha! – novamente, ela virou-se, mas para Hermione – E você, venha comigo! Preciso de uma ajuda com a escada… minhas assistentes estão ocupadas.

Hermione balançou os ombros, parecendo achar graça na situação, e acompanhou a costureira até o lado de fora da sala. Anigel virou-se para o espelho e deu um sorriso ao ver seu reflexo. Nunca esperara se casar até conhecer Gustav. Achava que seu sofrimento era intransponível e que nenhum homem gostaria de uma mulher com aquele peso. Mas Gustav fora diferente… até ela descobrir que ele era a causa de todo seu sofrimento.

Sentiu uma vibração estranha no ar e, então, uma voz sussurrou ao seu lado:

– Tu estás tão linda.

Anigel virou-se, sacando a varinha, mas não havia ninguém do seu lado. Estaria ele invisível? E onde estava Hermione?

– Ver-te assim me deixa feliz, Anigel.

Ela abriu a porta da sala onde estava e pode ver Hermione do outro lado, ajudando a costureira a pegar várias tiaras e sapatos. Olhou novamente em sua volta, mas não havia nada de errado… e muito menos alguém. Respirando fundo, voltou para a posição onde estava e olhou para o espelho. Estava novamente ouvindo a voz dele.

– Saia da minha cabeça, maldito. – ela grunhiu baixinho, deixando a porta aberta para ver quando as duas mulheres voltavam.

– Não posso. – a voz dele disse, parecendo estar atrás dela.

– Você não está aqui! – ela falou, como para mostrar para sua mente que aquilo não era real.

– Estou sim, Anigel. Eu sempre estou.

E, então, ela sentiu uma mão encostar em seu ombro.

Com pavor, ela olhou para o espelho e viu a mão se materializar em seu ombro e então o resto do corpo, revelando o comensal Merus.

– Eu disse que estava aqui, Anigel.

E tudo escureceu.

***

Hermione acordou em um salto. Ao seu lado, a costureira estava desmaiada. Com um nó na garganta, ela foi até a sala onde Anigel estava e viu que estava vazia. Sem compreender, correu até o lado de fora e chamou os aurores que as esperavam, perguntando se eles haviam visto Anigel.

– Não pode ser! – ela resmungou, encarando a costureira no chão e apontando a varinha para ela – Enervate!

A mulher abriu os olhos e, ao ver Hermione com a varinha apontada para ela, deu um pequeno grito. Harry chegou correndo e ao ver a cena, aproximou-se também.

– Onde ela está, Hermione?

– Essa mulher me estuporou, Harry. – ela disse, sentindo o nó crescer – Assim que saímos da sala onde Anigel estava!

A mulher ainda estava atordoada, encarando as varinhas em sua direção sem compreender.

– Leve-a para o Ministério e a interrogue! Se necessário use a poção da verdade. – ele disse para o auror ao seu lado, sua feição se endurecendo.

Hermione sentiu-se inútil. Apesar de não ser uma auror, sabia como se defender melhor do que a maioria deles, mas não conseguira impedir que Merus levasse Anigel. Harry pareceu perceber o que ela estava pensando e encarou a amiga.

– Nós vamos acha-la. Não se preocupe.

E, sem dizer mais nada, ele saiu da loja, deixando uma Hermione arrasada para trás.

***

Anigel acordou sentindo suas pernas geladas. Sem compreender muito bem, percebeu que ainda estava com seu vestido de noiva, e, sendo ele muito fino, conseguia sentia o frio e a dureza do chão completamente. Estava em uma cela escura, sem janelas e parecendo ser um pouco antiga. Demorou alguns segundos para se lembrar do que acontecera e olhou para os lados, procurando sua varinha.

– Tu não precisas de varinha.

A voz de Merus fez com que ela olhasse para um ponto onde deveria ser a porta de entrada da cela. O comensal iluminou o ambiente com sua varinha e aproximou-se dela, fazendo com que ela se afastasse até sentir a parede em suas costas e não ter mais para onde fugir.

– Fiquei um pouco chateado. – ele falou, aproximando-se dela tão lentamente como uma tortura – Em ver que esse vestido não era para mim.

– Como se eu fosse me casar com você, Merus! – ela grunhiu, sentindo sua garganta arder com a força que fazia para não chorar.

O soco que ela recebeu no rosto foi tão forte que fez com que ela caísse para o lado, desnorteada.

– CALE ESSA TUA BOCA! – ele gritou, aproximando-se dela e a segurando pelos ombros – Agora tu vais aprender uma lição!

O comensal levantou a mão e deu-lhe outro soco. Sem saber o que fazer, Anigel tentava se soltar dos braços dele, mas ele estava preparado para isso. Chutou suas costelas e estomago repetidas vezes para que ela não conseguisse se mexer por um tempo e voltou a soca-la em todas as partes do corpo que ele alcançava. Ela ainda tentava inutilmente fugir e acertá-lo quando finalmente sentiu sua perna livre e chutou as pernas dele, fazendo-o cair.

O mais rápido que pode, ela levantou-se e correu, mas o comensal segurou-a pelas pernas e fez com que ela caísse no chão duro e tivesse que apoiar as mãos para não bater o rosto. Com isso, ele virou-a de costas no chão e segurou os braços e pernas dela com seu próprio corpo.

– Não tentes me enganar, Anigel. Ou eu juro que não poupo teu castigo.

Ele levantou o braço novamente, mas dessa vez foi para alisar o rosto dela. Ela virou o rosto, enojada, mas ele beijou-a levemente na bochecha e a soltou.

– Essa noite tu ficas aqui, como castigo. Comporte-se e poderá sair.

E, sem dizer mais nada, ele levantou-se e fechou a porta da cela com um estrondo, deixando-a jogada no chão.

***

Harry havia feito uma reunião de emergência com todos os aurores para começarem as buscas por Anigel. Os especialistas em maldições haviam constatado que a costureira estava sob influência da maldição Imperius, mas ela não conseguira nem ver quem foi a pessoa que a amaldiçoou. Todos foram separados em grupos de busca e recebimento de denúncias e a reunião finalmente acabara. Após a reunião e sozinho em sua sala, porém, ele sentia que nada parecia o suficiente. Precisava encontra-la o quanto antes, pois não tinha ideia do que o comensal poderia fazer. Sua obsessão por Anigel era muito forte.

Alguém entrou em sua sala e ele levantou o olhar, encarando Paul.

– Alguma coisa? – perguntou, sentindo sua voz arranhar a garganta.

– Não. Mas eu estou aqui para avisar que irei procurar pessoalmente pelo meu irmão e Anigel.

– Você não tem ideia de onde eles podem estar?

– Não. Eu andei… – ele suspirou, parecendo derrotado – Eu devo confessar que não estava muito bem até o sequestro.

– Como assim? – Harry o encarou.

– Eu estava tendo sérios problemas em dormir. Pesadelos e… – ele suspirou e encarou o chefe – Merus estava me perseguindo, mas eu só achei que estivesse ficando louco.

– Você também? – Harry encarou-o, um pouco preocupado – Você o via por aí, como se fosse uma aparição?

Paul encarou-o estranhamente, sem compreender.

– Sim – ele respondeu, finalmente – Como sabia?

– Isso estava acontecendo com Anigel. Ela me confessou que os pesadelos diminuíram depois da medicação que o curandeiro deu para ela, mas as aparições continuavam.

– Medicação? – ele encarou o chefe, receoso.

– Sim. Eu pedi que ela se consultasse e um curandeiro do St. Mungus deu a ela.

– E resolveu? – ele perguntou estranhando.

– Bom… sim. O que houve, Paul?

– Eu fui a um curandeiro também. – ele disse, aproximando-se da mesa de Harry – Ele me disse que aquilo era algo maior do que ele poderia ver e que nenhuma medicação resolveria meu problema.

– Como assim, algo maior? – Harry encarou o colega e levantou-se.

Parecendo perceber o que Harry estava pensando, Paul se aproximou do chefe e sussurrou:

– Acha que estávamos sob algum tipo de feitiço?

– É isso o que vamos descobrir agora. Venha, Paul, temos um curandeiro para encontrar.

***

O barulho das correntes e da porta da cela de metal fez com que Anigel pulasse de susto. Estava encostada na parede da cela e deveria ter cochilado. Depois do que acontecera, ela havia tentado encontrar uma saída, mas ela quase não conseguia enxergar na escuridão. Naquele momento, porém, concentrava-se em seu algoz, que se aproximava dela com a varinha acesa em uma mão e um sorriso estranho no rosto.

– Acho que tu aprendeste a lição, não é meu amor?

Sem saber como agir, ela apenas fez um aceno com a cabeça e o comensal abriu um sorriso ainda mais aterrorizante.

– Que bom, meu amor. Eu não quero que isso se repita, mas tu tens que me obedecer. Estamos entendidos?

Ela acenou novamente, terrificada. Parecendo satisfeito, o comensal segurou a mão dela e a levantou, dando um abraço.

– Agora venha, meu amor. Tem algumas pessoas que estão muito ansiosas em lhe ver.

Anigel foi abraçada pelo comensal e caminhou ao seu lado. Ela estava descalça e pode sentir quando o chão frio foi substituído por um chão mais quente e um lugar mais iluminado. Olhou em volta e percebeu que estava em um lugar que conhecia de muito tempo atrás. Tudo estava igual. Sem compreender, continuou andando com Merus a empurrando até a sala de jantar.

