FIC – As Filhas

Capítulo 9 – Os pontos sorridentes

 

            Parecia que havia dormido alguns minutos quando sentiu algo roçar delicadamente em seu rosto. Quando abriu os olhos, porém, percebeu que ainda era noite e havia muitos pontos de luz a sua volta, como estrelas. Um pouco sonolenta, olhou-os mais de perto e se assustou ao ver um sorriso sair deles.

            – Os pontos sorridentes! – ela murmurou, encantada.

            Eles pareceram ficar felizes com o comentário dela, aproximando-se. Balançando a cabeça, pode perceber que não eram somente pontos. Eram…

            – Está tudo bem, Tittë?

            A voz de Nacil fez com que ela desse um pulo de susto, o que não foi nada agradável para seu ferimento nas costas. Com um grunhido de dor, ela colocou a mão nas costas, como se aquilo fosse o suficiente para passar a dor.

            – Você está com dor! – ele encarou-a, preocupado.

            Mas, no momento em que ele se aproximou dela, os pontos colocaram-se em sua frente, fazendo uma barreira entre Nacil e ela.

            – O quê?

            – *, elfo! – uma voz ondulante saiu de um dos pontos, que se aproximou de Nin e sorriu – Estás bem, filha de Naiandil?

            – Com dor, eu diria. – resmungou, ainda tentando compreender o que eram os pontos sorridentes.

            – São fadas? – falou Nacil, completamente chocado.

            Com esse comentário, o ponto que falou com Nin se aproximou e ela pode finalmente perceber: era uma pessoa. Uma pessoa minúscula, com cabelos azuis e pequenas asas em suas costas, como se fosse um elfo guardião em miniatura. Vestia-se com uma roupa de guerreira muito parecida com a de Arien, e usava uma alvaja com mini flechas. E então ela percebeu que todos os pontos sorridentes estavam com seus arcos apontados para Nacil.

            – Fadas? O que mais falta aparecer por aqui? – perguntou Nin, tão chocada quanto o elfo.

            – Somos fadas guerreiras, elfo. – a pequena mulher grunhiu, não parecendo gostar de Nacil – Abaixem suas armas, guerreiras. Viemos em paz.

            As outras pequenas mulheres abaixaram suas armas, ainda olhando a contra gosto para Nacil. A pequena fada mais próxima a ela aproximou-se até ficar na altura dos seus olhos.

            – Tittë, filha de Naiandil. – ela murmurou, fazendo uma pequena reverência – Nossa rainha pede vossa presença em nosso humilde palácio.

            – Sua rainha?

            – Sim. Podemos curar teus ferimentos e sanar sua dor. Para isto, pedimos somente para que encontre nossa rainha.

            Nin encarou Nacil, que não pareceu muito satisfeito.

            – Não deixarei que a levem, fadas.

            No mesmo instante, as pequenas mulheres levantaram seus arcos e colocaram-se em volta do homem. Um pouco desnorteado ele tentou afastá-las como mosquitos, o que as irritou ainda mais.

            – Parem! – pediu Nin, sentindo suas costas molharem com seu sangue – Eu vou com vocês.

            – Tittë! – grunhiu Nacil, completamente aturdido – Não pode ir assim! E se forem inimigas?

            – Isso seria possível se fossemos elfos fracos como tu! – grunhiu a pequena fada de cabelos azuis, pronta para atacar.

            – Parem vocês! – ela gritou, fazendo com que as fadas a encarassem – Eu disse que irei ao encontro da Rainha das fadas, Nacil, e eu vou!

            A pequena fada de cabelos azuis lançou um olhar vencedor para Nacil, que parecia não acreditar na audácia das pequenas criaturinhas.

            – A senhorita é realmente filha da tua mãe, Tittë. Corajosa e destemida.

            – Ahn… obrigada.

            – Tittë… – Nacil ainda tentou, encarando-a com receio.

            – Eu sei o que estou fazendo. Elas não vão me fazer mal.

            – Segure minha mão. – murmurou a pequena fada, estendendo sua mãozinha para ela.

            Com o maior cuidado possível, encostou na mão da pequena fada e, instantaneamente, sentiu seu corpo formigar. Uma luz dourada a envolveu completamente e, em questão de segundos, seu corpo e sua roupa diminuíram e ela foi encolhida ao tamanho das fadas.

            Agora que estava do tamanho delas, pôde ver quão parecidas com os elfos guardiões elas eram: tinham orelhas pontudas e seus olhos eram claros e expressivos. A diferença estava nas asas, que pareciam ser feitas de algo fino e delicado e batiam rapidamente. A fada dos cabelos azuis segurou-a no colo, dando um sorriso contente.

            – Não se preocupe, elfo. – murmurou a fada de cabelos azuis – Traremos Tittë em segurança, assim que ela se curar.

            O rosto de Nacil, grande e nada satisfeito apenas bufou e a pequena fada segurou-a firme em seu colo e sorriu.

            – Meu nome é Frieda. – ela disse, sorrindo – Segure firme, Tittë. Vamos partir!

            ***

            Com passos firmes e rápidos, sentindo sua ira percorrer seu corpo como chamas em brasa, Gloriel correu até a entrada de Valfenda. Esperava que seu informante estivesse certo e que pelo menos… bom, veria com seus próprios olhos.

            Depois da péssima atuação de Kanor em um pedido completamente simples, ela não deixaria ninguém mais fazer o que deveria ser feito. Se queria algo bem feito devia fazer ela mesma.

            Ao chegar na entrada de Valfenda, porém, e ver o que estava vendo, sentiu que nem tudo estava perdido. Ali, paradas, estavam as três Filhas Elfas e Varniel, sujas, mas completamente inteiras.

            – Senhora Rainha! – murmurou Varniel assim que a viu.

            – Minhas crianças! – disse, aproximando-se delas e beijando suas testas – Venham comigo!

            Enquanto as Filhas tomavam um banho e comiam alguma coisa, Gloriel sentou-se com Varniel, que lhe contou tudo o que aconteceu. Após alguns minutos de silêncio, em que ela processou tudo o que ouvira, voltou os olhos para a elfa.

            – Então vocês foram avisados do ataque?

            – Sim, senhora. Eu não acreditei no momento, pois aquelas Filhas Humanas eram muito atrevidas, mas quando acordei as Filhas Elfas haviam me resgatado.

            – Quando acordou? – ela encarou a elfa, sem compreender – Achei que havia tentado impedi-las de sair.

            – Sim… mas Emel pulou na minha frente e tocou minha testa. Acredito que tenha usado algum tipo de poder, pois eu desmaiei no mesmo instante.

            – Emel? A Filha Meia-Elfa?

            – Sim.

            Aquela pequena inútil havia aprendido a usar os poderes das Filhas? Precisava averiguar aquilo o quanto antes.

            – E quem avisou do ataque?

            – Bom… não tenho certeza, mas assim que Tittë chegou, as coisas mudaram. Elas começaram a ficar horas dentro da sala de documentos e, aos poucos, as meia-elfas começaram a se interessar por aquilo também.

            – E elas descobriram algo?

            – Não tenho ideia, mas eu trouxe os textos. Fiquei com medo que caíssem em mãos erradas.

            – Você é fantástica, Varniel.

            – Obrigada, senhora.

            Pegando os textos na mão, Gloriel encarou-os longamente, como se a resposta para todas suas perguntas pudesse saltar das páginas.

            – Agora vá descansar. Conversarei com as Filhas para tentar encontrar o paradeiro das outras, mas fique tranquila. Logo todas estarão a salvo.

            – Sim, Rainha.

            A elfa levantou-se e saiu em direção aos seus aposentos. Gloriel ficou alguns minutos olhando os documentos que ela trouxera. Todos estavam ali, mas havia um a mais: o texto em élfico traduzido. Porém, quando se concentrava em descobrir o que as outras Filhas haviam descoberto, as três Filhas elfas entraram na sala.

            – Sentem-se, meninas. Contem-me o ocorrido.

            Enquanto elas falavam, Gloriel foi sentindo sua ira aumentar. Aquela Tittë! Tinha que ser aquela maldita princesa! Ela que movimentara as Filhas, e, em algum momento, ela ficara sabendo de sua conversa com Kanor… o que significava que Nacil havia alcançado o refúgio das Filhas antes que os magos pudessem capturá-lo. Deixou que as elfas falassem sobre a luta e mostrou-se sentida com tudo o que elas tiveram que passar.

            – Fico feliz que tenham vindo a mim, meninas. Sabem o quão importante são para mim. Agora vão descansar. Amanhã conversaremos sobre o que faremos a seguir.

            Dando um sorriso cansado, as três Filhas Elfas retiraram-se, deixando Gloriel sozinha e completamente enfurecida. Maldito Nacil e sua protegida! Se Kanor houvesse tido sucesso em sua captura no mundo inútil para onde ela fora mandada, nada daquilo teria acontecido.

            Mas, apesar de tudo, uma ideia se formou em sua mente e ela deu um sorriso para o espelho. Iria conseguir vencer. Era somente uma questão de tempo.

            ***

            Mesmo sentindo uma fraqueza invadi-la, Nin prestou atenção no que acontecia a sua volta. Frieda a levava com leveza e tranquilidade, mas as fadas voavam muito mais rápidas do que os elfos. Em poucos minutos elas subiram muito alto e alcançaram o topo de uma árvore enorme no meio da floresta. De longe não pode ver nada de diferente, mas com a aproximação percebeu que a árvore emitia uma luz dourada muito bonita e parecia brilhar entre as outras.

            – Aqui é nossa casa. – murmurou Frieda, parecendo triste – Espero que possa nos ajudar, Tittë.

            Sem compreender, Nin olhou para a fada, que desviou o olhar dela e encarou a grande árvore. Pousaram em dos galhos, mas Frieda não soltou-a no chão. Encarou-a, sem compreender, mas ela balançou a cabeça.

            – Venha, Tittë. A levarei até nossa Rainha e vamos curar seus ferimentos. Depois poderá andar com suas próprias pernas.

            Ela voou entre os galhos até chegar no tronco da árvore. Ali, havia um buraco grande e era de onde toda a luz dourada vinha. Havia várias fadas guardando o local, mas ao vê-las, nada fizeram. Provavelmente sabiam que a Rainha as aguardava. Dentro daquele buraco, porém, deixou sua boca cair, em choque. Havia uma pequena cidade ali dentro, com casas, ruas e pequenas fadas, trabalhando sem parar.

            – Uau. – murmurou, encantada.

            – Raros são os humanos que veem isso em sua pequena vida. Sinta-se lisonjeada.

            – É muito bonito.

            – Obrigada.

            No centro daquilo tudo, havia um castelo branco, muito bonito e brilhante. E foi ali dentro que Frieda a levou. Lembrava muito o local onde a Rainha Gloriel morava, tudo muito leve e branco. A Rainha das Fadas estava sentada em seu trono, mas, ao contrário do que Nin imaginava, ela vestia a mesma roupa de suas fadas e uma coroa dourada em seus cabelos verdes. Seus olhos, também verdes, davam contraste em sua pele muito branca, como se ela brilhasse por conta própria. A Rainha era um pouco mais alta do que as outras fadas, e, consequentemente, mais alta do que ela própria diminuída.

            – Tittë Oronar! – falou a voz suave e firme da Rainha das Fadas – Bem vinda à minha casa!

            Havia uma poltrona na frente do trono dela e foi onde Frieda a sentou, colocando-se atrás de Nin. Suas mãos pousaram delicadamente em seus ombros e, no mesmo instante, sentiu seu corpo se aquecer.

            – Frieda é nossa melhor curandeira. – falou a Rainha, sorrindo – Vai curá-la rapidamente.

            – Obrigada. – murmurou, sem saber o que fazer.

            – Deve estar curiosa para saber porque solicitei sua visita.

            – Sim, eu estou, Rainha.

            – Me chame de Ember, por favor.

            Seu rosto se avermelhou. Andava falando com tantas Rainhas ultimamente e todas a tratavam com deferência e igualdade, deixando-a sem jeito.

            – Certo, Ember.

            A Rainha sorriu e sentou-se em seu trono. Seus olhos verdes ficaram alguns minutos fixos nela e então ela respirou fundo.

            – Não sabe quão aliviada vejo que finalmente voltou.

            – Eu não posso dizer o mesmo.

            – Veja pelo lado bom, Tittë, o fim se aproxima. E você está aqui hoje por conta disso.

            – Do fim?

            – Sim. Eu sei da profecia que anuncia as chegada das Filhas a esse mundo e o que elas farão com o Senhor das Sombras.

            – Profecia?

            – Sim… a profecia. – ela fechou os olhos e então os abriu novamente, falando em uma voz suave – Eu não sei ao certo o que ela diz, mas fala sobre a chegada das Nove Filhas e que são elas quem vão subjugar o Senhor das Sombras.

            – Não parece ser algo muito animador.

            – Não. – ela sorriu e suspirou – O que nos leva a perguntar: já sabe qual caminho a seguir?

            – Diz sobre como destruir o Senhor das Sombras? – Nin perguntou e a mulher acenou em afirmação – Não, não faço ideia. Tenho alguns palpites, mas nada concreto.

            – Compreendo. – ela falou, pensativa. – Estamos do lado das Filhas. Queremos a destruição desse mal que está alcançando nossa casa. Há muitos anos, vivíamos livres. Não precisavamos nos esconder, ou brilhar o suficiente para que os outros não nos vejam como fadas. Estamos presas, escondidas e, se encontradas, somos torturadas em função do Senhor das Sombras.

            – Eu sinto muito. – disse, abaixando a cabeça.

            – Não sinta, Tittë.  – ela murmurou, fazendo com que Nin levantasse os olhos – Eu a chamei aqui para fazer com que me devesse um favor ao lhe curar.

            Nin percebeu que Frieda saíra dali, e que suas costas não doíam mais. Estava curada. Um pouco preocupada, encarou Ember.

            – Um favor?

            – Sim. Quero sua palavra que fará tudo ao seu alcance para nos salvar. Sei que é um pedido egoísta, mas eu não tenho mais a quem recorrer.

            Olhou nos olhos da Rainha e sentiu seu coração se apertar. Não era somente as Filhas que sofriam ou os elfos que buscavam a salvação do seu mundo. Mesmo as mais pequenas criaturas contavam com elas para que o Senhor das Sombras pudesse ser subjugado. Levantou-se com firmeza, pois suas feridas estavam curadas, e ajoelhou-se em frente a Rainha Ember.

            – Rainha Ember. Tem minha palavra que farei tudo ao meu alcance para salvar a Terra Média. E isso inclui todo seu povo.

            A Rainha sorriu e levantou-se, abaixando-se na altura dela e lhe dando um abraço apertado.

            – Eu fico feliz de você ser a princesa de Valfenda. – Ember levantou-se, ajudando-a a ficar em pé – Teremos uma Rainha de verdade no final dessa guerra.

            – Eu… eu não sei. – falou, incomodada.

            – A Rainha Gloriel deixou-se envenenar pelo lado sombrio, mas irá se arrepender tarde demais. – ela encarou-a por um longo tempo.

            Nin sentiu que ela adentrava em algo profundo e desconhecido, alguma coisa tão poderosa que fazia o chão parecer tremer. Sentindo sua respiração falhar, ouviu a voz dela como algo longe e profundo:

            – Já você, minha querida, terá em suas mãos milhares de vidas, mas apenas uma irá realmente destruí-la. Quando isso acontecer, iremos nos reencontrar e prometo ajudá-la como me ajudou.

            – Ahn… tudo bem. – resmungou, meio atordoada.

            – Nossa conversa terminou, Tittë. – ela mostrou Frieda, que a aguardava um pouco afastada – Seu guardião deve estar furioso.

            – Ah, ele está sempre furioso comigo. – ela grunhiu, dando um sorriso irônico.

            – Espero que Frieda e as outras não tenham sido muito más com ele. Elas são um pouco ariscas com qualquer criatura do sexo masculino.

            – Foi bem merecido. – comentou Nin, fazendo com que Ember risse.

            – Sua presença nesse mundo me enche de alegria, Tittë. Agradeço sua ajuda quanto ao meu pedido.

            – Sinceramente, não era algo que precisasse um pedido, Ember. Eu faria de qualquer forma.

            – Falou como uma verdadeira Rainha. – ela aproximou-se e encostou sua mão no ombro de Nin – Posso lhe dar um presente?

            Encabulada, Nin apenas encarou o teto, mas Ember puxou seu rosto.

            – É claro. – falou, sentindo seu rosto avermelhar-se.

            – Muito bem.

            Uma luz dourada a envolveu e seu vestido sujo de sangue deu lugar a uma roupa quase idêntica a da Rainha Ember, mas o tecido era vermelho. Uma blusa de couro vermelho, saia até o joelho, botas e uma capa finalizava o conjunto. Um pouco chocada, encarou Ember sem compreender, mas ela lhe entregou mais um pacote.

            – Uma roupa digna de uma Rainha. E as outras são para as outras Filhas. Melhor do que aqueles vestidos enormes.

            – Obrigada.

            Frieda segurou sua mão.

            – Vamos, Tittë?

            Com um último olhar para Ember, sentiu Frieda levantar voo e deixou-se levar, sentindo-se um pouco triste por deixar aquele lugar tão tranquilo.

            Quando alcançou o local onde estavam acampadas as outras Filhas e seus guardiões, já era dia. No momento em que a viu, já em tamanho normal, Nacil correu até ela, completamente furioso.

            – Eu estou bem, curada e elas estão do nosso lado. – grunhiu, olhando para as outras Filhas e não o encarando – Arien, Emel e Dirwen, precisamos continuar.

            – Vamos para Lórien? – perguntou Arien, arrumando sua espada na bainha.

            – Sim.

            – Isso é muito longe? – perguntou Emel, sentada no colo do seu guardião enquanto ele lhe penteava os cabelos, tentando fazer uma trança, mas o que Nin via era muitos nós.

            – Não faço ideia. – ela voltou os olhos para Nacil, que parecia mais furioso ainda por ter sido ignorado – Nacil?

            – Fica um pouco longe daqui, sim. – ele resmungou, mas aproximou-se do grupo – Alguns dias de viagem.

            – Precisamos chegar lá o quanto antes. – falou Arien, preocupada – Não sabemos se os anéis ainda estão por lá, mas precisamos encontrar seu paradeiro antes que aquela Rainha perceba o que queremos.

            – Muito bem. Partiremos nesse instante. – falou Nin para todos, que começaram a se arrumar.

            Ao virar para pegar suas coisas, porém, Nacil estava na frente dela, não parecendo feliz. Fez um sinal para que ele a acompanhasse, enquanto buscava sua espada e sua meia lua. Não sabia porque a carregava ainda, não havia visto junkis naquele mundo, mas se aquele tal de Kanor estava por ali, poderia invocá-los… e não seria bom ser pega de surpresa. Voltou os olhos para Nacil, que ainda estava parado a encarando.

            – O que foi? – grunhiu, o mais baixo que pode – Está me deixando louca com esse olhar.

            – Você é que me deixa louco com essa teimosia! Não pode confiar em todos, Tittë.

            – O que quer dizer é que só devo confiar em você? – ela levantou-se, irada – Isso é bem maior do que uma simples teimosia, ok? Eu e essas meninas temos que destruir um cara malvado e nem sabemos como! – os olhos dele faiscaram, ficando negros – Acha que eu estou brincando, mas eu finalmente percebi que sou mais do que uma caçadora e que, se esse mundo precisa de mim, eu vou até o final para ajudá-lo!

            – Eu não estou dizendo que está errada em tomar a liderança, mas ir com fadas? Não sabemos se elas realmente estão do nosso lado! E se estiverem do lado de Gloriel?

            – Eu acredito nelas! São boas. Só estão desesperadas para que alguém faça alguma coisa.

            – Você prometeu algo a elas, não foi? – ele aproximou-se, ficando a centímetros do seu rosto – O que?

            Sua raiva transformou-se em choque e ela abriu a boca.

            – Como sabe disso?

            – Isso não é nada bom. – ele resmungou e ficou seus olhos  nela – As fadas tem uma magia de alto nível, Tittë. Se prometeu algo a elas ou elas a você, terá que ser cumprido. É uma promessa mágica, compreende?

            – Bom… então está tudo bem. – ela suspirou, revirando os olhos – Olha, eu sei o que eu fiz. Não me arrependo do que prometi. E você não deveria estar preocupado. É só mais uma coisa mágica em mim. Além de poderes, ter de destruir o senhor do mal, eu ainda tenho uma promessa mágica. Normal.

            Ela virou-se, mas ele segurou seu braço, voltando-a para os olhos dele. Só que, dessa vez, eles não estavam furiosos, mas sim desesperados.

            – É óbvio que eu me preocupo com você, Tittë.

            A frase foi tão carregada de algo maior que o coração dela instantaneamente pulou no peito, batendo ferozmente. Sentindo seu rosto se avermelhar e a boca secar, ela soltou o braço das mãos de Nacil e olhou para seus próprios pés.

            – Então me ajude. Só isso que te peço.

            E, sem dizer mais nada, ela saiu de perto dele, indo ao encontro de Arien.

            – Onde você estava?

            – Conversando com a Rainha das Fadas.

            – Nossa. Então tá bom. – ela revirou os olhos e então viu o que ela estava vestindo – Adorei sua roupa! Muito melhor que aquele vestido estranho que você usava.

            – Então tome. – ela disse, pegando uma muda de roupas maior do pacote que recebera de Ember – Presente da Rainha das Fadas.

            – Nossa! Uma roupa de fada guerreira! Legal!

            – Dirwen, Emel… – as meninas a encararam – Precisam trocar de roupas também. Esses vestidos brancos são chamativos demais.

            – Ahhhhh… – Emel pareceu desapontada – Eu gosto de vestido.

            Dando um sorriso ao ver tudo arrumado, percebeu que Nacil conversava com os guardiões, dando instruções de como chegar ao novo destino deles.

            – Lorién, aí vamos nós. – murmurou para o céu azul.

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Capítulo 8 – O ataque 

            Dois dias depois.

Meio sonolenta, sentiu que alguém se aproximava da sua cama sorrateiramente. Com cuidado, a pessoa ficou em cima dela e Nin, com seus reflexos, segurou-a com os braços e imediatamente a imobilizou.

– Tittë! – sussurrou uma voz esganiçada, completamente o oposto do que ela esperava.

– Emel! – grunhiu baixinho, soltando a menina – O que você está fazendo?

– Eu terminei! – ela deu um sorriso de orelha a orelha.

– Terminou? – peguntou, sem compreender.

– Sim, Tittë! Eu disse que levava dois dias, daí passei a noite em claro e consegui! – ela mostrou um pergaminho e Nin subitamente entendeu.

– O texto em élfico? Você já traduziu? – perguntou Nin, olhando para fora e percebendo que o céu ainda estava escuro.

– Sim! Foi o que eu disse, acorda!

– Muito bem, Emel! – sentou-se na cama, contente – Você é ótima! Eu vou chamar a Arien e nos encontramos na fonte. Mas em silêncio, não queremos que Varniel nos pegue lá!

– Sim, senhora! – a menina pulou, correndo para fora do quarto.

Nin foi até a cama de Arien, que levantou-se no momento que a viu se aproximar.

– Senti a aproximação. – ela murmurou – Aonde?

– Na fonte. Vamos!

Sorrateiramente as duas foram para a fonte, onde Emel já as aguardava com expectativa.

– Muito bem, vamos ler.

Nin aproximou-se das tochas e começou a ler. Apesar de pequena, a letra de Emel era lisa e sem erros e não foi difícil entender. Basicamente o texto falava sobre como as Filhas destruiriam o Senhor das Sombras, mas nada tão explícito como elas desejavam.

– Aqui diz que devemos recuperar os nove anéis que o Reis Homens receberam de Sauron. – falou Nin, finalmente terminando de ler – Mas não diz nada sobre onde encontrá-los.

– Você tem alguma ideia?

– Não, Arien. Emel?

– Eu não sei muito sobre a história daqui, o que sei é o mesmo que vocês. – a menina disse, molhando os pés na fonte – Nove anéis… no outro texto dizia algo sobre os anéis, não? Aquele que vocês me deram para ler antes desse?

– Sim, mas não lembro se colocava alguma localização.

– E como faremos para achá-los? – grunhiu Arien, parecendo irritar-se.

– É só pedir: por favor. – murmurou uma voz na porta da fonte.

Imediatamente as três se levantaram para ver que as espionava. Na porta estavam as outras duas meio-elfas, como Emel. A de cabelos violeta aproximou-se dando um sorriso, enquanto a outra ficou na porta, parecendo um pouco emburrada.

– Estavam nos escutando? – perguntou Arien, com a mão na espada.

– Sim. Sentimos quando Emel as acordou e ficamos curiosas. – ela entrou, parando do lado de Nin – Percebemos o quão próximas vocês ficaram nesses dias e como não saíam da sala de documentos. Apesar de não parecermos nos importar, essa história de dar o nosso sangue para que o Senhor das Sombras reviva não é nada agradável.

– Você sabe onde estão os nove anéis dados aos Reis Homens? – perguntou Nin.

– Eu nasci em Lórien. Lembro de, antes de ser mandada para um outro mundo, ver os anéis expostos. Como os anéis não tinham mais poder depois que o Um Anel foi destruído, os elfos cuidaram para que eles não fossem pegos por mais ninguém.

– Mas eles ainda estão lá? – perguntou Arien, cética – Depois de todo esse tempo?

– É nossa única chance. Temos que achar os anéis. – falou Nin, encarando-as.

– E isso significa sairmos daqui, certo? – perguntou Arien, contente – Isso! Vamos agora!

– E onde vocês vão, meninas? – a voz de Varniel preencheu a fonte e todas olharam para a porta, onde a elfa estava parada.

Estavam tão ocupadas com as novas descobertas que não perceberem a aproximação da elfa. Sentiu a tensão na voz da mulher, como se não esperasse que aquilo fosse acontecer.

– Nós estamos descobrindo como nos salvar, Varniel. – falou Nin, indo à frente das outras.

– Isso é muito bom. – ela comentou, dando um sorriso – Mas ainda nem amanheceu. Porque não deixam isso para amanhã?

– Estamos falando de nossas vidas! – grunhiu Arien, postando-se ao lado de Nin.

– E eu acho isso muito bom. Mas agora vão descansar ou comer alguma coisa. – ao ver que nenhuma delas se mexeu, ela fechou a cara – É uma ordem.

E, sem dizer mais nada, a mulher ficou na porta, aguardando a saída delas. As duas meia-elfas saíram imediatamente, lançando olhares preocupados para Nin. Emel saiu cabisbaixa, mas não pode ter certeza se era porque ela estava triste ou braba. Finalmente, Nin se mexeu, sinalizando para Arien sair também.

Ao ver que todas saíram da sua “reunião” e se dispersaram, Varniel pareceu satisfeita e Arien aproximou-se de Nin, sussurrando:

– Vamos deixar isso dessa forma?

– Me encontre lá fora assim que o sol se pôr e conversaremos.

Arien fez um aceno silencioso e foi para o lado contrário. Nin suspirou, desanimada, e resolveu comer alguma coisa. Havia algo muito errado naquela história de refúgio e ela precisava descobrir o que estava acontecendo.

***

Voando sem parar e sendo ajudado por Azulth, no amanhecer do segundo dia de viagem Nacil finalmente avistou o local onde as Filhas estavam escondidas. Apesar de sua fuga, não encontrara muitos inimigos no caminho, pois a Rainha Gloriel provavelmente não conseguira avisar sua segurança a tempo.

Assim que ficou há alguns metros da entrada do refúgio, porém, sentiu as proteções a sua volta e instantaneamente três elfos guardiões apareceram, cercando-o.

– Quem é você? – murmurou um deles, do tamanho de um guarda-roupa.

Le suilannon*! Meu nome é Nacil Isilrá. – ele mostrou uma pequena tatuagem em seu pulso, uma escrita élfica com o nome de sua protegida – Sou Guardião de Tittë Oronar.

– A Filha Humana? – perguntou o outro elfo, mais magro e alto que ele próprio, verificando o pulso.

– Sim.

– E porque não veio com ela? Ela chegou há seis dias. – novamente o homem armário falou, parecendo menos agressivo.

– Eu estava cumprindo uma missão para a Rainha Gloriel e fui liberado há dois dias. Vim o mais rápido que pude. Perdoem meu atraso.

– Muito bem. Venha conosco.

Com a autorização do elfo, as proteções se amenizaram e o deixaram passar. Nacil acompanhou os três elfos, visualizando o local. Havia a torre de Isengard, destruída desde a última guerra. Com seus destroços eles provavelmente construíram a casa onde as Filhas agora estavam, pois era tão branca quanto a torre. Em volta da casa havia algumas árvores e uma grama verde, coisa possível pela magia élfica. Apesar de olhar com cautela, não conseguiu enxergar Tittë entre as mulheres que passeavam nos jardins.

– Ficamos felizes com sua chegada. – murmurou um elfo ruivo, vestido com armadura de couro de dragão – Meu nome é Thargon. Estamos em poucos por aqui. A vigília é tranquila, pois com todas as proteções dificilmente alguém se aproximaria daqui.

– Mas e se houver um ataque? – perguntou, sério.

– Estaremos preparados. Sou o responsável pela segurança dessas meninas e não vou deixá-las na mão.

E, sem dizer mais nada, o elfo saiu, sendo seguido pelos outros guardiões. Olhou para baixo e não viu Tittë do lado de fora. Teria que esperar até o anoitecer e encontrar uma maneira de falar com ela.

*Le suilannon! – Eu os saúdo!

***

A noite demorou a chegar. Nin jantou calmamente e, sem olhar para mais ninguém, fingiu passear do lado de fora da casa. A noite estava muito bonita. O céu escuro cheio de estrelas, com uma lua brilhante. Foi quando sentiu que alguma coisa a encarava das árvores e abaixou o olhar, encarando dois olhos verdes.

O sentimento de fúria retornou antes que ela pudesse controlá-lo e ela soube no mesmo momento a quem pertenciam aqueles olhos. Instantaneamente virou de costas, mas ele rapidamente segurou seu braço.

– Me solta. – grunhiu, sentindo sua raiva saltar-lhe aos olhos.

– Não até que me escute.

– Eu já escutei o suficiente de você, mago.

– Não escutou mesmo! – ele virou-a, segurando seus ombros – Tittë, a Rainha Gloriel está do lado de Kanor. Eu os vi conversando.

– O quê? – sua raiva abaixou e ela encarou-o com curiosidade – Do que está falando?

– Eu os ouvi conversando antes de sair e eles vão atacar aqui.

– Está mentindo! – grunhiu ela, soltando o braço dele e puxando a espada – Como ousa vir aqui dessa forma? Depois de tudo o que fez?

– Não seja teimosa! – ele falou, exasperado – Tem que sair daqui!

– Ela não sai daqui sozinha. – murmurou uma voz e Nin reconheceu como de Arien – Quem é esse Nin?

Ao olhar para a outra Filha Humana, percebeu que ela também estava armada.

– Eu estou falando sério, Tittë. – Nacil ignorou a interrupção, focando-se em Nin – A Rainha Gloriel mandou Kanor atacar o refúgio. Eles são magos, tem seus meios de conseguir chegar aqui no máximo ao amanhecer. Precisa sair daqui!

– Espera um pouco! – falou Arien, abaixando a espada e aproximando-se de Nacil – Está me dizendo que estamos para ser atacados?

– Sim. – murmurou Nacil, encarando Arien – Vocês devem fugir.

– Como ousa! – uma luz dourada surgiu na frente de Arien, com uma espada em mãos – Essa dama é minha protegida! Ninguém deve se dirigir a ela sem-AI!

Arien chutou a canela de seu guardião, que perdeu sua luminosidade no mesmo instante, pulando com uma só perna enquanto segurava a outra dolorida com as mãos.

– Isso doeu, senhorita! – resmungou ele, chorando.

– Era para doer. – ela grunhiu, irritada – Agora, quem é esse, Nin?

– Eu sou o guardião dela. – ele respondeu e virou-se para Nin – Por favor, acredite em mim.

Nin virou os olhos para o céu, não sabendo mais no que acreditar. Mas, se aquilo realmente fosse verdade, estaria colocando em risco a vida de todas as Filhas por um problema dela.

– Nin?

– Sim, Arien… ele é meu guardião e deve estar falando a verdade. Vamos avisar as outras e sair o quanto antes.

– Como assim, sair? – perguntou o guardião de Arien, aproximando-se deles e esquecendo da dor no joelho – Do que está falando, princesa?

– Não me chame de princesa! – gritou Arien para seu guardião.

– Um grupo de magos está vindo para cá, Panthael. – falou Nacil – Elas estão em perigo. Agora vá, Tittë! Eu a encontro!

E, puxando Panthael para dentro das árvores, ele as deixou. Nin encarou Arien e as duas saíram correndo para dentro da casa. A primeira coisa que elas fizeram foi ir para o quarto pegar suas coisas. Para uma fuga rápida não poderiam usar aqueles vestidos e, assim que se trocaram, Arien e Nin trocaram olhares aliviados. Arien vestia uma calça e um colete que deveria ser de couro de dragão, pois ela nunca havia visto tal coisa em seu mundo.

– Ah, nem acredito que posso usar minha bainha! – falou Arien, sorrindo para o espelho – Agora sim pareço uma guerreira! Nada de frufrus! – ela voltou os olhos para Nin e ergueu as sobrancelhas.

– O que foi? – perguntou Nin, sem compreender.

– Você está de vestido.

– Sim. Gosto deles quando são pretos e sem frufrus. – resmungou, colocando sua bainha e segurando sua meia lua. – Vamos chamar as outras!

– Já vamos? – pulou Emel detrás de sua cama, com uma mochila pequena nas costas e um vestido mais curto, assustando as outras.

– Emel, não faça mais isso! – grunhiu Arien, pegando a menina pelo braço – Vamos!

Ao chegar na parte onde o restante das Filhas estavam, algumas conversavam e outras liam livros, mas ao vê-las vestidas daquela forma o silêncio preencheu a sala e Nin se adiantou.

– Fui informada de que esse refúgio está para ser atacado. Precisamos sair daqui!

– Isso é sério? – perguntou a Filha de cabelo violeta, que Nin não lembrava o nome.

– Sim. Os magos de Kanor, um feiticeiro que quase me capturou no meu mundo enquanto eu estava por lá, estão atrás de nós… infelizmente, sob ordens da Rainha Gloriel.

– Está dizendo que nossa Rainha é uma traidora? – uma das filhas elfas, de cabelos ruivos cacheados levantou-se, aumentando de tamanho – Como ousa, sua Humana?

– Estou falando a verdade, Elfa. – falou Nin, encarando a mulher com raiva – Se quer ser capturada, pode ficar, mas quem quiser nos acompanhar, por favor nos siga.

No mesmo instante, a Meia-Elfa de cabelos violetas se pôs do lado dela, seguida de sua colega de cara amarrada. As três elfas permaneceram inalteradas e sobrara apenas Dirwen, que encarava as meninas com certo pavor.

– Vocês de novo? – grunhiu Varniel, entrando na sala com fúria – O que pensam que estão fazendo?

– Vamos embora. – falou Arien, dando um sorriso para a mulher.

– E que roupas são essas, Arien? – ela parecia chocada.

– São minhas roupas de verdade, oras.

– Vocês enlouqueceram? A Rainha Gloriel as colocou aqui com segurança e agora vocês a traem!

– Quer falar sobre traição, Varniel? – falou Nin, colocando-se frente a mulher – Pois saiba que sua maravilhosa Rainha mandou um bando de magos para nos capturar e matar o restante que estiver atrapalhando! E isso inclui você!

– Sempre achei que humanos e meio-elfos não fossem confiáveis! – ela levantou o queixo – Pois bem. Chamarei os elfos guardiões agora mesmo e acabaremos com essa balbúrdia toda!

Tudo aconteceu muito rápido. Mesmo sendo pequena, Emel correu até a frente de Varniel e pulou, ficando alguns segundos parada no ar e tocou a testa dela com sua pequena mão. No mesmo instante a elfa ficou paralisada e desmaiou, fazendo com que todos olhassem para a menina, estupefatos.

– Não era para ela parar? – ela murmurou com cara de choro.

– Era sim… – resmungou Nin, se aproximando de Varniel, que estava desacordada – Mas como você fez isso?

– Eu já disse que vocês não estão usando os poderes que receberam. Prometo ensiná-las assim que sairmos daqui.

– Muito bem. Isso é ridículo! – murmurou a elfa ruiva, irritada.

No mesmo instante, porém, a casa tremeu como se algo muito forte a atingisse. O teto desmoronou em alguma parte e, com o barulho, as elfas olharam para cima em choque.

– FUJAM! – gritou Nin, correndo para a saída com a espada em mãos.

Do lado de fora, uma luta era travada no céu. Os elfos guardiões lutavam ferozmente para manter a casa segura enquanto os magos de Kanor tentavam destruí-la, mas aquilo não duraria muito tempo. As forças de Kanor eram grandes e poderosas e Nin podia sentir todo o poder que ele usara contra ela no seu mundo pulsar. Elas precisavam aproveitar enquanto os magos eram distraídos e fugir, se esconder até poderem seguir seu caminho. Nin fez sinal para Arien e Emel, que a seguiram correndo, mas quando as duas outras Meio-Elfas resolveram seguir Nin, algo como uma bola de fogo caiu no meio dos dois grupos, separando-os por uma cratera em chamas.

– NOS ENCONTRAMOS EM LÓRIEN! – gritou a de cabelos violeta, correndo para o lado contrário.

Sem responder, Nin virou-se para correr com Arien quando ouviu um choro. Olhou para a casa e sentiu seu corpo se arrepiar com o pensamento. Havia alguém lá dentro ainda? Pediu que Arien e Emel se escondessem, mas as duas não deixaram que ela voltasse sozinha. Sem escolha, Nin correu para dentro da casa, e, escondida no canto e um pouco suja de fuligem, estava Dirwen, chorando.

– Dirwen! – gritou Nin, correndo até ela.

Quando se aproximou, porém, viu que um pedaço do mármore branco estava pendurado em cima da menina, pendendo.

– Nin, não! – gritou Arien, mas era tarde.

Ela jogou-se em cima de Dirwen e o teto despencou em cima delas.

– NÃO! – Emel gritou, desesperada – TAURON!

No mesmo instante, um elfo guardião apareceu, com sua feição inalterada.

– Emel?

– A Tittë e a Dirwen estão ali!

O elfo assentiu, parecendo compreender, e se aproximou dos destroços. Rapidamente, tirou os pedaços maiores de mármore, para revelar o que estava embaixo dele. Havia uma Dirwen completamente assustada, mas com as mãos para cima. Delas, uma luz branca saía e protegia Nin e ela mesma, enquanto alguns pedaços de mármore pendiam em cima delas. O guardião de Emel retirou os pedaços e Dirwen abaixou as mãos, parecendo preocupada. Nin estava abaixada ao lado dela, sentindo suas costas doerem terrivelmente e não conseguindo se mover tão bem. Quando pulou em cima de Dirwen, antes que ela pudesse segurar o teto, um grande pedaço de mármore havia a atingido, com certeza fazendo um corte profundo em suas costas.

– Você está sangrando. – murmurou Dirwen, abaixando-se ao lado dela.

– Precisamos sair daqui, Dirwen. – falou Nin, levantando-se com dificuldade e encarando as outras Filhas restantes com firmeza – Agora.

– Venha, eu a ajudo. – falou Arien, segurando-a pela cintura.

Quando Arien a segurou, porém, a sala encheu-se de elfos guardiões. Nin revirou os olhos. Podia sentir a aproximação dos magos. Provavelmente o restante dos elfos estavam lá em cima, dando a última chance para que eles escapassem. Abriu a boca para mandar todo mundo correr quando Panthael instantaneamente aproximou-se de sua protegida, desesperado.

– Você está bem, princesa! – e então ele pareceu perceber que Nin estava sangrando – Oh não! Que ferida mais terrível! Deixe-me ajudá-la, dama indefesa!

O elfo loiro fez menção de pegar Nin no colo, mas Nacil colocou-se na frente dele, dando um sorriso irônico.

– Eu a levo.

Mesmo a contragosto, Nin deixou que Nacil a carregasse, pois não sabia mais quanto tempo aguentaria em pé.

– Precisamos sair! – esforçou-se para falar, com firmeza.

– Sigam-me. – murmurou Nacil.