Assim que pisou na sala, sentiu que alguma coisa chocara-se com ela na altura da barriga e olhou para baixo.

– Aniii! Que saudades!

Anigel encarou o menino e sentiu suas pernas gelarem. Ninguém a chamava de Ani. Apenas… Karl.

– Finalmente você chegou, minha filha. Estamos te esperando há horas! – a voz do seu pai chamou sua atenção e ela encarou a mesa, chocada.

Estavam os dois ali. Seus pais, sentados a mesa como antigamente. A sua casa inteira estava idêntica a quando ainda morava ali. Seu pequeno irmão lançou lhe um sorriso e voltou a se sentar em uma cadeira com almofadas, para que pudesse alcançar a comida. Sentindo-se tonta e ao mesmo tempo feliz, ela se aproximou da mesa e sentou-se com eles, esquecendo por um momento tudo o que passara até ali. E então sua atenção voltou-se para o comensal, que se sentara do lado dela como se aquilo fosse perfeitamente normal.

– Seu noivo é uma pessoa muito especial! – murmurou sua mãe, lançando lhe um sorriso do outro lado da mesa – Fico feliz que tenha encontrado alguém assim.

– Eu não vejo a hora de entrar com você no seu casamento! – falou seu pai, dando uma piscada de olho para Merus.

– Eu concordo com esta parte! – disse o comensal, dando um sorriso e segurando a mão de Anigel – Mal posso esperar!

Eles começaram a comer, felizes, e Anigel olhou para suas roupas. Não estava mais com o vestido de noiva e sim com uma roupa normal e sapatos. Quando ela trocara de roupas?

– O que foi, Ani, você não quer comer? – falou Karl do lado dela – Mamãe que fez.

Sem acreditar, ela pegou uma garfada e colocou na boca. Era impossível não distinguir a comida de sua mãe. Sentindo as lágrimas rolarem, ela abaixou a cabeça. O que significava aquilo? Karl a tocava o tempo todo e Anigel sentia perfeitamente a mãozinha dele, como se ele realmente estivesse vivo. Seus pais estavam ali, da mesma forma que antes…

Ela encarou Merus pelo canto do olho. Aquilo não estava certo. Será que ela enlouquecera de vez?

FIC – MENTIRAS

Capítulo 20 – Os pesadelos de Anigel

Estava na rua onde morava e via sua casa ao longe, esperando-a. Sentindo uma tensão se formar em seu peito, ela olhou em volta, e então pode vê-lo. Ao longe, do lado de sua casa, como que para mostrar que ele sabia onde ela morava, ela pode sentir aquela sensação de terror dominá-la.

– Eu lhe disse que estava aqui, Anigel. – ele disse ao longe, mas ela pode ouvi-lo perfeitamente.

– O que você quer? – ela perguntou, se afastando com a varinha em punho.

– Já lhe disse… – ele falou, dando uma risada leve e se aproximando tão rápido que ela não pode se afastar – Tu és minha.

Quando Anigel sentiu as mãos do comensal tocar sua face, ela começou a se debater. Sentia que ele tentava segurá-la firmemente, até que de repente, ela caiu no chão do quarto com um estrondo.

Harry a encarava da cama com um olhar assombrado. Sem saber o que fazer, Anigel fechou os olhos, segurando-se para não chorar como sempre fazia.

– Céus, Anigel! – ele murmurou, descendo da cama ao lado dela – É a terceira vez nessa semana… tem certeza que você está bem?

Ela simplesmente encarou o namorado com um olhar mortal, que ele ignorou.

– Como seu chefe, eu ordeno que você tire alguns dias de folga, Anigel. Você não pode continuar assim.

– Não, Harry! Eu já disse que estou bem.

– Um dia! – ele insistiu, abraçando-a – Só um dia!

– Está certo – ela grunhiu, soltando-se do namorado e levantando – Se isso vai fazê-lo sentir-se melhor.

– Obrigado, Anigel. – ele deu um sorriso.

Resolveu que iria tomar um copo de água para esperar seu sono voltar. Desceu até a cozinha e, com o copo na mão, sentou-se no sofá da sala, não conseguindo controlar seus pensamentos. Desde que Merus fugiu, Anigel sentia-se pressionada. Vários aurores se revezavam entre vigiá-la e trabalhar nas buscas pelo homem. Apesar de Harry e Paul a acalmarem todo dia, mostrando que o comensal não teria a mínima chance de encontra-la, ela ainda sentia-se tensa.

Toda noite tinha pesadelos e na última semana começara a ter visões durante o dia, onde ela via o comensal a observando, mas quando olhava mais atentamente, ele não estava lá. Seus pesadelos também não eram comuns, nos quais as pessoas acordam quando levam um susto. Aquele pesadelo persistia no que parecia horas, nas quais Merus sempre estava ao lado dela, pronto para seu primeiro descuido. Entretanto, o daquela noite havia sido um mais curto.

Após mais algumas semanas, porém, sua preocupação que Merus aparecesse e começasse a persegui-la transformou-se em alívio quando percebeu que o homem simplesmente desaparecera. Depois de fugir da prisão, ele não apareceu em nenhum lugar e também não havia tentado encontra-la.

Mas, apesar de todos os esforços, ninguém sabia para onde o comensal poderia ter ido e porque estava escondido. Em todo o mundo, aurores e ministérios estavam cientes de quem era Merus e o que representava, para a eventualidade de ele aparecer.

Anigel, porém, tinha outro pensamento quanto a esse estranho desaparecimento. Conhecia a forma sutil com que o comensal agia de muitos anos. Apesar de saber que Azkaban poderia ter deteriorado sua mente, alguém tão astuto não passaria seis meses tentando fugir se não tivesse algum tipo de sanidade. E ele não mandaria toda sua fuga a perder por conta dela. Pelo menos por enquanto.

Naquele momento, um mês após sua fuga, ela via o quanto Harry se sentia culpado por ainda não ter conseguido capturar o comensal. Os seguranças contratados para vigia-la vinte e quatro horas continuavam a segui-la como antes, e naquele momento vigiavam a casa e os passos de Anigel, onde quer ela fosse.

Terminando seu copo de água, ela foi deitar-se novamente. Apesar de não ter um pingo de sono, precisava descansar. Além de terríveis, os pesadelos a deixavam sem energia.

***

No outro dia, ela resolveu seguir o conselho (ou melhor, ordem) do namorado e ficou em casa. Dormiu até tarde, organizou a casa e ficou lendo alguns livros que havia tempo que queria ler. Quando a noite chegou, ela percebeu que havia comido pouco durante o dia e que precisaria jantar.

Resolveu, então, que iria comprar algumas coisas e fazer algo para o jantar. Apesar de não ser boa cozinheira, aprendera bastante morando com Harry, que sabia cozinhar muito melhor do que ela e queria retribuir. Afinal, o namorado estava ficando cada vez até mais tarde no Ministério graças à fuga do comensal Merus.

Assim que pisou para fora da casa, sentiu a aproximação dos aurores que a seguiam. Depois de um mês, quase não se incomodava mais com seus seguranças, mas Harry insistia que isso era importante, que aquilo era necessário.

Sua caminhada até o mercado fora curta. O pequeno mercado trouxa era ali perto da casa e Harry lhe ensinara exatamente como agir entre trouxas para que não tivesse problemas em ser notada. Com a fuga do comensal, ser notada poderia ajudar com que Merus a encontrasse mais facilmente, de acordo com Harry, e aquilo deveria ser evitado. Ela chegou à sessão de frutas e legumes e notou que um dos aurores que a seguiam estava do lado das frutas, examinando algumas maçãs. Fingindo não vê-lo, ela passou para o lado dos legumes.

Meia hora depois, ela finalmente conseguira sair com suas compras. Sentindo-se leve e feliz, foi caminhando lentamente para casa, avistando-a do final da rua. A casa era a última de uma rua sem saída e era muito aconchegante. Quando Harry e ela viram a casa, se apaixonaram no mesmo instante. Era grande, com mais de três quartos, uma sala grande e espaçosa e um jardim imenso. Era também rodeada por muros e portões, mas aquilo não a incomodava. Muito pelo contrário: sentia-se mais segura.

Estava bem distraída, quando uma voz dominou seus ouvidos, como se estivesse sussurrando ao lado de sua orelha:

– Eu estou aqui, Anigel.

Ela travou, sentindo seus músculos se retesarem. Cada partícula do seu corpo mandava que ela fugisse, correndo, ou que ela chamasse os aurores. Receosa, olhou em volta, esperando ver Merus do seu lado, mas não viu nada, nem mesmo seus seguranças. Suas mãos ainda carregavam as sacolas e ela ainda estava no meio da rua a caminho de casa, sozinha, mas sentindo uma presença se aproximar dela. Balançando a cabeça e sentindo-se paranoica, continuou a caminhar.

– Tua ignorância não vai leva-la a lugar nenhum.

Novamente, ela virou-se, dessa vez soltando a sacola e levantando a varinha. Como aquilo era possível? Os aurores não estavam ouvindo ou vendo? Porque eles simplesmente não apareciam?

– Não tentes sumir de minha visão Anigel… – a voz sussurrou, parecendo tão próxima de seu ouvido que ela virou-se novamente para encarar o nada – Porque eu não sumirei da tua.