Os outros elfos pareceram compreender perfeitamente o que ele dissera. Emel subiu no colo de Tauron, Dirwen foi seguramente colocada no colo por um elfo alto e magro e Arien subiu nas costas do seu elfo, dando uma risada ao ver a feição de horror do mesmo.

– Eu não vou no seu colo, então fique satisfeito.

No mesmo instante em que os elfos guardiões voavam para fora da casa, as proteções foram destruídas e os magos puderam ver o que estava acontecendo. Ao ver os quatro fugindo com as Filhas, começaram a jogar um feitiço atrás do outro, fazendo com que, além de segurá-las, os elfos tivessem que se defender.

– Tittë! – gritou Emel do seu lado – Me dê sua mão!

Sem compreender, segurou a pequena mão de Emel, que fizera um pequeno círculo com as Filhas. Falando em élfico, ela fez com que uma luz azulada subisse de cada uma das Filhas. E então, cada ataque que os feiticeiros mandavam, as luzes das Filhas os desviavam ou os destruíam, e, antes que eles as alcançassem, Emel lançou algo neles que Nin não pode ver, mas que os fez cair no chão desnorteados.

– Agora vamos fugir! – gritou Arien.

Eles continuaram voando por horas. Nin sentia suas costas ensopadas com o sangue e uma fraqueza a incomodar. Percebeu que Nacil a olhava com preocupação e bufou.

– Eu jurava que nunca mais ia precisar ser salva por você. Fica chato depois da primeira vez.

– Fico feliz que tenha acreditado em mim.

– Só porque você é um mago idiota não quer dizer que seja um mentiroso.

Ele a encarou por alguns segundos e desviou o olhar, pensativo.

– O que a Rainha lhe disse? – ele perguntou de repente, ainda sem olhá-la.

– Sobre o quê?

– Sobre mim.

Nin olhou para o céu, incomodada. Aquilo era um assunto que não queria conversar naquele momento.

– Que você não queria mais ser meu guardião. – ela respirou fundo, ajeitando-se no colo dele por causa da dor em suas costas.

– Só isso? – ele encarou-a de repente.

– Sim. – ela disse, firme – Só isso.

Nacil assentiu, parecendo longe. Não iria dizer para ele que a Rainha sugerira que ela estava gostando dele. Não que aquilo fosse verdade, mas se ele não gostava dela, de que adiantaria contar aquilo, certo?

– Há um lugar mais a frente onde podemos descansar. – Nacil falou para os outros, que pareciam muito cansados e virou-se para ela – Você está bem?

– Sim… só preciso dormir. E fazer um curativo nas minhas costas.

Ele assentiu e Nin percebeu que estavam descendo para o que parecia ser uma pedra acima de um grande morro. Nacil não deixou que ela caminhasse e colocou-a sentada em uma pedra. Com um assovio, Azulth desceu, assustando Dirwen, que se refugiou no peito do seu guardião.

– Azulth está carregado com mantimentos e colchonetes. – explicou Nacil, antes que os outros guardiões atacassem a águia – Devemos descansar.

Nacil ajudou os outros a se ajeitarem e Nin percebeu que Arien se aproximara dela, preocupada.

– Você está bem?

– Eu sou uma bela inútil mesmo, isso sim. – apontou para suas costas que ardiam – Estou sim, Arien. Vá descansar. Vou limpar meus ferimentos e dormir também.

– Agradeça ao seu guardião por todas nós. Se não fosse ele, estaríamos presas em algum lugar.

Nin assentiu e viu Arien se afastar. Enquanto ela tentava ver a extensão do corte em suas costas, os outros se arrumaram em sua volta, colocando colchonetes. Não querendo ser inútil, levantou-se e aproximou-se de Azulth, que deu um pio alegre ao vê-la.

– Senti saudades também.

Dando um sorriso, pegou um dos colchonetes para ela e quando virou-se, percebeu que somente ela e Nacil ainda estavam de pé.

– Me ofereci para o primeiro turno da guarda. – ele disse baixinho, aproximando-se dela e pegando o colchonete de suas mãos – Venha, vou limpar seus ferimentos.

– Da próxima vez vou me ferir na perna. Assim posso limpar meus próprios ferimentos. – ela grunhiu, baixinho, sentando-se e afastando os cabelos loiros.

– Eu espero que não haja uma próxima vez. – murmurou Nacil, contrariado, e começou a passar um tecido molhado em suas costas – Não tenho nenhum cicatrizante por aqui, mas vou usar um pouco de magia élfica para aliviar sua dor.

– Eu disse que você é um mago. – ela disse, sentindo-se bem pela primeira vez desde que deixara seu mundo.

Ele apenas deu um sorriso forte e não disse mais nada. Quando terminou, colocou curativos e fechou o zíper do vestido dela delicamente. Ao perceber que ela não se movera, abaixou-se na frente dela, até ficar na altura do seu rosto.

– O que houve?

– Estou com um pouco de peso na consciência. – deu um sorriso irônico, balançando a cabeça ao perceber que falara demais – Esqueça. Boa noite, Nacil.

Porém, antes que pudesse se levantar, o homem abraçou-a delicamente.

– Só não se machuque da próxima vez.

Parecendo embaraçado, ele soltou-a e levantou-se sem olhá-la novamente. Nin levantou-se também, sem entender muito bem o que havia ocorrido, mas antes que pudesse sequer pensar, caiu num sono profundo em cima de seu colchonete.

FANFIC – As Filhas

            Capítulo 7 –   O refúgio das Filhas


A despedida de Valfenda foi rápida e dolorida. Nin subiu em um dos cavalos, sob o aplauso de todos os presentes e despediu-se. Um pouco antes, porém, seu olhar se cruzou com o de Nacil, antes de ele virar as costas e sair de onde ela estava sem nem olhar para trás.
Acompanhada de vários elfos para protegê-la, eles partiram para o refúgio onde as outras Filhas estavam. Sentindo que seria uma viagem longa, ela pôs-se a pensar em sua situação.
Após descobrir que era princesa de Valfenda, seu mundo virou de cabeça para baixo. Descobrira mais algumas coisas a respeito de toda a história de Filhas, mas nada concreto o suficiente para resolver esse problema. Ela era uma dessas Filhas, que, juntamente com as outras oito iriam fazer o Senhor das Sombras ser subjugado… isso se não fossem mortas para revivê-lo. Quando pensou nisso, porém, seus pensamentos voltaram-se inteiramente para o mago idiota e ela simplesmente parou de pensar e ficou admirando a paisagem.
Valfenda era linda e verde, mas as terras que eles percorriam eram áridas. Pareciam  um dia terem sido verdes e férteis, porém, agora eram um deserto. Quando a noite chegou, ela sentiu-se tensa pela primeira vez. Não queria dormir. A sensação era que se dormisse, iria sonhar com o Senhor das Sombras novamente.
Algumas horas depois, porém, não resistiu e caiu em um sono profundo e cheio de pesadelos.

            ***

A floresta estava escura e ele estava ali, sentado em cima de uma árvore completamente em silêncio. Seus pensamentos estavam parados, a meditação alcançando seu auge. Não queria pensar, portanto fixou-se em retirar seus pensamentos de dentro de si. Foi quando ouviu uma voz doce e gentil falando com ele.

Nacil Isilrá… Mae govannen!*

Abriu os olhos, mas não viu ninguém ali. Sentindo que era a presença de alguém não físico, fechou novamente seus olhos e se concentrou.

Nacil, elfo guardião… o que está fazendo?

            Em sua mente ele finalmente viu quem o chamava e sentiu-se tremer.
– Rainha Naiandil? – murmurou.
A mulher, com cabelos longos e loiros trançados e um vestido suave que balançava como se um vento passasse por baixo dela a encarou com um sorriso, acenando com a cabeça em afirmação.

            O que está fazendo, Nacil?

– Meditando.

E porquê não está cumprindo sua missão?
            Nacil encarou-a em sua mente, sem compreender.
– Minha missão, senhora?

Você prometeu, Nacil Isilrá.

            E a compreensão do que a mulher dissera lhe atingiu como um flecha em seu peito.
– Eu a trouxe sã e salva para cá, minha senhora.

Essa era a sua missão?

            – Minha missão era ser o Guardião de Tittë. E foi o que fiz.

Ela deixou de ser Tittë Oronar? Porque não está a protegendo?

            – Ela não… – ele engoliu em seco – Ela não quer mais que eu fique perto dela.

Você é inteligente, Nacil. Nem tudo é o que parece…E nem todo mundo é o que parece ser.

            – Não compreendo, senhora.

Então feche seus ouvidos e ouça seu coração. Ele lhe dará a resposta.

            E então, a mulher desapareceu em uma névoa branca. No mesmo instante, Nacil acordou em sua cama, coberto de suor. Sentindo seu coração se apertar e lembrando-se das palavras da mãe de Tittë, levantou-se e foi procurar a Rainha Gloriel. Já sabia o que fazer.

*Mae govannen! – Bom te ver!

            ***

            Quatro dias de viagem depois, Nin finalmente chegou ao refúgio das Filhas. A princípio não viu quando seus protetores avisaram da chegada, mas quando olhou mais de perto, pode perceber do que se tratava.
Parecia ser uma ruína de uma torre muito alta e branca. Atrás dela, porém, uma casa foi construída, algo tão lindo como qualquer casa que havia visto em Valfenda. Também era daquele mármore branco, provavelmente retirado dos destroços da torre. Eles entraram no perímetro da torre, e, depois de proferir alguns encantamentos, foram autorizados a prosseguir.
A primeira coisa que notou assim que entrou na casa era que parecia ser o lugar mais tranquilo do mundo. Havia muitos apanhadores de sonhos pelas janelas, várias cortinas suaves e muitos sofás. Adentrando mais na casa pode ver que havia uma fonte jorrando em outro comodo, e teve certeza de que se tratava de mais uma daquelas fontes termais. No mesmo momento prometeu a si mesma que nunca iria entrar lá.
As outras Filhas apareceram no mesmo instante, acompanhadas de uma elfa com longos cabelos negros e olhos castanhos.
Le suilannon*, Tittë! – ela disse, se aproximando e beijando-a em ambas as faces – Aguardávamos sua chegada com ansiedade.
– Obrigada. – conseguiu falar.
Passou os olhos pelas outras Filhas e sentiu-se intimidada. Todas elas estavam ali agora e vendo-as, cada uma muito diferente da outra, pareceu que havia aceitado seu destino e aquilo era um pouco sombrio.
– Meu nome é Varniel. Serei sua protetora aqui, até a chegada hora. – ela disse segurando as mãos dela – Venha, Tittë. Vou apresentá-la às suas irmãs.
À um sinal de Varniel, três das Filhas colocaram-se à frente. Elas eram brancas como neve, os olhos eram claros e a única diferença entre elas eram a cor dos seus cabelos, pois pareciam ser trigêmeas elfas.
– Essas são Erunámë, – ela apontou para a elfa de cabelos ruivos cacheados e compridos – Eruvë – ela apontou para a elfa de cabelos azuis curtos – e Verdelë. – apontou para a última elfa, que tinha cabelos negros. – Essas são as três Filhas Elfas.
Nin acenou com a cabeça para cada uma delas e as três se afastaram, como se a visão dela não fosse agradável. Atrás delas surgiram mais três mulheres, também brancas, mas com algo diferente nelas que não conseguiu identificar.
– Essas são Laimiel – apontou para a mulher de cabelos castanhos fartos, que limitou-se a encará-la – Aeriel – a mulher de cabelos e olhos violeta acenou alegre – e Emel. – a menor de todas, que parecia jovem, mas ao mesmo tempo não, com cabelos loiros e olhos verdes deu um sorriso de orelha a orelha. – Essas são as três Filhas Meio-Elfas.
As três colocaram-se para trás e mais duas apareceram tomando seu lugar. Completamente diferente das que havia visto, Nin teve certeza que as outras duas eram humanas como ela, mas eram muito diferentes uma da outra.
– Essas duas são Dirwen – ela apontou para uma garota de cabelos longos e brancos, com os olhos em um tom azul muito claro e que parecia muito frágil – e Arien. – a outra fez um aceno com a cabeça, com seus olhos castanhos e seus curtos cabelos da mesma cor. – São as outras duas Filhas Humanas. Agora, com você, as Filhas estão completas.
Sem saber o que fazer, Nin apenas sorriu, o que fez Varniel sorrir também.
– Deve estar cansada. Venha comer alguma coisa e descansar. Depois poderemos conversar sobre o que quiser.
Nin acompanhou a elfa sem muita vontade. Depois de comer e descansar um pouco, estava entediada. Conheceu os arredores da casa, foi informada de que deveria permanecer no máximo nos jardins e que nunca deveria ir sozinha para fora. Viu que a casa era guardada por muitos e muitos elfos, que cuidavam para que elas não saíssem.
Incomodada, percebeu que não havia um único lugar naquela casa que as Filhas não estivessem, a não ser a fonte, o único lugar que ela não queria ir. Chateada, viu-se obrigada a se esconder no local onde a fonte ficava, pois ali não havia ninguém.
Estava sentada havia alguns minutos quando percebeu que outra Filha a olhava da porta. Era uma das humanas, a de cabelo curto. Sem vontade de ser simpática, apenas voltou os olhos para a fonte, mas ela não se intimidou, aproximando-se desajeitada.
– Não quero incomodá-la. – ela falou, jogando-se com vontade do lado de Nin – Mas aquelas garotas me irritam e você parece ser menos falante.
Naquele momento Nin percebeu que ela era a única que estava armada. Todas as outras vestiam-se impecavelmente com seus vestidos élficos, sem parecer se importar com nada além disso.
– Seu nome é Tittë, certo? – ela perguntou, curiosa.
A garota não estava procurando alguém menos falante, concluiu. Ela estava procurando alguém que falasse de coisas mais interessantes. Nin observou-a antes de responder: ela não era muito alta e com os cabelos curtos parecia mais um menino. A espada dela estava dentro da bainha em sua cintura e ela parecia odiar vestidos, somente pela forma como era desleixada com eles. Sentindo um sorriso escapar-lhe, encarou-a.
– Eu sou Nin. – falou, estendendo a mão para ela.
– Eu sou Arien. – ela apertou sua mão, contente. – Estou há uma semana aqui.
– Conte-me Arien… o que fazem por aqui? O que descobriram a respeito de nós?
Arien encarou-a sombriamente.
– Olha, nem tente perguntar isso para aquelas Filhas Elfas, elas me ignoraram desde o momento em que cheguei. As Meio-Elfas são legais, mas um pouco fúteis. Não compreendem exatamente porque estão aqui e não fazem muita questão de saber. Já a outra humana, a tal Dirwen, é completamente sedada. Ela parece nem ser de qualquer mundo que eu já tenha ouvido falar.
Nin encarou-a profundamente e se aproximou.
– Você quer dizer que… – abaixou o tom de voz, que saiu em um sussurro – Ninguém está fazendo nada para descobrir o que temos que fazer para o Senhor das Sombras sucumbir?
– Sim, é isso que estou lhe dizendo. – ela respondeu no mesmo tom – Nenhuma delas parece interessada e estão contentes em estar a salvo.
– Isso é ridículo! – grunhiu – Se não descobrirmos logo, agora que estamos todas juntas, podem nos matar!
– Eu tentei dizer isso à elas, mas a tal Varniel disse que eu estava fazendo muita confusão por pouca coisa. Então resolvi olhar as coisas por minha conta.
– Descobriu algo?
– Há muitos documentos e eu não compreendo muitos deles, pois falam muito sobre a última guerra e eu não sei nada disso.
– Ninguém contou para você sobre a última guerra?
– Ahn… não. – ela encarou Nin – Quem te contou?
Nin virou o rosto no mesmo instante, culpando-se por comentar aquilo. Pensar naquele mago idiota doía.
– O meu guardião.
– Nossa. – ela encarou o nada, parecendo entediada – O meu guardião era um ser muito estranho!
– O meu não era tão diferente de estranho também.
– Mas é sério! – Arien a encarou com um olhar enojado – Ele era muito esquisito. Ficava o tempo todo falando de si mesmo e em como as mulheres se apaixonam por ele. Cheio de cavalherismo… imagine, pra cima de mim!
Nin deu um sorriso irônico.
– O seu pelo menos não dava uma de sabe tudo.
– Ele tentava. Sabe porque chegamos só semana passada? Porque ele se apaixonou por uma humana e não queria me trazer. Maluco de pedra. Pelo menos aqui dentro não tenho que vê-lo todo dia.
– Não tem que vê-lo? – Nin encarou-a estranhamente – Como assim?
– Sim. Ele está lá fora, junto com os outros guardiões ajudando nas proteções daqui. O seu não está lá?
Nin abriu a boca, mas deu um sorriso amarelo.
– Claro. – falou, aproximando-se novamente dela e recebendo um olhar estranho da humana – Arien, eu preciso ver esses documentos.
– Somente amanhã. A noite Varniel fecha a sala dos documentos.
– Muito bem. Amanhã pela manhã faremos isso, certo?
Dando um sorriso enorme, Arien espreguiçou-se.
– Ah! Eu sabia que você era parecida comigo! Não vejo a hora de usar minha espada de novo… sem esse vestido.
– Eu também.
E as se encararam seriamente por alguns segundos e começaram a rir baixinho. Nin não se sentia bem assim há algum tempo e não achou mal ter alguém para contar. Só esperava que Arien fosse melhor com armas do que com vestidos.

            ***

            No dia seguinte, logo pela manhã, Nin e Arien tomaram café calmamente e, assim que as Filhas se dispersaram, as elfas sempre juntas, as duas humanas foram para a sala dos documentos.
Arien parecia muito preocupada. Remexia os documentos com atenção, separando alguns e movendo outros, e, depois de alguns minutos e parecendo satisfeita, ela chamou Nin mais para perto.
– Veja, eu separei os mais interessantes.
Nin pegou o primeiro e começou a ler. Era algo como um resumo da guerra do Um Anel, explicando o que os elfos fizeram na guerra e toda sua desenvoltura.
– Me explique sobre a guerra.
– Eu não sei muito também. O que eu sei é que o Senhor das Sombras, que chamavam de Sauron, forjou vários anéis, mas o Um Anel era o que governava todos os outros… mas eles conseguiram destruir esse Um Anel. E Sauron foi destruído.
– Mas se esse Sauron foi destruído, como ele está tentando matar a gente?
– A Rainha Gloriel me disse que o mal nunca morre de verdade. Somente adormece.
– Isso não é muito legal, né? Veja só, vamos conseguir agora, mas daqui alguns duzentos anos vai voltar.
– Não faço ideia se realmente é isso, Arien. Mas foi o que ela me disse.
– Muito bem. E esse outro aqui?
Nin leu o documento com cuidado, mas não compreendeu muito também. Falava novamente sobre os anéis, mas dessa vez sobre os anéis dados aos nove reis humanos e no que eles se transformaram na última guerra. Quando estava concentrada percebeu que havia dois olhos verdes a encarando com curiosidade do outro lado da mesa. Ao ser percebida, uma das filhas meio-elfas deu um pulo para trás, dando um sorriso enorme.
– Oi! O que estão fazendo?
– Ahn… oi. – falou Arien, sem saber o que fazer.
– Seu nome é Tittë, né? Eu gostei dele. É forte. É bem melhor que Emel.
A menina continuou falando várias coisas ao mesmo tempo, visivelmente querendo atenção.
– Estamos descobrindo o que precisamos fazer para deter o Senhor das Sombras.
– Ah, é mesmo. Ele quer nos matar né? Por isso estamos aqui. Seguras. Não é? – ela sorriu e encarou-as, esperando uma resposta feliz.
– Sim… e se não descobrirmos o que fazer, vamos morrer. Então nos deixe trabalhar. – resmungou Arien, visivelmente incomodada com a menina.
– Posso ajudar? Posso? Prometo ajudar!
– Pode. – falou Nin rapidamente, puxando uma cadeira – Sente-se aqui e escute, certo?
– Sim! Que bom que querem minha ajuda. As outras nem querem falar comigo. Dizem que eu falo demais, é verdade?
– Sim. – grunhiu Arien, voltando os olhos para Nin – O que pensa estar fazendo com essa pentelha aqui?
– Espera. Emel, certo? – perguntou Nin, fazendo com que a menina acenasse feliz – Muito bem. Sabe ler?
– Claro!
– Então leia isso e me explique o que entendeu.
O documento sobre os nove anéis começou a ser lido pela menina e Nin respirou. Achando que estava ajudando, a menina ficaria quieta por um momento e deixaria Arien e ela pensarem.
Ao pegar o próximo documento, no entanto, não conseguiu lê-lo. Estava inteiramente escrito em élfico.
– Ah, que ótimo! – grunhiu e mostrou para Arien.
– Ah sim, eu pensei a mesma coisa. Ei, baixinha. – falou Arien para Emel – Troca de papel comigo?
– Claro. Esse tá muito chato mesmo. Nove anéis para nove humanos e coisa assim. Não entendi muita coisa! – ela pegou o outro pergaminho e deu um sorriso enorme – AH! Agora sim, élfico! Pelo menos isso eu entendo.
Arien e Nin instantaneamente se encararam, estupefatas.
– Você entende élfico? – perguntou Nin, chocada.
– Claro. Vocês não entendem? – ao ver a feição delas, Emel sorriu – Não sabem usar seus poderes, né? Estão perdendo tempo. Mas eu ajudo vocês.
– Quanto tempo você leva pra traduzir isso? – perguntou Nin rapidamente, aproximando-se da menina.
– Ah… é bastante coisa. Acho que um ou dois dias.
– Muito bem. – falou Arien, visivelmente mais feliz com Emel – Então você faz parte de nossa busca, Emel. Não nos decepcione.
Completamente feliz, Emel deu pulos de alegria.
– Sim! Sim! Sim! – ela voltou a se sentar, feliz – Vou traduzir nesse pergaminho em branco. Hora do trabalho!

            ***

            Após sonhar com a Rainha Naiandil, Nacil tinha um plano em mente. Estava sendo estúpido e pensando demais como humano. Ao sentir seus poderes fluirem e ouvir seu coração, sabia exatamente o que fazer.

A Rainha Gloriel estava o aguardando. Havia solicitado uma reunião com ela pela manhã e, incrivelmente, conseguira. Ela estava no pátio central, onde fazia reuniões com seu conselho e recebia seus convidados.

– Nacil! Seja bem vindo. – ela sorriu e pediu que ele se aproximasse. – Em que posso ajudá-lo?

– Eu gostaria de me alistar no grupo da caça aos inimigos no leste, senhora.

– Mas o grupo partiu há dois dias, Nacil.

– Sim, senhora. Mas eu posso alcançá-los.

Ela balançou a cabeça em afirmação, parecendo querer ler seus pensamentos e, então, falou em um sussurro:

– O que te incomoda, Nacil?

– Não consigo mais ficar aqui, Rainha. Preciso distrair meus pensamentos.

– Oh… – ela murmurou, solidária, compreendendo do que ele estava falando – Muito bem. Está livre para partir e encontrar o grupo.

            – Obrigado, senhora.
E, com uma reverência, ele saiu, deixando a Rainha para arrumar suas coisas. Precisava organizar-se o melhor que podia. Em seu quarto, arrumou todas as armas que conseguiria levar enquanto voava. Chamar Azulth tão próximo de Valfenda não era sensato e deixaria para encontrá-lo mais para frente. Quando estava na porta do quarto, sua visão foi inundada por luz. Tentando se concentrar, percebeu que não conseguia enxergar.

Nacil…

            A voz da Rainha Naiandil preencheu seus pensamentos e, mesmo sem enxergar, voltou para o quarto, tentando se segurar na parede para não cair.

Nacil, antes de partir, vá até a fonte e escute. Não seja visto. Precisa saber o que está acontecendo.

            E, assim como apareceu, a luz sumiu, deixando-o sozinho. Olhando em volta, esperando se algo mais apareceria, pegou suas coisas e dirigiu-se até a fonte, o mais silencioso que seu caminhar de elfo lhe permitia.
Ao se aproximar, percebeu que duas pessoas conversavam ali dentro.
– Senhora, está tudo pronto.
– Que bom… – a voz da Rainha Gloriel ecoou na gruta, mas só era ouvida porque Nacil estava bem próximo – Sabe onde elas estão, não sabe?
– Sim. Será fácil atacá-las, senhora? Quantos Guardiões estão lá?
– Oito e mais alguns elfos. Mate todos.
– Oito?
– Consegui me livrar de um deles. O mais esperto, felizmente.
– Certo. Atacaremos em uma semana então.
– Muito bem, Kanor. – ela falou.
E então Nacil sentiu. Por alguns segundos, conseguiu se desviar da magia que a Rainha lhe lançara, mas não fora suficientemente rápido para que ela não o visse.
– Pegue-o! – ela grunhiu para Kanor, mas tarde demais.
Nacil levantou vôo e, o mais rápido que pôde, fugiu de Valfenda. Precisava encontrar as Filhas antes que fosse tarde demais.

FIC – As Filhas

Capítulo 4 – O despertar

Nacil não se intimidou com o escuro, pelo contrário, quase riu com a tentativa do homem de manipular a escuridão ao seu favor. Ele tinha a luz, não tinha medo.

– Varda, Rainha das Estrelas, dê-me o dom da visão nas trevas! – ele falou, mas não fez efeito algum – Mas como?!

– Eu disse que estamos mais poderosos. Não nos subestime! – disse a voz de Kanor em algum lugar da escuridão.

Nacil parou de respirar ao sentir um forte calor o envolver.

– Não!

E então tudo ficou claro e brilhante. Ele olhou de onde vinha aquela luz, que espantou todos os junkis e fez com que Kanor corresse assustado e abriu a boca em choque. Tittë brilhava em uma luz azulada. Seus olhos, antes castanhos, mostravam seu verdadeiro tom azul e sua marca brilhava por baixo da roupa. Aquilo durou o suficiente para que os inimigos fugissem e então, ela caiu no chão como uma boneca de pano sem vida. Antes que ele desmaiasse, contudo, viu que Kanor jogara um feitiço de longe e se colocou na frente de Tittë, caindo então definitivamente na escuridão.

***

Nin sentiu que foi agarrada, mas aqueles não pareciam ser os tentáculos dos junkis. A escuridão de chamas negras se dissipou e ela viu o que parecia ser um jardim. Não… era mais que isso… era um mundo iluminado. Algo lhe dizia pra abrir os olhos. Era só isso que precisava fazer, mas as pálpebras pareciam pesadas ali… Antes que pudesse pensar, ela abriu os olhos e veio uma forte luz, e, antes de tudo escurecer, ela viu Nacil caindo ao seu lado, ferido.

O que parecia ser um sonho, começou a incomodá-la. Abriu os olhos, relutante, sentindo o corpo reclamar pela súbita movimentação. A luz solar a incomodou um pouco, mas ela  percebeu, ao seu lado, Nacil, que parecia concentrado na floresta. As costas dele estavam manchadas de sangue por um enorme ferimento, que ela não fazia ideia de quando havia sido causado. Sentou-se o mais rápido que pode, fazendo com que ele percebesse a movimentação e a encarasse.

– Você se lembra de algo, Tittë? – a voz dele saiu num sussurro, como se aquilo fosse muito difícil.

– A última coisa que me lembro foram os junkis me levantando… – ela encarou-o e fixou o olhar no ferimento dele – Você tá bem?

– Eu sobrevivo, apesar da dor… Tudo o que lembro antes de cair desacordado foi ter me jogado à sua frente para te proteger da magia, que me atingiu… A dor era imensa, mas ainda consegui ver seus olhos brilharem.

– Meus olhos brilharem? – ela não compreendeu – Eu estava desacordada. Mas isso não importa agora!

Nin levantou-se, ajudando Nacil a se levantar. Seus ferimentos doíam, mas ela viu que os dele eram muito piores. E tudo aquilo era culpa dela.

– Meus ferimentos nem se comparam aos seus… vamos voltar para sua casa. Já causei problemas demais por hoje, não acha, mago?

– Acho que tivemos uma noite muito longa. Vamos voltar.

O elfo falou aquilo com uma convicção que ela pensou, por alguns instantes, que ele se recuperaria dos ferimentos como mágica. Mas ele deu dois passos e se apoiou nela, terrivelmente cansado.

– Nacil? Nacil, você tem que chamar sua águia!

Ele balbuciou alguma coisa, mas estava caindo no colo dela. Sem pensar duas vezes, ela levantou a cabeça para o céu e gritou:

– Azulth! Eu o invoco!

Por alguns instantes, ela pensou que não havia funcionado, mas logo uma águia grande pousou do lado dela, dando um pio contente.

– É, eu também gosto de você. Agora nos leve para o refúgio.

Conseguiu fazer com que Nacil ajudasse a ele mesmo a subir na águia e os dois foram planando para o refúgio. Assim que pousaram, porém, Nacil acordou e murmurou algumas palavras estranhas a ela. Ao ver seu rosto, ele deu um sorriso.

– Mais proteção, Tittë.
– Certo, mas meu nome é Nin. Não Tittë.

Ela o acompanhou enquanto ele andava pelo salão principal, mas ele já não aceitava mais a ajuda dela.

– Preciso aliviar esses ferimentos, Tittë. – falou ele, ignorando solenemente o último comentário dela – Vou até a fonte para lavá-los.

– Hum… ok. – ela deu de ombros – Esperarei você por aqui! – ela apontou alguns sofás e sentou-se, cansada.

Assim que Nacil saiu da sala de entrada, ela engolfou-se em pensamentos. Antes desconfiava realmente dele, achando que aquela história que ele contava era pura loucura de uma cabeça maluca, mas agora, que junkis e magos apareceram e pareciam saber quem ela era, sua cabeça girava com informações desconexas. Aquilo tudo era esquisito, mas, por alguma razão, ela nunca pensara que fosse maluquice. Tinha certeza de que era real… mas nunca esperava que ela estivesse no meio. De repente, Nacil retornou e encarou-a.

– Eu sou um idiota. – ele falou, olhando-a – Venha comigo.. Ainda não te mostrei a fonte da qual estou falando.

Nin seguiu-o e entraram por um portal que levava a uma escada em espiral. Eles desceram até sair num salão em que a luz do sol entrava por aberturas próximas ao teto. No centro do salão, uma grande fonte jorrava água que se despejava, formando um pequeno lago ao redor. Mesmo havendo muita rocha, o lugar tinha muitas plantas.

– Que lugar bonito! – murmurou, admirada.

– Graças à alta magia élfica este lugar permanece intocado.

– Ahá! Magia! Eu disse que você era um mago!

– Elfos também tem magia. – ele resmungou, revirando os olhos – Existe uma fonte igual a essa em nosso mundo. Um dia você a verá!

– Ahhh sim. O outro mundo. Certo. – resmungou Nin, incerta do que dizer.

Nacil tirou os frangalhos que lhe sobraram de sua camisa e caminhou à frente. Ela abaixou os olhos, não se sentindo a vontade ao vê-lo sem camisa. Ao perceber que Nin permanecia parada, viu que ele parou e encarou-a.

– Venha comigo, Tittë, renove suas forças. Você também está precisando.

Ela permaneceu no mesmo lugar e levantou os olhos com cara de perdida.

– Ahn… e o que eu tenho que fazer?

Nacil entrou na água e caminhou para dentro dela, até que a superfície atingiu a altura de seu peito.

– Venha até aqui.

Um pouco desconfiada, Nin tirou sua bota e entrou na água também. Ao contrário do que pensava, a água não era fria como o ambiente montanhoso pudesse sugerir. A temperatura da água fez com que ela sentisse seu corpo começar a relaxar e aos poucos ela foi se aproximando de Nacil, mas mantendo uma certa distância, já que ele estava sem camisa.

– Até que sua fonte não é má, mago. – disse ela, lançando-lhe um sorriso cínico.

Nacil riu.

– Se não fosse por você, eu estaria morto agora, não posso nem reclamar se você me chamar de mago.

– Por mim? – ela encarou-o, séria – Eu desmaiei, como poderia ter sido de alguma ajuda?

– Acho que algo em você está começando a despertar! – disse ele, parecendo feliz.

– É… a loucura, provavelmente – resmungou ela, revirando os olhos.

Nacil fez uma cara ofendida e, de repente, abriu as asas, dando um susto nela.

– Credo! – gritou Nin, saltando para o lado.

Quando se recuperou, ela pôde perceber que as asas estavam muito marcadas de ferimentos e com muito sangue. Engolindo em seco, ela perguntou:

– Os corvos… eram você?

– Sim. Eram eu. – respondeu Nacil, franzindo o cenho devido à dor.

– E… aquele anel fez isso… não é? – ela sussurrou, como se voz dela pudesse piorar os ferimentos.

– Fez, mas foi porque eu me atirei na sua frente… – ele encarou-a e sorriu – Agora está tudo bem, não se preocupe.

– Eu percebi que você não queria que ele usasse o anel contra mim. Por quê?

– Ele te deixaria inconsciente. Assim seria mais fácil te capturar. O anel, embora não fosse me matar de primeira, só me enfraqueceria.

– A questão é que eu já estava inconsciente quando ele tentou lançar isso outra vez, não é? – ela resmungou, mais para ela mesma do que para ele – E porque eles queriam me capturar?

– Você devia estar semi-inconsciente, do contrário, acho que não teria despertado aquele poder. De qualquer forma, ainda é cedo para eu conseguir tirar alguma conclusão. – ele pareceu ter outra onda de dor e suspirou – Não sei se eu te disse, mas eles precisam de seu sangue… Precisam sacrificar as Filhas para que o Senhor das Sombras tenha de volta seu pleno poder.

– Puxa vida… eu bem que podia ter nascido normalmente. – resmungou ela, revirando os olhos – E o que eu tenho que fazer pra eles pararem de me perseguir?

– Não sei, Tittë… Uma grande guerra se iniciou e não podemos simplesmente ignorá-la… – Nacil disse e mergulhou suas asas, deixando apenas a cabeça de fora d’água.

– É…acho que me meti numa grande enrascada, isso sim.

– Acho que fui eu quem te trouxe a ela. – lembrou-lhe Nacil, fazendo com que ela risse.

– Me lembre disso quando eu precisar culpar alguém… Eu acho que poderia ter simplesmente te ignorado, mas fui curiosa o suficiente pra vir até aqui. Bem que Omar dizia que minha curiosidade ia me matar algum dia.

– Acho que seu temperamento ainda te trará problemas. – concordou Nacil, irônico.

– Eu sou uma pessoa extremamente controlada! – ralhou ela, revirando os olhos – Você que me irrita com esse seu olharzinho de eu-sou-O-senhor-mago-e-sei-de-tudo.

Com um sorriso bem forte no rosto, Nacil afundou na água e Nin bufou, irritada. Olhando para seus braços ela viu que as marcas dos tentáculos dos junkis pareciam sangue de tão vermelhas que estavam. Malditos fossem. Agora sabia quem comandava os junkis, fazendo-os aparecer durante o dia e seguir cidadãos inocentes. Era por isso que eles não a perseguiam mais: tinham alguém que os ajudava a sair de dia. Dessa forma poderiam caçar quem quisessem.

Sua barriga roncou veementemente e percebeu que estava faminta. E também, muito preocupada. Precisava passar em casa novamente, pegar suas coisas. Não podia deixar suas coisas lá. Ia se vingar daquele tal de Kanor, por ter usado a imagem de Omar em próprio benefício!

– Maldito seja! – ela resmungou, sem perceber que pensara alto.

Rapidamente a cabeça de Nacil apareceu na água, fazendo com que ela pulasse de susto. Com um ar curioso ele encarou-a.

– O que você disse?

– Nada. – ela resmungou e encarou-o – Onde tem uma toalha? Acho que cansei de ficar aqui.

– Espere mais um pouco. Suas feridas ainda estão muito fortes.

Nin abriu a boca para perguntar de que adiantaria ela ficar ali, quando Nacil se levantou, parecendo ler seus pensamentos. As asas dele estavam quase curadas e ela teve que reprimir o desejo de sair daquele lago quente o quanto antes. Não que não acreditasse em um lago que curava, mas estar nele era outra história.

– Uau. Já tinha ouvido falar de águas termais, mas águas termais que curam é novidade! – murmurou, temerosa.

Nacil soltou uma grande gargalhada.

– Essas águas têm propriedades curativas e aumentam a capacidade de cura de alguém que saiba realizar a magia. Deixe-me mostrar!

Nacil se aproximou dela e estendeu as duas mãos, segurando a cabeça dela com leveza e encarou seus olhos. Imediatamente Nin sentiu seu rosto se avermelhar com a proximidade e piscou os olhos, aturdida.

– Feche os olhos.

Relutante, ela fechou os olhos, se sentindo mais incomodada com a proximidade dele na escuridão. Sentiu sua cabeça ser levemente colocada para baixo e a testa de Nacil (ou o que parecia ser a testa), encostou na testa dela. Ouviu um pequeno murmúrio sair dos lábios de Nacil e, incrivelmente, distinguiu certas palavras em élfico. Sentiu uma onda de energia envolver-lhe, mas não abriu os olhos, apesar da curiosidade. Aos poucos, ela foi sentindo seus ferimentos pararem de doer e seu corpo relaxar ainda mais. Percebeu que Nacil retirou as mãos do rosto dela. Ela, ao abrir os olhos devagar, ainda olhando para baixo, se deu conta de que seu vestido branco estava incrivelmente transparente, revelando seus seios. Ao encontrar o olhar de Nacil, porém, percebeu que ele também notava o que ela via.

Com um grito, ela empurrou Nacil para longe, sentindo-se ficar roxa tamanha sua vergonha.

– SEU TARADO! – ela grunhiu, jogando água no rosto dele, mas ele já havia virado de costas.

– EU NÃO FIZ NADA! – ele se desesperou, colocando as mãos no rosto para provar sua inocência.

 – NÃO OUSE OLHAR PARA TRÁS OU EU TE MATO!

 Nin saiu da fonte e procurou em volta por alguma toalha. Encontrou várias delas próximas a escada e se enrolou em uma. Não sabia nem como se sentir. Não era culpa do elfo que suas roupas ficaram transparentes, elas eram brancas e Nin havia se molhado. Sentindo-se furiosa por não perceber isso antes, voltou-se para as escadas, subindo com passos fortes.

Assim que alcançou o portal onde a escada começava, percebeu que Nacil a seguira e estava a dois passos dela, encarando o chão completamente sem graça.

– Não fuja, Tittë. Eu não posso defendê-la com os ferimentos que estou.

– Eu não sou tão infantil assim, Nacil. Estou indo me trocar.

Ele acenou e voltou a descer as escadas, parecendo confiar plenamente no que ela dizia. Não que ela estivesse mentindo, mas precisava ir para sua casa buscar suas coisas, mesmo que fosse perigoso. Não poderia sobreviver com aqueles vestidos depois do que passara.

Encontrou seu vestido negro seco em cima de sua cama. Rapidamente o pegou e foi até o banheiro, tomar um banho e, assim que se terminou e se vestiu, caiu na cama, muito cansada e não viu mais nada.

***

Nin abriu os olhos, sentindo-se relaxada pela primeira vez, mas quando lembrou-se de onde estava e o que acontecera para chegar ali, pulou da cama em um susto. A janela estava aberta, revelando uma noite estrelada. Dormira quase um dia inteiro.

Levantou-se da cama e verificou suas roupas: um vestido negro que ia até o joelho amassado. Respirou fundo, pois achara, por alguns instantes, que poderia estar com o vestido branco. Suas botas estavam ali do lado, esperando para serem colocadas. Enquanto se vestia, olhou pelo espelho para ver suas feridas e se surpreendeu ao não ver nenhuma. Aproximou-se do espelho e notou que não haviam cicatrizes, mas um pequeno risco negro destacava-se em seu ombro: a marca das Filhas começara a se formar. Respirando fundo, vestiu-se completamente, colocando inclusive seu sobretudo e saiu do seu quarto em direção a cozinha. Não tinha mais escolha.

Não sabia se encontraria Nacil por ali, mas talvez depois da vergonha que eles passaram no dia anterior, ele se recusaria a vê-la. Incrivelmente, porém, o elfo estava sentado na cozinha, com uma taça dourada na mão e olhando para um ponto fixo na parede.

– Olá.

Ele pulou forte, assustado e encarou-a por alguns minutos em silêncio. Nin não sabia se aquela reação era por medo do que ela estava sentindo ou se ele estava pensando em algo tão profundamente que ela o atrapalhou.

 – Desculpe incomodá-lo, mas eu tenho que ir até a minha casa.