Anigel olhou em volta novamente, sentindo a aproximação chegar cada vez mais perto e gritou, saindo correndo em direção a casa. Onde estavam os aurores? Porque eles não apareciam? Desesperada, ela correu o máximo que pode, fazendo o possível para não olhar para trás, até que sentiu duas mãos segurarem seus ombros com força, fazendo-a gritar novamente.

– ANIGEL! – a voz gritou, fazendo com que ela abrisse os olhos e piscasse, aturdida – Anigel! Me responda!

– Ha-harry? – ela balbuciou, ao encarar o rosto do namorado – O que… como chegou aqui?

– Eu havia acabado de chegar quando ouvi seus gritos. Estou tentando falar com você desde lá embaixo. Você não me viu?

– Não, eu não… – ela encarou Harry, desesperada – Eu ouvi a voz dele! Estava do meu lado, eu só não podia vê-lo!

– De quem você está falando, Anigel? – perguntou Harry, segurando o rosto dela entre as mãos.

– Merus, óbvio! – ela soltou-se do namorado e olhou em volta, desesperada – Ele estava aqui, eu o ouvi! Estava tão próximo de mim que podia sentir sua respiração!

– Anigel… – Harry segurou a mão dela – Não havia ninguém aqui. Eu e os aurores estamos tentando lhe explicar isso desde que você entrou na rua.

Sem compreender, Anigel olhou em volta e viu que todos os aurores estavam ali, a encarando um pouco confusos. Sentindo as lágrimas caírem pelo seu rosto, Harry abraçou-a em um só movimento.

– Venha, vamos para casa.

Apesar de se sentir uma tola, não compreendera o que havia acontecido. Se os aurores não escutaram a voz, aquilo provavelmente era algo de sua mente. Mas como conseguira sentir a proximidade? Como não vira nada além daquela sensação de aproximação? Estaria ela finalmente enlouquecendo?

Harry fora muito gentil com ela. Pediu que tomasse um banho e que deixasse o jantar com ele, pois ela estava muito estressada. Anigel consentiu, mas ao entrar na banheira, sua mente lhe dizia o contrário. Ela estava se sentindo bem… mas como sua mente fora colocar Merus ali?

Depois de jantarem em silencio, ela colocou a louça para lavar e sentou-se no sofá, sentindo-se esquisita. Harry se aproximou dela e abraçou-a levemente, fazendo com que o encarasse.

– Está tudo bem, Anigel?

– Não sei, Harry. – ela disse, encarando o namorado seriamente – Eu estou ficando louca, eu acho.

– Não é loucura, é estresse. Essa tensão depois da fuga de Merus e essa coisa de segurança a deixou muito nervosa. Não é a toa que hoje você imaginou a voz dele.

– Pois é… isso que me intriga – ela disse, franzindo o cenho e encarando o espaço vazio a sua frente.

– Pare com isso, Anigel. – o namorado puxou seu rosto – Isso é coisa da sua cabeça, meu amor!

– Deve ser… – ela murmurou, lançando lhe um sorriso – Me desculpe por isso.

– Não precisa se desculpar. – ele encarou-a por alguns instantes e voltou a perguntar – Você não quer tirar férias, Anigel?

– Férias? E ficar louca dentro dessa casa, sozinha, enquanto todos os aurores buscam por Merus? Negativo.

– Seria algo bom para você. Assim você esquece um pouco esse comensal.

– Não fale desse jeito – ela grunhiu, soltando-se do namorado e levantando-se – Eu não vou tirar férias enquanto esse comensal não estiver preso novamente.

– Me perdoe pelo o que eu vou dizer, Anigel, mas eu acho que você… – ele encarou-a receoso – Você deveria procurar um curandeiro e ver como está sua saúde.

– Você quer dizer minha cabeça, não é? – ela disse, irritada.

– Anigel, não estou te chamando de louca, mas sim pedindo que prove a si mesma que está bem. Com a palavra de um profissional, com certeza você vai ter certeza do que está acontecendo e parar de ver coisas que não existe

Ela abriu a boca para falar, mas nada saiu. Havia sentido no que Harry lhe dissera. Se ela realmente estivesse louca, somente alguém especializado poderia afirmar… ou negar. Respirando fundo, ela sentou-se novamente do lado do namorado e abraçou-se a ele.

– Você está certo, Harry. Eu vou procurar um curandeiro assim que possível.

– Está de folga amanhã, se quiser. – ele disse, encarando-a com um sorriso gentil.

– Espertinho. – ela sorriu também e beijou

***

Anigel foi direto ao hospital St. Mungus somente para se informar, mas acabou conseguindo um encaixe com um curandeiro especializado naquele mesmo dia. Depois de esperar uma hora, o homem finalmente a chamou. Ele era mais velho e devia ter no máximo cinquenta anos. Seus cabelos ainda mantinham um tom castanho e seus olhos eram completamente negros, mas bondosos. Sem saber exatamente como agir, ela entrou no consultório e sentou-se na cadeira que o curandeiro lhe indicava.

Depois de pegar a ficha dela e parecer anotar algumas coisas com sua varinha nela, ele encarou-a tão profundamente que fez com que ela se afastasse um pouco.

– Srta. Paquet, em que posso ajuda-la?

– Não sei se estou no lugar certo. – ela resmungou, respirando fundo e tentando não sair correndo.

– Se veio até aqui, alguma razão deve ter. Conte-me essa razão e quem sabe podemos descobrir se aqui é o lugar certo para você estar.

Anigel respirou fundo e encarou os olhos negros. Sentindo-se mais calma, ela começou a contar sua história. Não sabia se era isso que deveria dizer, mas como o curandeiro não lhe interrompeu nenhuma vez, continuou falando interminavelmente. Assim que contou sobre seus sonhos e aparições, cada vez mais estranhos, o homem finalmente se mexeu.

– Bom, Anigel, eu preciso fazer alguns exames em você para ter certeza do diagnóstico – ele mostrou a varinha para ela – Se importa?

Ao sinal negativo dela, ele fechou os olhos e sua varinha começou a brilhar. Anigel viu uma luz branca se aproximar dela e se enrolar por todo seu corpo, mas não sentia nada além de ar gelado. Assim que o curandeiro abriu os olhos, a névoa desapareceu e o homem deu um sorriso.

– Sua saúde está excelente, Srta. Paquet. Não há nenhum tipo de feitiço ou maldição em você e não vi nenhuma doença ou problema físico. O que nos leva ao problema psicológico.

– Acha mesmo que estou enlouquecendo? – ela perguntou, preocupada.

– Não, não acho. – ele disse, dando um pequeno sorriso – Acho que você precisa descansar e se acalmar. Tudo isso que você passou e está passando está dominando sua mente com tanta perspicácia que você se ilude.

– Não me diga que terei que ficar em casa, doutor, porque eu não aguentaria! – ela disse, cruzando os braços.

– Acho que, já que você não gosta de ficar parada, pode trabalhar, mas não na área de busca ao comensal. Deveria sim fazer um trabalho menos estressante e que você possa deixar de lado todos esses pesadelos. Vou mandar uma recomendação para seu chefe no Ministério, considerando essa possibilidade… o que acha?

– Isso vai fazer com que eu pare de vê-lo, inclusive durante o dia?

O homem encarou-a profundamente e suspirou.

– Não, mas essas pílulas que irei te receitar devem ajudar. – ele disse, segurando uma caixinha – Não posso dizer que as alucinações vão sumir do dia para noite, mas com certeza em uma ou duas semanas não terá pesadelos e muito menos visões do comensal a cada esquina. Mas, se você continuar vendo essas aparições e ninguém mais ver, respire fundo e ignore. Assim sua mente percebe que não adianta lhe lançar truques e para de incomodá-la.

– Obrigada, doutor. – ela falou, sentindo-se esquisita.

Assim que pegou a carta de recomendação do curandeiro para seu chefe (algo que ela ainda não sabia se entregaria), olhou para a caixinha de pílulas e suspirou, resignada. Se aquilo faria com que as alucinações parassem, ela tomaria.

***

Anigel já estava em casa há algum tempo quando alguém bateu na porta da frente. Estranhando, ela viu pelo olho mágico Paul, parecendo meio sem jeito.

– Paul? – ela perguntou, abrindo a porta, receosa.

– Sua mãe adorava azaléas. – ele falou, comprovando sua identidade e apontou para o interior – Posso entrar?

– Claro. – ela abriu a porta, fazendo com que o homem passasse e fechando a porta em seguida – O que faz aqui, Paul?

– Eu vim conversar com você, Anigel.

– Aconteceu alguma coisa? Foi Merus?

– Não e sim. Na verdade, estou aqui para deixa-la informada, pois Harry me proibiu de contar qualquer coisa da investigação a você

– Ele proibiu? – ela encarou-o, sem compreender – Como assi

– Eu sei quão estressada você está, o quão difícil está sendo saber que Merus fugiu, mas soubemos que ele andou visitando algumas casas conhecidas.

– Casas conhecidas? – ela resmungou, encarando-o – Quais casas?

– A mansão dos Nottinghan, obviamente, está sendo vigiada. Ontem a noite os aurores viram a aproximação de alguém, mas não conseguiram ver, pois a pessoa aparatou antes. Logo depois, pelo meu cálculo, os aurores viram um homem encapuzado observando seu antigo apartamento e depois, outra aparição na antiga casa de Harry.