Finalmente ele pareceu perceber que Nin estava vestida com suas roupas normais e sua espada escondida no sobretudo.

– O que quer fazer lá?

– Eu tenho que buscar roupas, Nacil.

– Eles estão vigiando a casa.

– Eu sei. Por isso que preciso que vá comigo. Preciso que os distraia.

 – Isso é perigoso demais! Você acabou de se recuperar e já vai procurar outra encrenca!

– Eu não vou para o seu mundo com aqueles vestidos brancos transparentes! – ela grunhiu, apontando a espada para ele – Portanto ou vem comigo ou eu vou sozinha!

Nacil abriu a boca, um pouco chocado e pareceu incomodar-se com algo. E, dando um aceno com a cabeça, ele levantou-se.

– Muito bem. Vou buscar minhas armas. Encontro você na saída.

Nin fez um aceno e voltou-se para a saída. Percebeu que deviam ser quase quatro horas da manhã e que para conseguirem ir e voltar antes de o sol nascer deveriam ser rápidos. No momento em que pensou nisso, Azulth pousou do seu lado, oferecendo sua cabeça para que ela a coçasse.

– Agora você lê pensamentos também? – ela perguntou para a ave, sorrindo, enquanto a mesma piava alegremente.

– Nunca vi Azulth tão dócil com alguém antes.

Nin virou-se, assustada, e deparou com Nacil vestido como humano, exatamente da forma como ela conversara com ele na primeira noite.

– Acho que precisamos ser rápidos, mago e Azulth pode ajudar.

O elfo pareceu pensar em algo, mas não disse mais nada. Simplesmente subiu em Azulth com uma agilidade incrível e esticou a mão para ela, que aceitou prontamente, subindo nas costas da águia e sentando-se atrás do homem. Mesmo desconfortável, sabia o que deveria fazer: abraçar Nacil.

E um minuto antes de ela fazer isso, Azulth levantou vôo, fazendo com que Nin segurasse desajeitada as costas de Nacil e quase caísse com o susto. Dando uma risada, o elfo olhou para trás, com um sorriso irônico.

– Mago idiota! – ela grunhiu, segurando-se nele enquanto voavam até sua casa.

Naquela noite em que fora resgatada pareceram que horas de viagem haviam se passado, mas agora que estava tudo bem, ela percebeu o quão rápido Azulth poderia ser. Em menos de meia hora, chegaram ao seu destino e ficaram escondidos, olhando atentamente para sua pequena casa.

Havia dois homens e quatro junkis vigiando a casa. Qualquer movimento eles atacariam, pois esperavam que ela voltasse ali. Com certeza ela voltaria, mas o que eles não sabiam é que havia um plano em mente, e aquela seria a última vez.

Azulth pousou e ela desceu, pedindo que Nacil chamasse a atenção dos homens para o lado contrário. Assim que percebeu que somente os junkis ficaram para trás, ela atacou-os rapidamente com um golpe, deixando-os cegos e matou-os.

Sua casa estava revirada. Todos os documentos e livros que haviam por ali haviam sido remexidos, em busca de qualquer coisa a respeito dela. Sem pensar muito, ela correu até seu quarto, pegou a pequena mala de viagem e encheu com as roupas mais variadas, pegou alguns livros que mais gostava e a maioria das armas escondidas por ali. Não havia muita coisa, mas Omar deixara algumas coisas muito interessantes e ficaria muito infeliz se não as levasse.

Nin não fazia ideia de como era seu outro mundo, e imaginava que lá teriam roupas também, mas não queria mudar seu estilo. Adorava vestir-se daquela maneira e não era por ser uma das tais Filhas que mudaria o que pensava. Ou pelo menos esperava que pudesse, pois se tivesse que usar vestidos brancos de elfo novamente nunca mais entraria debaixo da água.

 Terminou sua tarefa e deu uma última olhada no local, suspirando. Havia preparado aquela armadilha logo depois que Omar morrera. Algo lhe dizia que a morte do homem que cuidara dela era sua culpa e que aquela casa não seria de muita serventia. E, então, ela instalou um sistema de dinamites embaixo da pequena casa. Não sobraria nem um pedaço de madeira para eles revirarem.

Segurando o controle com firmeza, ela saiu da casa e apertou o botão. A explosão fora maior do que ela esperava e voltou os olhos para trás, vendo aquilo que um dia fora sua casa completamente em chamas. Em segundos, percebeu que alguém aparecera ao seu lado, ofegante.

– O que foi isso? Você está bem?

– Se acalme. Desculpe por não contar para você, mago, mas eu faço minhas mágicas também. Agora estou livre para ir para o seu mundo.

Ele meneou a cabeça, ainda ofegante e chamou Azulth. Assim que eles levantaram vôo, porém, Nin perguntou:

– Qual é o nome do meu mundo?

– Terra-Média. Nós vamos para Valfenda.

FIC – As Filhas

Capítulo 3 – As Filhas

            Nin devia ter dormido mais algumas horas somente, mas quando acordou o sol estava a pino do lado de fora. Seria um dia mais quente que os outros, pelo menos. Levantou-se, sentindo suas costas ainda arderem. Precisava urgentemente de roupas limpas ou não conseguiria mais ficar por ali.

            Resolveu remexer nos armários em volta da cama. A maioria deles estava vazio, mas em um deles havia muitos vestidos. Eram todos claros, mas bordados delicadamente com cores mais vivas, como azul, violeta e rosa. Apesar de tudo, porém, eles estavam um pouco empoeirados, pelo provável tempo que passaram ali.

            Não sabia se Nacil ficaria brabo com ela, mas resolveu colocar um daqueles vestidos até poder passar em sua casa e pegar roupas limpas. Foi para o banheiro conjugado do quarto e se vestiu. Encarou seus olhos no espelho e desviou instantaneamente. Olhos castanhos foscos, cabelos longos e loiros não eram algo que ela gostava de ver. Se olhar no espelho era uma tortura, pois não sabia se era parecida com sua mãe, ou seu pai. Não sabia de onde viera e constatar isso olhando para si mesma era muito frustrante.

            Olhou para seus pés, encobertos pelo longo vestido. A pessoa que tinha aqueles vestidos era mais alta do que ela, portanto ficava um pouco difícil caminhar, mas não impossível se colocasse sua bota. Um pouco mais alta e com o vestido parecendo melhor encaixado em seu corpo, ela sentiu seu estomago roncar.

Saiu do quarto, pegando seu vestido sujo e dirigindo-se até a cozinha do lugar encontrar algo para comer. Suas botas faziam um estranho barulho no chão de pedra e enquanto caminhava, observou todos os entalhes lindos que emolduravam as paredes. Elfos fizeram tudo aquilo? Omar lhe contara que eram um povo lindo e imortal, ao mesmo tempo fortes e que, na última Grande Guerra, eles ajudaram os humanos na batalha final. Onde essa Grande Guerra fora, ela não fazia ideia, mas provavelmente não era do mundo dela.

A cozinha estava vazia. Provavelmente Nacil ainda não acordara, mas ela estava morrendo de fome e ele não ia se importar de ela roubar alguma coisa comestível. Com o vestido sujo no colo, começou a comer uma maçã quando sentiu que alguém parava um pouco ofegante às suas costas.

Nacil estava com os cabelos soltos, parecendo um pouco preocupado por vê-la ali, mas no momento em que olhou para o vestido que ela usava, ele não falou mais nada e nem se mexeu, parecendo paralisar.

– Nacil? – ela murmurou, levantando-se, preocupada.

O homem piscou um pouco, parecendo sair do seu transe, mas seus olhos ainda estavam cheios de lágrimas.

– Me desculpe pelo vestido. – ela falou rapidamente, pegando seu vestido preto no chão – Está sujo de sangue e eu não consigo mais vesti-lo, então eu achei esse aqui no armário e eu… – ela viu que ele continuava sem se mexer e abaixou a cabeça, envergonhada – Eu vou lá tirá-lo.

Aquele vestido deveria ser de alguém de sua família e ela incrivelmente o colocara sem nem pedir, magoando o homem. Sentindo-se uma idiota, pegou seu vestido e saiu pela porta da cozinha, mas quando passou por Nacil, o homem segurou seu braço.

– Tittë, não tem problema. – ele murmurou, olhando para suas pernas – Eu fiquei chocado apenas.

– É algo importante para você, esse vestido? Eu posso tirá-lo.

– Não, não é isso! – ele soltou-a e caminhou até a cozinha, evitando olhá-la nos olhos – É que vendo você vestida assim… me lembra o que vim fazer aqui.

– Nacil… – ela falou, aproximando-se dele e fazendo-o olhá-la, sentindo novamente a sua raiva sem sentido invadi-la – Eu quero saber de tudo. Porque estão atrás de mim, porque não me lembro de nada antes dos meus cinco anos e porque você está me protegendo!

Ela despejou essas perguntas com tanta força e frieza que os olhos claros de Nacil se tornaram escuros por alguns breves segundos. Respirando fundo, ele apoiou-se na cadeira, sem desviar os olhos dela.

– Bom… acho melhor conversarmos. Sente-se, Tittë. Eu vou lhe contar.

Nin sentou-se, sentindo-se um pouco envergonhada de sua cena. Ele não lhe explicara bem porque quase chorara ao vê-la desse jeito e ela já usara de sua maravilhosa sensibilidade para despejar sua raiva nele. Respirando fundo, o encarou, esperando que ele começasse a falar.

– Você, assim como outras mulheres, são conhecidas como as Filhas. Quando vocês nasceram, houve muita festa entre os homens e os elfos. Todos acreditavam que era o sinal de tempos de paz – Nacil olhou para o chão, parecendo pensar um pouco, e então a olhou novamente – Dentre as filhas existem humanas, elfas e meio-elfas. Por isso houve celebração em ambos os mundos. O que ninguém esperava era que, conjuntamente ao nascimento das Filhas, o que se deu ao longo de sete anos, uma força maligna estava despertando das profundezas da terra.

Nin vacilou em pé. Uma dor de cabeça insuportável apoderou-se dela. Várias vozes começaram a surgir em sua cabeça e a dor aumentou, fazendo-a segurar mais firme na cadeira. Sentiu Nacil aproximar-se, preocupado.

– O que foi, Tittë?

– Não sei… – ela sussurrou e tudo escureceu.

***

Nin abriu os olhos, assustada. Estava numa cama ampla, num ambiente muito diferente dos que esteve até então. O teto era abobadado, com vários desenhos estranhos. O quarto era enorme, mas tinha apenas a cama no centro, com uma grande janela na frente. Ao seu lado, parecendo preocupado, estava Nacil, mas estava vestindo roupas claras, ao contrário de antes de ela desmaiar. Ela se sentou apressada, mas uma pontada na cabeça fez com que deitasse novamente na cama, tonta.

– O que aconteceu? Onde eu estou?

– Você dormiu bastante, hein… – falou ele, sentando-se ao lado dela na cama – Você desmaiou quando eu estava contando a história de seu passado. Lembra disso?

– Vagamente. Eu lembro de uma dor de cabeça e uma voz… mas não sei o que dizia. Dessa vez eu não ouvi nada.

– Dessa vez? – ele pareceu se preocupar, mas olhou para o outro lado – Hum… Tome… Beba um pouco. Vai fazer você se sentir melhor.

Nacil estendeu o braço e pegou um jarro e o que parecia ser uma caneca e entregou para ela, que pegou sem reclamar. O líquido era doce e quente, o que a fez sentir-se muito melhor.

– O que é isso, mago? Uma poção?

– Não. É hidromel.

– Gostoso! – falou, sorrindo e terminando sua bebida, entregando a caneca novamente para Nacil – Quanto tempo fiquei desacordada?

– Algumas horas. Tempo suficiente para eu colocar as coisas em ordem por aqui.

– Por que? Fiz muita bagunça ao desmaiar?

Nacil ergueu uma sobrancelha, mas não falou nada. Nin sentou-se na cama devagar e, percebendo que podia ficar sentada sem ficar tonta, resolveu levantar, mas ele não deixou.

– Sente-se melhor?

– Sim, eu acho. Pelo menos a cabeça não dói mais.

– Que bom. Vou buscar algo que possamos comer e, então continuaremos nossa conversa.

Nacil desapareceu pela porta do quarto e logo apareceu com uma bandeja com comida suficiente para o dois.

– Se isso acontecer de novo, tente se lembrar da voz.

Nin atacou a comida sem nem ouvir direito o que Nacil falara. Assim que terminou de comer, porém, olhou para ele, confusa.

– Eu não te disse o que ouvi nessa noite, não é? Eu vi um olho. E ele comia luzes… é, não sei bem se comia, mas elas desapareciam nele… e então, ele disse: Venha a mim.

O homem encarou-a, temeroso, mas não comentou.

– E a de hoje?

– Era grossa. – ela falou, depois de um tempo – E potente. Disse algo sobre… memórias.

– Por hoje já basta. Fique atenta, mas, aconteça o que acontecer, não dê ouvidos.

Nin terminou de comer o pedaço de pão que pegara, e encarou Nacil. Por mais que ele fingisse que aquilo era normal, ela não estava achando aquilo algo bom.

– De quem era essa voz? – perguntou.

– Não sei… Realmente não sei. Mas temo pelo que possa ser.

Nin não respondeu, pensativa. Alguns segundos depois se levantou, espreguiçando-se devagar. Sentou-se na cama para colocar novamente sua bota. Percebeu que ainda estava com o vestido que pegara no armário.

– Eu tenho que lavar meu vestido.

– Eu já lavei.

– Ah, já? Bom, eu… – ela desviou o olhar, e lembrou-se – Quero saber o resto da história. – ela disse, apontando o dedo acusadoramente para ele.

– Então acompanhe-me…

            Antes de acompanhá-lo, ela percebeu que sua espada e sua meia-lua estavam ali no chão. Sentindo-se estranha, ela colocou a bainha da espada na cintura e a prendeu, juntamente com a meia lua. Nacil a conduziu para fora do quarto. Ao sair, Nin percebeu que estava naquele salão com livros, mas do lado oposto ao que vira da última vez. Aquele deveria ser o quarto do homem e ela sentiu-se incomodada. Porque ele a levara lá? Ela tinha um quarto onde estava dormindo. Se aproximou de uma poltrona e sentou, observando o elfo cuidadosamente. Ele simplesmente encostou-se numa mesa próxima, encarando-a.

– Consegue se lembrar em que ponto da história eu parei?

– Sim. Sobre algo nascendo das profundezas… ou algo assim.

– Exato! Isso foi na mesma época do nascimento d’As Filhas.. Você consegue sentir uma pequena marca nas suas costas?

– Marca? – ela olhou-o, assustado – Não! Além da marca dos junkis, no pescoço, nunca tive nada parecido.

– Hmmm… – Nacil aproximou-se das costas dela. – Pode abaixar um pouco até deixar aqui livre? – Ele encostou sutilmente mais ou menos na omoplata dela.

Um pouco encabulada, Nin abaixou a alça do vestido branco, deixando a omoplata a mostra.

– A marca está oculta! – Nacil exclamou, fazendo com que ela pulasse de susto.

– E isso é mau? – perguntou, mas ele nem a olhou.

Nacil olhava para um ponto fixo no horizonte, perdido em pensamentos. Seu rosto estava concentrado e de repente relaxou, parecendo chegar a uma conclusão.

– Mas é claro! Seria uma das melhores formas de ocultá-las…

Nin continou olhando para o rosto de Nacil, sem entender nada, para variar. Aquela história era muito confusa.

– Será que pode me explicar o que é essa marca e como ela está oculta?

– Essa é uma marca possuída por todas As Filhas desde o nascimento… Foi conveniente ocultá-las para que os inimigos não as identifiquem.

 – Hum… – murmurou – E o que são as Filhas? Algum tipo de pessoa diferente? E porque eu sou uma delas?

– Sei apenas que elas nasceram num determinado espaço de tempo que, segundo os oráculos, era o prenúncio de tempos de paz. O que eles não previram era que para se chegar a esses tempos de paz seria preciso travar uma guerra.

– E essa guerra aconteceu?

– Ainda não percebeu o que está se passando lá fora? – ele andava de um lado para outro, compenetrado – Ela está apenas começando… Ouvi dizer que As Filhas possuem grande poder, mas não sei se elas sabem lidar com eles, já que foram criadas nesse ambiente meramente humano e limitado..

– Nunca tive nenhum poder a mais que uma simples humana. Você está enganado! – ela levantou-se, puxando a alça do vestido – Eu não sou uma dessas Filhas.

Nacil pareceu entender algo e caminhou em direção às estantes, passando levemente o dedo em cada livro, como se buscasse algo. Aquilo era demais para a paciência dela. Ela bufou, irritada e virou de costas para o homem.

– Isso é a maior loucura da minha vida! – ela resmungou, cruzando os braços, exasperada.

Nacil chamou-a alguns minutos depois e ela virou-se, ainda irritada. Ele estava parado em frente a um pergaminho antigo. Aproximando-se, ela leu o título: “A marca d’As Filhas”.

– Veja… Aqui está informação suficiente para comprovar se estou falando a verdade ou não! Se essa marca aparecer no seu corpo, não há porque negar a sua origem.

Nacil pareceu perceber o quão irritada ela estava e colocou uma mão gentilmente sobre a mão dela, fazendo com que Nin o encarasse.

– Sei que é difícil para você lidar com isso.

Ela olhou para o livro, estudando a tal da marca, e, quando falou, era mais para si mesma que para Nacil.

– Você não sabe o quanto é difícil ter que suportar isso tudo. Em menos de dois meses, Omar morreu, você apareceu e tudo foi revirado. Mas isso não é coisa que você precise saber.  – ela finalmente encarou os olhos dele e suspirou – Como faço pra ter certeza sobre essa marca?

Nacil apoiou a mão no ombro dela, desnudando-o novamente. Antes que ela pudesse reclamar, ele começou a murmurar algumas palavras, fazendo-a revirar os olhos.

– Veja! – ele falou, maravilhado e Nin olhou onde ele apontava por um espelho.

A marca foi acompanhando o dedo dele, se transformando no que parecia ser uma letra élfica e, no fim, mais parecia uma tatuagem de um pássaro. Um pouco assustada,  ela continou olhando para onde o homem apontara, mas a marca sumira.

            – Mas… cadê?

– Essa marca precisa se formar em você. – disse ele, parecendo outra vez maravilhado e pegou a alça do vestido dela, abaixando-a mais um pouco, apontando alguma coisa.

Nacil abriu a boca para falar, mas Nin foi mais rápida. Virou-se, furiosa, arrumando o vestido e cruzando os braços de um golpe só.

– Sabe o que EU acho? Que isso está ficando ridículo!

E, antes que Nacil pudesse pará-la, ela saiu correndo para a porta do refúgio. Infelizmente o local ficava numa encosta, mas havia algumas árvores ali do lado, e seus galhos maiores alcançavam a entrada. Sem pensar duas vezes, ela correu para as árvores, descendo agilmente pelos galhos até alcançar o chão. Ao pisar em terra firme, ouviu a voz de Nacil a chamando. Irritada, ela percebeu que a mata ali era gigantesca, mas não se intimidou. Correu o mais rápido que pode. Sabia que aquele magozinho tarado iria encontrá-la rapidamente com aquele pássaro horrendo dele, mas ela não tinha escolha. Não queria mais saber se era uma “filha” ou não. Queria simplesmente voltar para sua casinha e matar os junkis. De preferência bem longe desse mago.

Ofegante, ela parou um pouco, e olhou em volta. Havia corrido por pelo menos dez minutos, e não sabia onde estava. O sol estava quase se pondo, e por um segundo, pensou em voltar por onde viera, mas então já era tarde. Ela estava perdida.

Nin olhou para trás, procurando algum sinal do Nacil. Nada. Tudo bem, ela havia sido um pouco precipitada ao sair correndo daquele jeito, mas não estava mais aguentando essa pressão de que ela era a Filha de não sei o que. Pior era ter que aguentar ele a tocando como se fossem íntimos. Voltou a caminhar lentamente. Os sons da floresta à noite eram estranhos, mas nada daquilo a assustava. Chegou perto de uma clareira e aproximou-se lentamente. Uma imagem surgiu em sua mente: viu uma menina de cinco anos deitada ali. A dor de cabeça voltou e ela se ajoelhou, tentando fazê-la parar. Quando se acalmou, ela prendeu a respiração. Os sons da floresta silenciaram-se. Levantou-se, preocupada. Havia algo ali e não parecia querer o bem dela. Antes que pudesse perceber, algo pulou sobre ela e Nin gritou.