– Então ele… ele está sondando? – ela murmurou, preocupada.

– Sua casa e você estão muito vigiadas, mas ainda sim eu tenho receio.

– Acho que ele ainda não me achou, senão os outros teriam visto alguém por aqui. E ele sabe que vão me vigiar.

Paul passou a mão no rosto, parecendo muito cansado.

– Só me prometa que vai se cuidar, Anigel.

– Pode deixar.

FIC- Mentiras

Capítulo 19 – O pesadelo de Anigel

Os dias que se seguiram à prisão dos Nottinghan passaram rápido. Paul foi libertado logo depois do seu depoimento e Ian continuava preso, aguardando julgamento.

Anigel estava em seu apartamento, tentando colocar sua cabeça em ordem depois de tudo o que aconteceu e tentando se concentrar nos seus últimos momentos naquele lugar.

A grande verdade era que fora Ian que planejara a morte dos pais e a culpa no irmão. Quando Paul fugiu, pediu abrigo aos amigos Ellemir e Leon Paquet. Como Anigel estava na escola e Karl era muito novo para entender, Paul foi abrigado pelos amigos, que acreditavam em sua versão da história e pretendiam ajuda-lo a desmascarar Ian.

No dia da formatura dela, Paul havia saído da casa dos Paquet por achar que Ian finalmente o encontrara. Ian, achando que Paul ainda estava por lá, foi até a casa para achar o irmão. Como a família se recusou a dar o paradeiro de Paul, Ian matou-os. Quando Anigel chegou a casa, Ian estava terminando de revistar o local, para ter certeza que Paul não estava realmente escondido.

Sua ruína havia sido a obsessão que Ian tinha por Anigel e ela sabia que uma pessoa como Ian não amava ninguém além de si próprio.

A mudança de nome de Ian deveu-se a Paul, que continuava vivo e sabendo de toda a verdade. Quanto mais tempo Ian conseguisse desaparecer aos olhos do irmão, melhor para ele. Com isso mudou de nome e fez o possível para encontrar Anigel e tornar-se seu namorado.

Ela sentia-se idiota quando pensava nisso, mas sabia que não tinha culpa alguma. Como ela poderia desconfiar que o homem que matara seus pais fosse Gustav?

Anigel suspirou e olhou em volta. O apartamento não mudara muito tirando suas coisas de lá. Ela não havia trazido muito da casa onde morava com seus pais. Decidira que colocaria aquela casa a venda. Nunca mais queria pisar naquele lugar.

Aproximou-se da porta do apartamento e sentiu as lágrimas começarem a escorrer pelo seu rosto. Não sabia como, mas teria que conseguir. Iria esquecer toda e qualquer lembrança daquela casa onde crescera com seus pais. Imagens daquele lugar no passado passaram por sua mente. Karl e ela brincando, ela com os pais… Aquilo doía.

Sua vida havia sido destruída há cinco anos pelo único homem que achou que havia conseguido amar. Gustav era um fantasma e ela não ia deixar que aquilo destruísse a vida que ela levaria agora.

Lentamente ela saiu pela porta e fechou o apartamento, limpando o rosto com a palma da mão. Andou até a porta de entrada, onde suas malas a esperavam. Com um movimento da varinha levitou-as e balançou a cabeça, afastando outras imagens que insistiam em entrar na mente dela.

E pensar que ela quase casara com o homem que destruíra sua vida. Tudo seria diferente a partir daquele momento. Fechou a porta e nem olhou para trás. Sua vida seria completamente outra.

***

A campainha da casa onde estava morando tocou insistentemente. Anigel correu até a porta, colocando um brinco apressadamente e tentando calçar a sandália ao mesmo tempo.

– Já vou!

Abriu a porta, ofegante, e deu um sorriso para o homem que estava ali.

– Você está elegante, Paul! – ela disse e abriu a porta para que ele entrasse – Harry já vem e nós podemos ir.

Depois de tudo o que acontecera, Anigel vendera seu apartamento e a casa onde seus pais moravam, juntando uma pequena fortuna. Harry resolveu que venderia a casa onde ele e a antiga esposa moravam e os dois decidiram comprar uma casa e morar juntos. Apesar de alguns aurores mais engraçadinhos perguntarem quando seria o casamento, os dois haviam resolvido que isso demoraria mais um pouco para acontecer.

Nesse meio tempo, a liberdade de Paul foi completamente concedida e, apesar de o cargo que o homem havia ganhado há seis anos não existir mais, o Departamento de Aurores não achou mal ganhar mais um auror experiente em sua luta contra os comensais restantes. E era por aquele motivo que eles estavam arrumados e elegantes naquele dia: para a festa de comemoração do novo auror do departamento.

Harry desceu as escadas arrumado e perfumado e Anigel deu um sorriso ao vê-lo. Ele ficava muito bonito com as vestes bruxas de gala.

– Está tudo pronto? – perguntou ele, abraçando-a pela cintura e lançando um sorriso para Paul – Então vamos!

O único que sabia dirigir um carro entre os três era Harry, portanto foi ele quem dirigiu até perto do Beco Diagonal, onde a festa seria dada. Anigel olhou para o banco de trás e deu um sorriso para o colega, mas ele continuava sério.

– Está tudo bem, Paul?

Ele encarou-a profundamente e respirou fundo.

– Estou um pouco nervoso, eu confesso.

– Não vejo motivos! – ela falou, lançando lhe um sorriso – Está tudo bem agora!

Depois que Merus havia sido preso, os comensais ou foram se entregando aos poucos ou lançavam-se nas mais absurdas lutas, o que fez com que fossem quase todos presos ou mortos. E finalmente, tudo se ajeitava.

– Você tem razão. Acho que passei tantos anos só recebendo o pior, que não consigo acreditar que vou ter um final feliz.

– Pois acredite, Paul! – falou Harry, dando uma leve risada – Estamos indo em direção a ele!

***

A frente da casa estava repleta de uma grama macia e flores. A primavera havia chegado com todo seu encanto, e Anigel não poderia estar mais feliz. O céu aparecia para ela e sumia, fazendo com que as gargalhadas de sua pequena menina a fizessem se sentir no topo do mundo.

Ao longe, pode ver Harry conversando com Paul animadamente e ela percebeu que sua menina pedia para descer do balanço, o que ela fez prontamente. Assim que conseguiu, ela saiu correndo pela propriedade, e Anigel foi atrás, brincando de pega-pega com a menina.

A criança correu para a frente da casa e ela foi atrás, chamando-a e dizendo o quanto a beijaria quando a visse. Assim que pisou no gramado da frente da casa, porém, viu que havia mais alguém com sua pequena menina. Um homem, com longos cabelos castanhos cacheados segurava a menina no colo, que ria com o que ele dizia.

Sentindo seu coração parar de bater no peito e um terror invadi-la, o homem finalmente percebeu que Anigel estava ali e lançou lhe um sorriso.

– Meu amor, que bom que você chegou.

– Solte-a, Ian.

– Claro que eu vou soltar. O que você acha que eu faria mais com ela? É minha filha!

– Solte-a! – ela gritou, desesperada.

O homem deu um sorriso triunfante e soltou a menina, que correu para os braços da mãe.

– Agora venha comigo, Anigel. Vamos para nossa casa.

– Você está maluco! Essa menina não é sua filha e nossa casa é aqui!

– Não, Anigel, é você quem não entendeu! – ele grunhiu, mostrando algo no chão da propriedade – Você vem comigo!

Horrorizada, ela encarou o corpo de Harry no chão e gritou, desesperada.

– Não! Harry! Harry!

– Anigel!

Ela abriu os olhos, ainda aterrorizada e se debatendo, o que fez com que Harry se afastasse dela um pouco e tentasse contê-la.

– Anigel, acorde!

Ao ver que tudo não passara de um pesadelo, ela encarou o namorado e começou a chorar veementemente.

– O que aconteceu, Anigel? Foi um pesadelo?

– Foi pior do que isso – ela falou, e, tentando conter o choro contou tudo o que sonhara para Harry.

– Era só um pesadelo, meu amor. Merus está preso há seis meses e guardado por toda a escolta de aurores.

– Mesmo ele estando preso pode fugir e não há nada que o impeça de vir atrás de mim, me matar!

– Está enganada, Anigel. Ele nunca vai encostar nenhum dedo em você enquanto eu viver.

– Isso é o que me dá mais medo, Harry.

– Vamos voltar a dormir, Anigel. Está tudo bem agora.

Harry desligou a luz do quarto e abraçou-a, fazendo com que ela se sentisse mais confortável. O único problema era que desde que Merus fora preso, nunca sequer sonhara com ele. Porque então voltara a ter pesadelos com aquele maldito comensal?

***

No dia seguinte, Anigel estava um pouco mais animada. Apesar de ter acordado no meio da noite com aquele terrível pesadelo, conseguira dormir novamente. Harry conversava sorridente com ela a caminho do Ministério, contando algumas coisas que aconteceram no dia anterior.

Assim que pisaram no QG dos aurores, porém, sentiu a atmosfera pesada. A maioria dos aurores já havia chegado e a seriedade dominava todos os rostos dos presentes. Paul aproximou-se dos dois e pediu uma palavra em particular.

Quando Harry fechou a porta de sua sala e Paul os encarou, Anigel já sabia o que havia acontecido.

– Harry, eu recebi uma mensagem de Azkaban essa manhã.