***

Enquanto isso, dentro do refúgio, Nacil correu através do salão em direção à sala de armas. Ao chegar lá, pegou sua armadura e tentou vestir-se o mais rápido que pôde. Ele sabia que não poderia sair desprotegido.  Por ser uma armadura leve e de couro dracônico, não houve dificuldade para vesti-la. Correu mais uma vez, pegou duas espadas de tamanhos distintos e um grande arco que repousava ao lado delas. A aljava estava cheia e a pegou também. Ele sabia que Tittë corria um grande perigo e ele era um grande idiota que não percebera que ela estava intimidada. Sem hesitar, correu em direção à saída, pedindo aos deuses que nada de mal acontecesse, até que ele a encontrasse.

Nacil saltou da entrada da caverna e, com desenvoltura, segurou um galho de uma das árvores, saltando diretamente para a árvore seguinte, de onde pôde descer ao chão através dos cipós. Então parou. Precisava achar rastros dela e não teve dificuldade para isso: sua corrida desesperada pela floresta havia deixado muitas marcas no solo úmido e nas folhas ao chão. Rapidamente, iniciou a corrida silenciosa em direção à Nin. Seus passos eram quase imperceptíveis, mesmo havendo tantas folhas ao chão e ele seguiu, com os ouvidos de elfo atentos a sua volta.

***

Nin tentava ao máximo se libertar, mas o que a segurava era forte. Foi quando percebeu que era um homem que ela conseguiu se soltar, chutando-lhe as partes baixas. Rapidamente pegou a espada e empunhou-a. Ele tinha olhos vermelhos e um sorriso doce se espalhou por seu rosto.

– Não vou machucá-la, menina.

– Se afaste!

O homem levantou a mão e vários junkis surgiram, atacando-a. Ela começou a lutar contra eles, enquanto o homem parecia tranquilo, olhando a cena. Apesar de estar sozinha, ela sabia que contra os junkis ela podia facilmente ganhar. O que ela não tinha entendido era como o homem estava dominando os junkis para eles o obedecerem daquela forma, como se ele fosse o mestre ou coisa assim. Ela sentiu uma fisgada nas costas, onde o machucado com certeza estava sangrando de novo. Antes que pudesse dar uma olhada para ver como estava, um junki enrolou seu tentáculo no braço esquerdo dela. Nin virou-se para cortar o tentáculo, mas outro segurou seu braço direito. Outros junkis prenderam-na, deixando-a parada no ar. Quase sem respirar pela dor das queimaduras que os tentáculos dos junkis faziam em seus braços, ela viu o homem dos olhos vermelhos se aproximar, sorrindo.

– Não imaginava que seria tão fácil.

Nin ouviu um pequeno zunido atravessar o ar. Do meio das árvores uma flecha havia saído, atingindo a perna do homem. Parecendo não sentir a flecha cravada na perna, o homem obversou atentamente o local, e fez um sinal para os junkis.

– Levem-na.

Os sentidos dela começaram a balançar. Não ia desmaiar! Uma luz começou a brilhar da espada dela e com um movimento rápido, ela cortou um junki próximo. Os outros, percebendo que ela estava se libertando, fecharam mais o cerco e ela voltou a cortá-los em pedaços, até que conseguisse sair do abraço mortal deles. Olhou para o homem de olhos vermelhos, que empunhava uma espada para alguém que ela não podia ver. Voltou a lutar com os junkis, esquecendo completamente a dor.

– Apareça quem quer que seja! Venha lutar! Derramarei o seu sangue maldito! – o homem berrou, parecendo lutar com alguém.

O último junki caiu pela sua espada, fazendo-a ofegar. Algo acontecia com o homem de olhos vermelhos, que continuava gritando com alguém. Ela apoiou-se em uma árvore, cansada. Lentamente os galhos das árvores a envolveram, prendendo-a definitivamente ali.

– Ah, merda!

Era só com ela que aquilo acontecia. Isso que dava ter um azar maldito. Percebeu  que os ruídos pareciam girar em torno da área da batalha e, de vez em quando, era possível perceber algumas folhas se moverem. Mas seja o que for que estava lá, era rápido demais para ser visto. E, com ela presa em uma árvore, seria impossível se mexer até alguém salvá-la.

Nin tentou se livrar do aperto da árvore, em vão. Quanto mais se mexia, mas a árvore a apertava. De repente, algo movimentou-se na frente dela. Outro homem caminhava até ela, parecendo preocupado.

 – O… Omar? – ela sussurrou, assustada.

O homem sorriu e aproximou-se dela, ficando a centímetros de seu rosto. Omar… deveria estar morto. Os sons no alto das árvores cessaram de repente e ela tentou olhar para onde o homem dos olhos vermelhos estava, mas não conseguiu ver nada. Voltou os olhos para Omar.

– Você deveria estar morto! – foi o que conseguiu dizer.

– Eu sei, Nin. Me desculpe por ter fingido minha morte. Era necessário!

Ele levantou a espada e cortou os galhos, soltando-a.

 – Venha… aqui não é seguro.

Nin apenas olhou-o, sem entender. O susto em revê-lo… a morte dele havia sido estranha, mas… e se?

– E porque voltou agora?

– Preciso protegê-la. Há várias pessoas querendo te matar, Nin. Eu fingi morrer para te salvar.

Nin segurou a espada, confusa.

– Não sei, eu…

– Não temos muito tempo! – ele aproximou-se e abraçou-a – Estou contente de vê-la de novo.

Ela devolveu o abraço e olhou para o pescoço do homem. Havia alguma coisa errada ali. A floresta estava em silêncio e ela finalmente percebeu. Aquele homem não tinha uma tatuagem de junkis em seu pescoço. Aquilo não era Omar.

– Solte-a, Kanor! Como ousa profanar o solo desta floresta?

De repente, do meio das árvores, Nacil apareceu, encarando os dois com a espada em punho. O homem que a abraçava se soltou e encarou Nacil. Nin apenas olhou de um para o outro, confusa, enquanto sentia a lâmina do homem que a segurava em seu pescoço.

– Nacil?

– Tittë, não se mexa. Eu o conheço, Kanor! Mas receio que não saiba quem sou.

– Você é um dos Guardiões, não é? – falou Kanor, olhando com ódio para Nacil.

Num rápido movimento, ele prendeu Nin mais firme em seus braços, mas desta vez soltou a espada e apontou para ela um estranho anel. Num surto de consciência, Nin finalmente percebeu que aquilo só podia ser algum tipo de feitiçaria. Com raiva, ela começou a se debater, chutando a canela do homem para tentar fugir. Mas ele era forte e a segurou novamente, passando um dos braços pelo seu pescoço e colocando o anel a centímetros do seu rosto.

– Não se mexa, Tittë. – a voz de Nacil veio calmamente até seus ouvidos, mas a boca dele não se mexera.

– Se é um dos Guardiões, pelo visto fracassou em protegê-la! – falou o homem, rindo.

– Kanor, você não seria capaz de fazer isso. – falou Nacil, ainda encarando o homem com ferocidade – Você precisa dela viva!

– Sim, mas não quer dizer que eu não possa machucá-la. – o homem falou, abrindo um sorriso cínico.

Nacil fechou os olhos e começou a murmurar palavras indistinguíveis, pelo menos para ela. Kanor aproveitou a deixa de Nacil e jogou-a para trás, ainda apontando o tal anel pra ela e começou a murmurar coisas estranhas também. Uma leve aura esverdeada começou a rodear Nacil e as folhas secas no chão começam a se mover num emaranhado, transformando-se em um redemoinho.

Por mais que Nin estivesse preocupada com toda aquela situação, procurou onde sua espada estava. Com a queda, caíra do lado oposto, ao lado da árvore que a prendera, deixando-a totalmente exposta ao tal anel estranho. Com cuidado, tentou buscar sua espada, mas algo prendeu-a contra a árvore e Kanor riu, ainda de olhos fechados.

– Acho melhor não tentar se mover, ou posso sem querer acabar matando-a.

Subitamente, Nacil pareceu se desfazer, transformando-se em dezenas de corvos e voando como um enxame para cima de Kanor. Todo aquele barulho dos corvos e das folhas voando fizeram com que Kanor relaxasse e parasse de apontar o tal anel para ela. Nin logo percebeu que podia se mexer, e, na bagunça, correu pro lado de sua espada, segurando-a com força. Os corvos ainda atacavam Kanor, e ela ficou distante, ainda com a espada em mãos.

Um brilho vermelho começou a surgir no anel de Kanor e vários feixes de luz irromperam dele, atingindo alguns dos corvos, que desapareceram, revelando Nacil caído, com alguns ferimentos.

– Isso foi muito ousado, Nacil. Mas desde nosso último encontro meu poder aumentou. E você sabe o porque disso, não sabe? – Kanor parecia deliciado ao ver Nacil caído – Parece-me que, ao contrário, você continua o mesmo! Todo esse tempo só serviu para te diminuir! E é aqui que irei te subjulgar, diante do refúgio de sua extinta família!

Nin segurava sua espada fortemente. Não sabia o que o mago e o tal do Kanor tinham em comum, mas sabia que eram inimigos. Ela simplesmente precisava sair dali. Kanor deu um sorriso cínico e apontou o anel para ela de novo.

– Levem-na daqui. Eu faço as honras da casa para Nacil.

Vários junkis apareceram do nada e enrolaram-se nela de novo. A dor dessa vez foi muito mais forte e ela sentiu os seus sentidos começarem a desaparecer, assim que eles a levantaram do chão.

– Parem! – Nacil gritou, fazendo menção de ir atrás dela.

– A sua briga é comigo! – Kanor falou, apontando outro anel para Nacil.

Subitamente um facho de luz vermelha saiu do outro anel. Então, toda a área ficou imersa em trevas e a escuridão impedia que qualquer um ali enxergasse, exceto os inimigos. Os sentidos de Nin falharam e ela caiu na escuridão.

FIC – As Filhas

Capítulo 2 – Aquele que acolheu a Nin

Sua noite foi maravilhosamente sem sonhos. Pela primeira vez em quase uma semana, conseguira descansar. Apesar do seu cansaço, assustou-se quando viu que passavam das cinco horas da tarde e se levantou, indo direto tomar um banho.

Sua casa ficava próxima ao Monte Tasman, na Nova Zelândia. Sua vida até aquele momento havia sido relativamente tranquila. Crescera naquela mesma casa, com Omar ensinando-a tudo o que sabia.

Respirou fundo e desligou a água do chuveiro, sentindo suas costas arderem. Mesmo assim, vestiu-se rapidamente, tremendo. A dor estava excruciante em suas costas, mas não tinha vontade de colocar um curativo, pois o frio estava aumentando. Apesar de estarem em abril, o frio na Ilha do Sul, onde ela morava, piorava com o desaparecer do sol. Quando anoitecesse, seu sobretudo seria essencial para suas caçadas.

A pequena casa onde morava não era grande ou exuberante: dois quartos, um banheiro, uma sala pequena e uma cozinha minúscula. Sua vida se resumia a dormir durante o dia e passar a noite acordada caçando junkis. Portanto, sua casa servia apenas para reconfortá-la em suas horas de sono.

Estava terminando de colocar sua roupa quando sentiu uma presença. Alguém se aproximava dali e não parecia ter boas intenções. Pegou sua meia lua dourada e percebeu que ela emitia o sinal de que havia junkis por perto. Sem compreender, olhou para o céu, que ainda estava alaranjado, com o sol no horizonte, baixando lentamente. Ainda demoraria mais meia hora para anoitecer completamente… então como haviam junkis perto dela?

Terminou de se vestir rapidamente e pegou sua espada, colocando-a dentro de seu sobretudo. Pulou a janela do seu quarto, caindo na parte de trás da casa e se escondendo entre as árvores que a circundavam. Não conseguiria ver ninguém daquela posição, então começou a caminhar lentamente para frente da casa, sempre se escondendo entre as árvores.

Na porta, alguém batia. Nin sentiu sua nuca gelar. Havia seis homens ali, completamente vestidos de negro. Todos eles usavam óculos escuros para esconder a cor dos seus olhos e, por um instante, teve certeza de que não eram seres humanos. Em volta deles, havia seis junkis pairando como assombrações, não parecendo sofrer com a luz do dia.

Sabia que deveria correr, mas para onde? Como sair dali sem que os junkis percebessem sua presença ou os homens não a vissem? Enquanto pensava nisso, eles bateram em sua porta.

– Senhorita Drury? – falou um deles, tentando olhar pela janela e verificar se ela estava lá dentro.

Naquele momento, porém, percebeu que era a hora de correr. O mais rápido que conseguiu, saiu de trás das árvores e correu para longe. Não quis olhar para trás, mas podia senti-los atrás dela, os junkis acima e os outros atrás. Quanto tempo aguentaria sem lutar, não sabia, mas algo dentro dela a mandava correr e não lutar, que aquilo era mais do que ela poderia aguentar.

Quando estava um pouco longe, entrou no meio da floresta, sentindo suas costas arderem. Os ferimentos da batalha do dia anterior ainda não haviam sarado e simplesmente recomeçaram a sangrar, fazendo-a perder o equilibrio e cair no chão. Puxou a espada rapidamente, mas antes que precisasse atacar, sentiu seu corpo sendo elevado. Quando olhou para baixo, viu que era carregada por uma águia gigante.

– Mas o que é isso?

A águia deu um pio solene, como se explicar naquele momento não fosse necessário. Segurou-se o melhor que pode em cima daquilo, enquanto ela voava velozmente para bem longe dali. A noite já havia caído e a lua brilhava no céu. Deixando-se levar, Nin acalmou sua mente e teve um vislumbre de algo voando do seu lado. Virou-se, com medo do que podia encontrar, mas o que viu foi apenas o homem da noite anterior, voando com suas asas abertas.

– Eu sabia que tinha visto essa águia em algum lugar.

– Apenas se segure firme. Chegaremos ao meu refúgio em quinze minutos.

– Já que eu não tenho escolha, eu vou com você, mago. Mas saiba que se levantar uma asinha, magiquinha ou qualquer coisinha contra mim terá sérios problemas.

– Já disse: não sou um mago.

– Que seja, bruxo.

O homem apenas acenou e voltou a voar mais longe dela, ignorando-a. Ela realmente tinha que controlar seus nervos quando se tratava desse homem. Mesmo não sendo muito fã de altura, Nin deixou-se aproveitar a viagem. Apesar de estar noite e não poder ver muito a sua frente, as luzes brilhantes da cidade abaixo dela e as montanhas escuras eram muito bonitas de se ver. Logo conseguiu divisar uma densa floresta em cima de uma serra e olhou para o mago, que voava ao lado deles, agora com a espada em mãos.

– Estamos chegando? – ela murmurou e massageou os braços, muito gelados pelo frio.

– Sim, é logo ali! – ele apontou um rochedo circundado pelas árvores.

– Finalmente! – ela resmungou, revirando os olhos.

A águia começou a descer, pousando numa cavidade oculta pelas árvores. Assim que encostou os pés no chão, Nin desceu da águia, massageando os braços cobertos pelo sobretudo em busca de algum calor. Olhou em volta, procurando como entrar para algum lugar mais quente e percebeu que o mago pousara do seu lado, guardando sua espada.

– Essa aqui é apenas a entrada. Há muito mais lá dentro.

– Hum. – resmungou, nada interessada.

– Seu temperamento é exatamente como eu esperava… – o homem sorriu para ela.

– Será que dá pra gente entrar logo? Eu estou com frio. E você está me irritando com essa conversa. – ela cruzou os braços, olhando atentamente para a entrada.

– Não tenha pressa, Tittë. Sinta-se feliz por estar aqui, e viva.

O homem parecia estar preocupado. Tanto que agora observava cada canto do lugar onde estavam, se demorando em alguns pontos estratégicos. Alguns locais em que ele encostava sua mão se iluminavam, deixando um rastro brilhante atrás dele. Começando a tremer, ela o seguiu.

– Lá vem você com essa história. Os junkis querem me matar porque eu sou uma caçadora. Quem além deles iria querer me matar?

– Todos eles. – ele virou-se, aproximando-se dela – Não percebeu que ontem todos se viravam para você? Será que aquela visita na sua casa há pouco mais de uma hora não lhe mostra que eu posso estar certo?

O homem fez um sinal, apontando para a cavidade que finalmente se abrira na pedra, fazendo com que Nin simplesmente corresse para dentro, procurando algum calor. O homem voltou-se para a pedra e fechou-a, acendendo a iluminação com uma tocha.

– Não sei quem eram aquelas pessoas. – ela resmungou, observando as paredes de pedra e dando um sorriso arrogante – E os junkis se voltavam para mim porque suas magiquinhas não os assustavam.

As paredes estavam iluminadas por archotes, mas não continham nenhum sinal de civilização. E, se ela contasse os rabiscos escritos na parede, aquilo definitivamente parecia uma caverna. Estava tentando compreender tudo aquilo que estava escrito ali quando ouviu que o homem ria baixinho. Ele ria levemente, como se ela tivesse contado uma ótima piada.

– O que foi agora?

– Gostaria que minhas mágicas fossem a busca deles. – ele parou de sorrir e encarou-a profundamente – Eles te atacavam porque queriam seu corpo.

– Meu corpo? – ela exclamou, incrédula.

– Sim. – ele confirmou e voltou a caminhar pelo corredor, pedindo que ela o seguisse – E queriam me matar, também. Mas, a princípio, você era mais importante.

– Dá pra você me explicar essa história direito? Eu sou uma simples caçadora de junkis! Mas depois que você apareceu, tudo desandou!

A voz dela morreu. Eles entraram num imenso salão com várias colunas, todas bem ornamentadas, com pinturas e escritas desconhecidas para ela. As escritas prateadas se tornavam douradas com o brilho das tochas que iluminavam igualmente o salão, que refletia o esplendor de uma obra magnífica. Algo que ela havia lido em livros, mas aquelas descrições não se comparavam com o que via ali.

– Uau… nada mal, hein mago? Lugar antigo. – falou, se aproximando das escritas e observando-as atentamente – O que está escrito aqui? Proteções?

– Este lugar pertenceu aos meus antepassados. A maioria deles magos, de fato. – ele deu de ombros, não parecendo se importar tanto em ser chamado de mago naquele momento – As escritas de proteção estão na entrada. As demais, em sua maioria, são feitos de meu povo em nosso mundo. – o homem respirou fundo e postou-se ao lado dela, olhando para as escritas como se visse algo além delas – Quando eu soube de toda a verdade, não tive como voltar atrás. Por isso estou aqui hoje, em meio aos humanos.

– E o que exatamente é você? E porque estava me vigiando? E porque querem me matar?

A avalanche de perguntas pareceu não abalar o homem, que continuava olhando para as escritas.

– Venha comigo até o outro cômodo. Precisamos cuidar de seus ferimentos. Então – ele encarou-a – eu lhe contarei o que precisa saber.

O homem sorriu e começou a andar para o lado esquerdo do salão, em direção a uma porta trabalhada, assim como todo o lugar. Nin revirou os olhos e seguiu-o. Apesar de querer bater nele por não contar o que ela queria saber, sabia que o mago não deixava de ter razão. Seus ferimentos da batalha com o Balrog foram terríveis, e antes que pudessem cicatrizar, ela os abrira mais.

– Muito bem. – ela grunhiu, alcançando a porta trabalhada – E nada de tentar me enganar, mago. Eu quero saber de tudo.

Ao entrar, Nin percebeu que aquele devia ser um ambiente reservado para estudos. Muitos livros enchiam as paredes do imenso salão. Havia também muitas mesas no local, incluindo uma maior e mais comprida no centro do lugar. Ela esqueceu completamente a raiva e foi tomada pela curiosidade. Nunca havia entrado numa biblioteca tão grande assim. Ela se aproximou das estantes, quase tocando os livros de tão maravilhada que estava. Sempre amara estudar e ler, portanto aquilo parecia um paraíso. A risada do homem tirou-a novamente de seu transe.

– Venha aqui, Tittë. Precisa cuidar disso. Esses seres costumam deixar cicatrizes desagradáveis se você não cuidar dos ferimentos a tempo.

Nin virou-se para encará-lo, sua raiva voltando tão rápido que sentiu seus pêlos do braço se arrepiarem. Por alguma razão não gostava dele, mas o que mais a incomodava era ele a chamando daquele nome estranho.

– As cicatrizes e a dor não me incomodam, mago. O que me incomoda é você, sabendo de tudo e me irritando com esse nome! Eu já disse que meu nome é Nin!

Ele pareceu travar com as palavras duras que ela proferira. Não que ela se importasse muito, mas ele precisava saber que depois de tudo o que ela passara, depois de tudo, ele ainda queria remexer em feridas abertas! Ela não sabia sobre seu passado, antes de conhecer Omar sua vida era um branco incomum. Não lembrava de seus pais e muito menos de qualquer pessoa que fizesse parte da sua vida antes de ser encontrada por Omar.

– Eiii! O que há com você, afinal? – ele aproximou-se dela devagar – Eu te resgato, salvo sua vida, me disponho a contar toda a verdade e é assim que você reage?

– E quem você acha que é para se meter assim? Acha que é especial por saber quem eu fui?

Ele abriu e fechou a boca, abaixando a cabeça e encarando os próprios pés. Nin ainda sentia sua raiva esmagá-la com força, mas naquele momento percebeu que descarregava sua frustração em alguém que só estava tentando ajudar.

– Olha… desculpe, mago. Não quis lhe ofender. Mas é a verdade: você me irrita, apesar de estar com boas intenções.

– Meu temperamento calmo talvez… – ele murmurou para si mesmo, balançando a cabeça e levantando-a em seguida, parecendo completamente sem ressentimentos e a fez se sentar em uma cadeira – Mas isso não importa agora. Vamos ver o que há aqui.

O homem abriu um armário incrustado na parede e retirou alguns potes, vidros e tecidos de lá. Nin levantou as sobrancelhas, sorrindo, cínica.

– Age como mago, se veste como mago, tem coisas de mago e fala como mago… e ainda diz que não é um mago! – ela deu uma risadinha e passou as mãos nas costas, sentindo seu vestido encharcado com algo gosmento, provavelmente seu sangue – Maldito Balrog.

O homem se aproximou dela pelas costas e colocou a mão no ombro dela. Nin o encarou, sem compreender.

– Afaste um pouquinho. – ele disse, empurrando seu ombro levemente e fazendo-a ficar longe do encosto da cadeira.

Antes que pudesse dizer algo, ele abriu o zíper do vestido dela, deixando suas costas nuas. Um calor subiu pelo seu rosto, fazendo-a ficar extremamente vermelha, mas o homem nem percebeu a vergonha dela e continuou examinando suas costas. Limpando a garganta ela perguntou, não ousando encará-lo.

– Tá muito feio?

– Nada que não possa ser curado… – ele disse, levantando e aproximando-se da mesa, onde pegou um jarro e uma bacia de metal, despejando o conteúdo de um no outro.

– E vai demorar para fazer suas magias, poções ou o que quer que esteja fazendo?

– Vou apenas limpar os ferimentos agora. – ele falou, aproximando-se dela com a bacia e um tecido em mãos – Depois sim, farei os curativos.

O homem colocou a bacia no chão, molhando o tecido na água da bacia. Assim que o tecido encostou nas feridas, uma ardência muito forte se espalhou por suas costas, mas ela nem se mexeu. Era esquisito pensar daquela forma, mas ela estava acostumada com a dor. Omar era bem menos delicado que aquilo.

– É muito forte, Tittë. Admiro isso em você.

Aquele nome maldito de novo! Pela milésima vez aquele homem a chamara de Tittë sem ela nem saber o que diabos esse nome significava! A raiva voltou novamente com força, mas ela se controlou. Ele estava limpando seus ferimentos, afinal.

– Não me chame de Tittë. – falou controladamente – Meu nome é Nin.

– Porque você se chama de Nin?

Ela abriu a boca, mas fechou-a rapidamente, respirando fundo. Como ela poderia explicar aquilo? Tinha aparentemente cinco anos quando fora encontrada por Omar, e tudo o que se lembrava daquela data era de receber comida e abrigo. Não sabia exatamente porque escolhera Nin… mas parecia um nome ideal.

– Porque é legal. – ela disse, finalmente, fazendo-o parar de limpar os ferimentos um pouco para escutá-la – Quando se acorda sozinha, em um lugar estranho, Nin parece um nome legal.

– E… sua família? – ele encostou de novo o pano nas costas dela.

– Eu não tenho família. – ela cortou, não querendo comentar esse assunto com o homem.

Ele pareceu compreender e continuou limpando os ferimentos dela, em silêncio.

***

Após comer alguma coisa e enrolar-se em um cobertor, Nin deitou-se em uma cama confortável. Apesar de parecer rústico a primeira vista, o quarto era bastante moderno. Havia energia elétrica naquele cômodo e muitas coisas diferentes, mas o principal era a calefação, algo indispensável tão próximos das montanhas como estavam.

Quanto mais se esquentava, mais confortável se sentia e pensamentos inquietos começaram a aparecer em sua mente.

Ela era nova, uma criança perdida, mas parecia que o momento em que Omar lhe encontrara na floresta era muito importante e ela lembrava-se daquilo com muito afinco. Como algo a se segurar. Ela não tinha ninguém e de repente, Omar era sua família. Alguém com quem contar.

Nos anos que se passaram Nin se tornou uma ótima guerreira. Conheceu o trabalho de Omar e sabia do perigo que corria, mas assim que completou quinze anos, resolveu se tornar uma caçadora de junkis.

Mesmo sendo jovem, havia dois anos que lutava com Omar, quando ele simplesmente desapareceu. Como o Governo fazia registro de todos seus caçadores, ele constatou que Omar havia sido morto, mas que eles não faziam ideia de onde seu corpo poderia estar.

E então, pensando em Omar, caiu num sono profundo e perturbado.

***

Parecia que ela estava em um cinema. Um grande olho a encarava e palavras eram sussurradas em seus ouvidos.

Tittë Oronar…

O que parecia ser uma terra linda se transformava em pó e trevas em instantes.

Filha da Terra…

Nove luzes pulavam na sua frente e todas elas eram capturadas pelo olho.

Venha até mim!

O olho aumentou de tamanho, fazendo com que ela gritasse em desespero e começasse a se debater. Sentiu que alguém a segurava e começou a se defender, até que derrubou o atacante no chão. Em um pulo, ela pôs-se em pé e procurou sua espada, mas o atacante segurou-a pelos ombros, colocando seus olhos verdes nos dela.

– Tittë! Sou eu, Nacil!

Ela continuou respirando fortemente como se tivesse corrido durante horas. Quando conseguiu acalmar seu corpo, relaxou e o homem a colocou sentada na cama. Olhou novamente para ele, ainda perdida.

– Nacil? – murmurou.

– Sim, meu nome é Nacil – ele falou, encarando-a e sorrindo – Você está bem?

– Nacil. Nome de mago – ela concluiu, dando um sorriso que tentava ser cínico.

– Eu não sou um mago. – ele falou, apontando o dedo para ela e pegando algo numa jarra – Tome isso aqui. Vai se sentir melhor.

Ainda um pouco tonta, tomou o que o homem lhe oferecia e deu um sorriso.

– Muito bom. Obrigada.

Nacil ficou olhando-a mais alguns instantes e então sentou-se ao seu lado.

– Quer conversar?

Sentindo-se mais revigorada, ela colocou o copo de lado e levantou os ombros, sem compreender.

– Sobre o que?

– Sobre o que a fez acordar desse jeito.

– Claro que eu quero. – ela sentiu sua fúria dominá-la – Depois que você me contar o que diabos está acontecendo!

Ele ficou em silêncio novamente, apenas parecendo pensar no que dizer. Nin sabia que suas emoções nunca foram controláveis, mas depois daquela bagunça dos últimos dias estava quase impossível ser alguém sensato. Sem pensar muito bem, ela começou a falar, fazendo com que Nacil a encarasse estranhamente.

– Um caçador de junkis me acolheu. – viu que ele ainda não entendera e suspirou – A sua pergunta sobre minha família. Omar me acolheu. Disse ter me encontrado no meio da floresta, enquanto caçava… e me levou pra casa dele. Foi ele quem me ensinou a lutar.

– Ele não perguntou quem era você?

– Eu não lembro quem eu fui. E ele não pareceu se importar. – ela sentiu uma fisgada em suas costas e passou a mão.

Sua mão voltou vermelha viva. Por mais que o homem houvesse limpado seus curativos, ainda não cicatrizara totalmente. E aquilo fez com que ela fizesse uma careta de dor.

– Seus ferimentos! – ele falou, num salto levantando-se – Eu vou buscar algo. Não se mexa!

Com sua tontura voltando, ela deitou-se na cama, de bruços e cobriu seu corpo com um lençol, esperando o mago voltar. Ele com certeza usaria mais da água ardida e ela não queria mostrar o quanto aquilo doía. Logo ouviu os passos apressados dele e o barulho de uma bacia de metal sendo colocada no criado mudo. Ela havia dormido com seu próprio vestido sujo e sentiu Nacil descobrir suas costas e abrir o zíper do seu vestido. Dessa vez a água parecia mais quente e, enquanto ele passava o tecido nos ferimentos, ele entoava uma canção em uma língua que ela desconhecia. Quando se sentiu um pouco melhor, voltou a falar:

– Omar perguntou meu nome e se eu tinha família. E só. Quando percebeu que eu estava sozinha, me acolheu.

– Ele deve ter sido um bom amigo para você, não é?

– Foi. – ela falou, vacilando um pouco a voz. Mas antes que ele pudesse falar mais, ela continuou – E então ele me explicou sobre o trabalho dele e eu decidi ser uma caçadora também.

– Junkis. Pelo visto esse mundo está infestado deles. São como ratos em cidades humanas.

– Sim. – ela resmungou – São seres que vagam entre as dimensões, sugando as forças de qualquer coisa que sonhe e tenha esperanças. Mas aqui eles encontram um prato cheio. Humanos são os seres mais ricos quando o assunto é perseverança e força de vontade. E por isso eles atacam aqui.

– Mas os não-caçadores sabem da existência desses junkis?

– Antigamente, algumas lendas de algumas cidades acreditavam que os junkis fossem demônios. Só atualmente, com pesquisas avançadas, o governo descobriu uma substância que os atrai terrivelmente. Mesmo que eles estivessem no meio de mil humanos normais, a pessoa com aquela substância atrairia toda a atenção dele. E assim os caçadores foram criados. A primeira leva deles eram todos agentes do governo, treinados especificamente para aquilo. Mas as próximas levas deveriam ser escolhidas pelos próprios agentes. O pai de Omar foi a primeira leva e passou os ensinamentos para o filho, que passou para mim. E recebemos muito bem para ficar de boca fechada, apenas destruindo esses seres e fazendo com que o mundo inteiro ache que tudo está perfeito.

– Bem bolado.

– Pelo menos as pessoas acreditam em pontes mal construídas e acidentes com caminhões-tanque. Senão, todo esse segredo estaria perdido.

– A raça humana é estranha. Vim para esse lugar há muito tempo, e vaguei por essas terras, procurando o que fui designado a encontrar. Tive que me disfarçar e me manter como humano. Por isso me conheceu com aquela aparência, embora desconfio que tenha notado algo peculiar em mim.

Nin sentiu que ele fechou o zíper do seu vestido delicadamente e ela virou-se para encará-lo, ficando sentada na cama.

– Não sou uma caçadora à toa. Sou boa observadora. Seus olhos são claros demais para essa região, sem contar o seu jeito de andar e seu sorriso misterioso. Aparenta estar escondendo algo. – ela sorriu e deteve um olhar firme, levemente ameaçador, como que forçando uma confissão do mago, mas ele simplesmente devolveu o sorriso. – E o que você é? Além de mago, é claro.

– Mago, não! – ele resmungou, contrariado – Sou um elfo. Sou descendente de elfos.

– Elfos? – ela encarou-o demoradamente, lembrando-se do que estudara – Realmente você não pertence a esse mundo! Omar me contou que os elfos não existem aqui há centenas de anos. Foram todos dizimados.

– Sim… meus ancestrais pertenciam a esse lugar. – ele falou, pesaroso.

– E… porque está aqui? – ela perguntou, sentindo o peso nas palavras dele.

Ele respirou fundo e encarou-a.

– Porque vim encontrar as descendentes do meu mundo que foram enviadas a este para serem protegidas. Minha família, pelo que eu soube, sempre se opôs a essa idéia, achando que seria tolice depositar tal confiança nos humanos de outro mundo, mas seria a melhor forma de despistá-lo.

– Despistá-lo? – ela murmurou, surpresa – Você está aqui para me proteger? De quê, mais especificamente?

– Este mundo começou a se tornar uma ameaça, Tittë. – Nacil falou, aproximando-se dela e encarando-a profundamente – Eles descobriram que as Filhas foram enviadas a esse mundo e estão à procura delas!

Nin encarou-o profundamente, preocupada.

– Um Balrog não é um ser que se vê andando por aí todos os dias, não é? – disse Nacil, apoiando-se nos braços.

– Mas ultimamente eles têm aparecido com mais freqüência… e até a existência dos junkis está difícil controlar… – Nin murmurou, mais para ela mesma que para Nacil.

– Se não impedirmos isso… – Nacil falou, olhando para a janela atrás dela, onde o sol aos poucos nascia.

– Como assim se não impedirmos? O que eu tenho a ver com essa zona toda?

Ele levantou-se num salto, como se tivesse levado um choque elétrico.

– É que estou desacostumado com batalhas e com a transformação pela qual passo quando vou lutar…é por isso que fiquei tão exausto quando terminamos. Portanto preciso descansar mais um pouco. Você deveria fazer o mesmo.

– Está me confundindo, mago.

– Descanse, Tittë. Conversaremos mais depois. – e, sem nem olhá-la mais nos olhos, ele saiu do quarto, deixando-a completamente sem saber o que fazer.

FIC – As Filhas

Prólogo

A floresta balançava de uma forma que há muito não era vista. O chão tremia, fazendo com que os presentes ficassem tensos, apenas olhando. O elfo olhou para longe, vendo com seus olhos de águia e se surpreendeu.

– São muitos, senhora.

– Devemos salvá-la, Adonnen.

E, murmurando palavras em um élfico antigo, a elfa pegou uma criança de quase cinco anos no colo e olhou bem para seus olhos azuis:

– Merin sa haryalye alasse!* – ela disse e beijou a testa da criança, que desapareceu em uma nuvem brilhante.

– Ela estará segura, senhora?

– Por enquanto estará.

*Eu desejo que você tenha felicidade!

***

O céu estava claro e sol brilhava no alto. Abriu os olhos, confusa, e olhou a sua volta. Era uma floresta. O que fazia em uma floresta? Aliás, qual era o seu nome mesmo? Percebeu que alguém ali a encarava, preocupado. Com um grito, se afastou e o homem levantou os braços em sinal de rendição.

– Eu não quero te fazer mal. Onde estão seus pais?

Olhou para si mesma e coçou a cabeça, confusa. Vestia algo que um dia fora branco e brilhante, mas não tinha a mínima ideia de onde viera e se tinha pais. Olhou para o homem e balançou os ombros, incomodada.

– Está com fome? – ele perguntou, mostrando uma cesta que trazia.

Seu estômago respondeu por ela, com um ronco terrível. O homem deu uma gargalhada e sentou-se no chão, colocando as frutas e o pão para ela em cima da cesta. Sem se importar com o que ele pensaria, aproximou-se e atacou a comida. Estava comendo como uma morta de fome quando percebeu que o homem estava sentado na frente dela, sorrindo.

-Qual é seu nome, menina?

Engoliu o pedaço de pão quase inteiro e então pensou por alguns minutos. Qual seria um nome legal?

-Errr… Nin!

-Ernin? – ele pareceu confuso.

-Não! – ela deu uma risada com seu rosto confuso – Só Nin.

-Ah sim – ele sorriu de novo – E sua família, Nin?

-Eu…eu…não… – ela abaixou a cabeça, encarando as pernas.

-Você não tem uma, certo?

Ela balançou a cabeça negativamente e sentiu a mão dele levantando sua cabeça.

– Bom, eu sou um caçador solteiro e sem família também. Se você quiser, posso abrigá-la até acharmos sua família. O que acha?

Ela deu de ombros, sem saber o que dizer e o homem sorriu.

– Bem vinda a minha família, Nin.

Capítulo 1 – A caçadora de junkis

Nin acordou aquela tarde com mais sono do que deveria. Sentindo seu corpo inteiro doer, ela levantou-se, irritada. Odiava acordar cansada, mas a noite havia sido cheia e, ultimamente, nem de dia ela tinha sossego. Tudo o que ela fazia parecia não fazer efeito. O governo não conseguia mais manter seu segredo e os caçadores do mundo inteiro estavam se desesperando, pois a ameaça aumentava dia após dia.

Após ler o restante do dia e tentar se concentrar em algo a mais do que o seu cansaço, resolveu que ficar naquele cubículo estava deixando-a melancólica. A noite não tardaria a chegar e logo ela voltaria ao trabalho. Portanto poderia fingir que era um ser humano normal e andar a esmo pelas ruas próximas antes do anoitecer.

Andou por quase um hora. O céu estava escuro e as estrelas começavam a brilhar no céu. Um vento gelado, cortante, fazia com que ninguém mais saísse de casa aquele horário, o que era uma coisa boa. Seu trabalho era muito difícil quando tinha que lidar com mais pessoas além dela mesma. Atravessou um terreno abandonado e alcançou outra rua, que também estava deserta. Aparentemente uma calma se instalara ali e as casas estavam todas com as luzes apagadas. Não havia corrente de ar e as luzes da rua iluminavam apenas algumas partes do concreto frio que a cercava. Nin olhou em volta, revendo cada centímetro do local.

Uma reta gigante. De um lado, casas. Do outro, um parque. Colocou a mão dentro do seu bolso, segurando uma meia lua dourada nas mãos firmemente. Sua outra mão estava em cima de sua espada, guardada dentro do seu sobretudo. Ficou em silêncio alguns minutos, apenas ouvindo e sentindo o local. Nada. Nenhum movimento.

Sentou-se, muito irritada. Havia visto atividade elétrica ali! A praga do seu mundo, aquilo que ela caçava, os junkis, deveriam pelo menos estar por perto! Ela os caçava há várias noites e nada. Eles simplesmente estavam fugindo dela, coisa que não deveriam fazer, já que ela carregava o símbolo dos caçadores no pescoço. Passou a mão levemente na nuca. Sim, ainda estava ali. A tatuagem que indicava aos junkis quem atacar. Uma presa marcada… para que sua presa pudesse ser subjugada. Mas porque eles fugiam? Porque não a atacavam? Por essa razão estava tão cansada. Quando lutava, seu corpo dormia com o esforço que fizera, mas desde que os junkis fugiam dela, não tinha uma noite de paz, como se eles fossem atacá-la durante o dia (algo que eles também não poderiam fazer).

Estava se preparando para voltar para casa quando sentiu o ar vibrar. Não eram junkis, mas ela podia sentir, forte e pulsante. Olhou para o final da rua e finalmente viu da onde vinha a intensidade elétrica. Aquele miserável!

O homem, que tinha longos cabelos loiros presos em um rabo de cavalo, vestia uma roupa simples e negra e parecia ser muito alto. Ele estava no meio da rua, apenas observando-a. Sim, o maldito estava ali! Portanto só havia uma explicação: ele havia seguido-a novamente! Nin respirou fundo e continuou o encarando, mas o homem não se intimidou.

Havia meses que sentia a presença dele, observando-a de longe. Só chegou a vê-lo duas vezes e ela tinha a impressão que ele procurava ser visto. Ele queria isso. O homem começou a andar lentamente em sua direção. O que ele era? Não era humano, disso tinha certeza. Os olhos verdes dele denunciavam que ele realmente não era dali. E também não era um caçador. Nin saberia se ele fosse. Na verdade, ele lembrava um mago pela forma exuberante como se portava. Não que ela tivesse visto um mago a não ser em livros, mas sabia de sua existência. Sabia da existência de muitas outras coisas que esperava nunca encontrar pessoalmente.