– Demorou seis meses para ele achar uma saída, então! – ela falou, sentindo sua voz tremer.

– Ele fugiu? – perguntou Harry, incrédulo.

– Matou três e deixou mais dez feridos. Não sei ao certo como ele conseguiu, mas assim que alguém melhorar eu saberei.

– Não faz diferença. – Anigel falou, encarando os dois homens seriamente – Vocês sabem o que ele vai procurar.

– Pare com isso, Anigel! – Harry disse, aproximando-se dela e abraçando-a – Ele não vai chegar perto de você.

– Ela precisa de segurança vinte quatro horas por dia, Harry. – comentou Paul, engolindo em seco – Sabemos que ele vai vir atrás dela.

– Pode deixar isso comigo, Paul. Eu quero que mande aurores para Azkaban e descobrir o que ele fez para fugir, mas você fique aqui. Você conhece os métodos do seu irmão tanto quanto nós.

– Sim, senhor. – Paul falou e saiu da sala.

Anigel estava encarando a porta da sala como se estivesse em transe. Ela estava esperando por aquele momento desde o dia em que ele fora preso. Sabia que aquilo nunca terminaria.

– Nós vamos captura-lo, Anigel.

– Não sei se isso será o suficiente para pará-lo, Harry. – ela falou, encarando-o com um olhar sombrio – E é isso que eu tenho medo. Ele tem muito mais pessoas para atingir agora!

– E nós temos muito mais facilidade para acha-lo! Sabemos que ele virá atrás de você e eu estarei lá para te proteger.

Ela suspirou e deu um leve sorriso para o namorado.

– Eu sei que vai estar. E é isso que me consome por dentro.

– Esqueça isso, Anigel. Nós estamos juntos e é isso que importa! – ele puxou-a e deu lhe um beijo – Agora vamos ao trabalho! Temos um comensal para caçar!

Dando uma leve risada, Anigel acompanhou o namorado até o QG. Não iria se deixar abater.

FIC – MENTIRAS

Capítulo 17 – Desconfianças

O gabinete do diretor havia sido deixado da forma como o encontraram. Havia sinal de luta estampados pelas paredes, onde buracos de feitiços podiam ser vistos; a mesa e a cadeira do diretor estavam viradas ao contrário e todos os livros que ficavam nas paredes jogados no chão, alguns até destruídos.

Anigel abaixou-se na porta e ficou encarando toda aquela bagunça, tentando compreender o que havia acontecido ali. Havia sangue de Dietrich no chão, mas não o suficiente para considerar o diretor morto. Porque Merus levaria o diretor vivo dali? Ele nunca criara reféns e sempre destruía aquele que sabia o mínimo sobre ele.

Caminhou até a parte de trás da mesa e viu muitas pastas jogadas no chão, totalmente reviradas. Pegou uma na mão e descobriu que eram dossiês. Um pouco espantada, pegou a pasta com seu nome e abriu-a. Havia várias fotografias dela com Ian e algumas dela com Mark.

Chocada, ela sentou-se no chão e começou a ver as outras pastas que estavam ali. Havia uma somente de Ian, com fotografias dele no dia a dia, outra com o nome de Harry e mais algumas com nomes que ela nunca ouvira falar. Ainda sem entender nada, pegou uma pasta mais antiga, que não tinha nada escrito.

A pasta estava recheada de informações sobre Paul Nottinghan. Abriu a primeira folha e começou a ler. As informações não eram nada parecidas com as que ela havia visto no ministério. Paul Nottinghan havia feito a academia de aurores e se formado. No papel, ainda constava que ele tinha um emprego garantido no Ministério de Londres.

Um pouco chocada, ela largou o papel no chão e encarou as paredes, como se elas pudessem responder a sua pergunta. Porque um auror formado e com emprego garantido iria se transformar em um comensal da morte e matar todos de sua família?

Ela sabia o que precisava fazer: deveria ir até o Ministério e pegar os documentos retirados da casa dos Nottinghan e lê-los todos. Não sabia se encontraria algo por ali, mas precisava ter certeza. Havia algo errado nessa história e ela estava com medo de ter certeza. Mandou um patrono para Harry, para que ele já fosse lendo os documentos que achasse importantes, pois ela estava saindo dali e ainda demoraria um pouco a chegar.

Anigel pegou os papéis e pastas e segurou-os na mão, tentando equilibrar tudo quando percebeu que alguém a encarava da porta do gabinete do diretor e ela jogou o que segurava e apontou a varinha para o recém-chegado, mas ele foi mais rápido e amarrou-a com um feitiço.

– Olá, Anigel Eu estava esperando você aparecer.

– Paul Nottinghan! – ela falou, dando um sorriso e revirando os olhos – Então isso tudo foi uma armadilha?

– Quase isso. Eu quero lhe mostrar algumas coisas. – e, dizendo isso, ele silenciou-a com um feitiço e pegou-a no colo, carregando-a para fora do gabinete do diretor.

***

Harry estava em sua sala quando recebeu o patrono de Anigel. Apesar de não se nada grave, ela parecia muito eufórica e preocupada, o que fez com que ele se levantasse de sua mesa e fosse até a sala onde as informações sobre o processo estavam.

Havia várias caixas, mas como ela pedira que ele procurasse informações sobre Paul, ele pegou as duas caixas que foram retiradas do quarto dos dois homens, Ian e Paul. Após uma hora, ele finalmente achara alguma coisa que valera a pena. Pelo tempo, Anigel já deveria estar chegando ao Ministério, mas ele resolveu ler a carta mesmo assim.

Era uma carta de Paul para seus pais, contando como estava sua especialização na Rússia e como ele mal podia esperar para voltar para casa. Sem compreender muito bem, Harry releu a carta e uma fagulha de preocupação o atingiu. Com a carta em mãos, ele correu para a sala dos procurados e colocou o nome de Paul na bola de cristal, o que fez uma pasta aparecer subitamente na mesa ao seu lado.

O mais rápido que pode, pulou as partes mais recentes sobre a procura do comensal e voltou para as páginas onde mostrava seu histórico escolar e o que ele havia procurado após sair de Durmstang. Ele percebeu que não lembrava que Paul havia feito academia dos aurores. E pelo que constava na ficha, nem lembrava que ele havia sido o melhor da turma. O mais engraçado de tudo foi que ele notou que o homem tinha um emprego garantido no ministério, para se iniciar no final de agosto, um mês após o término da academia.

Aquilo se encaixava com o que o ex-noivo de Anigel dissera, mas, ao ler as próximas linhas, seu coração acelerou. Paul havia passado quase um mês na Rússia, fazendo especialização em Obliviação.

Se ele tinha passado um mês fazendo especialização, como foi que Ian não sabia? Ele não ficara em casa mais de um mês com os pais? E se Paul fez a tal especialização na Rússia, ele não desaparecera, consequentemente…

Ele respirou fundo, tentando não pensar o pior. Talvez o homem tivesse se enganado quanto às datas. Levantou-se rapidamente, sentindo uma dor no peito que ele sabia que não era de nenhuma doença. E então, sua desconfiança se concretizou em sua cabeça.

– Não pode ser! – ele grunhiu, correndo para o QG, desesperado.

Se estivesse correto, Anigel corria um perigo que não fazia ideia. Pegando seu sobretudo, porém, ele viu que uma coruja entrava pela porta e deixou uma carta em cima da mesa. Pressentindo o pior, ele leu:

“O fim se aproxima, mas não da forma como se espera. A verdade está escondida, mas não ficará para sempre. A revelação pode trazer problemas, mas você pode impedir isso. A casa onde tudo começou é o início. Onde está sua amada agora?”

– Anigel! – ele exclamou, subitamente compreendendo.

***

Quando Paul retirou a venda dos olhos de Anigel, ela arfou com o susto. Estavam na casa dos Nottinghan. O homem desamarrou as pernas dela, ainda a deixando completamente imobilizada da cintura para cima e a fez caminhar para a escada.

– Era uma casa bonita, antigamente. – ele falou, como se estivessem passeando – Meus pais gostavam de fazer festas, apesar de ser uma época conturbada.

Ao perceber que ela não falava nada, Paul encarou-a com um sorriso estranho e apontou a varinha para ela, tirando o feitiço de silencio que a segurava.

– Me perdoe, Anigel. Esqueci que havia silenciado você.

– O que pretende?

– Quero que você saiba da verdade, oras. Eu não sou uma pessoa muito sociável, eu confesso, mas mentiroso eu nunca fui.

– Cínico! – ela grunhiu, tentando fugir, mas o homem empurrou-a escada acima e colocou a varinha nas costas dela.

– Não me faça ter que silenciá-la novamente. Eu gostaria que você participasse comigo das descobertas finais.

Sentindo um nó crescer em sua garganta, o homem a levou para o segundo andar da casa e parou na frente do quarto que ela encontrara a fotografia dele com seus pais.

– Foi aqui que você descobriu que eu era o Merus, não foi?

Ela limitou-se a encará-lo com ódio, torcendo para que as lágrimas não começassem a cair.

– Se eu lhe contar que esse quarto não era meu, será que você acredita?

– Que diferença isso faz? – ela grunhiu, sentindo as lágrimas escorrerem.

– Faz uma grande diferença, Anigel. Porque esse quarto, onde você encontrou a fotografia minha com seus pais, pertencia a Ian. Agora, se pergunte: porque ele guardaria uma fotografia daquelas com ele?

– Isso não faz diferença, eu já disse.

– É mesmo, não é? – ele deu um sorriso sinistro e a empurrou para dentro do quarto – Então talvez o que eu vou lhe mostrar agora faça mais sentido.

Paul apontou a varinha para o teto do quarto, de onde ela vira a foto presa e lançou um feitiço. O teto desmoronou em cima da cama, fazendo com que várias caixas que estavam ali escondidas abrissem e seu conteúdo se esparramasse em cima da cama e pelo chão.

– Fique a vontade para ver, Anigel! – Paul falou, libertando-a completamente – Mas não faça nenhuma gracinha, ou eu a amarro novamente.

Anigel respirou fundo, pensando em alguma forma de escapar e resolveu olhar o que o comensal queria tanto que ela visse. Abaixou-se e percebeu que havia muitas fotografias dentro das caixas. Um pouco surpresa, ela pegou uma delas e encarou Paul.

– O que isso significa?

– Continue vendo, Anigel.

Ela pegou mais fotografias, mas todas eram da mesma pessoa. Todas aquelas caixas eram cheias de fotografias… dela mesma.

– Não está compreendendo Anigel? – o homem deu uma leve risada e aproximou-se dela, ainda com a varinha apontada para suas costas – Isso era uma pequena obsessão. Confesso que no começo achei que fosse só uma besteira de um adolescente, mas era mais do que isso. Sempre foi mais. O que se passava em sua mente, eu não faço ideia.

– Isso era seu? – ela encarou-o, enojada.

– Claro que não! Porque eu teria fotos suas? Eu era amigo de seus pais, mas confesso que nunca tive obsessão por você. – ele segurou-a pelo braço e apontou a varinha para seu pescoço – Venha. Tenho uma visita para você.

Sem compreender o que estava acontecendo, Anigel desceu as escadas com Paul segurando-a firmemente até a sala de estar da casa. Assim que chegaram ali, o homem a soltou e encarou-a.

– Quem você acha que eu sou, Anigel?

– O que quer dizer com isso? O que significa tudo isso? – ela grunhiu, irritada – Pare de me confundir!

– Mas você está confusa, Anigel. Muito confusa. Você acha que eu sou Merus, o comensal que matou seus pais e seu pequeno irmão, Karl! – ele exclamou parecendo perder o controle – E eu vou mostrar algo para você agora que talvez faça mais sentido do que imagina!

Ele puxou a manga do braço esquerdo rapidamente e ela encarou o braço liso, sem nenhuma marca negra, o que a fez encará-lo com ceticismo.

– Confesso que só isso não iria me convencer também. – ele disse, lançando lhe um sorriso sinistro e apontando a varinha para o próprio braço – Revelio!

O braço continuou liso e sem marca nenhuma. Sem compreender porque a marca não aparecera, ela encarou o homem e ele abaixou a varinha.

– Sua visita chegou, Anigel. Tire suas dúvidas. – e, dizendo isso, ele desapareceu.

– Paul? – ela perguntou, sem compreender, e então percebeu que sua varinha estava no bolso do seu casaco.

– Anigel?

Ela virou-se rapidamente, e percebeu que a pessoa que Paul chamara de visita era Ian. Sem compreender muito bem, ela encarou o ex-noivo, confusa.

– O que está fazendo aqui?

– Eu… – ela encarou Ian e de repente, não pode controlar o fluxo de pensamento.

Ele jamais tomara um banho com ela. Ela não se lembrava de tê-lo visto com os braços para fora da blusa. Quando o vira sem camisa, nunca notara nada, mas todas as vezes que isso acontecia era depois que eles iam se deitar… depois que ele passava aquele creme nos braços.

– Ian, eu tenho uma proposta para lhe fazer. – ela falou, fazendo o possível para não tremer.

– Foi você que me chamou aqui, então. – ele pareceu aliviado e deu um sorriso – Qual é sua proposta?

– Eu esqueço tudo. Tudo mesmo, de coração. Caso com você. Não me importo que tenha mentido.

– Está… falando sério? – ele perguntou, dando um sorriso contente – O que eu preciso fazer?

– Mostre-me seu braço esquerdo.

O homem parou de sorrir instantaneamente.

– Como?

– Seu braço esquerdo, Ian. Eu quero vê-lo.

Parecendo um pouco perturbado, ele puxou a manga de seu casaco preto para cima e ela viu o braço liso, sem marca negra. Lembrando-se do que Paul fizera, ela se aproximou dele e passou o dedo pelo lugar onde a marca deveria estar. Ian continuava a encarando, sem parecer preocupado. E então, ela levantou a varinha e colocou ali.

Revelio!

O feitiço encostou no braço e ele continuou liso. Anigel afastou-se um pouco, tentando compreender, quando percebeu que um leve contorno negro começara a aparecer no braço dele e, aos poucos, a marca negra se formou por completo.

– Tu descobriste, afinal. – Ian disse, encarando-a com certo prazer.

Capítulo 18 – A verdade por trás da verdade

Anigel ainda encarava a marca negra, em choque. Em sua mente, os dois anos que passara com aquele homem ao seu lado estava sendo relembrado. Não conseguia nem articular algo para dizer aquele maldito que continuava na mesma posição, com o braço esquerdo descoberto.

E então, Ian levantou os olhos para alguém atrás dela e seu rosto se fechou.

– Paul! – ele grunhiu, com os olhos saltando para fora.

– Olá, irmãozinho. – falou ele, aproximando-se de Anigel e colocando a varinha em seu pescoço – Gostou da surpresa?

– Não ouse se aproximar dela, Paul! – ele apontou a varinha para o irmão.

Paul segurou-a levemente pelos ombros, com a varinha ainda apontada para seu pescoço.

– Ops… acho que já fiz isso.

– Solte-a, agora!

– Sabe, Ian, eu fiquei imaginando como foi que você conseguiu enganar ela por todos esses anos, ao mesmo tempo em que me perseguia. Quando eu descobri sua nova identidade, não a culpei. Quem iria desconfiar de você? Se há seis anos ninguém duvidou de sua palavra!

– Isso é tudo sua culpa! – Ian gritou, descontrolado.

– Minha culpa? Sua prepotência é digna de misericórdia, Ian! Quem matou nossos pais foi você!

– Cale-se, seu auror nojento! Eles precisavam morrer! Com sangue puro e ainda se tornaram aurores, estragando o nome da família… mereceram a morte que tiveram!

Ela fechou os olhos, tentando não ouvir mais nada, mas a voz de Ian parecia tomar conta da sala, enquanto Paul ainda a segurava de frente para ele.

– Agora conte pra ela, Ian! Conte porque você matou os pais dela!

Anigel abriu os olhos instantaneamente a tempo de ver o rosto de Ian se contorcer de raiva.

– Eu mostrei para ela, Ian, sua coleção de fotografias. Acredito que ela ficou um pouco chocada, não foi, Anigel?

Ainda encarando Ian em silêncio, ela não respondeu à pergunta de Paul. Estava, naquele momento, querendo saber da verdade e nada mais importava.

– Conte para ela, Ian!

– Cale sua maldita boca, Paul! – ele grunhiu, tentando mirar a varinha no irmão.

– Fale. – a voz dela saiu rouca, mas fez com que Ian a encarasse, abismado – Fale, Ian! FALE! Eu quero saber o que significa tudo isso! Porque você destruiu a minha vida! CONTE!

– Eu nunca quis destruir sua vida, Anigel! – ele começou, abaixando a varinha e a encarando com desespero – Jamais! Eu queria você para mim! Era muito simples! Eu a amava há muitos anos, antes mesmo de você me conhecer!

– Do que está falando?

– Eu a vi uma vez com seus pais, quando Paul se encontrava com eles regularmente. Seus pais e os meus eram amigos de escola. E então eu a vi… você deveria ter no máximo doze anos, mas era a mulher mais linda que eu havia visto no mundo!

Anigel tentou dar um passo para trás, mas Paul não permitiu.

– Eu a amo desde aquele dia!

Ao ver que Anigel não conseguia falar, Paul puxou-a um pouco para trás e falou com o irmão:

– Conte sobre sua pequena obsessão, Ian.

– Não era uma obsessão! – ele exclamou, levantando a varinha novamente.

– Não? O que você acha, Anigel? Alguém que chegou a contratar pessoas para tirar fotos de você? Roubar cliques de sua vida inteira? Sem que você nem soubesse!

– Não era isso! – ele falou, encarando-a desesperado.

– E o que era, Ian? – Paul gritou, perdendo o controle – Sua maior obsessão… depois de Voldemort!

– Isso está ficando ridículo Paul! Eu a amo, e é isso que importa!

– Você não ama ninguém, seu imbecil! Essa mulher aqui perdeu os pais pelo seu egocentrismo!

– Ela perdeu os pais porque você resolveu se abrigar com eles! Eu jamais a mataria!

– E você acha que AI!

Anigel deu uma cotovelada na barriga de Paul e se afastou, apontando a varinha para ele, rapidamente jogando um feitiço. O homem desviou e ela virou-se para Ian, jogando todos os feitiços que lembrava em sua vida, um atrás do outro, sem nem dar chance de o homem se defender. Seu ódio era tão grande que, quando percebeu, estava lançando uma maldição fatal atrás da outra, tentando matar o homem que a enganara e destruíra sua família.