Ele parou na frente dela e, de perto, pode ver o quão diferente era. Sua altura, que era maior do que o normal, parecia ainda maior com ela sentada. Puxou sua memória para tentara adivinhar o que deveria fazer, mas simplesmente levantou o olhar, encarando os olhos verdes. O homem se aproximou, fixando seus olhos nos dela. Nin simplesmente sorriu, e de repente, o ar em volta deles pareceu congelar. Faíscas começaram a surgir em torno dele, que apenas se aproximou mais dela. A distância entre ambos era mínima agora. Ela podia ver a pupila do homem a sua frente. Ele estava tentando intimidá-la, mas ela tinha experiência naquilo. Nenhum homem a intimidava. E ela adorava mostrar aquilo para eles.

Levemente o homem passou os dedos pelo rosto dela. Um toque sutil, que desceu até seu pescoço. O que ele pensava em fazer? Matá-la? O pobre ser não sabia com quem se metia. Os olhos dele avermelharam-se e pareceram adentrar na mente dela. Nin quase não respirou, apenas continuava o encarando. Não tinha medo dele nem de seus olhos vermelhos, mas fazia o possível para não ser usada por aquele homem estranho.

Após alguns instantes a energia desceu de leve. Os olhos tornaram-se verdes e um singelo sorriso apareceu na face do homem.

-Tão bela e tão selvagem.

Nin sorriu, arrogante. Que homem mais antiquado!

-Tão rude e tão doce.

-Não é possível te ter como inimiga.

O que o homem estava dizendo? Ela era sua inimiga? Desde quando ela tinha inimigos assim? Aliás, poderia ele ser um dos monstros que buscava? Já ouvira falar em muitos que se mostravam como homens belos. Sem nem piscar, apenas continuou sorrindo, como se tudo fizesse sentido e segurou sua espada firmemente por baixo do sobretudo.

-Está entrando num jogo perigoso… sabe disso? – a voz dele saiu firme, mas serena.

-Está falando com alguém perigoso…sabe disso?

-Creio que isso seja um “sim” à minha pergunta. Então deseja seguir em frente?

Os dedos do homem pareceram se posicionar melhor em seu pescoço, como se fosse estrangulá-la, mas ela nem se mexeu. Apenas continuou ali, sorrindo. O homem se aproximou do rosto dela e colou a boca dele em seu ouvido.

-Então venha… AGORA!

O ar, que já estava parado, pareceu congelar de vez. Ouviu, ao longe, pássaros voando assustados de seus ninhos, com o poder emanado do homem. Então Nin ficou observando a sua volta, esperando algo terrível acontecer, mas como nada aconteceu, começou a rir, afastando-se um pouco para encarar os olhos do homem.

-Sua prepotência é digna de risada, querido.

Com um suave movimento, Nin se levantou ficando cara a cara com seu adversário.

-Fala de prepotência? Não estou supondo que sou melhor que você, muito pelo contrário. Não entende o que eu quero, não é?

Nin simplesmente o encarou e segurou a mão que segurava seu pescoço. Desceu-a devagar, até soltá-la.

-Qual é seu objetivo aqui? Porque me segue?

O homem abriu a boca para falar, mas parou e olhou em volta. A lua que Nin segurava firmemente em sua mão brilhou e eles se afastaram.

-Eles estão aqui! – a voz do homem soou alarmada.

-Você sabe sobre os junkis? – perguntou ela, encarando-o novamente.

-Cuidado!

O homem pulou em cima dela, derrubando-a com ele no chão. Uma flecha negra passou por cima da cabeça deles, fazendo-a se confundir. Junkis não usavam flechas, mas a lua de metal ainda brilhava, mesmo tendo caído longe dela.

-Temos que sair daqui! Agora! – ela gritou, olhando para ele.

Mas ele pareceu não ouvir o que ela tinha dito. Seus olhos se moveram para o parque, temeroso. A lua brilhava intensamente agora, mas ela não conseguia enxergar nenhum junki por perto. Seus olhos seguiram os do homem, olhando as árvores do parque.

As luzes da rua se apagaram subitamente. Nin desembainhou sua espada o mais rápido que pode, atenta. Pelo canto do olho, percebeu que o homem loiro olhava de um lado para o outro, parecendo confuso.

-Droga! Estou desarmado aqui…

Nin olhou diretamente para o homem, incrédula.

-Se sabe sobre os junkis, como sai de casa sem uma arma, mago? Não sabe nem fazer mágicas?

Sem responder à pergunta dela, o homem emitiu um silvo longo e potente, que lembrava muito um assovio. A sensação que ela tinha agora era que os junkis estavam ao redor deles, invisíveis.

-Está sentindo? – ela murmurou, ficando de costas para o homem, que parecia alarmado.

-Estão ao nosso redor.

O homem se afastou um pouco dela, olhando através da escuridão que os envolvia. Ele começou a murmurar palavras em uma língua desconhecida e ela suspirou, nervosa.

-Vai rápido com sua mágica, senhor mago. Eles não vão demorar agora.

A espada de Nin começou a vibrar, tamanha a intensidade da energia presente. Seria necessário muitos junkis para conseguir tamanha vibração. Ela olhou de relance pro mago e viu faíscas azuis brotarem ao redor dele. Num instante, uma luz azulada iluminou a rua, e ela quase caiu. Havia, pelo menos, vinte junkis ao redor deles.

-Céus, eles são muitos! – virou-se novamente pro mago – O que diabos você está…

Ela não pode terminar. Não era mais o ser humano que ela havia visto antes. Seus cabelos estavam mais longos e negros, o corpo estava mais forte; as orelhas estavam compridas e pontudas, como as de um elfo, e duas asas brotavam das costas dele, deixando um contraste entre a escuridão da rua e ele.

-Mas o que…

Antes que pudesse terminar sua frase, um junki apareceu e pulou para cima dela. Com a espada cortou o tentáculo vermelho do bicho, que guinchou, mas voltou a atacá-la. Rapidamente furou dentro do capuz, fazendo com que o junki desaparecesse numa lufada de vento. Mais três deles se jogaram contra ela, fazendo com que brandisse a espada com mais rapidez, tentando matá-los.

-Malditos! Não vão levar o que querem… – a voz do homem saiu abafada.

De relance viu que pelo menos cinco deles estavam em cima do homem, que se livrava dos golpes com o próprio corpo. Como ele não se machucava, Nin não fazia idéia. Voltou sua concentração para os junkis e matou mais um. Só faltavam dois.

Uma luz forte veio de trás dela e ela viu três junkis desaparecerem na escuridão.  Aproveitando-se da distração, levantou a espada acima da cabeça. Seus cabelos levantaram-se como se um vento muito forte viesse de baixo e ela gritou:

– Camthalion Inglorion!

Uma luz dourada matou os outros dois junkis, deixando-a ofegante. Antes que pudesse pensar, o restante dos junkis escondidos apareceram, pairando perto dela. Ela olhou para o parque e sorriu. Correu em sua direção, levando consigo a grande maioria dos junkis.

-Cuida da sua parte, magozinho!

Seu coração batia acelerado enquanto os junkis sucumbiam sob sua espada. Sua concentração estava apenas nos junkis quando a voz do homem reboou em sua cabeça:

“Não sou um mago”.

Com mais um golpe certeiro ela matou dois junkis ao mesmo tempo e começou a rir, ofegando.

-Dá na mesma, bruxo.

Não sabia se ele conseguiria ouvir sua resposta, mas se ele conseguia ouvir sua mente, deveria ter ouvidos bem apurados. Ainda sobravam cinco junkis dos dez que a seguiram. Eles estavam parados no ar, parecendo confabular entre si. Ela sorriu, arrogante.

“Sabe se defender direitinho. Isso é bom!”

-O que esperava, mago? Uma inocente menina não carrega uma wakizashi*!

E, antes que os junkis pudessem atacá-la, o chão tremeu. Nin apoiou-se nas duas pernas, firmando-se para não cair e observou os junkis à sua volta. Todos estavam paralisados. Aproveitou o momento e matou-os. Eles nem se mexeram.

-Então um deles está aqui, não é? – a voz do homem ecoou pelo parque.

Nin olhou em volta e percebeu. Aquela energia, aquele barulho. Não… impossível! Eles nunca apareciam, há anos estavam controlados pelo governo! Com a espada em mãos, aproximou-se da rua, olhando o homem parado.

-O que foi que você disse, mago? – ela gritou, temendo o pior.

Antes que ele pudesse responder, percebeu que não era imaginação dela. Um ser de mais de três metros de altura surgiu diante deles, rodeado por chamas e sombras…

-Ah, claro! Era tudo o que eu precisava! Um…

-…Balrog! – completou o homem, que parecia abismado também.

Nin postou-se ao lado do mago, encarando-o, desconfiada. Então ele conhecia os Balrogs também? Quem ele era, afinal? As mãos do homem se levantaram para o céu e ele gritou:

-Azulth! Eu o invoco!

Uma luz branca disparou no céu, fazendo com que o Balrog prestasse atenção no mago. Revirou os olhos, segurando a espada com força.

-Parece que nosso amiguinho não gostou da sua mágica.

Rapidamente ela saltou, atingindo o braço do Balrog com sua espada, mas o bicho foi mais rápido e atirou-a contra o muro de uma casa. O choque foi grande, mas ela tinha uma boa forma e em instantes se recuperou. O homem pareceu enfurecer-se com o ato dela, deixando-a confusa. Ela se levantou, tirando a poeira das roupas enquanto encarava o mago, que ainda olhava para o céu.

-Bichinho mais chato, não acha?

Uma luz forte cegou-a por alguns instantes. Quando conseguiu enxergar através da luz, percebeu que era a aura do homem que brilhava, indo do violeta ao azul rapidamente. As asas dele abriram-se num vermelho tão vivo que pareciam estar em chamas. O Balrog não sabia o que fazia. Olhava do homem ao céu, esperando algo cair em sua cabeça. O homem pareceu preocupado e olhou pro céu de novo. Nin colocou sua espada em posição de ataque.

-Que foi, magozinho?

-Azulth não chegou! – gritou o homem, virando-se um pouco para falar com ela.

O Balrog soltou um rugido de triunfo. Estalou o seu chicote e agarrou os pés do homem, virando-o de ponta cabeça. Sem nem pensar muito bem, Nin correu até os dois e saltou, cortando o chicote. Viu ainda quando o homem bateu suas asas e caiu de pé no chão. Mas essa distração custou-lhe: o Balrog jogou-a novamente contra o muro, que não aguentou o impacto e se desfez em pedaços. O bicho aproximou-se dela rapidamente, dando golpes com o restante do seu chicote e com os braços, mas ela conseguiu escapar, saltando de um lado pro outro, atraindo toda a atenção do Balrog pra si.

-Eu o distraio – ela murmurou, certa que o homem a ouviria – Chame logo quem quer que seja, mago.

Ela ouviu-o gritar enfurecido ao céu novamente, chamando aquele nome esquisito. Continuou apenas se esquivando dos socos constantes do Balrog, que agora parecia interessado em pegá-la, e não mata-la como antes. Olhou de relance para o mago e se assustou.

Uma águia gigantesca sobrevoava o mago, carregando algo que ela não conseguiu identificar. Com esse desvio de atenção, o Balrog amarrou-a com o restante do seu chicote, fazendo a espada dela voar alguns metros longe dos dois. Estava presa.

Totalmente atento a ela, o Balrog não percebeu a espada que o homem pegou em um pulo, e nem percebeu quando ele aproximou-se para golpeá-lo. Quando a lâmina da espada do mago rasgou o braço do Balrog, ele soltou-a, irritado, e voltou-se para o homem.

– Gurth mor! – gritou o homem, enfurecido, golpeando o Balrog novamente.

Nin correu até o lado oposto da briga e pegou sua espada. Com cuidado, avaliou possíveis danos e, quando percebeu que estava intacta suspirou, aliviada. Aquela espada era muito importante para ela perdê-la. Voltou seus olhos para o homem, que lutava ferozmente com o Balrog. Antes que pudesse falar qualquer coisa, percebeu que algo reluziu atrás dela, e ela virou-se. Sua lua! Tinha esquecido completamente dela! Correu até ela, guardando-a junto à bainha de sua espada. Olhou para o céu e viu que mais junkis haviam aparecido, formando um círculo ao redor dela.

Nunca havia reparado tanto neles assim, mas naquele momento não havia como não reparar. O manto comprido cobria aquilo que seria a cabeça das criaturas, mas havia apenas um olho felino ali, com a pupila vermelha e o resto negro. Os tentáculos cor de sangue deviam estar boiando no ar abaixo do manto. Ela sempre soubera que eles flutuavam, mas nunca tivera certeza.

Levantou sua espada, mas eles não se mexeram. Pareciam hipnotizados por algo… ou por alguém. Ela olhou em volta, mas não viu nada além do mago, lutando ferozmente com o Balrog. Seu olhar retornou para os junkis. Eles ainda não se mexiam.

Com raiva, posicionou sua espada horizontalmente, rente ao rosto. A espada emitiu um brilho prateado, tão forte que fariam os junkis se afastarem só de ver. Mas eles continuaram imóveis.

– Camthalion Faelivrin!

A espada emitiu uma luz forte e prateada e ela passou a espada pelos bichos, matando-os. Dois deles se esquivaram a tempo, e agora pareciam finalmente ter notado quem ela era e começaram a golpeá-la. Mais um golpe e os junkis desapareceram. A lua em sua cintura voltara a sua cor metálica de origem, mostrando que não havia mais nenhum junki por perto. Aproximou-se novamente da outra batalha. O homem brincava com o Balrog, dando golpes sequenciados, mas certeiros.

-Você conhece essa espada, não é? – ele murmurou, enquanto o Balrog tentava acerta-lo.

A espada do homem brilhou azulada, fazendo o Balrog rugir de fúria. Ele sabia se virar, pelo menos. Nin firmou a mão em sua espada. Se algo desse errado, ela estaria pronta pra assumir.

-Você não é o primeiro e nem será o último que enfrentarei, Garkham! – o homem gritou, dando mais um golpe certeiro no pescoço do bicho – E pode ter certeza que ele não poderá me impedir!

O homem abriu suas asas, que agora realmente ardiam em chamas, e posicionou-se para dar o golpe final no Balrog. Este, por sua vez, simplesmente parou, como se estivesse escutando algo. Antes que o homem pudesse perceber, o Balrog jogou uma bola de chamas em cima dele e virou-se para Nin, rugindo.

O monstro correu até ela, urrando e brandindo seu chicote. Nin deu um impulso e saltou, desferindo um golpe no braço do Balrog, cortando-o por inteiro. O bicho deu um urro de raiva e dor e, com o braço são, jogou-a aos pés do homem. O Balrog se virou, mas não teve tempo para reagir. O homem lançou sua espada flamejante como uma lança, gritando:

Gurth mor! Elentári anar!

A espada atravessou–lhe o peito, e, com a força, fez ele bater contra outro muro, destruindo-o totalmente e fazendo uma onda de poeira levantar-se. Tossindo um pouco, Nin levantou-se, ainda segurando sua espada e olhou para onde o Balrog jazia.

-Será que morreu mesmo? – ela murmurou, olhando do homem ao Balrog.

O homem estava ajoelhado no chão, com as costas abaixadas e ofegando bastante. As chamas ao redor dele se dissiparam e ele caiu no chão, ao lado dela. Nin embainhou a espada e encarou o homem, que nem sequer parecia nota-la.

-Cansou, é, magozinho?

Ele não respondeu e ela deu uma risada sarcástica, aproximando-se do Balrog. Estava morto.

-É, acho que você conseguiu, mago. Meus parabéns.

Ela virou-se e cruzou os braços, encarando-o. Ele permanecia deitado, mudo e respirando intensamente. As asas estavam encolhidas atrás dele.

-Perdeu a língua também?

Com um aparente esforço, o homem começou a se mexer. Apoiou-se nas mãos, numa tentativa de se levantar. Vendo o esforço dele, Nin não conseguiu resistir. Quando percebeu, estava de frente para ele, com a mão estendida.

Parecendo agradecido, ele levantou o rosto, sujo e cansado pela luta e aceitou a ajuda. Quando ela tentou apóia-lo em seu corpo, ele se ergueu sozinho, olhando-a.

-Fazia um bom tempo que não era preciso manifestar esse tipo de poder – ele falou, a voz se alterando um pouco – Mas posso andar sozinho.

Ao dizer isso ele deu alguns passos a frente e abriu suas asas, sacudindo-as e retraindo-as novamente, até que elas desapareceram em suas costas, não deixando nem um indício de terem existido.

-Como pode um mago deixar-se enferrujar? – ela riu, limpando a própria roupa e revirou os olhos, ao ver que o homem havia se transformado de novo no homem que a seguia- Estrago pequeno dessa vez.

O homem ignorou-a completamente e ela suspirou, irritada.

-Porque você não aproveita esse momento tão lindo entre nós para me contar porque diabos você estava me seguindo?

-Aqui não é seguro – ele murmurou, virando-se para encara-la.

-Aqui não é seguro – ela imitou-o e bufou – Nenhum lugar é seguro aqui, mago.

Ele apenas lançou-lhe um último olhar e encaminhou-se até o corpo do Balrog, retirando a espada de seu peito. Quando ele fez isso, o corpo do monstro desapareceu numa fumaça negra. Ainda irritada ela virou-se, indo em direção ao parque. Não via a hora de ir pra casa. Fazia mais de uma semana que não dormia, e estava terrivelmente exausta. Naquela noite, dormiria maravilhosamente bem.

-Azulth! – a voz do homem ecoou pelo parque e Nin sentiu duas garras a segurarem pelos ombros, levantando-a do chão.

-HEIIIII! – P começou a se mexer freneticamente, tentando se soltar do bicho – Me solta seu magozinho de araque!

-Não sou eu – a voz veio debaixo dela e ela encarou o homem.

-Essa coisa é sua! Nem vem com essa! Manda ela me soltar agora!

-Azulth! Venha aqui.

Nin sentiu os pés tocarem o chão e soltou-se, massageando os ombros. A águia gigantesca pousou ao seu lado, dando um pio quase alegre.

-Esse é Azulth, meu amigo e protetor – ele aproximou-se da águia, fazendo um carinho em seu bico – Acho que nesse mundo não são vistas águias desse tamanho voando por aí, não é, Tittë?

-Não mesmo – P resmungou, ainda braba.

Foi então que percebeu. Voltou-se para o homem, intrigada.

-Do que é que me chamou, mago?

-Tittë. Você provavelmente não lembra, porque cresceu sem uma parte de sua história.

Nin começou a rir, incrédula.

-Você chega a ser engraçado às vezes, mago. Meu nome é nin. Não Tittë.

-Podemos sair daqui?

De novo, ignorada. Ela realmente estava se esforçando muito pra não retalhar aquele homem dos olhos claros.

-Finalmente falou algo que eu entenda. Eu vou pra minha casa, e você some da minha vida, beleza?

-Não – ele aproximou-se, ficando bem próximo dela – Te levarei ao meu refúgio. Lá estará a salvo.

Nin encarou-o alguns instantes, tentando encontrar onde aquilo se tornara uma brincadeira.

-Ao seu refúgio? – ela segurou o cabo da espada com a mão – E como posso confiar em você? Estava tentando me matar ainda há pouco!

A risada dele ecoou no parque, fazendo-a se irritar mais.

-Te matar? Que absurdo. Queria apenas me certificar se realmente era você quem eu estava procurando.

Nin pensou um pouco, receosa. Ele estava certo. Em nenhum momento ele tentou matá-la. Pelo contrário, salvou-a pelo menos umas três vezes na batalha daquele dia. Mas ela não iria com ele. Aquilo era muito para sua maravilhosa bolha de proteção.

– Olha, não me leve a mal, mas eu tenho princípios e um deles é nunca ir com um homem para qualquer lugar que eu não conheça. Você, além de ser um mago, tem asas e anda me seguindo há um bom tempo. Não confio em você.

Ele ficou parado, sem parecer compreender muito bem sobre o que ela estava falando. Respirando fundo, ela acenou, dando um sorriso irônico.

-Obrigada pela sua ajuda, mas não preciso de alguém me protegendo.

E, sem dizer mais nada, ela deu as costas para o homem, nem olhando para trás. Sua cama lhe esperava para uma noite completamente sem sonhos.

* wakizashi – espada prima da Katana, tem no máximo 90 cm e geralmente usada em conjunto com a mesma. Nessa história, porém, minha personagem apenas usa ela por ser mais rápida e pequena.