Apesar de sua violência, Ian se desviava das maldições escondendo-se atrás das mobílias da casa o que deixou Anigel mais irada. O único problema foi, que em sua fúria, não conseguiu perceber que Ian dera a volta por trás do sofá e a segurara por trás.

Começou então a se mexer freneticamente, tentando se soltar, mas o homem a imobilizou.

– Pare, Anigel!

– MISERÁVEL! – ela gritou assim que ele a colocou no sofá, completamente imobilizada por cordas – EU TE ODEIO!

– Não fale assim! – ele grunhiu, aproximando-se dela e batendo em seu rosto com ódio – NÃO FALE ASSIM!

Sentindo as lágrimas descerem em seu rosto, ela não falou mais nada e viu quando o homem procurou em volta sinais de seu irmão.

– Onde estás, meu irmão? Tu não vai se esconder por muito tempo! – ele gritou e então se virou novamente para Anigel, que tentou se afastar – Eu voltarei, meu amor. Em instantes tu esquecerás toda essa bagunça e amará somente a mim.

Enojada, Anigel olhou para o outro lado, enquanto Merus saía da sala e corria escadaria acima. Sem saber o que fazer, ela tentava desesperadamente se soltar quando sentiu que as cordas afrouxaram e olhou para o homem a sua frente.

– Dietrich? O que faz aqui? – ela sussurrou, tirando as cordas dela e levantando-se para pegar sua varinha.

– Eu vim com Paul para cá… ele me salvou da tortura de Merus e me escondeu aqui com ele. Agora venha rápido, que os outros aurores devem estar chegando. Paul cuida dele enquanto isso!

Ele a puxou para a saída, mas assim que eles tentaram abrir a porta que dava para o lado de fora, uma explosão fez com que os dois fossem atirados para o hall de entrada.

– O que tu pensas que estás fazendo com minha mulher?

Anigel jogou um feitiço para a direção de Merus, mas ele simplesmente desviou-se e, num movimento rápido, ele prendeu os dois.

– Então era aqui que tu estavas se escondendo!  – Merus aproximou-se de Dietrich e deu um sorriso ao vê-lo imobilizado – Não se preocupe, Dietrich… tua morte será muito rápida. Avada Kedavra!

Anigel soltou um grito de pavor ao ver o homem ser atingido no peito pelo feitiço e encarou Merus, horrorizada.

– Acalma-te, meu amor. Eu já disse para ti – ele disse, aproximando-se dela tão rápido que quando ela percebeu estava a ponto de beijá-la – Jamais matarei a ti.

– Vai se ferrar! – ela gritou, dando uma cabeçada no homem e fazendo-o cambalear para trás.

O que aconteceu a seguir foi tão rápido que ela só viu de relance. Vários vultos apareceram e dominaram Merus. Sem saída e completamente cercado, o homem apenas a encarou com ódio. Sua sobrancelha estava sangrando pela cabeçada que ela dera e Anigel encarou-o de volta com nojo.

– Anigel! – o rosto de Harry apareceu na sua visão e ela sentiu as cordas desapareceram – Consegue andar?

Ela fez um aceno afirmativo com a cabeça e levantou-se, apoiada por Harry. Alguns aurores encontraram o corpo de Dietrich e Harry balançou a cabeça, chocado. E então houve uma movimentação nas escadas, onde três aurores traziam Paul preso.

– Paul é inocente! – ela falou para Harry, que fez um sinal para os aurores esperarem.

Em poucos minutos contou o que descobrira, sob o olhar penetrante do chefe. Quando terminou de falar, o homem apenas suspirou e encarou Paul.

– Se der um pouco de Veritasserum para qualquer um deles, verão que digo a verdade! – ela disse, encarando Harry com fervor – Paul é inocente.

– Não é você quem deve julgar isso, Anigel. Está preso, Sr. Nottinghan.

Paul fez um leve aceno de afirmação e encarou Anigel.

– Ele está certo, Anigel. Precisam ter certeza.

Com um movimento da cabeça, Harry liberou os aurores, que levaram Paul preso e ele voltou os olhos para ela, parecendo preocupado.

– Você está em choque. – ele murmurou, abraçando-a – Acabou, Anigel. Acabou.

FIC – Mentiras

Capítulo 16 – Assassinato em Azkaban

Apesar de todas as informações que havia descoberto nos últimos dias, Anigel estava preocupada. Descobrira finalmente quem era o responsável pela morte dos pais e também havia chegado ao “fim” da sua busca pela identidade de Merus. Mesmo com tantas boas notícias, ela sentia uma pontada de insegurança ao mirar o noivo, que estava no lado oposto da mesa do restaurante, e comia seu jantar, lançando lhe olhares gentis.
De repente, o noivo transformou-se como no dia em que a agredira e grunhiu, irritado:
– Eu vou te matar! – e pulou em cima dela, fazendo com que ela se tentasse se livrar do abraço mortal.
– Anigel! – alguém a segurava com força enquanto ela se debatia – ANIGEL!
Ela abriu os olhos e percebeu que quem a segurava não era seu ex-noivo, mas sim, Harry.
– Está tudo bem! – ele disse, ao ver a expressão assustada no rosto dela – Foi só um pesadelo.
– Harry… – ela murmurou, sentindo o coração bater terrivelmente no peito – Me desculpe.
– Tudo bem – ele disse, sorrindo.
Anigel sorriu também e deu um beijo em Harry, levantando-se em seguida. Precisava de um copo de água ou qualquer outra coisa. Desde que terminara com Gustav, não parava de ter pesadelos. E eles geralmente aconteciam quando ela e Harry dormiam juntos.
Desceu as escadas da casa de Harry e foi até a cozinha, procurar um copo para tomar água, quando percebeu que havia alguém olhando para ela da janela da cozinha. Com o coração aos saltos, ela olhou para a janela e viu Gustav, encarando-a com um ódio que ela nunca pensou em ver no rosto dele.
– Você realmente está aí? – ela perguntou, sentindo o copo de água tremer em sua mão.
O homem acenou afirmativamente, deixando-a petrificada. Será que estaria realmente enlouquecendo?
– O que está fazendo?
Anigel soltou um grito forte e derrubou o copo no chão, pegando sua varinha do robe e apontando para quem havia falado aquilo.
Harry estava parado na porta da cozinha, encarando-a com receio.
– O que aconteceu? Anigel, sou eu, Harry!
– Harry… – ela murmurou, chocada, e abaixou a varinha – Eu estou enlouquecendo.
– O que está dizendo, Anigel?
– Eu estou vendo Gustav em todo o lugar, tendo pesadelos com ele todos os dias! – ela olhou para a janela, mas não havia ninguém lá fora – O que significa isso?
– Significa que eu não vou deixa-la em paz, Anigel. – falou Harry, transformando-se rapidamente em Gustav e fazendo com que ela saísse correndo e gritando.
Acordou em um pulo em sua própria cama no apartamento, sentindo o suor escorrer por debaixo de seus cabelos. Olhou em volta, mas estava sozinha.
As lágrimas desceram antes que ela pudesse segurá-las. Aquele pesadelo não seria o último. No dia seguinte em que terminou com Gustav, eles começaram, e já fazia uma semana que eles a perseguiam em qualquer lugar que fosse. Ela estava muito feliz com Harry, mas aquilo continuava a aparecer em sua mente, sem ela compreender exatamente o motivo.
Verificou as horas e deu um suspiro. Novamente, acordara antes das seis. Respirou fundo e resolveu que tomaria um banho antes de ir trabalhar. Assim que entrou debaixo do chuveiro, sentiu-se aliviada. Aquela água quente pela manhã a fez sentir-se relaxada, o que não era possível dentro do Ministério.
Um dia após descobrirem a identidade de Merus, enquanto ela ainda estava no hospital, Dietrich Schuster desaparecera. Havia sinais de luta dentro do seu gabinete e um pouco de sangue, mas nada que justificasse seu desaparecimento. Assim que voltou a trabalhar, no entanto, lembrou-se que Paul estava em Durmstang quando ela foi lá e imaginou que Merus provavelmente dera um sumiço no homem que deveria saber mais sobre ele.
O motivo não ficara claro para ninguém do porque ele faria isso, já que todos sabiam de sua existência, mas talvez ele estivesse fazendo Dietrich de refém e estivesse aguardando o momento certo para usá-lo.
Mesmo com tudo aquilo acontecendo, Anigel ainda tinha que lidar com aqueles pesadelos recorrentes, que estavam começando a assombrá-la inclusive durante o dia, onde ela via vultos e imagens de Gustav, como se estivesse a observando.
Terminou seu banho e se vestiu, decidindo ir aquele horário para o Ministério. Com certeza não haveria ninguém lá e poderia se dedicar mais estando sozinha.
Como suspeitara, o Ministério estava deserto e apenas algumas luzes estavam acesas durante o caminho para o elevador. Assim que a porta do elevador abriu, porém, ela encarou quem estava dentro dele e seu coração parou.
Ian a encarava do elevador de uma forma neutra, não parecendo que aquilo era um sonho. Sem saber o que dizer, ela ia entrar no elevador quando ele saiu e parou na frente dela, impedindo-a de subir no elevador, que se fechou atrás dele.
– Olá. – ela falou, sentindo seu coração voltar a bater de uma forma descompassada.
– Anigel. – ele murmurou, ainda sério – Será que podemos conversar?
– Nós não temos mais o que conversar, Ian. – ela disse, enfatizando o nome de batismo do ex-noivo e fazendo com que ele engolisse em seco.
– Por favor, Anigel, não seja teimosa! Eu a amo demais!
– Isso não é o suficiente! – ela falou, finalmente percebendo que aquilo não era uma ilusão – Eu não quero mais ficar com você!
– Isso é mentira! – ele disse, aproximando-se dela e segurando seus ombros – Eu sei que você não consegue me tirar da cabeça!
Ela o encarou firmemente e deu uma olhada para seus braços, que ainda seguravam os ombros dela. Ele pareceu perceber o que estava fazendo, mas não a soltou.
– Eu não vou machuca-la, Anigel. Eu só quero que admita que não consegue me esquecer!
– Eu não consigo te esquecer, Ian. – ela grunhiu, empurrando-o e apontando a varinha para ele – Não porque te amo, mas sim porque estou apavorada com você! Eu não consigo ver nada de Gustav em você!
Ele respirou fundo e levantou a cabeça, parecendo derrotado.
– Eu estou sendo um idiota novamente. – ele murmurou, encarando-a profundamente – Eu posso passar na sua casa buscar minhas coisas?
– Claro. – ela falou, abaixando a varinha e dando um suspiro – De preferência quando eu não estiver lá.
– Anigel? – falou uma voz masculina e então, ela sentiu dois braços a envolverem – Está tudo bem?
– Harry! – ela sussurrou, aliviada – Não se preocupe, Ian estava de saída.
O homem a encarou e ela novamente sentiu aquela fagulha de ódio dentro dele aparecer sinistramente. Tentando ao máximo evitar que sua mente fantasiosa criasse maluquices, encarou Harry e puxou-o para o elevador, deixando Ian sozinho no corredor.
Assim que os dois entraram no elevador, Harry a encarou, preocupado.
– O que ele estava fazendo aqui no Ministério?
– Ele trabalha aqui, Harry. – ela falou, sentindo-se nervosa – Ele é um Inominável, lembra-se?
– É mesmo? – ele falou, encarando-a mais de perto – Eu nunca o tinha visto por aqui.
– Não interessa. Eu não quero mais saber dele. – ela falou, encerrando o assunto e dando um beijo nele – Bom dia para você.
Ele deu um sorriso e beijou-a novamente. A porta do elevador se abriu e eles caminharam lado a lado até o QG, mas já havia alguém lá.
– Sr. Asimof? – perguntou Harry, aproximando-se do homem e apertando sua mão.
– Desculpe pela intromissão logo pela manhã, Sr. Potter, mas eu precisava falar com o senhor.
Anigel reconheceu-o naquele momento como o atual responsável de Azkaban e raramente era visto fora de sua sala na prisão. Ao ver que ele estava com alguém o homem levantou-se e estendeu a mão para ela, que o cumprimentou.
– Anigel, esse é o Sr. Leandro Asimof, responsável por Azkaban
– Sr. Potter, podemos conversar?
– É claro, vamos até minha sala.
Os dois saíram do QG dos aurores e seguiram até a sala de Harry, deixando-a um pouco preocupada. Aproveitou para por em ordem seus documentos novamente, pois pretendia ir a Durmstang naquela tarde e tentar encontrar alguma pista que pudesse levar a Dietrich.
Após quase uma hora, no entanto, Harry chamou-a para sua sala e ela estranhou ao ver que o Sr. Asimof ainda estava lá.
– Anigel, o Sr. Asimof veio até aqui hoje porque essa noite algo estranho aconteceu em Azkaban.
Anigel olhou intrigada para Harry e então olhou para Asimof ao seu lado.
– Um homem morreu ontem à noite em sua cela. Seu nome era Eric Crawford e a senhorita foi a última visita que ele teve. Suspeitamos que ele tenha sido… assassinado.
Ela piscou, aturdida. Crawford? Morto?
– Quer dizer que ele foi assassinado em Azkaban, debaixo dos narizes dos aurores?
Asimof encarou-a e confirmou com a cabeça, pesaroso.
– Esperávamos que a senhorita pudesse ter ideia de quem cometeria tal ato.
Ela encarou Harry e o homem sem compreender, mas a única pessoa que vinha a sua mente e que poderia matar Crawford era Merus.
– Merus – ela sussurrou tão baixo que quase não ouviu sua própria voz.
– Como? – Harry perguntou, encarando-a um pouco perdido.
– Apesar de parecer loucura, é a única pessoa que poderia tê-lo matado: Paul Nottinghan, ou melhor, Merus. Foi ele quem matou Crawford. Os dois faziam parte de um grupo de cinco alunos na Durmstang chamado Pentcruxes e foi por isso que fui interroga-lo. Não consegui nenhuma confissão dele, a não ser ele gritando o sobrenome de Paul.
– Mas porque ele mataria o homem? – Harry estava quase atravessando a mesa, de tanto que se aproximara – Se fosse antes de descobrirmos sua identidade, eu até compreenderia, mas porque ele iria matar alguém que poderia identificá-lo sendo que já sabemos quem ele é?
Anigel abaixou os olhos, pensativa. Essa era uma boa pergunta. Ela já sabia quem ele era, havia o denunciado e mesmo assim, ele matara Crawford. Ela voltou a olhar para os dois homens e balançou os ombros.
– Não faço a mínima ideia de porque Merus mataria alguém que não tem mais serventia para nós ou para ele. Mas quem pode compreender a mente de um comensal como esse? Talvez ele achou melhor sair eliminando todo mundo como um louco alucinado!
Harry encarou-a com a sobrancelha levantada, parecendo se controlar para não rir.
– Nottinghan… não foi aquele que matou a família, anos atrás? – Asimof perguntou, não parecendo perceber que ela havia feito uma piada.
– Sim. Eu era responsável por pesquisar Merus e acabei chegando ao nome dele – ela apoiou-se no espaldar da cadeira vazia ao lado de Asimof, fazendo com que ele a encarasse e Harry fez o mesmo.
– E os outros integrantes do grupo? Você disse que era cinco, estou correto?
Anigel encarou o responsável por Azkaban sem compreender muito bem.
– Mortos. – ela falou mecanicamente – Dois em Azkaban, pouco tempo depois de serem capturados.
– E eles não poderiam ter sido… assassinados? – Harry falou, fazendo com que o responsável por Azkaban se remexesse na cadeira.
– Assassinados? – ele encarou Harry, parecendo preocupado – Quero dizer, eu nunca soube de nada disso, ou pelo menos o antigo diretor não me contou nada antes de me passar o cargo.
– É um começo! – Harry murmurou, sorrindo – O senhor pode perguntar a ele?
Uma sombra passou pelos olhos do homem e Anigel pressentiu o pior.
– Receio que… bem, ele está morto. Parece que alguém estava o ameaçando, então ele decidiu abandonar o cargo. Como diretor de Azkaban, as ameaças são constantes, até porque, existem muitos seguidores das trevas presos ali. Eu até imaginei que as ameaças mudariam de destinatário assim que fosse oficializado meu cargo em Azkaban, mas elas não vieram. E então, algum tempo depois, ele foi morto. Seu corpo foi encontrado em casa, sem sinais de luta ou coisa parecida.
– O que nos volta ao ponto zero – murmurou Harry, encostando-se na poltrona – Bom, Sr. Asimof, faremos o possível para descobrir o que houve em Azkaban e ficaríamos gratos se pudesse achar alguma maneira de descobrir sobre os outros membros do grupo que Anigel mencionou.
– Bom, há algo que posso fazer para ajudar. – falou o homem, parecendo lembrar-se de algo – Apesar de ter morrido há algum tempo, o antigo diretor deixou alguns papéis comigo. Ele gostava de descrever os dias dentro da prisão e deixou isso em Azkaban, pedindo que eu nunca mostrasse a ninguém. Talvez possa ter algo lá.
Anigel encarou o homem, não acreditando no que ouvia.
– Seria ótimo, Sr. Asimof!
– Mandarei os papéis assim que chegar em Azkaban, então, através de um auror para não haver problemas. – falou ele, se levantando da cadeira.
– Agradecemos profundamente, Sr. Asimof! – falou Harry, apertando a mão do homem – Dois aurores já o aguardam na saída para acompanha-lo até Azkaban e ver o corpo.
Assim que o homem saiu da sala, percebeu que Harry estava a encarando um pouco preocupado.
– O que está pensando, Anigel?
– Eu não sei mais no que acreditar. – ela disse, encarando Harry – Tudo aponta para Paul Nottinghan, mas essas ações não batem com o Merus que conhecemos até hoje. Ele sempre foi sutil e nunca deixava que soubessem que era ele quem agia. Mas essas ações, a morte de Crawford e o sumiço de Dietrich não condizem com as ações de Merus.
– Talvez seja ação de outra pessoa. Não podemos ter certeza que Merus está por trás disso também.
– Eu acho que essa história está muito esquisita. – Vou esperar os documentos que ele vai mandar. Talvez lá apareça a resposta. Enquanto isso, eu vou com mais dois aurores para Durmstang.
– Se cuide por lá. Qualquer coisa, me mande um patrono.
– Sim senhor! – ela falou, batendo continência e fazendo com que Harry revirasse os olhos – Eu sei me cuidar.
E, sem dizer mais nada, saiu da sala do chefe, deixando um Harry preocupado para trás.